Arthur Rimbaud, nascido em 20 de outubro de 1854 em Charleville, no nordeste da França, escreveu toda a obra que o tornou um dos poetas mais influentes da literatura moderna entre os 15 e os 20 anos. Depois disso, parou. O último texto em versos conhecido dele está numa carta de 14 de outubro de 1875, seis dias antes de completar 21 anos. Passou os 16 anos seguintes longe da literatura, a maior parte deles como comerciante de café, peles e armas em Áden (hoje no Iêmen) e em Harar (hoje na Etiópia).
O que se sabe sobre o motivo é pouco, e vem de testemunhas, não dele. Rimbaud nunca escreveu uma explicação. A resposta mais citada foi registrada pelo amigo de infância Ernest Delahaye, que o visitou em 1879 na fazenda da família, em Roche, e perguntou de repente: “Mas a literatura?”. Rimbaud ficou vermelho e respondeu seco: “Não penso mais nisso” (em tradução livre; no original, “Je ne pense plus à ça”).
O resto (fracasso editorial, ruptura com Paul Verlaine, vontade de partir) é hipótese de biógrafos e leitores. Rimbaud morreu em Marselha em 10 de novembro de 1891, aos 37 anos, depois de amputar a perna direita.
A obra escrita antes dos 21 anos

Aos 16 anos, Rimbaud já mandava poemas para escritores de Paris. Em maio de 1871, numa carta ao amigo Paul Demeny conhecida como “carta do vidente”, formulou o programa que marcaria sua poesia: o poeta deve se tornar “vidente” por meio de um longo “desregramento de todos os sentidos”, isto é, forçar os limites da percepção para chegar a uma linguagem nova.
O Barco Bêbado (Le Bateau ivre), de 1871, é o poema dessa fase mais conhecido. Em cem versos, um barco sem tripulação narra a própria deriva pelos mares, entre visões de tempestades, monstros e “arquipélagos siderais”. No fim, cansado, o barco confessa: “Sinto falta da Europa de antigos parapeitos” (em tradução livre; no original, “Je regrette l’Europe aux anciens parapets”).
Depois vieram os dois livros em prosa poética, que costumam ser ligados ao simbolismo e lidos como precursores da poesia moderna. Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer), datado pelo autor de “abril-agosto de 1873”, é o único livro que ele mesmo mandou imprimir, em Bruxelas, no fim de 1873. São nove partes em que um narrador acerta contas com a própria juventude, a fé, o amor e a escrita; o texto completo em francês está no Wikisource. Iluminações (Illuminations), conjunto de poemas em prosa escritos entre 1873 e 1875, só foi publicado em 1886, na revista La Vogue, sem que o autor soubesse.
Verlaine e o tiro de Bruxelas
A relação com Paul Verlaine, dez anos mais velho, casado e já um poeta conhecido, começou em 1871 e foi feita de viagens, brigas e reconciliações entre Paris, Londres e Bruxelas. Em 10 de julho de 1873, num quarto de hotel em Bruxelas, Verlaine, bêbado, atirou duas vezes com um revólver contra Rimbaud, que tinha anunciado que ia embora. Uma das balas feriu o pulso do mais jovem.
Rimbaud retirou a queixa, mas Verlaine foi condenado em agosto de 1873 a dois anos de prisão, cumpridos em Mons, na Bélgica. Muitos leitores veem na seção “Delírios I”, em que uma “Virgem louca” fala de seu “Esposo infernal”, um retrato do casal, embora o livro não nomeie ninguém.
Por que Rimbaud parou de escrever
O testemunho mais próximo de uma explicação é o de Delahaye, publicado em 1923 no livro Rimbaud, l’artiste et l’être moral. Ele conta que, depois de imprimir Uma Temporada no Inferno e enviar alguns exemplares a amigos, Rimbaud “se desinteressou imediatamente do resto” e partiu para a Inglaterra “com a resolução de abandonar toda literatura e de exercer de outro modo a atividade de seu espírito” (em tradução livre). A cena de 1879, em Roche, com o “Não penso mais nisso”, está numa nota do mesmo livro.
Há dois problemas nessa versão. O primeiro é a data: Rimbaud continuou escrevendo depois de 1873, porque parte das Iluminações é de 1874 e 1875, e a carta a Delahaye de 14 de outubro de 1875 ainda traz um poema satírico, “Sonho”. O segundo é que Delahaye escreveu décadas depois, como amigo e admirador.
