Quando Fernando Pessoa morreu em Lisboa, em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, tinha publicado em português um único livro, Mensagem, lançado um ano antes. Quase todo o resto da obra estava guardado numa arca de madeira cheia de papéis soltos: poemas, textos em prosa, cartas, horóscopos e listas de projetos, muitos assinados por Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e outros autores que ele inventou.
Os papéis e o móvel tiveram destinos diferentes. O conteúdo foi comprado pelo Estado português em 1979 e hoje soma perto de 30 mil folhas na Biblioteca Nacional de Portugal. A arca ficou com a família, foi a leilão em Lisboa em novembro de 2008 e acabou nas mãos de um proprietário que nunca se identificou. O paradeiro dela não é público.
O que havia dentro da arca
A arca guardava o que Pessoa escreveu ao longo de três décadas e não chegou a publicar. Segundo o pesquisador Pedro Sepúlveda, da Universidade Nova de Lisboa, quando o espólio foi inventariado, em 1988, as responsáveis contaram 27.543 folhas. Aquisições posteriores aproximaram o arquivo das 30 mil, de acordo com o artigo que ele publicou em 2014 na revista MatLit, da Universidade de Coimbra.

Pessoa não deixou os papéis em desordem completa. A pesquisadora Maria Aliete Galhoz, uma das primeiras a trabalhar no acervo, descreveu a “célebre e verídica arca dos seus papéis”, que, segundo ela, “guardava primitivamente sacos de papel e embrulhos atados com cordéis, contendo os seus escritos num primeiro delineamento de classificação”, com o conteúdo anotado por fora, pela mão do poeta. Esses embrulhos se perderam quando o arquivo foi reorganizado. O que resta deles é uma fotografia antiga, hoje em coleção particular, que mostra grandes envelopes enchendo a arca diante de uma estante de livros.
Dessas folhas saiu boa parte do Pessoa que se lê hoje. O caso mais conhecido é o Livro do Desassossego, conjunto de fragmentos em prosa atribuídos ao semi-heterônimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros em Lisboa. Heterônimo, no vocabulário de Pessoa, é um autor fictício com biografia, estilo e visão de mundo próprios; o “semi” indica uma personalidade muito próxima à do criador. O livro só ganhou a primeira edição em 1982, pela editora Ática, organizada por Jacinto do Prado Coelho a partir das transcrições de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Como Pessoa não deixou uma ordem definitiva para os fragmentos, as edições seguintes os organizaram de maneiras diferentes.
Por que Pessoa publicou tão pouco em vida
Pessoa colaborou em revistas como Orpheu, Athena e Presença e lançou poemas em inglês em pequenas edições, mas adiou os livros em português. Ele mesmo explicou os planos numa carta de 13 de janeiro de 1935 ao crítico Adolfo Casais Monteiro, disponível no Wikisource. Sobre Mensagem, escreveu: “Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto.”
Na mesma carta, Pessoa contou que, entre os livros seguintes, pensava apenas nos que assinaria com o próprio nome. Os heterônimos ficariam para depois, e ele fez a ressalva com ironia:
Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel.
Em novembro daquele ano, Pessoa morreu. Os poemas de Caeiro, Reis e Campos que ainda não tinham saído em revistas continuavam na arca, à espera de editores.
Como os papéis foram para a Biblioteca Nacional e o móvel foi a leilão
Depois da morte do poeta, a arca passou décadas com os herdeiros, sem tratamento especializado. O Estado português comprou o conjunto de papéis no fim de 1979 e o entregou à Biblioteca Nacional, onde ele recebeu a cota E3, usada até hoje pelos pesquisadores para identificar cada folha. O móvel, porém, ficou com a família.
Em 2008, quando se completavam 120 anos do nascimento de Pessoa, os herdeiros puseram à venda o que ainda tinham dele. O leilão, organizado pela leiloeira P4, aconteceu em 13 de novembro de 2008, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Segundo a RTP, a arca entrou no catálogo com lance inicial de 50 mil euros e estimativa de chegar a 100 mil. O mesmo valor mínimo foi fixado para o dossiê com papéis sobre a relação de Pessoa com o ocultista inglês Aleister Crowley, que o leiloeiro Luís Trindade descreveu à agência Lusa como “muito cobiçado internacionalmente”.
O governo usou o direito de preferência, que permite ao Estado comprar bens culturais pelo valor alcançado em leilão. Conforme a TVI, ficou com 14 lotes por 157 mil euros, entre eles o dossiê Crowley, uma carta que Pessoa escreveu a si mesmo no dia do próprio aniversário e uma folha com a tradução de Hamlet, de Shakespeare. Trindade disse à Lusa que avaliava processar o Estado. A arca não estava entre os lotes comprados: o artigo de Sepúlveda registra que o móvel foi adquirido por um proprietário anônimo.
Diante dos leilões anunciados pelos herdeiros, a Biblioteca Nacional já tinha aberto, em outubro de 2008, o processo para proteger o acervo. Em 2009, o espólio de Pessoa foi classificado como “tesouro nacional”, o que proíbe a saída dos documentos do território português.
Onde ver os papéis da arca hoje
Quem quiser ver as folhas de perto não precisa ir a Lisboa. A Biblioteca Nacional de Portugal mantém o site Espólio Fernando Pessoa, com manuscritos digitalizados de acesso gratuito, organizados em seções como os poemas de Alberto Caeiro, os originais de Mensagem e os cadernos do poeta. Nas imagens aparecem a letra do poeta, as rasuras e as correções que ele fazia à mão.
Pesquisadores continuam a publicar textos inéditos e novas edições a partir dessas folhas, quase nove décadas depois da morte do poeta. Já a arca de madeira que guardou tudo isso segue fora do alcance do público.
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