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Revista Literatura Online

Cego, John Milton ditou Paraíso Perdido a ajudantes e recebeu só 10 libras pelo poema em vida

Como John Milton, cego desde 1652, ditou Paraíso Perdido e quanto recebeu pelo poema.

Pintura a óleo em tons escuros e terrosos de um interior do século 17. À esquerda, o poeta John Milton, cego, de roupa preta e gola branca, está sentado numa poltrona com a cabeça baixa, concentrado. Diante dele, à mesa coberta por uma toalha estampada, três moças o acompanham: uma sentada segura uma pena, outra está de pé com a mão no espaldar de uma cadeira, e a terceira, inclinada sobre um livro aberto, escreve o que ele dita. Ampliar a imagem de destaque
Milton cego ditando "O Paraíso Perdido" às filhas, pintura de Mihály Munkácsy (1877). Imagem: Reprodução/Artvee

John Milton já estava completamente cego desde 1652 quando compôs Paraíso Perdido, o poema épico de mais de dez mil versos sobre a queda de Satanás e a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Sem poder escrever, ele ditou a obra inteira a ajudantes e amigos, que copiavam os versos e liam o texto em voz alta para que o poeta o aprovasse.

O pagamento foi modesto para um livro que se tornaria um dos pilares da literatura em língua inglesa. Em 27 de abril de 1667, Milton vendeu os direitos de publicação ao editor Samuel Simmons por 5 libras na assinatura, com a promessa de mais 5 libras a cada tiragem esgotada. Em vida, ele recebeu só uma dessas parcelas extras: 10 libras no total.

Como um poeta cego escreveu uma epopeia

Milton ditou Paraíso Perdido a uma série de auxiliares, o que hoje se chamaria de secretários e na época se chamava de amanuenses (pessoas pagas para escrever o que outro dizia). A causa da cegueira nunca foi esclarecida; as hipóteses mais aceitas são glaucoma ou descolamento de retina nos dois olhos.

Quando perdeu a visão, Milton era uma figura pública. Entre 1649 e 1660, serviu ao governo republicano inglês como secretário para línguas estrangeiras, redigindo em latim a correspondência oficial do país. Depois da cegueira, a maior parte do trabalho passou a ser feita por assistentes, entre eles o poeta Andrew Marvell. Os sobrinhos John e Edward Phillips, educados pelo próprio Milton, também o ajudaram; Edward se tornaria seu primeiro biógrafo.

Pintura a óleo de tons escuros com contraste de luz fria. No centro, uma jovem de vestido branco com laço preto e touca listrada escreve de pé, com uma pena, numa estante. À direita, John Milton está sentado numa poltrona, com as mãos entrelaçadas, o rosto pálido e os olhos sem pupila voltados para cima. À esquerda, outra mulher, de cabelos longos e roupa vermelha, costura um tecido branco.
Milton ditando à filha, pintura de Henry Fuseli (1793). Imagem: Art Institute of Chicago

A composição do poema aconteceu num período difícil. Segundo John Aubrey, contemporâneo e biógrafo de Milton, ele escreveu a obra entre 1658 e 1663. Em 1658 morreu sua segunda mulher, Katherine Woodcock, pouco depois da filha do casal. Em 1660, com a volta da monarquia, Milton teve de se esconder: havia um mandado de prisão contra ele, e livros seus foram queimados. Mesmo depois de uma anistia geral, chegou a ser preso por um curto período e só saiu com a intervenção de amigos influentes, entre eles Marvell, que era deputado.

A cegueira também está num dos sonetos mais conhecidos do poeta, que começa com o verso “When I consider how my light is spent” (“Quando penso em como minha luz se gastou”, em tradução livre). O título com que o poema ficou famoso, “On His Blindness” (“Sobre sua cegueira”), não é de Milton: foi dado por um editor posterior, John Newton.

O contrato de 5 libras

O acordo com Samuel Simmons, assinado em 27 de abril de 1667, previa 5 libras de entrada e outras 5 libras depois de vendidas cada uma das três primeiras tiragens, contadas como 1.300 exemplares cada. Milton não assinou com a própria mão: a assinatura foi escrita por outra pessoa, e o documento leva o selo do poeta. O original está hoje na British Library, em Londres.

A primeira edição saiu em agosto de 1667, dividida em dez livros (as partes do poema) e vendida a 3 xelins o exemplar. A tiragem se esgotou em cerca de 18 meses, e em 26 de abril de 1669 Milton passou o recibo da segunda parcela, também assinado por terceiros. Em 1674 saiu a segunda edição, reorganizada em 12 livros, como a Eneida de Virgílio. Milton morreu em novembro daquele ano, aos 65 anos, antes de receber qualquer valor por ela.

O acerto final ficou para a viúva, Elizabeth. Segundo a introdução de uma edição fac-símile de 1877, hoje no Wikisource, Simmons pagou a ela 8 libras em dezembro de 1680, como quitação de todos os direitos. Somando tudo, Paraíso Perdido rendeu 18 libras a Milton e à família.

As filhas e o quadro famoso

A imagem mais popular da criação do poema é a de Milton ditando versos às filhas. A cena virou tema de pintores, sobretudo no período romântico, e o quadro mais conhecido é Milton cego ditando Paraíso Perdido às filhas, do húngaro Mihály Munkácsy, pintado no fim da década de 1870, que está na Biblioteca Pública de Nova York.

Os registros sobre a escrita do poema, porém, falam de auxiliares contratados, amigos e parentes que copiavam e liam o texto, e não confirmam as filhas como escribas de Paraíso Perdido. A relação de Milton com as três filhas do primeiro casamento, aliás, foi conturbada: depois da morte do poeta, elas e a viúva disputaram na Justiça a pequena herança. A mais nova, Deborah, morreu pobre em Londres.

O que conta Paraíso Perdido

Paraíso Perdido recria em versos a rebelião de Satanás contra Deus, a queda dos anjos rebeldes, a tentação de Adão e Eva e a perda do paraíso. O poema discute liberdade, desobediência, culpa e destino, e dá a Satanás discursos longos e eloquentes, o que faz dele um dos personagens mais comentados da literatura inglesa.

Em português, uma das traduções clássicas é a do médico e escritor português António José de Lima Leitão, feita no século XIX. É essa versão que a Literatura Online disponibiliza para leitura gratuita, com o texto conferido no Wikisource em português.

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Sobre quem escreveu

Fundador e editor do Literatura Online. Graduado em Letras (Português/Inglês) pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com TCC dedicado à obra de Paulo Leminski e um ano de especialização em Teoria da Literatura. Sua maior área de interesse é a poesia brasileira, com ênfase nos poetas do Romantismo e do Modernismo. Escreve análises de poemas e obras literárias para estudantes do ensino médio, universitários de Letras e leitores apaixonados por literatura.

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