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Revista Literatura Online

Vencedor do Goncourt, Philippe Jaenada conta que escondeu no romance uma frase escrita pelo ChatGPT

Philippe Jaenada admitiu à France Inter que usou IA três vezes em L'Inconnue du quai de Javel, incluindo uma frase escrita pelo ChatGPT.

Montagem dividida ao meio. À esquerda, o logotipo branco do ChatGPT, um nó entrelaçado em forma de flor, sobre fundo verde-acinzentado. À direita, o escritor Philippe Jaenada, de cabelos e barba grisalhos e camisa polo escura, acena com a mão para a câmera, segurando uma caneta, numa sessão de autógrafos. À frente dele está um livro seu com a foto de uma mulher na capa, e ao fundo aparecem pessoas e estantes de livros. Ampliar a imagem de destaque
Philippe Jaenada, vencedor do Goncourt 2026, revelou que pôs no romance premiado uma frase escrita pelo ChatGPT. Foto: ActuaLitté/Flickr (CC BY-SA 2.0)

O escritor francês Philippe Jaenada, vencedor do Prêmio Goncourt 2026, contou que usou inteligência artificial três vezes em L’Inconnue du quai de Javel (Flammarion), o romance premiado. Uma delas é uma frase inteira escrita pelo ChatGPT e colocada no livro de propósito. Qual é a frase, só os jurados sabem.

A revelação foi feita em entrevista à rádio France Inter na quarta-feira (4), um dia depois do anúncio do prêmio, segundo despacho da agência AFP publicado pela Radio-Canada. O tema é sensível na França: a edição de 2026 do Goncourt foi marcada pela saída de um romance da seleção por suspeita de ter sido escrito com ajuda de IA.

Jaenada, de 62 anos, descreveu os três usos. O primeiro é a frase gerada pelo ChatGPT, que ele inseriu no texto para “brincar com o leitor” (em tradução livre). O escritor diz ter mostrado o trecho apenas aos jurados do Goncourt, na terça-feira (3), e brincou com o segredo: “Se isso vazar, sei de quem terá vindo”.

O segundo uso foi para expor os erros da ferramenta. Ele contou que recorreu à IA “para zombar um pouco do ChatGPT, que dá respostas completamente absurdas” sobre um dado técnico. O terceiro foi a pesquisa técnica para preparar o livro, um romance construído sobre documentos e arquivos policiais.

O autor defendeu o que chama de uso limitado da ferramenta, sem entregar a ela a escrita. “Acho que não dá para recalcar a IA. É preciso usá-la, é preciso admitir isso, é preciso domesticá-la e não se deixar substituir”, afirmou à France Inter, segundo a AFP. Ele também disse que “não dá para fazer de conta que isso não existe”. As reportagens sobre a entrevista não registram reação da Academia Goncourt.

No romance, Jaenada reabre o assassinato de Louise Cansot, uma jovem bretã que trabalhava como modelo em Montparnasse e foi encontrada morta no cais de Javel, em Paris, em setembro de 1949. O caso foi encerrado sem culpado. É o tipo de livro que ele faz desde Sulak (2013): investigações de crimes reais narradas em primeira pessoa, com o autor diante dos documentos. Em La Serpe (2017), que venceu o Prêmio Femina, revisitou um triplo homicídio de 1941.

A polêmica com Thélyson Orélien

A declaração chega depois do caso Thélyson Orélien, que marcou a temporada. O romance C’était ça ou mourir, do escritor haitiano-canadense, foi retirado em setembro da seleção do Goncourt e de outros prêmios depois de acusações de uso de IA. Em outubro, a editora canadense Boréal rompeu com o autor ao dizer que encontrou marcas de inteligência artificial nos metadados de alguns arquivos. Orélien afirmou ao jornal Libération que escreveu o livro, mas admitiu ter usado IA na pesquisa histórica.

A diferença entre os dois casos, pelo que os autores contam, está no peso da ferramenta no texto final. Jaenada admite uma frase gerada por máquina e a apresenta como jogo com o leitor, com o conhecimento do júri. No caso de Orélien, a suspeita é que a IA tenha produzido partes do romance sem aviso.

Nenhum livro de Philippe Jaenada foi publicado no Brasil até agora, e nenhuma editora brasileira anunciou a tradução de L’Inconnue du quai de Javel. O romance saiu na França pela Flammarion.

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