O túmulo de Oscar Wilde, no cemitério do Père-Lachaise, em Paris, é cercado por um painel de vidro desde novembro de 2011. A barreira foi instalada porque milhares de beijos de batom estavam destruindo a pedra do monumento. A gordura do batom penetrava no calcário, e cada limpeza para tirar as marcas gastava um pouco mais da escultura. O governo da Irlanda, país natal do escritor, pagou a restauração.
A tradição de beijar o túmulo começou no fim dos anos 1990 e virou parada obrigatória de turistas. O neto do escritor, Merlin Holland, chegou a dizer que o monumento estava “perto de ser irreparavelmente danificado”, do ponto de vista técnico. É um destino curioso para um autor que morreu pobre, exilado e sem dinheiro para um enterro digno, poucos anos depois de sair da prisão.
Da cova de sexta classe ao Père-Lachaise
Oscar Wilde morreu em 30 de novembro de 1900, aos 46 anos, num quarto do Hôtel d’Alsace, na rue des Beaux-Arts, em Paris. A causa foi uma meningite. O autor de O Retrato de Dorian Gray e da peça A Importância de Ser Prudente tinha sido condenado em 1895, em Londres, a dois anos de trabalhos forçados por “grave indecência”, crime que a lei britânica usava para punir relações entre homens. Cumpriu parte da pena na prisão de Reading e, solto em 1897, foi viver na França com um nome falso, Sebastian Melmoth.

A falência e o escândalo deixaram Wilde sem recursos. Ele foi enterrado no cemitério de Bagneux, nos arredores de Paris, num “enterro de sexta classe”, como descreveu Merlin Holland ao Guardian. A mudança veio graças a Robert Ross, amigo e ex-companheiro do escritor, que virou seu testamenteiro literário. Com a venda dos direitos das obras, inclusive de De Profundis, a longa carta escrita na prisão, Ross quitou as dívidas de Wilde e comprou um jazigo perpétuo no Père-Lachaise. Os restos foram transferidos para lá em 1909.
Ross pediu que houvesse no túmulo um espaço para as próprias cinzas. Elas foram colocadas ali em 1950, no 50º aniversário da morte de Wilde.
A esfinge de Epstein e a censura

O monumento foi pago com uma doação anônima de 2.000 libras feita por Helen Carew, admiradora de Wilde, e encomendado por Ross ao escultor Jacob Epstein. O artista talhou num bloco de cerca de 20 toneladas de pedra uma figura alada e nua, uma espécie de esfinge voadora inspirada nas esculturas assírias do Museu Britânico. A obra foi concluída em 1914.
A nudez causou problemas desde o início. As autoridades francesas cobriram a escultura com uma lona, e depois uma placa de bronze em forma de borboleta foi posta sobre os genitais da figura. No começo dos anos 1960, os genitais foram arrancados e roubados. Na parte de trás do túmulo, estão gravados quatro versos de A Balada do Cárcere de Reading, o poema que Wilde escreveu depois da prisão:
And alien tears will fill for him
Pity’s long-broken urn,
For his mourners will be outcast men,
And outcasts always mourn.
Em tradução livre: “E lágrimas alheias encherão por ele / a urna há muito quebrada da Piedade, / pois seus pranteadores serão homens banidos, / e os banidos sempre choram”. O túmulo foi inscrito como monumento histórico da França em 1995.
Por que o batom estragava a pedra
Os beijos começaram a se espalhar no fim dos anos 1990, e em pouco tempo a esfinge estava coberta de marcas vermelhas, rosas e roxas, além de recados escritos à mão. O problema não era só estético. Segundo o Centro Cultural Irlandês de Paris, ouvido pela agência AFP, a base gordurosa do batom penetra na pedra e deixa uma sombra de gordura mesmo depois que a cor desaparece.
Limpar também não resolvia. Cada limpeza deixava a pedra mais porosa, o que exigia uma limpeza mais agressiva na vez seguinte. Já em 2000, Merlin Holland reclamava: “Se essas pessoas querem honrar a memória de Oscar Wilde, deveriam deixar a droga do túmulo em paz”, disse ao Guardian (em tradução livre). O cemitério chegou a prever multa de 9.000 euros para quem pichasse o monumento, mas a ameaça pouco adiantou, porque a maioria dos beijadores era de turistas de passagem.
O vidro que protege o túmulo desde 2011
A solução veio da Irlanda. A pedido do Centro Cultural Irlandês e de Merlin Holland, o Escritório de Obras Públicas do governo irlandês financiou a limpeza, a retirada da gordura da pedra e a instalação de um painel de vidro em volta da base do túmulo. A barreira foi inaugurada em 30 de novembro de 2011, no 111º aniversário da morte do escritor, com autoridades irlandesas e francesas, Holland e o ator Rupert Everett.
Na cerimônia, o neto do escritor brincou com a situação. “Se meu avô estivesse aqui, teria adorado a atenção”, disse Holland, segundo a AFP, em reportagem reproduzida pela France 24. Ele também disse esperar que, um dia, o vidro possa ser retirado, quando o costume de beijar o túmulo tiver sido esquecido.
O painel protege só a parte de baixo do monumento, e a esfinge continua visível acima dele.
No Brasil, O Retrato de Dorian Gray tem várias edições, entre elas a da Penguin-Companhia, com tradução de Paulo Schiller. A Balada do Cárcere de Reading ganhou edição bilíngue com tradução de Paulo Vizioli, publicada em 1997 pela Nova Alexandria.
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