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Revista Literatura Online

Annie Ernaux e mais de 200 escritoras acusam prêmios franceses de sexismo, e nem o Femina escapou

Carta aberta no Libération critica os cinco grandes prêmios franceses de 2026, todos vencidos por homens.

Foto em close de Annie Ernaux, escritora idosa de cabelos longos grisalhos e olhos claros, sorrindo levemente. Ela usa brincos escuros, e ao fundo aparecem estantes com livros. Ampliar a imagem de destaque
Annie Ernaux, Nobel de Literatura de 2022, está entre as mais de 200 escritoras que assinaram uma carta contra os prêmios literários franceses de 2026, todos dados a homens. Foto: 2cordevocali/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Mais de 200 escritoras, entre elas a Nobel de Literatura Annie Ernaux, assinaram uma carta aberta contra os grandes prêmios literários da França, que em 2026 foram todos para homens. O texto saiu na sexta-feira (6) no site do jornal Libération, com o título “O velho sistema do compadrio patriarcal funciona a pleno vapor” (em tradução livre).

A carta mira os cinco principais prêmios da temporada de outono, a chamada rentrée littéraire: o Goncourt, que foi para Philippe Jaenada; o Renaudot, para François-Henri Désérable; o Femina, para Yannick Haenel; o Médicis, para Philippe Vasset; e o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa, para Sébastien Lapaque. “Os júris realizaram a façanha heroica de premiar apenas homens”, ironizam as autoras, segundo a agência AFP.

A lista de 2026 inclui um caso que chama atenção. O Femina nasceu em 1904 justamente como resposta ao Goncourt, considerado misógino, depois que o prêmio daquele ano deixou de lado a favorita, Myriam Harry. Criado por 22 colaboradoras da revista La Vie heureuse, ele tem até hoje um júri formado só por mulheres. Neste ano, escolheu La solitude des professeurs est infinie, de Yannick Haenel. No Médicis, o júri premiou o único homem de uma lista final que tinha outras seis autoras, de acordo com a emissora suíça RTS.

A crítica vai além dos nomes. As signatárias apontam que os júris franceses são escolhidos por cooptação (os próprios membros indicam os novos) e que a maioria dos jurados ocupa a cadeira por toda a vida. Também afirmam que livros sobre temas vistos como “femininos” são mantidos à distância, e citam o incesto, assunto de vários romances desta temporada. A proposta é trocar esse modelo por júris rotativos e paritários, “representando uma verdadeira diversidade editorial”.

O texto também trata de dinheiro. Na França, a cinta de um grande prêmio na capa costuma multiplicar as vendas de um livro. “O que esse resultado diz é que nenhuma autora vai ter a tranquilidade material” que os prêmios garantem aos vencedores, escrevem as escritoras. Elas não pedem prêmios automáticos para mulheres. Pedem que os leitores confiem nos livreiros que recomendam outros títulos e que os livros de autoras continuem circulando.

A carta foi idealizada pela filósofa Camille Froidevaux-Metterie e pelas escritoras Louise Chennevière e Anne Godard. Entre as signatárias estão ainda Virginie Despentes, Anne Berest, Lola Lafon, Léonor de Récondo e Adèle Yon. Duas delas ganharam prêmios menores nesta temporada: Godard levou o Prêmio Décembre, e Lucie Rico, o Prêmio de Flore. Até a publicação desta notícia, os júris dos prêmios citados não haviam respondido publicamente.

A principal assinatura é bem conhecida dos leitores brasileiros. Annie Ernaux, Nobel de 2022, tem livros como Os Anos, O Lugar e O Acontecimento publicados no Brasil pela editora Fósforo. O vencedor do Goncourt, Jaenada, ganhou o prêmio com L’Inconnue du quai de Javel, romance que reabre um crime de 1949 com a ajuda do comissário Maigret, e nesta semana admitiu ter escondido no livro uma frase escrita pelo ChatGPT. O romance ainda não tem edição brasileira.

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