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Revista Literatura Online

Boréal rompe com Thélyson Orélien e diz ter achado rastros de IA nos arquivos do romance tirado do Goncourt

A editora canadense Boréal rompeu com Thélyson Orélien depois que uma análise externa encontrou marcas de IA nos metadados das versões de trabalho de C’était ça ou mourir.

Montagem com a capa do romance C'était ça ou mourir, de Thélyson Orélien, da editora Boréal, sobre uma versão ampliada e desfocada da mesma imagem. A capa mostra pés descalços de uma pessoa negra, de calça azul-escura, entre galhos de gipsófila com flores brancas miúdas, sobre fundo branco. Por cima, dois ícones vermelhos: um selo com as letras "IA" e um triângulo de alerta com ponto de exclamação. Ampliar a imagem de destaque
A editora Boréal rompeu com Thélyson Orélien depois que uma análise encontrou marcas de inteligência artificial em arquivos do romance C'était ça ou mourir. O autor nega ter usado IA. Capa: Reprodução/Éditions du Boréal

A editora canadense Éditions du Boréal anunciou nesta quarta-feira (21) que rompeu com o escritor Thélyson Orélien. Segundo comunicado da editora, uma análise externa das versões de trabalho de C’était ça ou mourir encontrou rastros de inteligência artificial nos metadados de alguns arquivos. O romance foi retirado da seleção do Prêmio Goncourt em setembro, sob suspeita de ter sido escrito com IA.

Com a decisão, a Boréal não vai reimprimir o livro nem publicar outras obras do autor. Orélien, haitiano que vive no Quebec desde 2010, nega ter usado IA. A editora diz que o avisou antes de tornar a decisão pública.

De acordo com o comunicado, a Boréal se ofereceu nas últimas semanas para ajudar o escritor a montar um dossiê sobre o processo de criação do romance, para provar a inocência dele. O material não resolveu a dúvida, e Orélien avisou que não entregaria mais nada. A editora então reuniu todas as versões de trabalho do texto e encomendou a análise. “Os resultados obtidos nesta semana revelaram vestígios de marcadores de IA nos metadados de alguns documentos”, afirma a nota (em tradução livre).

A própria Boréal admite que a análise não mostra o tamanho do uso. “Ainda não sabemos em que medida a IA foi usada na criação de C’était ça ou mourir, e sem dúvida nunca teremos uma resposta definitiva”, diz o texto. O motivo do rompimento, segundo a editora, é a confiança quebrada: o autor havia garantido várias vezes que nunca tinha recorrido à ferramenta. “Essa afirmação hoje está desmentida. Não podemos, nessas circunstâncias, continuar nossa colaboração profissional.”

A nota também pede que cessem os ataques pessoais contra o escritor e lembra que a decisão tem efeito fora do Canadá, porque o romance tem contratos com várias editoras estrangeiras, que estão sendo informadas. Segundo a Noovo Info, a Boréal recebeu o manuscrito em 12 de setembro de 2025 e diz não ter como verificar por conta própria como o texto foi escrito antes dessa data. Orélien afirma que começou o romance em 2017 e terminou uma primeira versão, com mais de 300 páginas, em 2019.

O caso começou em 21 de setembro, quando uma conta anônima no X acusou o autor de ter escrito o livro quase inteiramente com IA, com base num programa que tenta identificar textos gerados por máquina. Ferramentas desse tipo calculam probabilidades e podem errar. Quatro dias depois, a Academia Goncourt tirou o romance da primeira seleção do prêmio, e a Boréal suspendeu a turnê de divulgação. A polêmica fez as vendas do livro subirem na França, onde ele sai pela Grasset. Em outubro, Orélien admitiu ter plagiado outros autores no início da carreira, mas continuou negando que o romance tenha sido escrito com IA.

C’était ça ou mourir (“Era isso ou morrer”, em tradução livre) narra a trajetória de um migrante entre o Haiti e o Canadá e venceu em agosto o Prêmio do Romance Fnac, escolhido por livreiros e leitores. O livro não tem edição anunciada no Brasil. O Goncourt de 2026 será anunciado em 3 de novembro, em Paris.

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