Em 2026, o Setembro Amarelo tem como tema “Escutar é estar presente”. A mensagem chama atenção para uma atitude que exige tempo e respeito: ouvir alguém sem interromper, minimizar o sofrimento ou oferecer respostas prontas.
A poesia pode participar dessa conversa porque dá forma a experiências que nem sempre são fáceis de explicar. Um poema pode abrir perguntas, criar identificação e ajudar uma turma ou um grupo a falar sobre sentimentos. Ele, porém, não é tratamento nem substitui apoio profissional. Os cinco textos desta seleção devem ser lidos como pontos de partida para o diálogo, não como receitas de superação.
Onde buscar ajuda
O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. Também é possível procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Atenção Psicossocial.
Em situação de perigo imediato, procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou acione o SAMU pelo número 192. Se você estiver acompanhando alguém em risco imediato, não deixe a pessoa sozinha enquanto busca ajuda.
O que é o Setembro Amarelo e qual é o tema de 2026
O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a importância do cuidado com a saúde mental. Embora as ações se concentrem em setembro, a escuta e o acesso a serviços de apoio precisam estar disponíveis durante todo o ano. O dia 10 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
O tema de 2026, “Escutar é estar presente”, desloca a atenção das frases motivacionais para a qualidade do encontro. Escutar não significa diagnosticar, pressionar alguém a reagir ou tentar resolver sozinho um sofrimento complexo. Significa levar a pessoa a sério, acolher o que ela consegue dizer e ajudá-la a procurar apoio adequado.
Essa distinção também orienta a seleção a seguir. Os poemas falam de alegria, mudança, recomeço e serenidade, mas não prometem que a tristeza desapareça pela força de vontade. Seu valor está na linguagem que oferecem para iniciar uma conversa.
Cinco poemas para conversar sobre escuta e esperança
1. “Ode ao dia feliz”, de Pablo Neruda
Em “Ode ao dia feliz”, Pablo Neruda transforma a felicidade em uma experiência corporal e cotidiana. O eu lírico percebe o ar, a terra, o mar, a respiração e a presença de outra pessoa. A alegria não aparece como prêmio por uma grande conquista, mas como uma forma momentânea de estar no mundo.
Essa atenção ao cotidiano pode render uma conversa importante: quais pequenos acontecimentos nos fazem perceber que estamos presentes? A pergunta não exige que alguém esteja feliz nem sugere que bastaria prestar atenção às coisas simples para superar um sofrimento. Ela apenas reconhece que a vida emocional também é feita de instantes, sensações e vínculos.
O poema integra Odas elementales, publicadas por Neruda em 1954.
Desta vez deixa-me
ser feliz,
nada aconteceu a ninguém,
não estou em parte alguma,
acontece somente
que sou feliz
pelos quatro lados
do coração, andando,
dormindo ou escrevendo.
O que vou fazer, sou
feliz.
Sou mais inumerável
que o pasto
nas pradarias,
sinto a pele como uma árvore rugosa
e a água abaixo,
os pássaros acima,
o mar como um anel
em minha cintura,
feita de pão e pedra, a terra
o ar canta como um violão.Tu ao meu lado na areia,
és areia,
tu cantas e és canto,
o mundo
é hoje minha alma,
canto e areia,
o mundo
é hoje tua boca,
deixa-me
em tua boca e na areia
ser feliz,
ser feliz porque sim, porque respiro
e porque tu respiras,
ser feliz porque toco
teu joelho
e é como se tocasse
a pele azul do céu
e seu frescor.Hoje deixa-me
a mim só
ser feliz,
com todos ou sem todos,
ser feliz
com o pasto
e a areia,
ser feliz
com o ar e a terra,
ser feliz,
contigo, com tua boca,
ser feliz.
2. “Cântico VI”, de Cecília Meireles
“Que te renovas todo o dia. […] Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo.”
Cecília Meireles, Cânticos.
“Cântico VI” organiza sua reflexão por meio de aparentes contradições. A pessoa muda todos os dias e, ainda assim, continua sendo ela mesma. Amor, tristeza, dúvida e desejo participam desse movimento. Em vez de apresentar a identidade como algo imóvel, Cecília Meireles a mostra em transformação.
