Pular para o conteúdo

Revista Literatura Online

Prêmio Biblioteca Nacional 2026 consagra Adélia Prado e um romance sobre neandertais e Homo sapiens

Adélia Prado, Paulliny Tort, Maria Valéria Rezende e o cacique Raoni estão entre os vencedores do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026, que paga R$ 30 mil ao primeiro lugar de cada uma das 13 categorias.

Logotipo do Prêmio Literário BN 2026 sobre fundo bege-claro. As palavras "Prêmio" e "BN" estão em azul-marinho, e "Literário" e "2026" em dourado, todas em letras com serifa. Ampliar a imagem de destaque
Prêmio Literário da Biblioteca Nacional 2026. Imagem: Divulgação/Fundação Biblioteca Nacional

A Fundação Biblioteca Nacional (FBN) divulgou na terça-feira (20) a lista de vencedores do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026, e a poeta mineira Adélia Prado, de 90 anos, venceu em Poesia com O jardim das oliveiras (Record). Em Romance, o primeiro lugar ficou com Os imortais, de Paulliny Tort (Fósforo), livro passado na pré-história que acompanha o encontro entre neandertais e Homo sapiens.

O prêmio tem 13 categorias, cada uma batizada com o nome de um escritor ou artista. Entre os outros primeiros colocados estão o cacique Raoni Mẽtyktire, com Memórias do cacique (Companhia das Letras), na categoria Histórias de Tradição Oral, e Maria Valéria Rezende, com o livro de contos Recapitulações (Editora 34). A lista completa, com segundo e terceiro lugares, está no fim deste texto.

Segundo o edital da premiação, o primeiro colocado de cada categoria recebe R$ 30 mil, num total de R$ 390 mil. O segundo e o terceiro lugares não têm prêmio em dinheiro. A inscrição é gratuita, e concorreram livros em primeira edição publicados no Brasil entre 1º de maio de 2025 e 30 de abril de 2026. Cada categoria foi julgada por uma comissão de três especialistas.

A lista divulgada agora ainda é o resultado preliminar. Pelo cronograma do edital, os concorrentes podem pedir reconsideração de 21 a 23 de outubro; o resultado final sai até 30 de outubro e é publicado no Diário Oficial da União até 6 de novembro. O pagamento aos vencedores está previsto até 18 de dezembro. O anúncio da FBN não menciona cerimônia de entrega.

Quem são Adélia Prado, Paulliny Tort e Maria Valéria Rezende

O jardim das oliveiras reúne 105 poemas inéditos e é o primeiro livro novo de Adélia Prado desde Miserere, de 2013, segundo a Record. O título remete ao lugar onde, segundo os Evangelhos, Jesus rezou na véspera da crucificação, e os poemas voltam aos temas centrais da autora: fé e dúvida, o sagrado misturado ao cotidiano. Nascida em Divinópolis (MG) em 13 de dezembro de 1935, Adélia estreou em 1976 com Bagagem e ganhou em 2024 o Prêmio Camões e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Neste mês, Adélia Prado apareceu nas listas de apostas para o Nobel de Literatura.

O mesmo livro está entre os finalistas do Prêmio Jabuti 2026 em Poesia, ao lado de Boris e Marina, de Alberto Martins, que ficou em segundo lugar na Biblioteca Nacional. Os vencedores do Jabuti serão anunciados em 27 de outubro.

Paulliny Tort é jornalista, nasceu em Brasília e publicou antes o livro de contos Erva brava, também pela Fósforo. Os imortais se passa entre um clã de neandertais, espécie a caminho da extinção, e indivíduos de Homo sapiens, que mal começavam sua trajetória. A autora participou da Flip 2026, em Paraty. Em entrevista ao Estadão republicada pela Folha de Pernambuco, ela contou que começou o romance em 2021 e que estudou ciências biológicas e fez estágio em primatologia. Sobre a distância entre os personagens e o leitor de hoje, resumiu: “Não somos tão diferentes das pessoas do passado”.

Maria Valéria Rezende, nascida em Santos (SP) em 1942, é freira e vive em João Pessoa (PB). Começou a publicar ficção depois dos 70 anos e venceu o Jabuti de 2015 com o romance Quarenta dias. Em Recapitulações, ela reescreve clássicos: Gregor Samsa, de Kafka, acorda transformado em humano, e Capitu, de Dom Casmurro, ganha a palavra no conto “Recapitulação”. É a segunda vitória dela na categoria Conto em pouco tempo: em 2024, a autora levou o mesmo Prêmio Clarice Lispector com Toda palavra dá samba (Dromedário). “Há dois tipos de escritores: os que olham para o espelho e escrevem sobre os próprios sentimentos, e os que olham pela janela”, disse ela ao Estado de Minas em junho, colocando-se no segundo grupo.

