Um ano depois da morte de Mary Shelley, autora de Frankenstein, o filho e a nora abriram a caixa-escrivaninha que ela usava e encontraram mechas de cabelo dos filhos que tinha perdido, um caderno e um exemplar de Adonais, poema do marido, Percy Bysshe Shelley. Uma das páginas estava dobrada em volta de um pequeno embrulho de seda. Dentro havia cinzas e os restos do coração do poeta, morto quase 30 anos antes.
Percy Shelley tinha se afogado na costa da Itália em 1822, aos 29 anos. O corpo foi cremado numa praia, e o órgão que resistiu ao fogo passou de mão em mão até chegar à viúva. Mary guardou essa relíquia até morrer, em 1851. Hoje, o coração está enterrado num túmulo de família em Bournemouth, no sul da Inglaterra, longe das cinzas do poeta, que ficaram em Roma.
O naufrágio de 1822

Em julho de 1822, os Shelley moravam em Lerici, no golfo de La Spezia, numa casa à beira-mar chamada Casa Magni. Percy tinha um barco novo, o Don Juan, construído em Gênova, e no início do mês navegou até Livorno com o amigo Edward Williams para tratar de uma revista literária, The Liberal, que planejava lançar com os poetas Lord Byron e Leigh Hunt.
Em 8 de julho de 1822, Shelley, Williams e um jovem marinheiro partiram de volta para Lerici. Poucas horas depois, uma tempestade afundou o barco, e os três morreram. Dez dias mais tarde, o corpo do poeta apareceu na praia de Viareggio, muito decomposto. O aventureiro Edward Trelawny, amigo do grupo, o reconheceu pelas roupas e por um livro de poemas de John Keats que estava no bolso do casaco.
Mary soube da morte por uma carta. “O papel caiu da minha mão”, contou ela depois (em tradução livre). “Tremi inteira.” Na Inglaterra, onde Shelley era malvisto por defender o ateísmo e pela vida amorosa escandalosa, o jornal conservador The Courier publicou: “Shelley, autor de alguma poesia ímpia, morreu afogado; agora ele sabe se Deus existe ou não”.
A cremação na praia
As regras sanitárias italianas da época, criadas para evitar epidemias, exigiam que corpos trazidos pelo mar fossem enterrados na própria praia ou queimados. Trelawny organizou a cremação em meados de agosto, numa fogueira à beira-mar perto de Viareggio. Byron assistiu ao início e foi embora; Mary não estava presente.
Segundo Trelawny, uma parte do corpo não queimou: o coração. Ele o retirou do fogo com as mãos. “Ao arrancar essa relíquia da fornalha ardente, queimei gravemente a mão; e se alguém me tivesse visto fazer isso, eu teria sido posto em quarentena”, escreveu em Recollections of the Last Days of Shelley and Byron (Lembranças dos últimos dias de Shelley e Byron), livro de memórias publicado em 1858.
A resistência do órgão ao fogo tem explicações prováveis. Uma hipótese é que o coração estivesse calcificado por uma tuberculose antiga, o que o tornaria mais duro. Outra, defendida por estudiosos modernos, é que o órgão salvo nem fosse o coração, mas o fígado, que também demora a queimar.
A disputa pelo coração
Trelawny entregou o órgão chamuscado a Leigh Hunt, que o conservou em álcool e se recusou a entregá-lo a Mary. Hunt acabou cedendo, e o coração passou para a viúva.
As cinzas de Shelley foram enterradas no Cemitério Não Católico de Roma, perto do túmulo de Keats, em janeiro de 1823. A lápide tem a inscrição latina Cor Cordium, “coração dos corações”, e versos da canção de Ariel em A Tempestade, de Shakespeare, sobre um afogado transformado pelo mar em “algo rico e estranho”.
Mary tinha 24 anos quando ficou viúva. Àquela altura, já tinha publicado Frankenstein, lançado anonimamente em 1818 e concebido durante o verão chuvoso de 1816 na Suíça, e já tinha perdido três dos quatro filhos que teve com Percy. Só Percy Florence, então com 2 anos, sobreviveu.
A viúva que guardou a memória
Mary voltou para a Inglaterra e passou a viver da escrita. Em 1826 publicou O Último Homem, romance sobre o fim da humanidade numa epidemia, com um personagem inspirado no marido. O pai de Percy, Sir Timothy Shelley, proibiu que ela escrevesse uma biografia do filho e ameaçou cortar a pensão que pagava a ela. Mary contornou a proibição: ao editar as obras poéticas de Shelley, em 1838, encheu as notas de informações sobre a vida dele.
A relação dos dois tinha começado num cemitério. Em 1814, Mary e Percy se encontravam escondidos junto ao túmulo da mãe dela, a escritora feminista Mary Wollstonecraft, no adro da igreja de St Pancras, em Londres. Foi ali que declararam amor um ao outro, em 26 de junho daquele ano. Um mês depois, fugiram juntos para a França; Percy ainda era casado com a primeira mulher.
Mary morreu em Londres em 1º de fevereiro de 1851, aos 53 anos, provavelmente de um tumor cerebral. Por volta de 1844, ela tinha aberto mão do lugar reservado ao lado do marido em Roma. O filho e a nora, Jane, a enterraram no cemitério da igreja de St Peter, em Bournemouth, perto da casa de Boscombe, comprada para ser o último lar dela. Seguindo um desejo de Mary, os dois também levaram para o mesmo túmulo os caixões dos pais dela, Mary Wollstonecraft e o filósofo William Godwin.
O santuário de Boscombe
Depois de encontrado na escrivaninha, o coração ficou na casa de Boscombe, onde Percy Florence e Jane mantinham um culto à memória do poeta. Segundo a associação que mantém a trilha costeira de Bournemouth, o órgão foi colocado numa urna, numa alcova chamada Sanctum, iluminada por uma lâmpada vermelha sempre acesa.
Percy Florence morreu em dezembro de 1889. O coração do pai foi enterrado com ele, no túmulo da família em St Peter. Ali estão hoje Mary Shelley, o filho, a nora, os pais de Mary e o que restou do poeta que ela amou. Os papéis de Mary formam a coleção Shelley da Biblioteca Bodleiana, da Universidade de Oxford, e a casa de Boscombe ainda existe, transformada em centro médico.
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