A repetição dá ritmo a esse processo e aproxima ideias que normalmente separamos. Terminar e renovar-se não aparecem como experiências completamente opostas. O poema convida o leitor a observar as mudanças que atravessam uma vida, sem transformar essa percepção em promessa de melhora automática.
Cânticos foi escrito em 1927 e publicado postumamente em 1981.
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.E então serás eterno.
3. “Recomece”, de Bráulio Bessa
“É hora do recomeço.
Recomece a lutar.”Bráulio Bessa, Recomece.
O poema de Bráulio Bessa se apoia na repetição do verbo “recomeçar”. A cada dificuldade apresentada, o refrão retorna com uma nova ação. Essa estrutura aproxima o texto da oralidade e da poesia de cordel, tradição que marca o trabalho do autor.
Em uma atividade sobre o Setembro Amarelo, o imperativo precisa ser lido com cuidado. Dizer “recomece” não deve se transformar em cobrança dirigida a quem está sofrendo. Nem sempre uma pessoa consegue reagir imediatamente, e pedir ajuda também pode fazer parte de um recomeço.
Uma abordagem produtiva consiste em perguntar o que torna uma mudança possível. O poema menciona encontros, afeto, memória e pessoas próximas. Assim, o recomeço deixa de parecer um ato de força individual e passa a incluir vínculos, tempo e apoio.
“Recomece” foi publicado em livro pela Editora Sextante em 2018.
Quando a vida bater forte
e sua alma sangrar,
quando esse mundo pesado
lhe ferir, lhe esmagar…
É hora do recomeço.
Recomece a LUTAR.Quando tudo for escuro
e nada iluminar,
quando tudo for incerto
e você só duvidar…
É hora do recomeço.
Recomece a ACREDITAR.Quando a estrada for longa
e seu corpo fraquejar,
quando não houver caminho
nem um lugar pra chegar…
É hora do recomeço.
Recomece a CAMINHAR.Quando o mal for evidente
e o amor se ocultar,
quando o peito for vazio,
quando o abraço faltar…
É hora do recomeço.
Recomece a AMAR.Quando você cair
e ninguém lhe aparar,
quando a força do que é ruim
conseguir lhe derrubar…
É hora do recomeço.
Recomece a LEVANTAR.Quando a falta de esperança
decidir lhe açoitar,
se tudo que for real
for difícil suportar…
É hora do recomeço.
Recomece a SONHAR.Enfim,
É preciso de um final
pra poder recomeçar,
como é preciso cair
pra poder se levantar.
Nem sempre engatar a ré
significa voltar.Remarque aquele encontro,
reconquiste um amor,
reúna quem lhe quer bem,
reconforte um sofredor,
reanime quem tá triste
e reaprenda na dor.Recomece, se refaça,
relembre o que foi bom,
reconstrua cada sonho,
redescubra algum dom,
reaprenda quando errar,
rebole quando dançar,
e se um dia, lá na frente,
a vida der uma ré,
recupere sua fé
e RECOMECE novamente.
4. “Tudo passa”, de Auta de Souza
Publicado em Horto, livro de 1900, “Tudo passa” é formado por dois sonetos. Na primeira parte, a voz poética observa uma jovem que acredita ter perdido para sempre a capacidade de sentir. A imagem da planta que revive com o orvalho introduz outra possibilidade: aquilo que parece morto pode estar adormecido.
A segunda parte torna a leitura menos simples. O coração que desperta também pode voltar a sofrer. Auta de Souza não apaga a dor nem afirma que toda mudança conduz imediatamente à felicidade. O título aponta para a passagem do tempo, mas os versos preservam a ambivalência entre desejar a renovação e temer novas feridas.
Na transcrição abaixo, a grafia foi atualizada para facilitar a leitura.
Aquela moça graciosa e bela
Que passa sempre de vestido escuro
E traz nos lábios um sorriso puro,
Triste e formoso como os olhos dela…Diz que sua alma tímida e singela
Já não tem coração: que o mundo impuro
Para sempre o matou… e o seu futuro
Foi-se num sonho, desmaiada estrela.Ela não sabe que o desgosto passa
Nem que do orvalho a abençoada graça
Faz reviver a planta que emurchece.Flávia! nas almas juvenis, formosas,
Berço sagrado de jasmins e rosas,
O coração não morre: ele adormece…O coração não morre: ele adormece…
E antes morresse o coração traído,
Mulher que choras teu amor perdido,
Amor primeiro que não mais se esquece!Quando tu vais rezar, quando anoitece,
Beijas as contas do colar partido;
E o coração num trêmulo gemido
Vem perturbar a paz de tua prece.Reza baixinho, ó noiva desolada!
