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Revista Literatura Online

Prêmio francês para livros escritos com IA abre inscrições meses depois da polêmica no Goncourt

Prix Pascal de Littérature IA recebe até 30 de novembro manuscritos em francês coescritos com IA; vencedor terá o livro publicado.

Montagem dividida ao meio. À esquerda, um robô humanoide branco, com partes mecânicas aparentes na cabeça e no pescoço, está de perfil e apoia o queixo na mão, como quem pensa. À direita, uma pintura a óleo de Blaise Pascal, de cabelos longos e castanhos, gola branca larga e capa escura, olhando para a frente sobre um fundo escuro. Ampliar a imagem de destaque
O Prix Pascal de Littérature IA, prêmio francês para livros coescritos com inteligência artificial, homenageia o matemático e filósofo Blaise Pascal. Retrato: autor desconhecido, cópia da pintura de François II Quesnel/Wikimedia Commons

Um prêmio literário francês dedicado a livros escritos com a ajuda de inteligência artificial abriu inscrições nesta terça-feira (20). O Prix Pascal de Littérature IA vai receber até 30 de novembro manuscritos inéditos de ficção coescritos com ferramentas como ChatGPT, Claude, Gemini, Mistral e LLaMA, e promete ao vencedor uma premiação em dinheiro e a publicação do livro. O resultado sai no início de dezembro.

O prêmio chega depois de meses de discussão sobre o uso de IA por autores premiados ou finalistas, inclusive no Goncourt, o principal prêmio literário da França. Os organizadores tentam se afastar da ideia de competição técnica. “Um júri de autores e críticos recompensa a melhor obra coescrita com uma IA. Este prêmio não é um concurso de tecnologia”, diz o site oficial do Prix Pascal (em tradução livre).

Cada candidatura tem três partes, entregues juntas. A primeira é a “semente”, um texto de cerca de 4 mil caracteres (umas duas páginas) que apresenta a ideia do livro. A segunda é o manuscrito, inédito, em francês, com cerca de 300 mil caracteres com espaços e enviado anonimamente. A terceira é um dossiê técnico que informa o modelo de linguagem usado e os comandos (prompts) ou agentes que geraram o texto. Segundo o regulamento, a ferramenta escolhida é informação para o júri, não critério de eliminação.

Qualquer pessoa pode concorrer, de qualquer país e sem precisar de editora, mas a única língua aceita é o francês. Isso deixa de fora quem escreve só em português. O tema também tem uma exigência: a obra deve ser útil, alertar ou ajudar a resolver, com originalidade, algum dos desafios ecológicos, sociais e éticos que ameaçam a humanidade. Se o autor vencedor concordar, a semente da obra premiada será divulgada para alimentar o debate sobre a escrita em parceria com máquinas.

O júri terá cinco integrantes, entre escritores, críticos, editores, filósofos e jornalistas, e os nomes serão anunciados no começo de novembro. Ele escolhe dez finalistas no fim de novembro e o vencedor em uma cerimônia em Paris, no início de dezembro. O valor do prêmio em dinheiro não foi divulgado.

Segundo o jornal britânico The Guardian, o Prix Pascal foi criado por três empresários do setor de tecnologia: Philippe Rodriguez, sócio de uma consultoria de fusões e aquisições e figura conhecida do mercado de criptomoedas na Europa; Albin Serviant, empreendedor de mídia digital; e Gilles Mentré, doutor em filosofia e professor em Harvard e na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne. O nome homenageia Blaise Pascal, matemático e filósofo do século 17 que, aos 19 anos, inventou a Pascalina, uma das primeiras calculadoras mecânicas, e escreveu os Pensamentos, um dos clássicos da prosa francesa. Para os organizadores, Pascal é o exemplo de alguém que foi, ao mesmo tempo, pioneiro da máquina e mestre da língua.

A desconfiança em relação à IA marcou a temporada de prêmios na França. O romance C’était ça ou mourir, do haitiano-canadense Thélyson Orélien, foi retirado da seleção do Goncourt em setembro, depois de uma conta anônima no X acusar o autor de ter usado IA generativa em larga escala. Orélien nega e chamou a suspeita de “uma calúnia e uma heresia”, em declaração à agência AFP. O Guardian cita ainda polêmicas semelhantes em 2026 no prêmio de contos da Commonwealth e no Prêmio Caine, dedicado à literatura africana.

No Brasil, o tema chegou ao Prêmio Jabuti em 2023, quando um livro foi desclassificado da categoria Ilustração por usar imagens criadas no Midjourney. Este ano, o designer do caso, Vicente Pessôa, voltou à disputa do Jabuti na categoria Capa, e a Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora do prêmio, reafirmou que a IA não é permitida na criação autoral.

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