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Dia Nacional do Livro é 29 de outubro por causa da Biblioteca Nacional, criada com os livros do rei de Portugal

O Dia Nacional do Livro cai em 29 de outubro porque a data marca a fundação da Biblioteca Nacional, criada em 1810 com o acervo da biblioteca real portuguesa.

Montagem com uma vista aérea do prédio da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e, em primeiro plano, um retrato pintado de D. João recortado com contorno branco. Ele aparece de cabelos brancos empoados, casaca azul-escura com bordados dourados, condecorações em forma de estrela e faixa colorida no peito, segurando o punho de uma espada. Com a outra mão, aponta para o edifício. Ampliar a imagem de destaque
D. João assinou em 29 de outubro de 1810 o decreto considerado o ato de fundação da Real Biblioteca, origem da Biblioteca Nacional. Imagens: Reprodução/Wikimedia Commons

O Dia Nacional do Livro é comemorado em 29 de outubro porque nessa data, em 1810, o príncipe regente D. João (o futuro D. João VI) assinou o decreto considerado o ato de fundação da Real Biblioteca no Rio de Janeiro, a instituição que viria a ser a Biblioteca Nacional. Em 2026, a quinta-feira 29 de outubro marca os 216 anos da biblioteca, que guarda hoje cerca de 9 milhões de itens, segundo a Fundação Biblioteca Nacional.

A data virou lei mais de um século e meio depois. A Lei nº 5.191, de 13 de dezembro de 1966, sancionada por Castello Branco, instituiu o Dia Nacional do Livro “no dia 29 do mês de outubro” e tornou obrigatória a comemoração nas escolas públicas e particulares, “sem interrupção dos trabalhos escolares”. O texto da lei, de apenas três artigos, não explica a escolha. Quem faz a ligação é a própria Biblioteca Nacional, que celebra no mesmo dia o seu aniversário.

O presidente da instituição, Marco Lucchesi, repetiu essa explicação em entrevista à Agência Brasil no Dia do Livro de 2025, lembrando que a data é comemorada em 29 de outubro por ser o aniversário de fundação da BN. “São 215 anos de grandes aventuras, de grandes resultados para o país, de uma política da memória que atravessa inúmeras gerações”, disse.

A biblioteca do rei que sobreviveu a um terremoto

O acervo que deu origem à Biblioteca Nacional não nasceu no Brasil. O núcleo da coleção é a livraria do rei D. José I de Portugal, montada depois que o terremoto de Lisboa, em 1º de novembro de 1755, destruiu a biblioteca real anterior. Segundo a Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional, a tragédia levou cerca de 70 mil volumes, o Arquivo Real, com registros das viagens marítimas portuguesas, e obras de arte de mestres como Rubens e Ticiano.

A reconstrução da coleção foi orientada pelo padre e bibliógrafo Diogo Barbosa Machado, que doou a própria biblioteca, de cerca de 5 mil volumes. Vieram também doações de livros, aquarelas, estampas e partituras. Um dos itens dessa fase, hoje no Rio, é um códice iluminado a ouro com a parada dos cavaleiros do imperador Maximiliano, doado aos reis de Portugal pelo artista inglês Guglielmo Dugood justamente para ajudar a refazer a biblioteca perdida.

Três viagens e um decreto que não foi cumprido

A corte portuguesa chegou ao Brasil em 1808, fugindo das tropas de Napoleão, mas os livros demoraram mais a atravessar o Atlântico. De acordo com a Biblioteca Nacional, a coleção foi embalada e chegou em três remessas, entre 1810 e 1811: a primeira em 1810 e as outras duas no ano seguinte. Eram cerca de 60 mil itens, entre livros, manuscritos, mapas e gravuras, sob a responsabilidade do padre Joaquim Dâmaso.

Era preciso um lugar para guardar tudo. Um decreto de 27 de junho de 1810 já mandava instalar a “Real Bibliotheca” e os instrumentos de física e matemática “vindos ultimamente de Lisboa” no hospital da Ordem Terceira do Carmo, ao lado da Capela Real, no centro do Rio. O decreto de 29 de outubro, o que ficou como data de fundação, determinou outro endereço: as antigas catacumbas do Convento do Carmo.

