O Prêmio Jabuti 2026 escolheu Trincheira tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio, de Ruy Castro, como Livro do Ano. É a segunda vez seguida que o jornalista e biógrafo leva a principal distinção do prêmio: em 2025, ele venceu com O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim, coletânea de crônicas sobre o compositor, eleita Livro do Ano na edição passada.
O resultado saiu na noite de terça-feira (27), em cerimônia na Sala São Paulo, na capital paulista, com transmissão pelo canal da Câmara Brasileira do Livro (CBL) no YouTube, segundo a lista de vencedores publicada pela CNN Brasil. Pelo Livro do Ano, Ruy Castro recebe R$ 70 mil e uma viagem paga pela CBL para uma das quatro grandes feiras internacionais do livro: Londres, Bolonha, Frankfurt ou Guadalajara. Os vencedores das 23 categorias levam a estatueta e R$ 5 mil cada.
O Livro do Ano não tem inscrição própria. Ele vai para a obra mais bem pontuada entre os vencedores dos eixos Literatura e Não Ficção, e nesta edição a disputa incluiu pela primeira vez os ganhadores das categorias de estreantes, novidade anunciada junto com os finalistas do Prêmio Jabuti 2026, em 14 de outubro. Trincheira tropical já tinha vencido na categoria Biografia e Reportagem, superando a biografia de Zuzu Angel escrita por Virginia Siqueira Starling e o livro de Tárik de Souza sobre João Gilberto.
O que Ruy Castro conta em Trincheira tropical
Lançado pela Companhia das Letras em junho de 2025, com 448 páginas, o livro reconstitui o Rio de Janeiro entre 1935 e 1945, quando a cidade era a capital do país. A tese de Ruy Castro é que a Segunda Guerra Mundial chegou ao cotidiano carioca muito antes de o Brasil declarar guerra ao Eixo, em 1942: houve racionamento de produtos essenciais, blecautes, abrigos antiaéreos obrigatórios nos prédios novos, simulações de ataque e espiões alemães operando radiotransmissores na cidade, segundo a apresentação da editora.
O livro também acompanha a disputa entre integralistas (o movimento de inspiração fascista liderado por Plínio Salgado), comunistas e defensores da democracia sob a ditadura de Getúlio Vargas, e termina no front italiano, com os 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira. A pesquisa levou seis anos. “O que mais me surpreendeu foi o grau de importância da guerra no dia a dia do carioca e ninguém, até então, ter escrito sobre isso. Que bom, deixaram para mim…”, disse o autor em entrevista ao Correio Braziliense no lançamento.
Mineiro de Caratinga e membro da Academia Brasileira de Letras desde 2022, Ruy Castro é autor de biografias como Estrela solitária, sobre Garrincha, O anjo pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, e Carmen, sobre Carmen Miranda, além de Chega de saudade, sobre a bossa nova. Antes das duas vitórias seguidas como Livro do Ano, ele tinha ganhado o Jabuti de Romance Literário em 2023 com Os perigos do imperador.
Meridiana, de Eliana Alves Cruz, vence em romance
Na categoria mais disputada da noite, Romance Literário, o prêmio foi para Meridiana, de Eliana Alves Cruz (Companhia das Letras). O livro superou Coração sem medo, de Itamar Vieira Junior, que fecha a trilogia iniciada por Torto arado, e Dança de enganos, de Milton Hatoum. Também eram finalistas Aline Bei e Evandro Affonso Ferreira.
Meridiana acompanha três gerações de uma família negra que sai da favela para a classe média, sonho do casal Aurora e Ernesto. Cada integrante da família (a mãe, o pai, os filhos e a filha caçula, que dá nome ao livro) narra a própria parte em primeira pessoa. Em junho, o romance já tinha recebido o Prêmio Guimarães Rosa, criado pela Academia Brasileira de Letras para o melhor livro de ficção de 2025. Jornalista e apresentadora do programa Trilha de Letras, da TV Brasil, a escritora carioca já havia vencido o Jabuti em 2022 com os contos de A vestida.
A noite teve ainda duas premiações fora das categorias de livro. A escritora Lygia Bojunga foi homenageada como Personalidade Literária no ano em que A bolsa amarela completa 50 anos. E a nova categoria Incentivo à Leitura: Cultura Digital, escolhida por votação popular entre cinco criadores de conteúdo, teve como primeiro vencedor Pedro Pacífico, o Bookster, que tem mais de 1 milhão de seguidores no Instagram. O troféu foi entregue pelo meia Gustavo Scarpa, do Atlético-MG, conhecido por resenhar livros nas redes.
Os vencedores do Prêmio Jabuti 2026
Literatura
- Conto: Massaranduba, de Abáz (Senac Rio)
- Crônica: Viagem no país da crônica, de Humberto Werneck (Tinta-da-China Brasil)
- Escritor Estreante, Poesia: História a que ninguém deu nome, de Juliana Cajives (Mormaço Editorial)
- Escritor Estreante, Romance: Pitangas verdes, de Mariana Lobato Botter (Labrador)
- Histórias em Quadrinhos: Ouroboros, de Luckas Iohanathan (Comix Zone)
- Infantil: A letra, de Leo Cunha e Raquel Matsushita (Maralto)
- Juvenil: A única da sala, de Tathyana Viana (FTD)
- Poesia: Boris e Marina, de Alberto Martins (Companhia das Letras)
- Romance de Entretenimento: Cartografia para caminhos incertos, de Ian Fraser (Intrínseca)
- Romance Literário: Meridiana, de Eliana Alves Cruz (Companhia das Letras)
Não Ficção
- Artes: Abdias, intérprete do Brasil: textos sobre raça e cultura brasileira de 1940 a 1990, organizado por Tulio Custódio (Todavia)
- Biografia e Reportagem: Trincheira tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio, de Ruy Castro (Companhia das Letras)
- Economia Criativa: A (r)evolução das habilidades para o futuro do trabalho na era da inteligência artificial, de Martha Gabriel (Senac São Paulo)
- Educação: Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade, de Manuel Alves de Sousa Junior (Schreiben)
- Negócios: Não se esqueça!: 50 memorandos sobre gestão e liderança com propósito, comprometimento e proatividade, de Mario Sergio Cortella (Record)
- Saúde e Bem-Estar: A paixão pela mentira: a família e as tiranias, de Paulo Schiller (Todavia)
Produção Editorial
- Capa: Frans Krajcberg, capa de Alles Blau (MASP)
- Ilustração: Guernica: a arte em busca da paz, ilustrações de Vinicius Sabbato (Via Lúdica)
- Projeto Gráfico: Dobra, projeto de Raul Loureiro (Cosac)
- Tradução: O cavaleiro de bronze e outros contos e versos, de Aleksandr Púchkin, traduzido do russo por Rubens Figueiredo (Penguin-Companhia das Letras)
Inovação
- Incentivo à Leitura, Projeto: Cartovivências nas periferias da cidade, de Ricardo Barbosa da Silva
- Incentivo à Leitura, Cultura Digital: Bookster (Pedro Pacífico)
- Livro Brasileiro Publicado no Exterior: Os substitutos (Companhia das Letras e Métailié)
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