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Revista Literatura Online

O Médico e o Monstro nasceu de um pesadelo de Stevenson, e a primeira versão do livro acabou na lareira

Ilustração antiga em preto e branco, feita a carvão ou crayon, de uma cena de agressão noturna numa rua. Um homem de chapéu e casaco escuro, visto de costas, ergue uma bengala para golpear. À frente dele, um homem idoso de cabelos brancos se encolhe contra uma parede, com uma das mãos no rosto e a outra levantada para se proteger. Ampliar a imagem de destaque
Hyde ataca Sir Danvers Carew com uma bengala, em ilustração de Charles Raymond Macauley para uma edição de 1904 de O Médico e o Monstro. Imagem: Charles Raymond Macauley/Internet Archive/Wikimedia Commons

Robert Louis Stevenson tirou a ideia de O Médico e o Monstro de um pesadelo e escreveu a primeira versão do livro em cerca de três dias, em 1885. Essa versão nunca chegou às livrarias: o manuscrito foi queimado na lareira, e Stevenson reescreveu a história do zero em poucos dias. Quem conta o episódio são a mulher dele, Fanny, e o enteado, Lloyd Osbourne, testemunhas da escrita.

O motivo do fogo foi uma crítica. Fanny leu o texto e achou que o marido tinha perdido a melhor parte da ideia: a história deveria ser uma alegoria moral sobre o bem e o mal dentro de uma mesma pessoa, e não apenas um conto de terror. O que aconteceu depois tem versões diferentes, e uma carta descoberta em 2000 levantou a suspeita de que quem queimou o manuscrito pode ter sido a própria Fanny.

O pesadelo que deu origem a Jekyll e Hyde

Ilustração antiga em preto e branco de uma casa de dois andares com telhado inclinado e chaminés altas, cercada por cerca de madeira e cerca viva. Na frente há um portão branco de madeira, um poste de luz e uma rua de terra. O céu está carregado de nuvens, e há árvores sem folhas ao lado da casa.
Skerryvore, casa em Bournemouth, na Inglaterra, onde Robert Louis Stevenson escreveu O Médico e o Monstro. Imagem: The life of Robert Louis Stevenson for boys and girls (1915)/Internet Archive/Wikimedia Commons

Em 1885, Stevenson morava em Bournemouth, no sul da Inglaterra, numa casa chamada Skerryvore. Tinha 34 anos, já era conhecido por A Ilha do Tesouro (1883) e passava boa parte do tempo de cama, doente dos pulmões, com crises de hemorragia.

No ensaio “A Chapter on Dreams” (“Um capítulo sobre sonhos”), publicado em 1888 e hoje disponível no Projeto Gutenberg, ele contou que procurava havia anos uma forma de escrever sobre “o forte senso da dupla natureza do homem”, e que precisava de dinheiro. Passou dois dias “quebrando a cabeça” atrás de um enredo. Na segunda noite, sonhou com a cena da janela e com a cena em que Hyde, perseguido por um crime, toma o pó e se transforma diante de quem o persegue. “Tudo o que me foi dado foi a matéria de três cenas e a ideia central de uma mudança voluntária que se torna involuntária”, escreveu (em tradução livre).

Fanny se lembrava daquela madrugada. Segundo o relato registrado pelo biógrafo Graham Balfour, ela acordou com os gritos de horror do marido e, achando que era um pesadelo, o despertou. “Por que você me acordou? Eu estava sonhando com uma bela história de assombração”, reclamou Stevenson. Ela o tinha interrompido justamente na primeira cena de transformação.

