O escritor Thélyson Orélien, cujo romance C’était ça ou mourir foi retirado da seleção do Prêmio Goncourt sob suspeita de uso de inteligência artificial, admitiu ter plagiado outros autores no início da carreira, mas voltou a negar que o livro tenha sido escrito com IA. A declaração foi enviada por escrito à agência AFP nesta terça-feira (13), depois de três semanas de silêncio, segundo reportagem da AFP publicada pelo jornal suíço Le Matin.
Sobre a acusação de usar IA, Orélien chamou a suspeita de “uma calúnia e uma heresia” (em tradução livre). Ele reconhece ter usado ferramentas digitais na pesquisa, em especial para expressões estrangeiras, mas afirma que “nenhuma frase deste livro foi criada por uma máquina“.
Os plágios admitidos são de outra época. O escritor, de 38 anos, deixou o Haiti e vive no Quebec, no Canadá, desde 2010. Ele diz que copiou textos de outros autores pouco depois de chegar ao país: “Eu tinha pouco mais de 20 anos, sem dúvida estava apressado demais”. E acrescenta: “Admirar não autoriza a tomar”. Orélien pede desculpas “sem reservas”.
A confissão responde a revelações do jornal canadense La Presse. Segundo o diário, uma coluna publicada por Orélien em 2013 era quase toda uma tradução, com pequenas alterações, de um artigo do jornal filipino The Philippine Star.
Na mesma declaração, o autor diz que começou a escrever o romance em 2017 e terminou uma primeira versão em 2019, mas não apresentou documentos que comprovem as datas. O livro, publicado na França pela Grasset, é inspirado na experiência de exílio do autor. Orélien também se queixa da reação à polêmica: “As ameaças, o linchamento midiático e o assédio racista que sofro há semanas são insuportáveis”. Ao mesmo tempo, diz que a crítica “é sempre legítima”.
Relembre o caso
O caso começou em 21 de setembro, quando a conta “Balance ton Claude”, no X, mantida em parte pelo ensaísta Samuel Fitoussi, acusou o escritor de ter usado IA generativa em larga escala. Os autores da conta disseram ter analisado trechos do livro com o Pangram, um programa americano que tenta identificar textos produzidos por máquinas. Ferramentas desse tipo calculam probabilidades e podem apontar como artificial um texto escrito por uma pessoa.
A repercussão foi rápida. A Academia Goncourt tirou o livro da sua seleção, alegando a necessidade de proteger a integridade do prêmio e a missão de promover literatura escrita por pessoas. A Boréal, editora canadense do autor, suspendeu a turnê de divulgação em 25 de setembro, e dois dias depois Orélien cancelou os compromissos públicos na França e voltou ao Quebec.
O romance seguiu em outras frentes. O júri do Prêmio Renaudot, outro dos principais prêmios literários franceses, manteve o livro entre os nove títulos da sua segunda seleção. E as vendas continuaram altas: segundo a AFP, já passam de 65 mil exemplares. Logo depois de sair do Goncourt, o livro chegou a liderar as vendas de ficção francesa.
C’était ça ou mourir (“Era isso ou morrer”, em tradução livre) não tem edição anunciada no Brasil.
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