O escritor britânico Lee Child, autor dos thrillers de Jack Reacher, apoia uma campanha que vai distribuir quase meio milhão de livros em prisões do Reino Unido neste outono europeu. A iniciativa da instituição Reading Agency prevê um livro para cada cela das prisões da Inglaterra, do País de Gales, da Escócia e da Irlanda do Norte, além de exemplares para as bibliotecas das unidades, informou o jornal The Guardian.
Child é o primeiro “laureado de leitura nas prisões” do Reino Unido, cargo criado pelo governo britânico para defender a alfabetização como forma de evitar que ex-presos voltem ao crime. Segundo o anúncio oficial do governo, mais de dois terços dos presos chegam à prisão com nível de leitura abaixo do exigido no GCSE, exame que os estudantes britânicos fazem por volta dos 16 anos, e muitos leem no nível do ensino primário.
A campanha faz parte do programa Quick Reads, que publica livros curtos de autores conhecidos para leitores adultos com pouca prática de leitura. Serão distribuídos exemplares de 11 títulos, escolhidos com a participação de presos e de funcionários das prisões. A lista inclui suspense, memórias, bem-estar e um guia de escrita criativa:
- High Heat, novela de Lee Child com Jack Reacher;
- Cell One, thriller de Leye Adenle ambientado em Lagos, na Nigéria;
- Darkness Rising, de A.A. Dhand, da série do detetive Harry Virdee;
- My Name Is Why, livro de memórias do poeta Lemn Sissay;
- Today Everything Changes, de Andy McNab, e The Mind Manual, de Alex George.
Child disse ao Guardian que o objetivo é atacar a “porta giratória” do sistema prisional, quando a pessoa deixa a prisão, não consegue se manter do lado de fora e volta. “Se conseguirmos impedir que um em cada dez volte, isso já seria uma grande conquista”, afirmou (em tradução livre). “Seria bom para a sociedade como um todo, não só para aquele preso e para o seu futuro empregador.”
Segundo o escritor, a dificuldade de leitura se soma ao estigma da condenação na hora de procurar trabalho e atrapalha tarefas básicas. “Você não consegue ler um contrato se quiser alugar um apartamento; não consegue lidar com contas de consumo se não conseguir ler os avisos oficiais”, disse. Child contou que fez de 30 a 40 visitas a prisões e que muitos presos que não leem dizem ter achado chatos os livros da escola. “São livros de verdade, de contadores de histórias de verdade, e não há nada de simples ou infantil neles. Eles só são curtos.”
Ele também rebateu a crítica de que ações desse tipo seriam brandas demais. “O problema da reação pública a esse tipo de coisa é dizer, por reflexo, que é ser mole com o crime. Meu ponto é que não: é ser duro com o crime”, afirmou. A Reading Agency vai promover ainda oficinas com autores, atividades de escrita criativa e conteúdo para a National Prison Radio, a rádio feita dentro das prisões britânicas. O projeto é financiado pela Henry Smith Foundation.
No Brasil, a leitura na prisão tem efeito direto sobre a pena. Pela Resolução 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça, cada livro lido e comprovado com um relatório de leitura reduz a pena em quatro dias, com limite de 12 livros por ano, ou 48 dias, segundo o CNJ. O relatório é avaliado pela Vara de Execuções Penais ou por uma comissão indicada por ela.
Lee Child, nascido em Coventry, na Inglaterra, em 1954, publicou o primeiro livro de Jack Reacher em 1997. No Brasil, os romances da série saem pela Bertrand Brasil. O personagem, um ex-policial militar do Exército americano que vive sem endereço fixo, foi vivido por Tom Cruise nos filmes Jack Reacher: O Último Tiro (2012) e Jack Reacher: Sem Retorno (2016) e por Alan Ritchson na série Reacher, do Prime Video.
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