Três dias de escrita e um manuscrito em cinzas

Montagem dividida ao meio. À esquerda está a folha de rosto da primeira edição britânica de Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, em papel envelhecido. Ela traz o título e o nome de Robert Louis Stevenson em letras tipográficas, o emblema da editora com um navio a vela e, embaixo, “London, Longmans, Green, and Co., 1886”. À direita, uma fotografia em preto e branco de Stevenson, de braços cruzados, com cabelo comprido repartido ao meio, bigode, paletó escuro e gravata, olhando para o lado.
Folha de rosto da primeira edição britânica de O Médico e o Monstro (1886) e retrato de Robert Louis Stevenson. Foto: Knox Series/Wikimedia Commons

Stevenson escreveu sem parar. “Não acredito que tenha existido antes uma façanha literária como a escrita de Dr. Jekyll“, escreveu mais tarde Lloyd Osbourne. “Louis desceu as escadas em febre; leu quase metade do livro em voz alta; e então, enquanto ainda estávamos sem fôlego, ele já tinha voltado e estava escrevendo. Duvido que o primeiro rascunho tenha levado três dias.”

Era costume Fanny ler os manuscritos e anotar críticas nas margens. Desta vez, ela escreveu que a história era, na verdade, uma alegoria, mas que Stevenson a tratava como um simples conto. Na versão contada por ela, algum tempo depois o marido a chamou ao quarto e apontou para uma pilha de cinzas. Ele tinha queimado o texto para não cair na tentação de aproveitá-lo e para se obrigar a recomeçar do nada. “Quase desmaiei de tristeza e horror ao ver que tudo tinha se perdido”, escreveu Fanny.

Lloyd contou outra versão. Irritado com a crítica, Stevenson subiu para o quarto, voltou pouco depois admitindo que Fanny tinha razão e jogou o rascunho no fogo diante dos dois, impedindo que eles o salvassem.

A carta que pôs Fanny sob suspeita

Em 2000, uma carta encontrada num sótão complicou a história. Nela, Fanny escreveu ao poeta W. E. Henley, amigo do casal: “Ele escreveu quase um caderno inteiro de puro absurdo. Felizmente, já se esqueceu de tudo, e eu vou queimá-lo depois de mostrar a você. Ele disse que era sua maior obra.” A carta contradiz o relato dela e o do filho, e desde então pesquisadores discutem se foi ela quem pôs o manuscrito no fogo.

Não há prova direta da queima, e alguns estudiosos duvidam até que ela tenha acontecido. O que se sabe é que a segunda versão também saiu depressa, em três a seis dias, e que Stevenson passou de quatro a seis semanas revisando o texto antes de entregá-lo ao editor.

O sucesso de um livro vendido por um xelim

Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, título original, saiu em janeiro de 1886: a edição americana da Scribner’s chegou às lojas no dia 5, e a britânica, da Longmans, Green & Co., quatro dias depois. Na Inglaterra, era um livro barato, vendido por um xelim, do tipo que os ingleses chamavam de “shilling shocker”. As livrarias só passaram a estocá-lo depois de uma resenha favorável no The Times, em 25 de janeiro. Em seis meses, foram vendidos cerca de 40 mil exemplares, e pastores passaram a citar a história nos sermões.

A ideia da dupla personalidade vinha de longe. Ainda adolescente, Stevenson tinha escrito uma peça sobre William Brodie, marceneiro e vereador de Edimburgo, a cidade natal do escritor, que de dia era um cidadão respeitado e de noite assaltava casas para pagar dívidas de jogo. Brodie foi enforcado em 1788 e é apontado como uma das inspirações para Jekyll e Hyde.

O sucesso chegou ao teatro rapidamente. Em 1887, o ator Richard Mansfield estreou em Boston uma adaptação que fez sucesso pela maquiagem e pela iluminação da cena de transformação. Em 1888, quando levou a peça a Londres, os assassinatos de Jack, o Estripador, começaram, e o próprio Mansfield chegou a ser apontado em jornais como suspeito. A temporada foi encerrada.

O Médico e o Monstro no Brasil

No Brasil, o livro ficou conhecido como O Médico e o Monstro, título que não existe no original, e tem várias edições. A DarkSide Books publica O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, com tradução de Paulo Raviere. Quem lê o livro hoje sabe desde o início o segredo de Jekyll, mas os primeiros leitores, em 1886, só descobriam no fim que o respeitável médico e o violento Hyde eram a mesma pessoa.

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