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Revista Literatura Online

José de Alencar deixa em Iracema uma reflexão sobre o que o tempo faz com a dor: “Tudo passa sobre a terra”

A frase final de Iracema, de José de Alencar, e o que ela diz sobre o tempo e a saudade.

Montagem com uma fotografia antiga em preto e branco de José de Alencar, recortada com contorno branco. Ele aparece de barba cheia, cabelo penteado para trás, paletó escuro e gravata-borboleta. O fundo, tirado da capa de uma edição de Iracema, tem folhas de palmeira estilizadas em amarelo sobre laranja e pinceladas vermelhas, laranja e amarelas sobre branco, com uma faixa preta na lateral direita. Ampliar a imagem de destaque
José de Alencar encerra Iracema, romance de 1865, com a frase "Tudo passa sobre a terra". Foto: domínio público. Fundo: Reprodução/Principis

“Tudo passa sobre a terra.” É com essa frase curta que José de Alencar encerra Iracema, romance publicado em 1865. Quem fala é o narrador, no último capítulo, depois de mostrar Martim de volta à praia onde enterrou a mulher amada. O sentido é simples e duro: o tempo apaga até as dores e as histórias que pareciam eternas, e a vida segue sobre elas.

Aviso: como a frase é o próprio final do livro, este texto conta o desfecho de Iracema.

A frase fecha o capítulo XXXIII, depois da descrição das jandaias que já não cantam o nome da heroína:

As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o mavioso nome de Iracema.
Tudo passa sobre a terra.

Onde a frase aparece em Iracema

Iracema conta o amor entre a jovem indígena tabajara, “a virgem dos lábios de mel”, e o colonizador português Martim. Por ele, Iracema abandona seu povo. Os dois vivem juntos no litoral, mas Martim passa cada vez mais tempo em guerras ao lado do amigo Poti, guerreiro potiguara, e Iracema definha de saudade e solidão. Ela dá à luz um filho, a quem chama de Moacir, “o nascido de meu sofrimento”, e morre pouco depois. Martim a enterra ao pé de um coqueiro, à beira do rio, e parte com o menino.

O último capítulo dá um salto no tempo. “O cajueiro floresceu quatro vezes”, escreve Alencar, até que Martim volta ao Ceará, agora para fundar um povoado com outros portugueses e com um padre que planta a cruz na “terra selvagem”. Poti se converte e recebe um nome cristão. Martim vai muitas vezes sentar-se nas areias onde foi feliz, “para cismar e acalentar no peito a agra saudade”. A jandaia, ave que repetia o nome de Iracema desde a morte dela, já não o repete. É aí que entra a frase final.

O sentido de “Tudo passa sobre a terra”

A frase tem uma leitura pessoal e outra histórica, e as duas estão no capítulo. Na pessoal, ela fala da memória. Martim continua sentindo saudade, mas o mundo ao redor esqueceu: até a ave que guardava o nome de Iracema mudou de canto. A dor dele não desaparece; o que passa é o lugar que essa dor ocupa no mundo.

Na leitura histórica, a frase fecha a “lenda do Ceará”, subtítulo que Alencar deu ao livro. No mesmo capítulo, o narrador mostra o sino cristão ressoando “nos vales onde rugia o maracá” e Poti trocando de nome e de deus. O mundo de Iracema, o dos tabajaras e potiguaras, dá lugar ao dos colonizadores. A frase final registra essa passagem sem festa: o que existia antes também passou. É por isso que o livro, criado como mito de origem do Ceará, também expõe as perdas do processo colonial.

O nome da protagonista também foi escolhido com cuidado, e há até quem leia Iracema como anagrama de América. Nessa leitura, a morte da personagem e o esquecimento do seu nome ganham mais um peso: é o continente indígena que fica para trás.

O que a frase diz a quem lê hoje

Quase todo mundo já viveu um momento parecido com o de Martim nas areias. Um término, a morte de alguém próximo, a mudança de cidade: por um tempo, parece que tudo ao redor deveria lembrar daquilo. Depois, a vida retoma o ritmo, as pessoas falam de outras coisas, e a gente percebe que o mundo seguiu enquanto a saudade ficou guardada dentro de um só peito.

A frase de Alencar não diz que a perda deixa de importar, nem promete consolo. Ela apenas constata que o tempo não para por causa de ninguém, e é essa franqueza que a torna útil. Ajuda a entender por que a dor muda de tamanho com os anos e por que é possível continuar vivendo, como Martim, que volta, funda uma cidade e ainda assim vai sentar-se, de vez em quando, à sombra do coqueiro onde Iracema dorme.

Iracema está em domínio público e pode ser lido gratuitamente na página do livro na Literatura Online, com o texto completo e versões em PDF e EPUB.

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