Pular para o conteúdo

Revista Literatura Online

Graciliano Ramos resumiu numa frase de São Bernardo o que o trabalho pode tirar de quem vive só para ele

Frase do dia: "A profissão é que me deu qualidades tão ruins", de Paulo Honório, no capítulo XXXVI de São Bernardo (1934).

Fotografia em preto e branco de Graciliano Ramos, de perfil, escrevendo com uma caneta-tinteiro em folhas de papel sobre uma mesa. Ele tem cabelo curto penteado para trás, óculos de aro fino, camisa branca de mangas arregaçadas, gravata escura e suspensórios listrados. Ao fundo aparecem uma janela e livros empilhados sobre a mesa. Ampliar a imagem de destaque
Graciliano Ramos, autor de São Bernardo, romance em que Paulo Honório admite: “A profissão é que me deu qualidades tão ruins”.

“Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.” A frase está no último capítulo de São Bernardo, romance que Graciliano Ramos publicou em 1934. Quem fala é Paulo Honório, narrador e protagonista, um fazendeiro alagoano que passou a vida acumulando terra e dinheiro e chega aos 50 anos sozinho, escrevendo à luz de vela.

Numa só frase, Graciliano mostra o que o trabalho pode tirar de quem vive só para ele: o jeito de ganhar a vida acaba moldando quem a pessoa é. Paulo Honório não pede perdão a ninguém. Ele reconhece, tarde demais, que o homem duro em que se transformou foi produzido, dia após dia, pelo ofício que escolheu.

O trecho completo, do capítulo XXXVI, diz:

Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo. Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte! A desconfiança é também consequência da profissão.

Onde a frase aparece em São Bernardo

Aviso: esta seção comenta o capítulo final e menciona a morte de Madalena, sem detalhar como ela acontece.

São Bernardo é a história de uma ascensão contada por quem subiu. Paulo Honório começa a vida como guia de cego e vendedor de cocadas, trabalha no eito da fazenda São Bernardo, no município de Viçosa, em Alagoas, e anos depois compra a propriedade do filho do antigo patrão, Luís Padilha, com uma mistura de empréstimo, pressão e esperteza. A fazenda cresce, e o dono passa a tratar tudo ao redor como parte do patrimônio.

Isso inclui a mulher. Paulo Honório se casa com Madalena, uma professora formada na escola normal, sensível à miséria dos empregados e com ideias que ele chama de “materialismo” e “comunismo”. O casamento vira um campo de desconfiança. O marido sente ciúmes de todos, vigia, interroga, e a convivência se desfaz.

O capítulo XXXVI começa com uma data: “Faz dois anos que Madalena morreu, dois anos difíceis”. Os amigos deixaram de aparecer, a casa está quase deserta, e Paulo Honório decide escrever o livro que o leitor tem nas mãos. É nesse balanço, de madrugada, que surge a frase. Pouco antes, ele repete em voz baixa: “Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente”.

O que a frase quer dizer

A frase tem duas partes, e a força está no contraste entre elas. A primeira admite a culpa (“egoísta e brutal”); a segunda aponta a causa (“a profissão”). Paulo Honório não fala de uma profissão no sentido estreito. Ele chama de profissão o modo de vida inteiro de proprietário: comprar, cobrar, desconfiar, mandar, transformar gente e terra em lucro. Algumas linhas depois, resume: “Foi este modo de vida que me inutilizou”.

O romance não usa a frase como absolvição. No mesmo capítulo, o narrador admite que nada mudaria se tivesse outra chance: “Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige”. A profissão explica a dureza, mas não a apaga. Paulo Honório entende o que aconteceu com ele e, ainda assim, não consegue ser outro.

A forma do livro reforça essa ideia. Graciliano escreve com frases curtas, secas e sem enfeite, um estilo que combina com um narrador que mede tudo em arrobas e mil-réis. Quando Paulo Honório tenta falar de sentimentos, a linguagem parece não ter espaço para eles, e a confissão sai áspera, como tudo o que ele diz.

O que a frase diz a quem lê hoje

Pouca gente é dona de fazenda, mas quase todo mundo conhece a sensação de Paulo Honório. Quem passa anos num trabalho que exige desconfiança, pressa ou frieza pode perceber, um dia, que leva esses hábitos para casa: responde aos filhos como responderia a um fornecedor, mede o tempo com a família pela produtividade, enxerga um adversário em quem só queria conversar. A frase do romance dá nome a esse deslocamento silencioso, em que o ofício deixa de ser algo que a pessoa faz e passa a ser algo que ela é.

O livro não oferece receita para evitar isso. O que ele mostra é o preço de perceber tarde. Paulo Honório só enxerga a mudança quando a casa está vazia e não há mais com quem recomeçar, e a frase, dita para ninguém, fica como um registro honesto de quem descobriu que a vida inteira foi gasta construindo a pessoa errada.

Por que São Bernardo continua sendo lido

São Bernardo foi o segundo romance de Graciliano Ramos, depois de Caetés (1933), e faz parte do chamado Romance de 30, fase do Modernismo brasileiro marcada pela crítica social e pelo retrato do Nordeste. O livro foi levado ao cinema por Leon Hirszman, com Othon Bastos no papel de Paulo Honório.

Graciliano morreu em 1953, e sua obra entrou em domínio público no Brasil em 2024. O romance inteiro pode ser lido gratuitamente na página de São Bernardo na Literatura Online, com download em PDF e EPUB.

Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Os comentários da Revista são feitos com a conta do Literatura Online: a mesma, gratuita, que guarda seu progresso de leitura.