O Cortiço é o romance mais conhecido do Naturalismo brasileiro. Publicado em 1890 por Aluísio Azevedo, o livro conta a história de uma habitação coletiva no Rio de Janeiro do fim do século XIX e das pessoas que vivem espremidas ali. Este resumo de O Cortiço apresenta o enredo, os personagens, os temas e o que costuma ser cobrado em provas.
O livro é leitura frequente no ensino médio e em vestibulares porque reúne, num só enredo, as marcas do Naturalismo: personagens movidos pelo instinto, forte influência do ambiente e crítica social direta. Também é uma boa porta de entrada para entender como a literatura brasileira retratou a escravidão, a imigração portuguesa e a desigualdade urbana.
O romance está em domínio público e pode ser lido gratuitamente na íntegra na plataforma do Literatura Online.
O que é O Cortiço?

O Cortiço é um romance naturalista de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, que narra a ascensão do comerciante português João Romão e a vida dos moradores do cortiço que ele constrói no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Cortiço era o nome dado a conjuntos de pequenas casas ou quartos alugados a famílias pobres, com tanques, latrinas e espaços comuns.
O narrador fala em terceira pessoa e sabe tudo sobre os personagens (é o chamado narrador onisciente). Ele observa aquele mundo como um cientista observa um experimento: descreve corpos, cheiros, ruídos e comportamentos, e tenta mostrar como o meio e o instinto determinam o destino das pessoas.
Aluísio Azevedo nasceu em São Luís, no Maranhão, em 1857, e morreu em Buenos Aires, em 1913. Foi caricaturista, jornalista, romancista e diplomata, além de um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 4.
Resumo de O Cortiço
O enredo acompanha duas linhas principais: o enriquecimento de João Romão e a vida coletiva dos moradores do cortiço. As duas se cruzam o tempo todo.
A ascensão de João Romão
João Romão é um imigrante português dono de uma venda (um pequeno armazém) em Botafogo. Obcecado por dinheiro, ele economiza em tudo, rouba materiais de construção e explora quem está ao seu redor. Vive com Bertoleza, uma quitandeira escravizada que lhe entrega suas economias para comprar a própria alforria, isto é, a liberdade. João Romão falsifica a carta de alforria e fica com o dinheiro. Bertoleza passa a trabalhar para ele como se fosse livre, sem saber que continua escravizada perante a lei.
Com o dinheiro acumulado, João Romão compra terrenos, abre uma pedreira e constrói casinhas para alugar. Assim nasce o cortiço São Romão. Ao lado dele mora Miranda, outro comerciante português, rico e ambicioso por status. Os dois vivem em rivalidade: Miranda despreza o cortiço barulhento, e João Romão inveja o sobrado e o prestígio do vizinho.
Jerônimo e Rita Baiana
Entre os moradores chega Jerônimo, um trabalhador português sério e disciplinado, contratado para chefiar a pedreira. Ele vive com a esposa, Piedade, e a filha. Aos poucos, Jerônimo se encanta por Rita Baiana, mulata sensual e alegre, que dança e canta nas festas do cortiço.
O narrador descreve essa paixão como um processo de “abrasileiramento”: Jerônimo abandona os hábitos rígidos, passa a gostar de café, de música e do calor, e perde a disciplina. A mudança de Jerônimo é o exemplo mais citado do determinismo do meio no romance. Para ficar com Rita, ele mata Firmo, capoeirista e amante dela, numa emboscada, e abandona a família. Piedade afunda no alcoolismo.
O incêndio e a transformação do cortiço
O cortiço vive em conflito com um cortiço vizinho, o Cabeça-de-Gato, e brigas entre os grupos se repetem. Num desses momentos de tensão, um incêndio atinge o São Romão. João Romão aproveita a destruição para reconstruir o espaço, agora mais organizado e rentável. O antigo cortiço vira a “Avenida São Romão”, com moradores de condição um pouco melhor.
