Clara dos Anjos é o último romance de Lima Barreto e conta a história de uma moça negra e pobre do subúrbio carioca seduzida e abandonada por Cassi Jones, um tocador de violão branco que coleciona vítimas sem nunca ser punido. Clara tem 17 anos, é filha de um carteiro e vive protegida pelos pais. Quando engravida e o sedutor foge, ela descobre que a cor da pele e a pobreza a deixam sem nenhum amparo diante da sociedade.
A análise do livro passa por três temas que se cruzam: o racismo, o machismo que culpa a mulher pela própria desgraça e a vida nos subúrbios do Rio de Janeiro no começo do século XX, abandonados pelo poder público. Lima Barreto morreu em 1922 sem ver o livro impresso. O romance saiu primeiro em folhetim, entre janeiro de 1923 e maio de 1924, e só ganhou edição em livro em 1948.
Obra do Pré-Modernismo, Clara dos Anjos está em domínio público e é leitura obrigatória do Vestibular Unificado UFSC/IFC 2027. A seguir, o resumo completo (com o final), os personagens, a análise dos temas e a história da publicação.
Resumo de Clara dos Anjos
Clara dos Anjos narra como Cassi Jones de Azevedo se aproxima de uma família humilde, conquista a confiança da filha do casal, a engravida e desaparece, deixando a jovem diante do desprezo da família dele. O resumo abaixo revela o desfecho do romance.
A festa de aniversário e a chegada de Cassi Jones
O carteiro Joaquim dos Anjos, mineiro dos arredores de Diamantina, mora numa casa simples nos subúrbios da Central do Brasil com a mulher, Engrácia, e a única filha viva, Clara. Aos domingos, joga cartas sob um tamarineiro com o compadre Marramaque, padrinho da menina, e com o português Lafões, guarda das obras públicas. É Lafões quem pede para levar à festa de aniversário de Clara um “mestre do violão e da modinha”: Cassi. Marramaque reage na hora: “Você dá-se com semelhante pústula?”.
Mesmo assim, Joaquim autoriza a visita por uma noite. Cassi canta, encanta a aniversariante e percebe que o padrinho é o principal obstáculo. Depois da festa, Engrácia e Joaquim decidem que o violeiro não volta mais à casa, e Clara, que ouve a conversa do quarto, chora em silêncio.
O cerco a Clara e a morte de Marramaque
Proibido de frequentar a casa, Cassi passa a agir por intermediários. O principal é Meneses, um velho dentista sem diploma, alcoólatra e miserável, chamado por Joaquim para tratar os dentes da filha. Em troca de dinheiro, Meneses leva e traz cartas, e Cassi ainda lhe encomenda versos que deveriam ser escritos pelo poeta Leonardo Flores. Clara, que tinha visto no violeiro um rapaz modesto e delicado, acredita nas promessas de emprego e casamento.
Marramaque recebe pelo correio um dossiê sobre Cassi, com fotografias, notícias de jornal e a lista dos processos, e o entrega ao compadre. Arnaldo, comparsa do violeiro, ouve a conversa e conta tudo a Cassi; pouco depois, uma carta da própria Clara relata a oposição do padrinho. Cassi decide eliminá-lo. Numa noite de chuva, Marramaque é morto a pauladas por dois homens no caminho de casa. O romance deixa claro que os autores são Cassi e Arnaldo, mas a polícia não descobre os culpados.
A gravidez, a fuga e o desfecho
Com o padrinho morto, Clara aceita encontrar Cassi à noite e acaba seduzida. Grávida, ela espera em vão pelas visitas do namorado, que vende seus galos de briga e embarca para São Paulo, com medo de ser descoberto. Desesperada, Clara pensa em abortar e pede dinheiro emprestado a Dona Margarida, a vizinha que lhe ensina bordado. Margarida desconfia, arranca a confissão e leva a moça para contar tudo à mãe.
Em seguida, Margarida e Clara vão à casa da família de Cassi pedir que ele se case com a jovem. Dona Salustiana, mãe do sedutor, responde com um insulto racista: “Que é que você diz, sua negra?”. O pai, Manuel de Azevedo, diz que não tem autoridade sobre o filho e chega a pedir perdão a Clara por ter dado vida “a esse bandido”. De volta para casa, Clara abraça a mãe e encerra o romance com a frase “Nós não somos nada nesta vida.”
Personagens de Clara dos Anjos
Os personagens de Clara dos Anjos formam um retrato do subúrbio carioca, com trabalhadores pobres, funcionários modestos e uma família de classe média que se julga superior aos vizinhos.
- Clara dos Anjos: protagonista, 17 anos, filha única do carteiro. Criada com “desvelo, recato e carinho”, sai pouco de casa e sonha com o casamento. Ingênua, vê em Cassi um noivo sincero.