Raoni, liderança do povo Mẽbêngôkre (também conhecido como Kayapó), venceu com um livro de memórias construído a partir de entrevistas gravadas em mẽbêngôkre pelos netos dele entre 2020 e 2023. Segundo a Companhia das Letras, uma equipe de tradutores indígenas passou o material para o português, sob coordenação do antropólogo Fernando Niemeyer.

Os vencedores do Prêmio Biblioteca Nacional 2026 por categoria

  • Conto (Prêmio Clarice Lispector): 1º Recapitulações, de Maria Valéria Rezende (Editora 34); 2º Mulheres que amam assombradas, de Sandra Liss (Litteralux); 3º A escuridão do ventre, de Clara Arreguy (Outubro Edições).
  • Crônica (Prêmio João do Rio): 1º Lugares para chorar no Recife e outros, de DJ Dolores (Seja Breve Edições); 2º Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior que eu, de Cidinha da Silva (Rosa dos Tempos); 3º Não sei se é bom, mas é teu, de Maria Ribeiro (Record).
  • Ensaio Literário (Prêmio Mário de Andrade): 1º João Guimarães Rosa, biografia, de Leonencio Nossa (Nova Fronteira); 2º Exílio como forma: Gonçalves Dias e o dilema brasileiro, de João Cezar de Castro Rocha (Autêntica); 3º Crítica insubmissa, de Beatriz Resende (Mapa Lab).
  • Ensaio Social (Prêmio Sérgio Buarque de Holanda): 1º Irmãs do Atlântico: escravidão e espaço urbano no Rio de Janeiro e em Havana (1763-1843), de Ynaê Lopes dos Santos (Civilização Brasileira); 2º Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos, de Felipe Loureiro (Companhia das Letras); 3º Dicionário de direitos humanos e afins, de Nei Lopes (Civilização Brasileira).
  • Histórias de Tradição Oral (Prêmio Akuli): 1º Memórias do cacique, de Raoni Mẽtyktire (Companhia das Letras); 2º A travessia de N’Koko, de André Girardo (Iluminuras); 3º A origem do milho kurâ: Anji-Itabienly, de Eric Timóteo Iwyrâkâ Kamikiawa (PeraBook).
  • Histórias em Quadrinhos (Prêmio Adolfo Aizen): 1º Dormindo entre cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci (Comix Zone); 2º Segue o baile, de Magô Pool (Veneta); 3º Água até aqui: histórias de luta, sobrevivência e recomeço na maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, de Pablito Aguiar (Arquipélago).
  • Ilustração (Prêmio Carybé): 1º O muiraquitã: uma proteção ancestral, de Mauricio Negro (PeraBook); 2º A árvore solitária, de Rodrigo Mafra (PeraBook); 3º Velho sertão, de Marcelo Tolentino (Pequena Zahar).
  • Literatura Infantil (Prêmio Sylvia Orthof): 1º Gavião, de Lulu Lima (Mil Caramiolas); 2º Eletricista, de Augusto Massi e Daniel Kondo (Elo); 3º Velho sertão, de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino (Pequena Zahar).
  • Literatura Juvenil (Prêmio Glória Pondé): 1º U-507, de Roger Mello (Global); 2º Ocupado!, de Paula Fábrio (FTD); 3º A história dos nossos amores, de Severino Rodrigues (Globo).
  • Poesia (Prêmio Alphonsus de Guimaraens): 1º O jardim das oliveiras, de Adélia Prado (Record); 2º Boris e Marina, de Alberto Martins (Companhia das Letras); 3º Os mortos, de Paulo Franchetti (Ateliê Editorial).
  • Projeto Gráfico (Prêmio Aloísio Magalhães): 1º Verena Smit: entre a palavra e a imagem, de Paulo André Chagas, Gabriela Marques de Castro e Gustavo Marchetti (WMF Martins Fontes); 2º Arquitetura do Estado de Trânsito, dos mesmos três designers (Editora Machado); 3º Excelsior, de Luciana Facchini (Ubu).
  • Romance (Prêmio Machado de Assis): 1º Os imortais, de Paulliny Tort (Fósforo); 2º Masuaki e/ou Não deixe os cachorros latirem sozinhos, de Lourenço Mutarelli (Companhia das Letras); 3º Piscinas russas, de Renata Belmonte (Tusquets).
  • Tradução (Prêmio Paulo Rónai): 1º Sem despedidas, de Han Kang, traduzido por Natália T. M. Okabayashi (Todavia); 2º O contador, a noite e o balaio, de Patrick Chamoiseau, traduzido por Henrique Provinzano Amaral (Editora 34); 3º Eurídice e outros poemas, de Hilda Doolittle, traduzido por Camila de Moura (Círculo de Poemas).

Na Crônica, categoria criada nesta edição, o vencedor DJ Dolores também está entre os finalistas do Jabuti 2026 com o mesmo livro. Em Tradução, o prêmio foi para a versão brasileira de um romance da sul-coreana Han Kang, Nobel de Literatura de 2024.

Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Os comentários da Revista são feitos com a conta do Literatura Online: a mesma, gratuita, que guarda seu progresso de leitura.