As outras explicações correntes são deduções. Uma lembra o fracasso material do livro de 1873: Rimbaud não pagou a gráfica, a tiragem de cerca de 500 exemplares ficou quase toda no depósito e só foi redescoberta em 1901 pelo bibliófilo belga Léon Losseau. Outra liga o abandono ao fim traumático da relação com Verlaine. Uma terceira lê em Uma Temporada no Inferno um anúncio do que viria, como no trecho de “Mau sangue”: “Voltarei com membros de ferro, a pele escura, o olhar furioso” (em tradução livre; no original, “Je reviendrai, avec des membres de fer, la peau sombre, l’œil furieux”). Nenhuma dessas hipóteses tem confirmação do próprio Rimbaud.
O comerciante de Áden e Harar

A partir de 1875, Rimbaud viajou sem parar: alistou-se no exército colonial holandês em 1876 e desertou em Java, trabalhou como capataz de obras em Chipre em 1878 e 1880 e, em 1880, foi contratado em Áden pela firma Mazeran, Viannay, Bardey e Cia., que exportava café. No fim daquele ano foi mandado para a filial de Harar, cidade murada no planalto etíope, onde passou boa parte da década seguinte no comércio de café e peles.
Em 1885 ele largou o emprego para tentar o negócio mais ambicioso da vida. “Chegam-me alguns milhares de fuzis da Europa. Vou formar uma caravana e levar essa mercadoria a Menelik, rei do Choa”, escreveu à família de Áden em 22 de outubro de 1885 (em tradução livre; no original, “Il me vient quelques milliers de fusils d’Europe. Je vais former une caravane, et porter cette marchandise à Ménélick, roi du Choa”). Em dezembro, explicou a conta: fuzis de pistão aposentados havia 40 anos, comprados por 7 ou 8 francos na Europa e vendidos ao rei por uns 40 francos.
A expedição foi um desastre financeiro. O sócio Pierre Labatut adoeceu e voltou à França para morrer, o explorador Paul Soleillet, que levaria outra caravana junto, também morreu, e Rimbaud partiu sozinho. A caravana só chegou a Ankober em fevereiro de 1887, e Menelik, que anos depois seria imperador da Etiópia, pagou bem menos que o combinado. Rimbaud voltou a Áden em julho de 1887 com perda de cerca de 60% do capital.
O que dizem as cartas da África
As cartas enviadas da África à mãe e à irmã falam de preços, negócios, encomendas de livros técnicos e projetos de viagem, nunca de poesia. Elas foram reunidas pela primeira vez em 1899 por Paterne Berrichon no volume Lettres de Jean-Arthur Rimbaud: Égypte, Arabie, Éthiopie, hoje em domínio público. A queixa mais famosa está numa carta de Harar de 4 de agosto de 1888:
“Eu me entedio muito, sempre; nunca conheci ninguém que se entediasse tanto quanto eu.” (em tradução livre; no original, “Je m’ennuie beaucoup, toujours; je n’ai même jamais connu personne qui s’ennuyât autant que moi.”)
Em fevereiro de 1891, ele contou à mãe que sentia dores no joelho direito. Em abril, deixou Harar carregado numa maca até a costa e, em 20 de maio, chegou a Marselha, onde foi internado no hospital da Conception. A perna direita foi amputada no fim de maio de 1891. Em 10 de julho, já de muletas, escreveu à irmã Isabelle: “Onde estão as corridas pelos montes, as cavalgadas, os passeios, os desertos, os rios e os mares? E agora a existência de aleijado!” (em tradução livre; no original, “Où sont les courses à travers monts, les cavalcades, les promenades, les déserts, les rivières et les mers ? Et, à présent, l’existence de cul-de-jatte !”).
Depois de um mês com a família em Roche, voltou a Marselha com Isabelle e morreu no hospital em 10 de novembro de 1891. Na véspera, segundo a edição de 1899, ditou uma carta à companhia de navegação Messageries Maritimes pedindo para ser levado a bordo de um navio. Foi enterrado em Charleville. Em Paris, Verlaine já tinha feito dele, em 1884, um dos três nomes do ensaio Os Poetas Malditos.
Rimbaud em português no Brasil
A tradução mais completa é a de Ivo Barroso para a editora Topbooks, em três volumes: Poesia Completa, edição bilíngue lançada em 1994; Prosa Poética, de 1998, que reúne Uma Estadia no Inferno (título escolhido pelo tradutor) e Iluminações e rendeu a Barroso o Prêmio Jabuti; e Correspondência, de 2009, com as cartas da África. Lêdo Ivo também traduziu Uma Temporada no Inferno e Iluminações para a Francisco Alves, e Paulo Hecker Filho assinou uma tradução de Uma Temporada no Inferno pela L&PM, segundo a bibliografia de um estudo sobre Rimbaud publicado na revista Estação Literária, da Universidade Estadual de Londrina.
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