Pular para o conteúdo

Revista

Poemas

Poema A Mulher que Passa, de Vinicius de Moraes – Análise

O poema "A Mulher que Passa", de Vinicius de Moraes é cheio de emoções e um dos mais intensos do autor. Veja uma análise completa.

Pintura de uma jovem mulher em traje de inverno, caminhando sozinha pela Place de la Concorde, em Paris. Ela veste um casaco escuro, chapéu elegante com plumas e segura um pequeno acessório de pelúcia nas mãos. Olha discretamente por cima do ombro, como se percebesse estar sendo observada. Ao fundo, o ambiente urbano aparece desfocado, com postes, monumentos e figuras distantes em meio à neblina, reforçando a sensação de passagem, mistério e fugacidade — elementos que dialogam com o poema “A Mulher que Passa”, de Vinicius de Moraes.
Jeune femme, place de la Concorde — pintura de Jean Béraud (1849–1935), artista francês conhecido por retratar cenas cotidianas de Paris com poesia visual. Imagem: Wikimedia Commons.

“A Mulher que Passa” é um dos poemas mais intensos de Vinicius de Moraes. O poema explora a experiência de desejar algo (ou alguém) que não se pode ter e, talvez por isso, deseja-se ainda mais.

Vinicius de Moraes é conhecido por seus versos que misturam paixão, religiosidade e drama amoroso. E aqui ele faz isso de forma direta, quase súplica. O eu lírico se vê diante de uma mulher que simplesmente… passa. E esse simples gesto desencadeia um turbilhão de emoções que atravessa o poema de ponta a ponta.

O Poema “A Mulher que Passa”

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

2. Análise estrofe por estrofe

Vamos agora destrinchar cada estrofe separadamente, entendendo como a idealização e os conflitos internos do eu lírico moldam o poema.

Estrofe 1 – O primeiro impacto

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

O poema já começa com um clamor. O “Meu Deus” não é só um grito de espanto, é também uma oração. O eu lírico está diante de algo sagrado: uma mulher que passa e deixa nele uma necessidade urgente. As imagens são carregadas de simbolismo: lírios, cores, esperança, frescor. Tudo nela remete ao belo, ao vital, ao sagrado. E tudo isso é captado no exato momento em que ela passa.

Estrofe 2 – Beleza que fascina e atormenta

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Aqui o desejo se aprofunda. O eu lírico não apenas admira: ele se consome. A mulher é uma figura contraditória, sendo ao mesmo tempo fonte de prazer e de dor. Ele é saciado por sua beleza, mas também torturado por sua ausência. O uso de “noites” e “dias” mostra que ela o invade o tempo inteiro. Não importa a hora, a imagem dela está ali, presente, insistente, inalcançável.

Estrofe 3 – Corpo e alma como poesia

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

A linguagem se suaviza. O corpo da mulher vira natureza: relva, cisnes, frescor. Tudo é delicado, etéreo. Mas também há sofrimento, sugerindo que essa mulher idealizada carrega dores próprias. Vinícius cria aqui um equilíbrio delicado entre beleza e tristeza. O caos (“ventania”) está distante dela, que aparece como uma figura serena, quase mística. O erotismo sutil se mistura com poesia pura.

Estrofe 4 – A ausência como conflito

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

A partir daqui, o encantamento vira conflito. O eu lírico se pergunta: por que ela o falta? Por que o rejeita? Os versos finais dessa estrofe são um dos pontos altos do poema: paradoxais, intensos, dolorosos. Ele está preso num ciclo em que o encontro e a perda são inseparáveis. A mulher é, ao mesmo tempo, solução e problema. E talvez nunca tenha sido real, sendo só uma produção.

Estrofe 5 – O vazio da espera

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Essa estrofe é puro lamento. A repetição de perguntas mostra a frustração crescente. A mulher desejada nunca volta. Nunca é plenamente conhecida. Está sempre “perdida”. A presença dela é sentida justamente na ausência. O eu lírico se desespera por algo que talvez nunca tenha de fato existido. Mas a dor que sente é concreta e quer ser aliviada.

Estrofe 6 – Desejo urgente

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

Voltamos ao início, porém com mais intensidade. A súplica se torna exigência. Ele quer a mulher agora. Sem espera. Sem rodeios. É o ápice do desejo, que se transforma em urgência. Mas o tom ainda é o mesmo: ele fala de algo inatingível, como quem implora por um milagre.

Estrofe 7 – Dualidade e contradição

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

A estrofe final é um resumo de tudo: desejo, dor, urgência, contradição. A mulher é mártir, é amada, é santa e profana. Ela “fica e passa”, é leve e densa ao mesmo tempo. A imagem final, “raízes como a fumaça”, é especialmente poderosa: parece contraditória, mas faz todo sentido no universo do poema. A mulher que passa deixa marcas, mesmo que etéreas. Ela some, mas permanece.

Leia também: Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade – Análise

Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.

Entre na conversa

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados.

Da notícia para a leitura

Leia livros grátis direto no navegador

Escolha uma obra, comece sem cadastro e continue de onde parou em qualquer dispositivo.