Um prêmio literário francês dedicado a livros escritos com a ajuda de inteligência artificial abriu inscrições nesta terça-feira (20). O Prix Pascal de Littérature IA vai receber até 30 de novembro manuscritos inéditos de ficção coescritos com ferramentas como ChatGPT, Claude, Gemini, Mistral e LLaMA, e promete ao vencedor uma premiação em dinheiro e a publicação do livro. O resultado sai no início de dezembro.
O prêmio chega depois de meses de discussão sobre o uso de IA por autores premiados ou finalistas, inclusive no Goncourt, o principal prêmio literário da França. Os organizadores tentam se afastar da ideia de competição técnica. “Um júri de autores e críticos recompensa a melhor obra coescrita com uma IA. Este prêmio não é um concurso de tecnologia”, diz o site oficial do Prix Pascal (em tradução livre).
Cada candidatura tem três partes, entregues juntas. A primeira é a “semente”, um texto de cerca de 4 mil caracteres (umas duas páginas) que apresenta a ideia do livro. A segunda é o manuscrito, inédito, em francês, com cerca de 300 mil caracteres com espaços e enviado anonimamente. A terceira é um dossiê técnico que informa o modelo de linguagem usado e os comandos (prompts) ou agentes que geraram o texto. Segundo o regulamento, a ferramenta escolhida é informação para o júri, não critério de eliminação.
Qualquer pessoa pode concorrer, de qualquer país e sem precisar de editora, mas a única língua aceita é o francês. Isso deixa de fora quem escreve só em português. O tema também tem uma exigência: a obra deve ser útil, alertar ou ajudar a resolver, com originalidade, algum dos desafios ecológicos, sociais e éticos que ameaçam a humanidade. Se o autor vencedor concordar, a semente da obra premiada será divulgada para alimentar o debate sobre a escrita em parceria com máquinas.
O júri terá cinco integrantes, entre escritores, críticos, editores, filósofos e jornalistas, e os nomes serão anunciados no começo de novembro. Ele escolhe dez finalistas no fim de novembro e o vencedor em uma cerimônia em Paris, no início de dezembro. O valor do prêmio em dinheiro não foi divulgado.
Segundo o jornal britânico The Guardian, o Prix Pascal foi criado por três empresários do setor de tecnologia: Philippe Rodriguez, sócio de uma consultoria de fusões e aquisições e figura conhecida do mercado de criptomoedas na Europa; Albin Serviant, empreendedor de mídia digital; e Gilles Mentré, doutor em filosofia e professor em Harvard e na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne. O nome homenageia Blaise Pascal, matemático e filósofo do século 17 que, aos 19 anos, inventou a Pascalina, uma das primeiras calculadoras mecânicas, e escreveu os Pensamentos, um dos clássicos da prosa francesa. Para os organizadores, Pascal é o exemplo de alguém que foi, ao mesmo tempo, pioneiro da máquina e mestre da língua.
A desconfiança em relação à IA marcou a temporada de prêmios na França. O romance C’était ça ou mourir, do haitiano-canadense Thélyson Orélien, foi retirado da seleção do Goncourt em setembro, depois de uma conta anônima no X acusar o autor de ter usado IA generativa em larga escala. Orélien nega e chamou a suspeita de “uma calúnia e uma heresia”, em declaração à agência AFP. O Guardian cita ainda polêmicas semelhantes em 2026 no prêmio de contos da Commonwealth e no Prêmio Caine, dedicado à literatura africana.
No Brasil, o tema chegou ao Prêmio Jabuti em 2023, quando um livro foi desclassificado da categoria Ilustração por usar imagens criadas no Midjourney. Este ano, o designer do caso, Vicente Pessôa, voltou à disputa do Jabuti na categoria Capa, e a Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora do prêmio, reafirmou que a IA não é permitida na criação autoral.
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