Antes de escrever Dom Quixote, Miguel de Cervantes passou cinco anos como cativo em Argel, no norte da África. Capturado por corsários em 1575, ele tentou fugir quatro vezes, foi traído em todas, escapou da execução e só saiu de lá em 1580, quando frades trinitários juntaram os 500 escudos de ouro do resgate. Décadas depois, pôs a experiência dentro do próprio romance: na “História do cativo”, um personagem lembra de “um soldado espanhol chamado tal de Saavedra” (em tradução livre), o sobrenome do autor.
A passagem é quase uma assinatura. O narrador conta que o rei de Argel enforcava e mutilava prisioneiros por qualquer motivo e que só um homem escapou dessa crueldade, apesar de ter feito coisas “que ficarão na memória daquela gente por muitos anos, e todas para alcançar a liberdade”. Era o próprio Cervantes, falando de si em terceira pessoa.
O soldado ferido em Lepanto
A história começa com uma batalha. Em 7 de outubro de 1571, Cervantes, então com 24 anos, lutou na Batalha de Lepanto, em que a frota da Liga Santa, aliança de Espanha, Veneza e o papado, derrotou a armada otomana no mar Jônico. Ele estava doente, com febre, mas pediu para ficar num dos postos mais expostos da galera Marquesa. Levou dois tiros no peito e um na mão esquerda, que ficou inutilizada para sempre. O apelido veio daí: el manco de Lepanto, o maneta de Lepanto.
Ele nunca se envergonhou do ferimento. No prólogo da segunda parte de Dom Quixote, de 1615, respondeu a um rival que zombara dele por ser “velho e maneta” dizendo que a mão não tinha sido perdida numa taverna, mas “na mais alta ocasião que viram os séculos passados, os presentes, nem esperam ver os vindouros” (em tradução livre).
A captura no mar e as cartas que encareceram o resgate
Depois de anos como soldado na Itália, Cervantes embarcou de volta para a Espanha com o irmão Rodrigo na galera Sol. Em 26 de setembro de 1575, perto da costa da Catalunha, o navio foi atacado por corsários comandados por Arnaute Mamí. Os irmãos foram levados para Argel, então um dos principais centros do comércio de cativos cristãos no Mediterrâneo.
Cervantes carregava cartas de recomendação de Dom João da Áustria, o comandante de Lepanto, e do duque de Sessa. A ideia era usá-las para conseguir um posto na Espanha. O efeito foi o contrário: os captores concluíram que tinham nas mãos um homem importante e fixaram o resgate em 500 escudos de ouro, quantia que a família, sem dinheiro, não conseguiu reunir por anos. Rodrigo foi resgatado primeiro, em 1577.
As quatro fugas fracassadas
Na primeira tentativa, Cervantes e outros cativos contrataram um guia mouro para levá-los por terra até Orã, praça espanhola na costa africana. O guia os abandonou no primeiro dia de caminhada, e eles tiveram de voltar.
A segunda foi a mais ousada. Em 1577, ele se escondeu com cerca de 15 companheiros numa caverna nos arredores de Argel, à espera de uma galera espanhola que viria buscá-los, combinada com a ajuda do irmão já libertado. Um cativo apelidado de “el Dorador” delatou o grupo, e a galera foi capturada. Cervantes assumiu sozinho a responsabilidade pelo plano. Em vez de executá-lo, Azán Bajá, governante de Argel, o manteve preso a correntes por cinco meses.
Na terceira, ele mandou cartas ao governador de Orã por um mensageiro mouro. O homem foi preso com as cartas, e Cervantes foi condenado a 2 mil pauladas, pena que não chegou a ser aplicada. Na quarta, com dinheiro emprestado por um mercador de Valência, comprou uma fragata para fugir com outros cativos. Foi denunciado por Juan Blanco de Paz, um ex-frade dominicano que também estava preso, e que recebeu como recompensa, segundo relatos da época, um escudo e um jarro de manteiga.
O resgate pelos frades trinitários
Em 1580, Azán Bajá estava de partida para Constantinopla e pretendia levar Cervantes junto. O frade trinitário Juan Gil, da ordem religiosa especializada em resgatar cativos cristãos, tinha só 300 escudos para ele e completou o valor com dinheiro arrecadado entre mercadores. Cervantes foi libertado em 19 de setembro de 1580, quando estava prestes a ser levado para Constantinopla.
Antes de voltar à Espanha, ele pediu que um tabelião registrasse depoimentos de outros cativos sobre seu comportamento em Argel, para se defender das acusações de Blanco de Paz. O documento, conhecido como Información de Argel, é hoje uma das principais fontes sobre esses anos.
Argel dentro de Dom Quixote

O cativeiro reapareceu em várias obras. Cervantes escreveu as peças El trato de Argel e Los baños de Argel, ambientadas entre os cativos, e inseriu na primeira parte de Dom Quixote, publicada em 1605, a “História do cativo”, entre os capítulos 39 e 41. Nela, um capitão espanhol conta numa estalagem como foi preso em Argel e como fugiu com a ajuda de Zoraida, uma moça moura convertida ao cristianismo. É no capítulo 40 que surge o “tal de Saavedra”.
A prisão também marcou o nascimento do romance de outra forma. Na volta à Espanha, Cervantes trabalhou como cobrador de impostos e acabou preso em Sevilha em 1597, depois da falência do banco onde depositava o dinheiro arrecadado. No prólogo da primeira parte, ele descreve o livro como a história de um filho seco e cheio de pensamentos estranhos, “como quem se gerou num cárcere, onde todo incômodo tem seu assento e onde todo triste ruído faz sua habitação” (em tradução livre). Muitos estudiosos leem a frase como referência à cadeia sevilhana.
Cervantes morreu em Madri em 22 de abril de 1616, com o romance já traduzido e famoso fora da Espanha.
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