Enquanto isso, João Romão muda de vida. Passa a se vestir bem, frequentar ambientes elegantes e se aproximar de Miranda, que recebe o título de barão. O objetivo agora é casar com Zulmira, filha do vizinho, para completar a subida social.
O final de Bertoleza
Bertoleza se torna um obstáculo ao casamento. Para se livrar dela, João Romão denuncia sua situação aos herdeiros de seu antigo dono. Quando a polícia chega para levá-la de volta à escravidão, Bertoleza entende a traição e se mata com a faca com que limpava peixe.
No mesmo instante, uma comissão de abolicionistas chega à casa para entregar a João Romão um diploma de sócio benemérito. A cena final expõe a hipocrisia de uma elite que se dizia abolicionista enquanto lucrava com a exploração de pessoas escravizadas.
Quais são os personagens principais de O Cortiço?
Os personagens principais de O Cortiço são João Romão, Bertoleza, Miranda, Jerônimo, Rita Baiana e Piedade. Ao redor deles circula uma multidão de moradores que dá vida ao cortiço.
- João Romão: português ambicioso, dono da venda, da pedreira e do cortiço. Representa o capitalismo sem escrúpulos.
- Bertoleza: mulher escravizada, companheira e trabalhadora explorada por João Romão, que a engana com uma alforria falsa.
- Miranda: comerciante português rico, vizinho e rival de João Romão; torna-se barão.
- Estela e Zulmira: esposa e filha de Miranda. Zulmira é a noiva que João Romão deseja para subir socialmente.
- Jerônimo: trabalhador português que se transforma ao se apaixonar por Rita Baiana.
- Piedade: esposa de Jerônimo, abandonada por ele.
- Rita Baiana: moradora alegre e sedutora, símbolo da sensualidade associada ao ambiente tropical na visão do narrador.
- Firmo: capoeirista, amante de Rita, morto por Jerônimo.
- Pombinha: jovem delicada do cortiço, vista como promessa de ascensão, que acaba seguindo o caminho da prostituição.
Por que O Cortiço é um romance naturalista?
O Cortiço é naturalista porque trata o ser humano como produto da biologia e do ambiente, e não como alguém guiado apenas pela razão ou pela vontade. O Naturalismo foi um desdobramento do Realismo, no fim do século XIX, que tentou aplicar à literatura métodos inspirados nas ciências naturais.
As principais marcas naturalistas do livro são:
- Determinismo: a ideia de que meio, raça e momento histórico definem o comportamento humano. O texto sobre o determinismo na literatura explica o conceito em detalhe.
- Zoomorfização: personagens descritos com traços de animais. Os moradores são comparados a bichos e larvas, e o cortiço parece um organismo vivo.
- Instinto e sexualidade: desejo e impulsos físicos movem boa parte das ações.
- Linguagem descritiva e objetiva: o narrador se detém em detalhes sensoriais, inclusive os desagradáveis.
- Crítica social: pobreza, exploração e ganância aparecem sem idealização.
Para ver essas características aplicadas a outras obras, leia o guia sobre as principais características da literatura naturalista.
O cortiço é o verdadeiro protagonista?
Muitos críticos consideram o próprio cortiço o protagonista do romance, porque o espaço funciona como um personagem coletivo que cresce, adoece, briga e se transforma. O narrador descreve o amanhecer no cortiço como o despertar de um ser vivo, com vozes, tosses, cheiros e barulho de lavadeiras.
Essa escolha tem um efeito importante: os indivíduos importam menos do que a massa. O cortiço molda quem chega nele, como acontece com Jerônimo e Pombinha. Ao mesmo tempo, o crescimento do cortiço espelha o enriquecimento de João Romão. Quando o dono sobe na vida, o espaço também muda de aparência.
Quais são os temas de O Cortiço?
Os temas centrais de O Cortiço são a ambição econômica, a escravidão, a imigração portuguesa e a influência do meio sobre o indivíduo.
- Ambição e exploração: João Romão enriquece à custa do trabalho alheio, sobretudo de Bertoleza.
