A Divina Comédia é um poema narrativo em que o próprio Dante Alighieri conta sua viagem pelos três reinos do além cristão: Inferno, Purgatório e Paraíso. Escrita em italiano, entre cerca de 1304 e 1321, a obra acompanha o poeta da floresta escura onde ele se perde até a visão de Deus, guiado primeiro pelo poeta latino Virgílio e depois por Beatriz, a mulher que ele amou na juventude.
Em resumo, a Comédia é a história de uma salvação: um homem perdido no meio da vida desce ao lugar dos condenados, sobe a montanha onde as almas se purificam e chega ao céu. No caminho, Dante conversa com figuras históricas, mitológicas e com conhecidos de Florença, e transforma cada encontro num julgamento moral e político do seu tempo.
A estrutura é tão importante quanto o enredo. O poema tem 100 cantos e 14.233 versos, organizados em torno do número três. Cada cântica tem um guia, uma geografia própria e um tipo de alma, do condenado ao bem-aventurado.
Quem foi Dante Alighieri e quando a Divina Comédia foi escrita

Dante Alighieri nasceu em Florença em 1265 e morreu em Ravena em 1321. Participou da vida política da cidade e, em 1302, foi um dos guelfos brancos expulsos de Florença depois da entrada das tropas de Carlos de Valois, chamadas pelo papa Bonifácio VIII. Nunca mais voltou: o exílio durou o resto da vida.
A Comédia foi escrita nesse exílio. Os estudiosos situam a composição do Inferno por volta de 1304 a 1308, a do Purgatório entre 1308 e 1313 e a do Paraíso entre 1313 e 1321, ano em que Dante morreu. A primeira edição impressa saiu em Foligno, na Itália, em 11 de abril de 1472, com tiragem estimada em cerca de 300 exemplares.
A viagem narrada no poema se passa na primavera de 1300, da noite anterior à Sexta-Feira Santa até a quarta-feira depois da Páscoa. Dante tem 35 anos, e o primeiro verso do poema situa a viagem no meio do caminho da vida.
Por que o poema se chama Comédia e quem acrescentou “Divina”
Dante chamou a obra apenas de Comédia porque, na teoria literária da época, a comédia era o gênero que começa mal e termina bem, escrito em estilo e língua comuns. O poema começa no Inferno e termina no Paraíso, e foi escrito no vernáculo florentino, a língua falada, e não em latim.
O adjetivo “divina” aparece pela primeira vez no Trattatello in laude di Dante, de Giovanni Boccaccio, escrito entre 1351 e 1355. No título, ele só entrou em 1555, na edição organizada por Lodovico Dolce e impressa em Veneza por Gabriele Giolito. Por isso algumas traduções recentes voltam a chamar a obra só de Comédia.
Resumo do Inferno

O Inferno começa com Dante perdido numa floresta escura. Na tradução de José Pedro Xavier Pinheiro, hoje em domínio público:
Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
Três feras impedem que ele suba uma colina iluminada: uma onça, um leão e uma loba. Aparece então a alma de Virgílio, autor da Eneida, enviada por Beatriz para guiá-lo. Os dois atravessam a porta do Inferno, que traz a inscrição famosa: “Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!” (canto III).
O Inferno tem a forma de um funil com nove círculos que se estreitam até o centro da Terra. Quanto mais fundo, mais grave o pecado:
- Limbo (1º círculo): pagãos virtuosos e crianças não batizadas, como Homero, Horácio e o próprio Virgílio. Não sofrem tormento, mas não veem Deus.
- Incontinência (2º ao 5º): luxuriosos, gulosos, avarentos e pródigos, irados.
- Heresia (6º): hereges, presos em túmulos ardentes.
- Violência (7º): contra o próximo, contra si mesmo e contra Deus.
- Fraude e traição (8º e 9º): sedutores, aduladores, adivinhos, ladrões, falsários e, no fundo gelado, os traidores.
Os castigos seguem o contrapasso, princípio pelo qual a pena espelha o pecado. Os adivinhos, que quiseram ver o futuro, andam com a cabeça virada para trás (canto XX). Os amantes do segundo círculo são arrastados por uma tempestade, como em vida foram arrastados pela paixão.
