Depois de décadas enterrando mortos em cemitérios de São Paulo, o coveiro e filósofo Osmair Camargo Cândido vai lançar um livro com as histórias e reflexões que anotou no trabalho. Memórias de um coveiro sai pela editora Fósforo em 23 de novembro, com 208 páginas. A frase que melhor resume a relação dele com o ofício foi dita em entrevista ao jornal O Globo: “Não tenho medo da morte. Tenho preguiça. Vou deixando todos passarem na minha frente.”
Conhecido como Fininho, Osmair tem “sessenta e poucos” anos, como prefere dizer. Nasceu no Méier, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e foi criado na Penha de França, na Zona Leste de São Paulo, onde mora até hoje. Começou a lidar com corpos nos anos 1990, em exumações para exames do Instituto Médico Legal, e trabalhou em necrópoles paulistanas como o Cemitério do Araçá e o da Penha. Aposentou-se em 2023.
Ele registra o que vê nos enterros desde 1997. O livro reúne essas histórias do cemitério com reflexões filosóficas sobre classe, avareza e solidão, além de relatos sobre as condições precárias de trabalho dos coveiros. “A morte é caprichosa. Exige respeito, silêncio e atenção”, disse ao jornal. “Faço mais de um sepultamento ao dia e nenhum é semelhante ao outro.” Segundo as reportagens sobre o lançamento, os textos sobre a pandemia de covid-19 ficaram para outro volume.
A orelha é assinada pela documentarista Camila Appel, amiga do autor, que prepara um documentário sobre a vida dele, ainda sem data. Para ela, o livro “é um chamado para olharmos para este setor que sequer está regulamentado”. A geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, autora de A morte é um dia que vale a pena viver (Sextante), também comenta a obra: “Ele foi testemunha de muita gente abandonada, mas não se esqueceu”, segundo a reportagem reproduzida pelo Correio do Povo Penedo.
O interesse pela filosofia começou na infância, quando Osmair leu um texto de Isaac Newton na escola. Mais tarde, estudou filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Entre os autores que o acompanham estão Platão, Jean-Paul Sartre e, principalmente, Friedrich Nietzsche, que ele lê em alemão. Ele também quer transformar uma das crônicas do livro em peça de teatro.
A história dele já tinha chamado a atenção da imprensa internacional durante a pandemia. Em 2021, numa reportagem da agência AFP reproduzida pela revista colombiana Semana, Osmair contou que já havia sepultado mais de 3 mil pessoas e que o pequeno cemitério da Penha, onde trabalhava, passou de cerca de um enterro por semana para até 18 por dia no pior momento da crise sanitária. “Isso só pode ser visto num livro de Dante Alighieri”, disse à AFP (em tradução livre). Na mesma entrevista, afirmou que, em todos esses anos, viu “muito poucas pessoas preparadas para a morte”. Na época, ele já escrevia o livro e dava aulas de ética a técnicos de necropsia.
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