- Escravidão e racismo: o destino de Bertoleza denuncia a violência do sistema escravista às vésperas e depois da Abolição. O romance também reproduz preconceitos raciais da época, visíveis nas descrições de personagens negros e mestiços. Uma leitura atual precisa considerar os dois lados.
- Imigração portuguesa: o livro opõe dois portugueses (João Romão e Jerônimo) com trajetórias contrárias, um que sobe e outro que “se perde”.
- Ascensão social: a rivalidade entre o cortiço e o sobrado de Miranda mostra a disputa por dinheiro e prestígio.
- Condição da mulher: Bertoleza, Piedade, Pombinha e Rita têm destinos marcados pela dependência econômica e pelo desejo masculino.
Qual a relação entre O Cortiço e Émile Zola?
O Cortiço tem forte influência do escritor francês Émile Zola, principal nome do Naturalismo europeu. Zola defendia o “romance experimental”, em que o autor observa personagens submetidos a condições de meio e hereditariedade, como num laboratório. Seus romances sobre a vida operária em Paris, como A Taberna (L’Assommoir), são apontados como modelo para Aluísio.
O escritor brasileiro, porém, adaptou o método à realidade local. A escravidão, o clima tropical, a imigração portuguesa e a mistura de grupos sociais no Rio de Janeiro dão ao livro uma identidade própria.
Aluísio já havia experimentado o Naturalismo antes. O Mulato, de 1881, é considerado o marco inicial do movimento no Brasil, como mostramos no texto sobre a importância de O Mulato. Em 1884 veio Casa de Pensão, outro retrato de moradias coletivas no Rio.
Como estudar O Cortiço para o vestibular?
Para estudar O Cortiço para o vestibular, o ideal é ler o romance completo e revisar três pontos que aparecem com frequência nas questões: as características do Naturalismo, o papel do cortiço como personagem coletivo e o final de Bertoleza.
- Relacione trechos a conceitos: ao ler uma descrição do cortiço, identifique zoomorfização, determinismo ou crítica social.
- Compare personagens: João Romão e Jerônimo formam um contraste clássico de trajetórias.
- Contextualize: lembre que o livro saiu em 1890, dois anos depois da Abolição, mas se passa num período em que a escravidão ainda existia.
- Compare com o Realismo: questões pedem a diferença entre o olhar psicológico de Machado de Assis e o olhar “científico” de Aluísio.
O Naturalismo está entre os conteúdos que mais aparecem nas provas, como mostra nosso levantamento sobre os assuntos de literatura que mais caem no ENEM.
Perguntas frequentes
Em que época se passa O Cortiço?
O Cortiço se passa no Rio de Janeiro, no fim do século XIX, antes da Abolição da escravatura, em 1888. Por isso Bertoleza ainda pode ser reclamada pelos herdeiros de seu antigo dono no desfecho do livro.
Por que Bertoleza se mata no final de O Cortiço?
Bertoleza se mata porque descobre que João Romão a traiu e a denunciou para que fosse devolvida à escravidão. Diante da polícia e da perda da liberdade que acreditava ter comprado, ela prefere a morte.
Qual a diferença entre o cortiço São Romão e a Avenida São Romão?
O cortiço São Romão é a habitação coletiva original, pobre e barulhenta. Depois do incêndio, João Romão a reconstrói como Avenida São Romão, com casas mais organizadas e aluguéis mais altos, o que acompanha sua própria ascensão social.
O que acontece com Pombinha em O Cortiço?
Pombinha, jovem que parecia destinada a um bom casamento, se decepciona com a vida conjugal, abandona o marido e passa a viver da prostituição. Sua trajetória reforça a ideia naturalista de que o ambiente do cortiço molda o destino de seus moradores.
O Cortiço é difícil de ler?
O Cortiço tem vocabulário do século XIX e descrições longas, mas a trama é movimentada e cheia de conflitos. Ler em blocos de poucos capítulos e anotar os personagens facilita bastante a compreensão.
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