Pular para o conteúdo

Revista

Curiosidades

Augusto dos Anjos publicou um único livro, pago pelo irmão, e morreu sem ver o sucesso de Eu

Retrato em preto e branco do poeta paraibano Augusto dos Anjos, de cabelo penteado para trás, bigode e terno escuro, autor de Eu, seu único livro
Augusto dos Anjos (1884-1914), autor de Eu, único livro que publicou em vida (Domínio público)

Augusto dos Anjos publicou um único livro em vida. Eu saiu em 1912, no Rio de Janeiro, numa edição financiada pelo irmão do poeta, Odilon dos Anjos. Dois anos depois, Augusto morreu aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, sem saber que aquele volume de versos sobre vermes, cadáveres e átomos viraria um dos livros de poesia mais editados do país.

A história de Eu é a de um livro que chegou cedo demais. Os leitores de 1912 estavam acostumados à poesia elegante dos parnasianos, com sonetos sobre deusas, vasos gregos e paisagens. Augusto dos Anjos usava o mesmo soneto para falar de decomposição, doença e química orgânica. O choque foi imediato, e a consagração demorou.

Um poeta do engenho Pau d’Arco

Retrato em preto e branco do poeta paraibano Augusto dos Anjos, de cabelo penteado para trás, bigode e terno escuro, autor de Eu, seu único livro
Augusto dos Anjos (1884-1914), autor de Eu, único livro que publicou em vida (Domínio público)

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884, no engenho Pau d’Arco, na Paraíba, numa área que hoje pertence ao município de Sapé. Fez os primeiros estudos com o pai, passou pelo Liceu Paraibano e se formou em direito no Recife, em 1907. No ano seguinte, tornou-se professor do próprio Liceu.

Em 1910, casou-se com Ester Fialho. No mesmo ano, depois de se desentender com o governador da Paraíba, mudou-se para o Rio de Janeiro. Na capital, sobreviveu como professor em diferentes escolas. Foi nesse período que reuniu os poemas de Eu, muitos escritos ainda na Paraíba.

Como Eu foi recebido em 1912

O livro foi recebido com estranhamento, entre o entusiasmo e a repulsa, como resume o texto sobre o poeta publicado pelo Ministério Público de Minas Gerais ao tratar do patrimônio de Leopoldina. Parte da crítica reconheceu a originalidade dos versos; outra parte condenou o que via como exageros e mau gosto.

O motivo do incômodo fica claro nos primeiros versos de “Psicologia de um Vencido”, um dos poemas mais conhecidos do livro:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Palavras como “amoníaco”, “epigênesis” e “hipocondríaco” não tinham lugar na poesia da época. Augusto dos Anjos levou para o verso o vocabulário da biologia, da química e da medicina, e com ele uma visão pessimista da existência: o ser humano como matéria que apodrece. O crítico Anatol Rosenfeld aproximou essa poesia do Expressionismo alemão, em que a deformação e o feio servem para expressar angústia, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural.

Os versos mais conhecidos

O poema que melhor explica a popularidade posterior do poeta é “Versos Íntimos“. O soneto fala de ingratidão e desilusão num tom direto, quase de conselho entre amigos, e termina com uma imagem que muita gente sabe de cor:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

A mistura de imagens chocantes, ritmo marcado e rimas fortes ajudou os poemas a circularem fora dos círculos literários.

Leopoldina e a morte aos 30 anos

Em 1914, Augusto dos Anjos deixou o Rio para assumir a direção do grupo escolar de Leopoldina, na Zona da Mata mineira. Viveu ali poucos meses. Morreu em 12 de novembro de 1914, aos 30 anos, de pneumonia.

A casa onde ele morou, na Rua Barão de Cotegipe, foi tombada e restaurada e hoje abriga o museu Espaço dos Anjos, além da Secretaria Municipal de Cultura de Leopoldina.

Como Eu virou um dos livros de poesia mais editados do país

A virada veio depois da morte do poeta. O amigo Órris Soares organizou uma edição póstuma que acrescentou dezenas de poemas que tinham ficado inéditos ou saído apenas em jornais. A partir das reedições seguintes, o livro ganhou público e não parou mais de ser impresso. O filólogo Antonio Houaiss o considerava um dos livros de poesia mais editados da língua portuguesa, segundo a editora Armazém da Cultura, responsável por uma edição comemorativa do centenário da obra.

O Modernismo também ajudou a rever o lugar do poeta. Leitores como Manuel Bandeira e Ferreira Gullar escreveram sobre ele, e Augusto dos Anjos passou a ser estudado como um caso à parte: um autor que mistura traços do Parnasianismo e do Simbolismo, mas que não cabe em nenhuma das duas escolas. Nos manuais escolares, costuma aparecer no Pré-Modernismo.

A crítica ainda se divide sobre o valor de alguns poemas, e as reações a ele costumam ser extremas: há quem o considere genial e há quem o ache exagerado. A popularidade, porém, nunca dependeu desse consenso. Mais de um século depois, Eu continua em catálogo, é leitura frequente nas escolas e tem versos repetidos por leitores que muitas vezes nem sabem que o livro foi pago pela família do autor.

Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.

Da notícia para a leitura

Leia livros grátis direto no navegador

Escolha uma obra, comece sem cadastro e continue de onde parou em qualquer dispositivo.