- Cassi Jones de Azevedo: antagonista, branco, sardento, com “pouco menos de trinta anos”. O narrador diz que ele contava “perto de dez defloramentos e a sedução de muito maior número de senhoras casadas”. Vive de jogo, briga de galos e pequenas comissões.
- Joaquim dos Anjos: pai de Clara, carteiro, flautista e compositor de modinhas. Honesto e pouco ambicioso, aposta na vida discreta como proteção para a família.
- Engrácia: mãe de Clara, dona de casa religiosa e passiva, que entrega ao marido todas as decisões.
- Antônio da Silva Marramaque: padrinho de Clara, contínuo de ministério semiparalisado, que frequentou rodas de poetas boêmios. É o único que enfrenta Cassi e paga com a vida.
- Dona Salustiana Baeta de Azevedo: mãe de Cassi, vaidosa, inventa um avô inglês ilustre e protege o filho de todos os processos porque não admite vê-lo casado com moça pobre.
- Manuel Borges de Azevedo: pai de Cassi, funcionário público severo, que despreza o filho mas não consegue contê-lo.
- Dona Margarida Weber Pestana: vizinha viúva, nascida em Riga, filha de alemão. Corajosa e firme, é a única adulta que age quando a gravidez é descoberta.
- Lafões: português, guarda das obras públicas, parceiro de cartas de Joaquim. Leva Cassi à casa sem medir as consequências.
- Meneses: dentista prático, velho e alcoólatra, que serve de mensageiro entre Cassi e Clara e depois sente remorso.
- Leonardo Flores: poeta decadente e alcoólatra, de quem saem os versos usados nas cartas do sedutor.
- Nair: vítima anterior de Cassi. Quando ela engravida, a mãe pede ajuda à família dele, é despedida por Salustiana e se suicida.
Análise de Clara dos Anjos: racismo, machismo e subúrbio
Clara dos Anjos é um romance de denúncia social: Lima Barreto usa um caso de sedução, comum nas páginas policiais da época, para mostrar como cor, classe e gênero decidem quem tem direito a justiça.
Racismo
O racismo é o tema central do romance, e ele aparece tanto no insulto direto quanto na engrenagem social. Cassi escolhe vítimas “de humilde condição e de todas as cores”, desde que não tenham parentes capazes de enfrentá-lo. A mãe dele o protege porque lhe repugnava ver o filho casado “com uma criada preta, ou com uma pobre mulata costureira, ou com uma moça branca lavadeira e analfabeta”. Na cena final, a frase de Salustiana deixa explícito o que estava implícito desde o começo.
A tomada de consciência de Clara acontece no bonde, depois da humilhação. Ela entende que não era “uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos”. O narrador completa que nada a fazia inferior às outras, “senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam”. O livro critica também a educação que a jovem recebeu: os pais a protegeram do mundo, mas não a prepararam para reconhecer a violência dele.
Machismo e a condição da mulher
O romance mostra uma sociedade em que a honra da mulher vale tudo e a do homem não vale nada. Cassi escapa de processos com advogados que difamam as vítimas, e a própria Salustiana resume a lógica: “A culpa é delas, só delas…”. O sedutor tem até uma teoria para se absolver: “Não se pode contrariar dois corações que se amam com sincera paixão.”
Os destinos femininos do livro formam um padrão. A mãe de Nair se mata; Clara pensa em suicídio e em aborto; e Clara se lembra da moça apelidada de Mme. Bacamarte, que acabou na miséria, bebendo e doente. A exceção é Dona Margarida, viúva que trabalha, se sustenta e não se intimida, apresentada como modelo de firmeza.
O subúrbio carioca
O subúrbio é mais do que cenário em Clara dos Anjos: é o assunto de longas descrições sobre ruas que viram pântano na chuva, falta de água e de esgoto e trens lotados. No capítulo VII, o narrador define o lugar assim:
O subúrbio é o refúgio dos infelizes. Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim, todos os que perderam a sua situação normal vão se aninhar lá; e todos os dias, bem cedo, lá descem à procura de amigos fiéis que os amparem, que lhes dêem alguma coisa, para o sustento seu e dos filhos.
O texto também registra as hierarquias internas do subúrbio. A família de Cassi mora numa rua calçada de um “subúrbio tido como elegante”, enquanto a de Clara vive numa rua que vira pântano com a chuva, no caminho para Inhaúma. Essa diferença pequena, vista de fora, basta para Salustiana se considerar superior.
Narrador e linguagem
O romance é narrado em terceira pessoa por um narrador onisciente que interrompe a história para comentar, opinar e até falar em primeira pessoa, como no capítulo I (“Quero falar do Patápio Silva.”). A linguagem é direta, próxima da crônica de jornal, sem o rebuscamento parnasiano que ainda dominava a literatura de prestígio da época, e mistura o registro culto com expressões populares do subúrbio.
