O escritor francês Philippe Jaenada venceu o Prêmio Goncourt 2026, o mais importante da França, com L’Inconnue du quai de Javel (“A desconhecida do cais de Javel”, em tradução livre), anunciado nesta terça-feira (3) no restaurante Drouant, em Paris. No livro, Jaenada reabre o assassinato de uma jovem modelo encontrada morta às margens do Sena em 1949, um caso que a polícia arquivou sem culpado, e usa como guia os métodos do comissário Maigret, personagem de Georges Simenon.
O resultado saiu por seis votos a três. Segundo a Livres Hebdo, o derrotado na votação final foi Sylvain Prudhomme, com De l’autre côté du lac (Minuit). Os outros finalistas eram Yannick Haenel, com La solitude des professeurs est infinie (Flammarion), e Clémentine Mélois, com Choses que je croyais perdues (L’Arbalète/Gallimard). Jaenada, de 62 anos, sucede Laurent Mauvignier, vencedor de 2025 com La Maison vide.
Relembre o caso
O livro reconstitui a morte de Louise Cansot, uma bretã de 29 anos que foi para Paris e se tornou um dos modelos mais requisitados de Montparnasse. O corpo dela apareceu no quai de Javel em setembro de 1949. Quatro suspeitos chegaram a ser investigados, mas o caso foi encerrado por falta de provas. Narrado em primeira pessoa, o romance acompanha o próprio Jaenada lendo processos policiais, visitando os lugares onde a vítima viveu e relendo dezenas de livros de Maigret para pensar como o comissário pensaria.
Philippe Claudel, presidente da Academia Goncourt, resumiu assim a escolha: o romance “torna visível uma mulher que foi invisibilizada, uma vítima da qual a polícia não se ocupou suficientemente na época”. Publicado em 12 de agosto pela Flammarion, o livro tem 528 páginas e já vendeu perto de 60 mil exemplares na França, de acordo com a Livres Hebdo.
O prêmio coroa uma mudança de rumo na carreira de Jaenada. Ele estreou em 1997 com Le Chameau sauvage e passou os primeiros anos em romances próximos da autoficção (ficção construída a partir da vida do próprio autor). A partir de Sulak (2013), dedicou-se a reconstituir crimes reais com base em documentos, linha que seguiu em La Petite Femelle (2015) e em La Serpe (2017), vencedor do Prêmio Femina. L’Inconnue du quai de Javel é o 13º livro dele. Nenhum título de Jaenada foi publicado no Brasil até agora, e nenhuma editora brasileira anunciou a tradução do livro premiado.
O anúncio encerra uma edição marcada pela polêmica sobre inteligência artificial. O haitiano Thélyson Orélien, apontado como favorito no início da temporada, teve C’était ça ou mourir retirado da seleção por suspeita de que o romance foi escrito com ajuda de IA. Fora da disputa, o livro chegou a liderar as vendas na França, e a editora canadense Boréal rompeu com o autor ao dizer que encontrou rastros de IA nos arquivos. Segundo Claudel, a Academia vai formalizar ainda este ano uma regra que deixa claro que só obras escritas por seres humanos podem concorrer.
No mesmo almoço no Drouant, o Prêmio Renaudot 2026 foi para François-Henri Désérable, por Le Palais (Gallimard), segundo a franceinfo. Jaenada ainda concorre ao Goncourt dos Liceus, escolhido por estudantes do ensino médio francês, que será anunciado em 26 de novembro.
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