A prefeitura de Paris entregou nesta terça-feira (3) à família de Miguel Ángel Asturias, Nobel de Literatura de 1967, a urna com as cinzas do escritor guatemalteco, que passou 52 anos enterrado no cemitério Père-Lachaise. Os restos voltam à Guatemala na próxima semana, a pedido da própria família, que recusou a repatriação por décadas e só a aceitou depois da posse do presidente Bernardo Arévalo, em 2024.
A cerimônia aconteceu no Hôtel de Ville, sede da prefeitura parisiense, segundo a agência AFP. O filho do escritor, Miguel Ángel Asturias Amado, de 85 anos, recebeu a urna coberta por um tecido artesanal e falou com a voz embargada: “É muito difícil, como filho, ter tomado a decisão de que meu pai voltasse para sua pátria, deixando este país que ele amou e quis tanto”. E completou: “É um momento de tristeza, mas ao mesmo tempo de alegria, de dois países que compreenderam Miguel Ángel Asturias e que hoje o entregam a mim com todo o amor” (em tradução livre).
A família havia negado o pedido de repatriação feito pelos dois governos anteriores ao de Arévalo. O ministro da Cultura da Guatemala, Luis Méndez, presente em Paris, reconheceu o motivo: “As circunstâncias históricas e políticas não o haviam permitido, e certamente essas circunstâncias mudaram muito”, disse, de acordo com a reportagem da AFP reproduzida pelo El Nacional. A exumação e a cremação foram concluídas em 20 de outubro.
O calendário na Guatemala já está definido. As cinzas chegam ao aeroporto La Aurora em 12 de novembro. No dia 14, o país faz um funeral de Estado aberto ao público no Palácio Nacional e, no dia 15, os restos serão depositados num monumento no Centro Cultural Miguel Ángel Asturias, na Cidade da Guatemala. Antes das honras oficiais, o governo prevê uma cerimônia maia num sítio arqueológico da capital com a presença de Rigoberta Menchú, Nobel da Paz de 1992,. A repatriação estava marcada para 19 de outubro, data de nascimento do escritor, mas foi adiada para ampliar as homenagens em Paris.
Sobre Miguel Ángel Asturias
Asturias nasceu na Cidade da Guatemala em 1899 e morreu em Madri em 1974, aos 74 anos. Foi enterrado em Paris, cidade onde morou por longos períodos e onde escreveu parte da obra. O túmulo, em forma de estela maia (um bloco de pedra esculpido, como os que os maias usavam para registrar fatos e governantes), fica perto dos de Balzac, Édith Piaf e Jim Morrison. Uma placa continuará no local para lembrar que ele descansou ali. “Guatemalteco de nascimento, de sangue e de coração, Asturias foi também parisiense por adoção”, disse na cerimônia Audrey Pulvar, vice-prefeita de Paris responsável pelas relações internacionais.
O livro mais conhecido de Asturias é O Senhor Presidente, publicado em 1946 e inspirado na ditadura de Manuel Estrada Cabrera, que governou a Guatemala de 1898 a 1920. O romance é considerado um dos primeiros da linhagem de “romances de ditador”, que mais tarde incluiria O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, e A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa. Outro título central é Homens de Milho (1949), construído sobre mitos maias e apontado como precursor do realismo mágico, a corrente que mistura o cotidiano e o sobrenatural sem marcar a diferença entre os dois. A estreia foi com Lendas da Guatemala (1930), contos de origem maia.
Asturias é um dos seis latino-americanos que receberam o Nobel de Literatura, ao lado de Gabriela Mistral, Pablo Neruda, García Márquez, Octavio Paz e Vargas Llosa, mas é bem menos conhecido do que eles, como observou a própria AFP. Traduções em português de O Senhor Presidente, Homens de Milho, O Papa Verde e Mulata de Tal existem, mas hoje são encontradas principalmente em sebos, e nenhuma editora brasileira anunciou reedições ligadas à repatriação.
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