É nesse círculo que estão Francesca da Rimini e Paolo, mortos pelo marido dela, irmão de Paolo. No canto V, Francesca conta que os dois se apaixonaram enquanto liam juntos a história de Lancelote. Outros episódios célebres são o de Ulisses, que narra sua última viagem além dos limites do mundo conhecido (canto XXVI), e o do conde Ugolino, preso numa torre com os filhos (canto XXXIII).
No centro da Terra está Lúcifer, preso no gelo. Com suas três bocas, ele mastiga os três maiores traidores segundo Dante: Judas Iscariotes, que traiu Cristo, e Bruto e Cássio, que traíram Júlio César (canto XXXIV). Virgílio e Dante descem pelo corpo de Lúcifer e saem do outro lado do mundo.
Resumo do Purgatório

O Purgatório é uma montanha numa ilha do hemisfério sul, onde ficam as almas que se arrependeram antes de morrer. Ao contrário do Inferno, é um lugar de passagem: as almas sofrem, mas com esperança, porque sabem que um dia chegarão ao céu.
Na base fica o antepurgatório, com os excomungados e os que se arrependeram tarde. Acima vêm sete terraços, um para cada pecado capital: soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. Em cada um, as almas se purificam com uma pena ligada ao pecado; os soberbos, por exemplo, caminham curvados sob pedras pesadas.
No alto da montanha está o Paraíso Terrestre, o jardim do Éden. Ali Virgílio, que como pagão não pode entrar no céu, deixa de guiar Dante. Beatriz assume o papel de guia, numa cena em que ela o repreende pelos erros cometidos depois da morte dela. Purificado, Dante está pronto para subir.
Resumo do Paraíso

O Paraíso narra a subida de Dante pelos nove céus da astronomia medieval, que giram em torno da Terra: os sete céus dos planetas, da Lua a Saturno, o céu das estrelas fixas e o Primeiro Móvel. Acima deles está o Empíreo, morada de Deus, onde as almas dos bem-aventurados formam uma grande rosa branca.
Em cada céu, Dante encontra almas que lhe explicam questões de teologia, de filosofia e de política, como a ordem do universo, o livre-arbítrio e a corrupção da Igreja. Nos últimos cantos, o guia passa a ser São Bernardo de Claraval, que reza à Virgem Maria para que Dante possa ver Deus.
O poema termina com essa visão, que Dante diz não conseguir descrever por inteiro. O último verso, na tradução de Xavier Pinheiro, fala do “Amor, que move sol e estrelas”. As três partes do poema terminam com a mesma palavra: stelle, estrelas, no original italiano.
Estrutura da Divina Comédia: o número três e a terza rima
A Divina Comédia é construída sobre o número três, símbolo da Santíssima Trindade. São três partes, chamadas cânticas, com 33 cantos cada. O Inferno tem um canto a mais, de introdução, o que fecha a conta em 100.
A forma também é ternária. Dante usa a terza rima, estrofes de três versos de onze sílabas encadeadas no esquema ABA BCB CDC. O verso do meio de cada estrofe dá a rima das duas pontas da estrofe seguinte, e o poema avança como uma corrente. A forma ficou conhecida como terceto dantesco.
A geografia acompanha a teologia. O Inferno desce, o Purgatório sobe e o Paraíso se expande em círculos de luz. A viagem também tem um calendário preciso, ligado à Semana Santa: Dante sai do Inferno na madrugada da Páscoa, dia da ressurreição.
Personagens principais
- Dante: narrador e protagonista. É ao mesmo tempo o poeta que escreve depois da viagem e o viajante que se assusta, se comove e aprende.
- Virgílio: poeta romano, autor da Eneida. Representa a razão humana, que leva Dante até o alto do Purgatório, mas não além.
- Beatriz: inspirada em Beatrice Portinari, florentina que Dante conheceu quando os dois tinham nove anos e que morreu em 1290, por volta dos 25 anos. Antes da Comédia, ele já tinha dedicado a ela a Vita Nuova, livro de poemas e prosa escrito por volta de 1293. No poema, Beatriz representa a fé e a graça divina.