Em discurso no Senado em outubro de 2011, numa sessão que lembrou o bicentenário da instituição, o então presidente da Casa, José Sarney, citou o trecho em que D. João manda acomodar ali “minha Real Biblioteca e instrumentos de física e matemática, fazendo-se à custa da Real Fazenda toda a despesa conducente ao arranjamento e manutenção do referido estabelecimento”. Na mesma fala registrada pelo Senado, ele lembrou que a ordem não foi cumprida: a biblioteca ficou no antigo hospital do Carmo. A consulta começou restrita a estudiosos com licença do rei e só foi aberta ao público em 1814, depois de organizado o acervo.

Como o Brasil comprou a biblioteca de Portugal

Quando D. João VI voltou a Lisboa, em 1821, o padre Joaquim Dâmaso foi junto e levou a maior parte dos manuscritos da coleção, segundo a Biblioteca Nacional. Os livros impressos ficaram no Rio, e a independência, proclamada no ano seguinte, criou um problema: a biblioteca pertencia à Coroa portuguesa.

A questão foi resolvida em 1825. Uma convenção adicional ao Tratado de Paz e Amizade, pelo qual Portugal reconheceu a independência do Brasil, garantiu que a Real Biblioteca permanecesse no país mediante o pagamento de 800 contos de réis. Na prática, o Brasil comprou de Portugal a biblioteca que já estava em seu território.

Depois disso, o acervo não parou de crescer, com coleções compradas e doadas ao longo do século 19. Em 1858, a biblioteca mudou-se para a Rua do Passeio, na Lapa. A coleção original, chamada hoje de Coleção Real Biblioteca, continua identificada e espalhada pelos setores da instituição, conforme o tipo de documento.

O prédio da Cinelândia foi inaugurado no centenário

Fachada da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, vista de baixo para cima num dia de céu azul. O prédio é amarelo-claro, em estilo eclético, com colunas coríntias, frontão triangular, sacada com balaustrada e três arcos na entrada. Uma escadaria leva até a porta, ladeada por postes de luminárias. Dois painéis nos arcos laterais anunciam a exposição "1808, 1818. A construção do Reino do Brasil".
O prédio da Biblioteca Nacional, na Cinelândia, foi inaugurado em 29 de outubro de 1910, no centenário da instituição. Foto: Mike Peel/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O edifício que hoje simboliza a Biblioteca Nacional, na Avenida Rio Branco, de frente para a Cinelândia, também está ligado ao 29 de outubro. A pedra fundamental foi lançada em 15 de agosto de 1905, no governo Rodrigues Alves, durante a reforma que abriu a antiga Avenida Central. A sede foi inaugurada em 29 de outubro de 1910, no dia exato do centenário da instituição.

O projeto é do engenheiro militar Francisco Marcelino de Souza Aguiar, em estilo eclético, com elementos neoclássicos e art nouveau. A decoração interna reuniu artistas como Eliseu Visconti, os irmãos Bernardelli, Modesto Brocos e Rodolfo Amoedo.

A diferença para o Dia Mundial do Livro e o Dia do Livro Infantil

O 29 de outubro também fecha a Semana do Livro, criada pelo Decreto nº 61.527, de 1967, para ir de 23 a 29 de outubro, com comemorações programadas pelo então Ministério da Educação e Cultura e pelo Instituto Nacional do Livro. O decreto, aliás, cita a Lei nº 5.191 como sendo de 18 de dezembro de 1966; o texto publicado no Planalto e no Senado traz a data correta da assinatura, 13 de dezembro.

Fora de outubro, o calendário tem outras duas datas dedicadas ao livro, cada uma com origem própria. O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, em 23 de abril, foi proclamado pela Unesco em 1995. A escolha homenageia escritores que morreram nessa data em 1616: Miguel de Cervantes, William Shakespeare e o Inca Garcilaso de la Vega, como lembra a ONU News. A coincidência é de calendário, porque a Inglaterra ainda usava o calendário juliano e a Espanha já seguia o gregoriano. Todo ano, a data também marca a escolha de uma Capital Mundial do Livro; o Rio de Janeiro teve o título em 2025.

Já o Dia Nacional do Livro Infantil, em 18 de abril, foi criado pela Lei nº 10.402, de 8 de janeiro de 2002, e homenageia o nascimento de Monteiro Lobato, autor de Reinações de Narizinho e da série do Sítio do Picapau Amarelo. Assim, 23 de abril é uma data internacional ligada a autores clássicos, 18 de abril celebra a literatura para crianças e 29 de outubro é a data brasileira que nasceu da história de uma biblioteca.

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