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Do Rio de Machado de Assis ao sertão de Graciliano: cinco cenários literários

De Dom Casmurro a Vidas Secas, veja como o Rio de Janeiro, Itaguaí, Fortaleza, o Maranhão e o sertão participam de cinco clássicos brasileiros.

Montagem com a capa de Dom Casmurro, de Machado de Assis, à esquerda, e uma litografia do Rio de Janeiro antigo, com o Aqueduto da Carioca ao fundo, à direita.
Capa de Dom Casmurro, de Machado de Assis, ao lado de uma vista do Rio de Janeiro oitocentista com o Aqueduto da Carioca. Desenho de William Gore Ouseley, litografia de Jonathan Needham para Views in South America (1852).

Um livro não substitui uma viagem, mas pode ensinar a olhar um lugar. No Dia Mundial do Turismo, celebrado em 27 de setembro, cinco clássicos brasileiros levam o leitor do Rio de Janeiro ao sertão e mostram como ruas, cidades e paisagens participam da história.

Os lugares desta lista não aparecem como cartões-postais. Eles são recriados pela memória, pela ironia, pelo conflito social e pela experiência das personagens.

1. O Rio de Janeiro de Dom Casmurro

Litografia histórica do Rio de Janeiro, com o Aqueduto da Carioca ao fundo, o Convento de Santa Teresa no alto do morro e pessoas na rua.
Aqueduto da Carioca e Convento de Santa Teresa, vistos da antiga Rua Mata-Cavalos. Desenho de William Gore Ouseley, litografado por Jonathan Needham para Views in South America (1852).

Bentinho conta sua história a partir de uma casa no Engenho Novo, construída para reproduzir a residência da juventude na antiga Rua de Mata-cavalos. O Rio de Janeiro do romance aparece como uma cidade percorrida por trem, marcada por bairros, igrejas, casas de família e diferenças sociais.

A tentativa de reconstruir a casa mostra o limite da memória. As paredes podem ser copiadas, mas o narrador não consegue recuperar a pessoa que foi nem as relações que perdeu. Leia Dom Casmurro na Literatura Online.

2. A Itaguaí de O Alienista

Pintura de uma estrada de terra entre casas e morros verdes, com uma pessoa montada em um animal ao centro.
Paisagem rural nos arredores de Petrópolis, c. 1900. Óleo sobre tela de João Baptista da Costa.

Em O Alienista, Machado de Assis transforma Itaguaí, no estado do Rio de Janeiro, em palco de uma experiência absurda. O médico Simão Bacamarte funda a Casa Verde e passa a internar moradores com base em critérios que se ampliam até ameaçar quase toda a vila.

Praças, ruas, casas e autoridades locais formam uma sociedade em miniatura. A cidade permite ao autor satirizar o poder científico, a política e a facilidade com que uma regra arbitrária pode se tornar normal. Leia O Alienista.

3. A Fortaleza de A Normalista

otografia histórica da rua comercial diante da Praça do Ferreira, em Fortaleza, com fachadas de lojas, calçamento de pedra e pedestres.
Rua Major Facundo, diante da Praça do Ferreira, em Fortaleza, em 1906. Fotógrafo não identificado; imagem preservada no Acervo Nirez.

Publicado em 1893, A Normalista acompanha Maria do Carmo numa Fortaleza em transformação. Ruas, bairros, escolas, clubes e espaços de convivência revelam uma cidade que procura adotar costumes modernos sem abandonar hierarquias, vigilância moral e desigualdades.

Adolfo Caminha não apresenta a capital cearense como cenário neutro. A circulação das personagens ajuda a mostrar quem pode frequentar determinados lugares, quem é observado e como os boatos interferem na vida de uma jovem. Leia A Normalista.

4. O Maranhão de Úrsula

Cartão-postal colorizado da Praça João Lisboa, em São Luís, com o jardim central, prédios históricos e a Igreja do Carmo ao fundo.
Praça João Lisboa, em São Luís do Maranhão, em cartão-postal de cerca de 1910. Autor desconhecido.

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, foi publicado no Maranhão em 1859. A paisagem de matas, caminhos e propriedades rurais participa de uma narrativa romântica que também denuncia a escravidão e a violência patriarcal.

O lugar ganha sentido principalmente pelas vozes das personagens. Túlio, Susana e Antero narram perdas, separações e lembranças que impedem o leitor de tratar a fazenda apenas como paisagem. O espaço guarda relações de poder e memórias que a história oficial tentou apagar. Leia Úrsula.

5. O sertão de Vidas Secas

Fotografia histórica em tons de sépia mostra uma paisagem seca e pedregosa, com vegetação esparsa e pequenas construções ao fundo.
Vista parcial de Canudos, na Bahia, em 1897. Fotografia de Flávio de Barros; Acervo Museu da República.

Em Vidas Secas, Graciliano Ramos acompanha uma família que caminha pelo sertão nordestino fugindo da seca. A paisagem não é identificada como um destino turístico específico. Ela é uma região de deslocamento, trabalho precário, calor e escassez.

Fabiano, sinhá Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia percebem o espaço a partir de necessidades imediatas: água, sombra, comida e abrigo. A viagem da família mostra como o ambiente, a pobreza e a exploração limitam as escolhas sem apagar o desejo de uma vida diferente. Leia Vidas Secas.

Como um lugar se torna parte da história

Nos cinco livros, o espaço interfere no que as personagens lembram, temem e podem fazer. O Rio de Bentinho é reconstruído pela memória; Itaguaí funciona como laboratório da ironia; Fortaleza expõe regras sociais; o Maranhão de Úrsula guarda vozes silenciadas; o sertão de Vidas Secas impõe movimento e escassez.

O Dia Mundial do Turismo foi criado para refletir sobre o papel social, cultural e econômico das viagens. Na literatura, a aproximação com um lugar acontece de outra forma: o leitor não apenas observa a paisagem, mas acompanha as relações humanas que a produziram.

Escolha uma das cinco obras e comece a viagem pela primeira página.

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