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O Guarani: resumo, personagens e análise do romance de José de Alencar

Pintura Ceci e Peri, de Pedro Bruno, com Peri ajoelhado diante de Ceci na mata, ao lado da folha de rosto amarelada de uma edição antiga de O Guarany
À esquerda, Ceci e Peri, de Pedro Bruno; à direita, folha de rosto de O Guarany: romance brasileiro, em edição impressa em Rio Grande (Reprodução: Wikimedia Commons)

O Guarani é o romance mais popular de José de Alencar e um dos livros centrais do Romantismo brasileiro. Publicado em 1857, tem um resumo fácil de guardar: a devoção do indígena Peri pela jovem Cecília, filha de um fidalgo português, no interior do Rio de Janeiro do início do século XVII.

O livro é leitura frequente no ensino médio e nos vestibulares porque reúne as marcas do indianismo, a vertente romântica que transformou o indígena em herói nacional.

O Guarani: resumo do enredo

O Guarani narra a história da família de D. Antônio de Mariz, fidalgo português que vive numa casa fortificada às margens do rio Paquequer, na região da serra dos Órgãos. A ação se passa em 1604, quando Portugal estava sob o domínio da coroa espanhola, algo que D. Antônio se recusa a aceitar.

Na casa vivem a mulher de D. Antônio, D. Lauriana; o filho, D. Diogo; a filha, Cecília, chamada de Ceci; e Isabel, apresentada como sobrinha. Em volta da família há um grupo de aventureiros a serviço do fidalgo. Perto dali vive Peri, chefe indígena da nação goitacá.

Peri entra na vida da família ao salvar Ceci de uma pedra que rolava em sua direção. A partir daí, dedica a vida a protegê-la. Ele atende a cada desejo da moça, enfrenta uma onça viva para satisfazer uma curiosidade dela e vigia a casa dia e noite.

Pintura Ceci e Peri, de Pedro Bruno, com Peri ajoelhado diante de Ceci na mata, ao lado da folha de rosto amarelada de uma edição antiga de O Guarany
À esquerda, Ceci e Peri, de Pedro Bruno; à direita, folha de rosto de O Guarany: romance brasileiro, em edição impressa em Rio Grande (Reprodução: Wikimedia Commons)

O conflito começa quando D. Diogo, durante uma caçada, mata sem querer uma jovem indígena da nação aimoré. Os aimorés juram vingança e cercam a casa. Ao mesmo tempo, o aventureiro Loredano trama uma rebelião: quer tomar a casa, sequestrar Ceci e encontrar uma mina de prata cujo mapa roubou.

Peri descobre a conspiração e, sozinho, tenta salvar a família dos dois perigos. Diante do cerco, arma um plano extremo: toma veneno e se deixa capturar, para que os aimorés, ao devorá-lo no ritual antropofágico, morram envenenados. O plano é interrompido, e ele sobrevive.

No desfecho, a casa está perdida. D. Antônio batiza Peri, entrega a filha aos cuidados dele e explode o próprio casarão para não cair nas mãos dos inimigos. Peri e Ceci fogem de canoa e enfrentam uma grande enchente. Peri arranca uma palmeira, e os dois sobem nela enquanto as águas cobrem tudo. O romance termina com a palmeira desaparecendo no horizonte, sem dizer o que acontece com o casal.

As quatro partes de O Guarani

O Guarani é dividido em quatro partes:

  • Os aventureiros: apresenta a casa de D. Antônio, a família e os homens que vivem sob sua proteção.
  • Peri: volta no tempo para contar como o indígena conheceu Ceci e passou a servi-la.
  • Os aimorés: mostra a morte da jovem indígena, o cerco e o avanço da conspiração de Loredano.
  • A catástrofe: reúne o ataque final, a destruição da casa e a fuga de Peri e Ceci.

A divisão em partes e os capítulos terminados em suspense têm explicação: o livro saiu primeiro em capítulos no jornal, e o autor precisava prender o leitor de um dia para o outro.

Personagens de O Guarani

Os personagens de O Guarani se dividem entre a família Mariz, os aventureiros e os indígenas. Os principais são:

  • Peri: chefe goitacá, forte, leal e corajoso. É o herói do romance e age como um cavaleiro medieval diante de sua dama.
  • Cecília (Ceci): filha de D. Antônio, loira de olhos azuis, delicada e alegre. Começa tratando Peri como um servo e termina vendo nele um igual.
  • D. Antônio de Mariz: fidalgo português, honrado e fiel ao rei de Portugal. Representa a nobreza colonial idealizada.
  • D. Lauriana: esposa de D. Antônio, desconfia de Peri e demonstra preconceito contra ele.
  • D. Diogo de Mariz: filho do casal, cuja ação impensada provoca a guerra com os aimorés.
  • Isabel: filha de D. Antônio com uma mulher indígena, criada como sua sobrinha. Morena e apaixonada, representa a figura mestiça do romance.
  • Álvaro de Sá: jovem cavaleiro português, primeiro apaixonado por Ceci e depois correspondido por Isabel.
  • Loredano: aventureiro italiano, na verdade um frade que abandonou a ordem. É o vilão movido pela cobiça.