E quando, à tarde, pela mesma estrada
Chorando fores esse imenso amor…Geme de manso, juriti dolente!
Vais acordar o coração doente…
Não o despertes para nova dor.Auta de Souza, “Tudo passa”, em Horto.
Auta de Souza morreu em 1901, e sua obra está em domínio público. Outros textos da autora podem ser encontrados na seleção de poemas de Auta de Souza publicada pela Literatura Online.
5. “Segue o teu destino”, de Ricardo Reis
Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, constrói uma voz influenciada pela poesia clássica e por uma visão disciplinada das emoções. “Segue o teu destino” recomenda atenção ao que pertence à própria vida, enquanto aquilo que não pode ser controlado permanece como “a sombra de árvores alheias”.
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.Ricardo Reis, “Segue o teu destino”, 1º de julho de 1916.
O poema não precisa ser lido como recomendação de isolamento. A solidão de Ricardo Reis está ligada à autonomia e ao domínio de si, não à recusa de toda companhia. Para o tema desta seleção, sua imagem mais fértil talvez seja a das plantas e rosas: cuidar do que está próximo, possível e vivo.
A serenidade do heterônimo também não exige que alguém esconda a própria dor. Ela representa uma posição filosófica construída pelo poema. A diferença entre sentimento vivido e sentimento transformado em linguagem aparece ainda com mais clareza em “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa.
Como trabalhar os poemas em sala de aula com responsabilidade
Uma atividade sobre poesia e saúde mental deve preservar a privacidade dos estudantes. Ninguém precisa revelar experiências pessoais, responder publicamente se já pensou em suicídio ou transformar uma dor íntima em exercício escolar.
O professor pode manter o foco na linguagem e, ainda assim, abrir espaço para uma conversa cuidadosa. Algumas possibilidades são:
- comparar como cada poema representa mudança, permanência e passagem do tempo;
- observar as imagens da natureza: plantas, rosas, orvalho, ar, terra e mar;
- discutir a diferença entre acolher alguém e oferecer uma solução pronta;
- reescrever uma mensagem imperativa como uma pergunta ou um convite respeitoso;
- produzir um mural coletivo com formas de escuta que não exijam relatos pessoais.
Antes da atividade, a escola deve conhecer seus próprios protocolos de acolhimento e encaminhamento. Se um estudante manifestar sofrimento ou risco, a situação precisa ser tratada com seriedade e encaminhada aos responsáveis e profissionais competentes, conforme as normas da instituição e da rede de proteção.
Onde buscar apoio
Quem deseja conversar pode ligar gratuitamente para o CVV pelo número 188. O atendimento é realizado 24 horas por dia, sob sigilo, e também possui opções pela internet no site do CVV.
O Sistema Único de Saúde oferece atendimento em Unidades Básicas de Saúde e Centros de Atenção Psicossocial. Em situação de perigo imediato, procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou acione o SAMU pelo telefone 192. As orientações completas estão na página de prevenção do suicídio do Ministério da Saúde.
A poesia pode ajudar a formular perguntas e reconhecer emoções. A presença de outra pessoa, a escuta sem julgamento e o acesso a apoio adequado pertencem a outra dimensão do cuidado. Compartilhe estes poemas com responsabilidade e, diante de sofrimento, incentive a procura por ajuda.
Fontes consultadas
- Setembro Amarelo: materiais oficiais da campanha de 2026.
- Ministério da Saúde: prevenção do suicídio e locais de atendimento.
- Biblioteca Virtual em Saúde: Setembro Amarelo e Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
- NERUDA, Pablo. Odas elementales. Buenos Aires: Losada, 1954.
- MEIRELES, Cecília. Cânticos. São Paulo: Global Editora.
- BESSA, Bráulio. Recomece. Rio de Janeiro: Sextante, 2018.
- SOUZA, Auta de. Horto. Natal: Tipografia de A República, 1900.
- PESSOA, Fernando. “Segue o teu destino”. Poema atribuído ao heterônimo Ricardo Reis, datado de 1º de julho de 1916.
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