Como Clara dos Anjos foi escrito e publicado

Clara dos Anjos teve três formas: anotações de diário, um conto de 1920 e o romance, publicado só depois da morte do autor. As primeiras notas sobre a história são de 1904. Em seu diário, Lima Barreto planejava um livro sobre a vida dos negros numa fazenda, inspirado em Germinal, de Émile Zola.
A primeira versão publicada é um conto com o mesmo título, incluído na coletânea Histórias e Sonhos em 1920. Nele, o sedutor se chama Júlio Costa e a trama é bem mais curta, sem Marramaque, Dona Margarida ou Dona Salustiana. Estudos acadêmicos situam a conclusão do romance entre dezembro de 1921 e janeiro de 1922. Segundo a edição da Penguin-Companhia, um capítulo saiu na revista Mundo Literário em maio de 1922, e o autor dizia então que o livro estava “bem adiantado”. Lima Barreto morreu em 1º de novembro de 1922.
O texto completo apareceu em 16 números da revista Sousa Cruz, de janeiro de 1923 a maio de 1924, conforme o registro do Wikisource, que traz o romance integral. A primeira edição em livro saiu em 1948, pela Editora Mérito, do Rio de Janeiro, com 299 páginas, segundo o acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP.
Clara dos Anjos e o Pré-Modernismo
Clara dos Anjos pertence ao Pré-Modernismo, nome dado ao período da literatura brasileira entre o início do século XX e a Semana de Arte Moderna de 1922. Não se trata de uma escola com programa próprio, mas de um conjunto de autores que já rompiam com o academicismo e voltavam o olhar para problemas do país, como Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos.
No romance, as marcas do período são claras: crítica social direta, linguagem coloquial e personagens populares no centro da narrativa. Lima Barreto, descendente de escravizados, filho de um tipógrafo e de uma professora, conhecia o subúrbio por dentro: morou na Ilha do Governador e em Todos os Santos e trabalhou como amanuense na Secretaria da Guerra.
O tema do racismo liga Clara dos Anjos ao primeiro romance do autor, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), em que um jovem negro enfrenta o preconceito no jornalismo carioca. Já Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) trata do patriotismo do major Quaresma, que termina em tragédia, e o conto O Homem que Sabia Javanês (1911) ironiza a farsa de um falso tradutor que sobe na vida. Em Clara dos Anjos, o humor desses livros dá lugar a um tom mais amargo.
Clara dos Anjos no vestibular
Clara dos Anjos está na lista de obras do Vestibular Unificado UFSC/IFC 2027, ao lado de A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector, e O irmão alemão, de Chico Buarque. As provas estão marcadas para 5 e 6 de dezembro de 2026. A Coperve, que organiza o processo, recomenda a leitura integral e lembra que o candidato precisa conhecer o contexto histórico, social e estético de cada obra.
O romance também esteve na lista do Vestibular 2025 da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com ingresso em 2026. Para a prova, vale dominar a relação entre racismo e classe social no enredo, a crítica à condição da mulher, a função das descrições do subúrbio e as marcas do Pré-Modernismo no estilo do autor.
Perguntas frequentes
Clara dos Anjos tem final feliz?
Não. Clara fica grávida, Cassi Jones foge para São Paulo e a família dele se recusa a qualquer reparação. O romance termina com Clara abraçada à mãe, dizendo: “Nós não somos nada nesta vida.” O sedutor não é punido nem pela sedução nem pelo assassinato de Marramaque.
Quem matou Marramaque em Clara dos Anjos?
Marramaque, padrinho de Clara, é morto a pauladas por Cassi Jones e por seu comparsa Arnaldo, que o atacam numa noite de chuva no caminho de casa. O crime acontece depois que Marramaque recebe e repassa a Joaquim um dossiê sobre os processos de Cassi. A polícia não chega aos culpados.
Qual a diferença entre o conto e o romance Clara dos Anjos?
O conto, publicado em Histórias e Sonhos em 1920, ocupa cerca de 12 páginas e tem como sedutor o modinheiro Júlio Costa. O romance, concluído por volta de 1922 e publicado em folhetim entre 1923 e 1924, cria Cassi Jones, a família Azevedo, Marramaque, Dona Margarida e as longas descrições do subúrbio.
Por que o personagem se chama Cassi Jones?
O nome de batismo dele é Cassi de Azevedo. O “Jones” é inventado: Dona Salustiana dizia descender de um Lord Jones, que teria sido cônsul da Inglaterra em Santa Catarina, e o filho adotou o sobrenome inglês para parecer fidalgo. O detalhe ironiza a vaidade da família e seu desejo de se afastar das origens populares.
Onde ler Clara dos Anjos de graça?
Como Lima Barreto morreu em 1922, sua obra está em domínio público no Brasil. O romance pode ser lido gratuitamente na página de Clara dos Anjos no Literatura Online, com download em EPUB e PDF, e no Wikisource, que traz também o conto de 1920.
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