O contraste entre Ceci e Isabel é um dos pontos mais cobrados em provas. Ceci é a heroína idealizada, branca e pura. Isabel, mestiça, sofre por não ter lugar definido naquela família, e seu amor por Álvaro termina em tragédia: ela morre junto ao corpo do amado, morto no combate com os aimorés.

Análise de O Guarani

O Guarani é um romance indianista, histórico e de aventura. As três classificações ajudam a entender o que Alencar pretendia com o livro.

O indígena como herói nacional

O indianismo foi a principal resposta do Romantismo brasileiro a uma pergunta da época: depois da Independência, em 1822, o que diferenciava a literatura do Brasil da literatura de Portugal? Os românticos europeus buscavam heróis na Idade Média. Os brasileiros encontraram no indígena um herói anterior à colonização.

Peri é construído com as virtudes de um cavaleiro: coragem, lealdade e devoção absoluta à sua dama. Por isso, a crítica costuma dizer que ele é um indígena idealizado com valores europeus, mais próximo dos heróis dos romances de cavalaria do que dos povos indígenas reais.

A submissão de Peri

Uma das leituras mais importantes do livro está na relação entre Peri e os portugueses. Peri serve Ceci, aceita o batismo cristão e abandona a própria gente. Os aimorés, por outro lado, aparecem como selvagens cruéis.

Leitores e críticos do século XX apontaram nessa divisão um problema: o “bom selvagem” do romance é aquele que se submete ao colonizador. Essa leitura crítica não diminui a importância histórica do livro, mas ajuda a entender os limites do projeto romântico de identidade nacional.

O mito de origem do Brasil

O final não é só uma cena de ação. Pouco antes da enchente, Peri conta a Ceci a lenda de Tamandaré, o homem que sobreviveu a um dilúvio no alto de uma palmeira e deu origem a um novo povo. A fuga dos dois repete essa lenda.

A união do indígena com a filha do fidalgo sugere o nascimento de um povo novo, fruto das duas culturas. É uma leitura simbólica que se repete em Iracema, publicado em 1865, em que a união de uma indígena com um português gera Moacir, o primeiro cearense.

Natureza e linguagem

Alencar descreve a paisagem brasileira com cores fortes e comparações grandiosas. O rio Paquequer, as florestas e os animais aparecem como parte da identidade do país, não só como cenário.

O autor também incorpora palavras de origem tupi e defende uma língua literária brasileira, com vocabulário e ritmo próprios. Essa preocupação reaparece em toda a sua obra e rendeu a ele polêmicas com escritores portugueses.

Como O Guarani foi publicado

O Guarani saiu primeiro em folhetim, isto é, em capítulos publicados no rodapé do jornal. A publicação começou em 1º de janeiro de 1857 no Diário do Rio de Janeiro, e o livro foi lançado no fim do mesmo ano, com poucas alterações.

O folhetim fez enorme sucesso e tornou Alencar o romancista mais popular do país. Segundo a biografia do autor na Academia Brasileira de Letras, foi com O Guarani que ele se revelou um escritor maduro e conquistou grande popularidade. Anos depois, Alencar seria escolhido por Machado de Assis como patrono da cadeira 23 da ABL.

O romance faz parte do conjunto indianista do autor, ao lado de Iracema (1865) e Ubirajara (1874). Alencar também escreveu romances urbanos, como Lucíola, e regionalistas, num projeto de retratar o Brasil por inteiro.

Adaptações de O Guarani

A adaptação mais famosa é a ópera Il Guarany, de Carlos Gomes, que estreou em 1870 no Teatro alla Scala, em Milão. A abertura da ópera ficou conhecida no país inteiro porque passou a abrir o programa de rádio A Voz do Brasil.

O livro também ganhou versões no cinema, como os filmes de Fauzi Mansur (1979) e de Norma Bengell (1996), além de uma minissérie da TV Manchete exibida em 1991.

Perguntas frequentes

Qual é a tribo de Peri em O Guarani?

Peri pertence à nação goitacá, e não aos guaranis, apesar do título. Alencar usou “guarani” como nome genérico para o indígena brasileiro. Os inimigos da família de D. Antônio são os aimorés.

Peri e Ceci ficam juntos no final de O Guarani?

O livro não responde. A última cena mostra os dois sobre uma palmeira arrastada pela enchente, desaparecendo no horizonte. O final aberto sugere a união do casal e o nascimento simbólico de um novo povo, como na lenda de Tamandaré contada por Peri.

Por que Isabel é chamada de sobrinha de D. Antônio?

Isabel é filha de D. Antônio com uma mulher indígena, fora do casamento. Para evitar o escândalo, ela é criada como sobrinha. Essa condição explica o isolamento da personagem dentro da família e o tratamento hostil de D. Lauriana.

Qual a diferença entre O Guarani e Iracema?

Os dois são romances indianistas de Alencar, mas invertem os papéis. Em O Guarani, o herói é um homem indígena que se dedica a uma mulher branca. Em Iracema, a heroína é uma mulher indígena que se apaixona por um português. Iracema também tem linguagem mais poética e enredo mais curto.

O Guarani é romance histórico?

Em parte. A história se passa em 1604 e usa fatos reais como pano de fundo, como a união das coroas de Portugal e Espanha. D. Antônio de Mariz foi inspirado num fidalgo que existiu de fato, mas o enredo e os demais personagens são invenção do autor.

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