- São Bernardo de Claraval: monge do século XII, guia dos cantos finais, ligado à contemplação mística.
- As almas: centenas de personagens reais e lendários, de papas e políticos florentinos a figuras da mitologia, que dão ao poema o tom de crônica do seu tempo.
Análise: temas e importância da Divina Comédia
A leitura mais aceita da Comédia é alegórica: a viagem de Dante representa o caminho de qualquer pessoa do erro à salvação. A floresta escura é o pecado, Virgílio é a razão, Beatriz é a fé. Ao mesmo tempo, o poema é muito concreto. Dante põe no Inferno pessoas que conheceu, aponta inimigos políticos e critica papas, o que faz da obra também um retrato da Itália por volta de 1300.
O tema central é a justiça divina, mostrada pelo contrapasso, mas a obra está cheia de compaixão. Diante de Francesca, Dante chora e desmaia. O leitor sente que o poeta entende os pecadores que condena, e essa tensão entre a regra e a pessoa explica parte da força do poema até hoje.
A importância da obra vai além da literatura. Ao escrever um poema sobre os temas mais elevados no dialeto de Florença, e não em latim, Dante ajudou a fixar a base do italiano moderno, e por isso é chamado de pai da língua italiana. A imagem do Inferno em círculos, com castigos sob medida, também passou para a cultura visual: as ilustrações de Gustave Doré, do século XIX, e o Mapa do Inferno de Sandro Botticelli ajudaram a fixar a forma como o Ocidente imagina o além.
Traduções da Divina Comédia no Brasil
A tradução mais antiga ainda lida é a de José Pedro Xavier Pinheiro, de 1888, em domínio público e disponível de graça na plataforma Literatura Online. Ela mantém os tercetos, com linguagem do século XIX.
Entre as traduções modernas, a de Italo Eugenio Mauro, publicada pela Editora 34 em edição bilíngue em 1998, preserva a terza rima e recebeu o Prêmio Jabuti de tradução em 2000, segundo a ficha da edição na Livraria Martins Fontes. Também circulam as versões de Cristiano Martins (1976) e do português Vasco Graça Moura (1995).
Em 2021, a Companhia das Letras lançou o Inferno traduzido por Emanuel França de Brito, Maurício Santana Dias e Pedro Falleiros Heise, primeira parte de uma nova edição bilíngue com o título original, Comédia. O livro recebeu o Prêmio Paulo Rónai de tradução, da Biblioteca Nacional, em 2022.
Perguntas frequentes
Por que a Divina Comédia é chamada de comédia se fala do Inferno?
Na Idade Média, comédia era a obra que começa em situação ruim e termina bem, escrita em língua comum. O poema começa no Inferno e termina na visão de Deus, e foi escrito em italiano, não em latim. Não tem relação com humor.
Quantos cantos e versos tem a Divina Comédia?
São 100 cantos e 14.233 versos. O Inferno tem 34 cantos (um de introdução e 33 de narrativa), e o Purgatório e o Paraíso têm 33 cada.
Quem são os nove círculos do Inferno de Dante?
Em ordem de descida: Limbo, luxúria, gula, avareza e prodigalidade, ira, heresia, violência, fraude e traição. Quanto mais grave o pecado, mais perto do centro da Terra, onde está Lúcifer preso no gelo.
Beatriz existiu de verdade?
Sim. A personagem é inspirada em Beatrice Portinari, florentina nascida por volta de 1265, casada com o banqueiro Simone de’ Bardi e morta em 1290. Dante conta que a viu pela primeira vez quando os dois tinham nove anos e a transformou em símbolo da fé no poema.
Onde ler a Divina Comédia de graça e em português?
A tradução de José Pedro Xavier Pinheiro, de 1888, está em domínio público e pode ser lida online e baixada em PDF ou ePub na plataforma Literatura Online. Para uma leitura com linguagem atual, as edições da Editora 34 e da Companhia das Letras são as mais citadas.
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