Pular para o conteúdo

Revista Literatura Online

Ilíada, de Homero: resumo, personagens e análise da epopeia que termina antes do cavalo de Troia

Resumo canto a canto, personagens, deuses, estilo, temas, o que a Ilíada não conta e traduções brasileiras.

Montagem dividida em duas partes. À esquerda, o fundo circular de uma taça grega antiga, pintada em figuras vermelhas sobre fundo preto. Nela, um guerreiro de elmo enfaixa o braço ferido de outro guerreiro barbado, sentado, que vira o rosto de dor. Uma flecha está no chão ao lado. À direita, a capa da Ilíada da Penguin-Companhia, com uma pintura de navios em mar agitado diante de uma fortaleza e, embaixo, faixa escura com o nome de Homero. Ampliar a imagem de destaque
Aquiles cuida de Pátroclo ferido, em taça grega de cerca de 500 a.C., e a edição da Ilíada da Penguin-Companhia. Imagens: Bibi Saint-Pol/Antikensammlung Berlin/Wikimedia Commons e Reprodução/Penguin-Companhia

A Ilíada, atribuída a Homero, é um poema épico grego que conta 51 dias do último ano da Guerra de Troia, e não a guerra inteira. O assunto anunciado no primeiro verso é a ira de Aquiles, o maior guerreiro dos gregos, que abandona o combate depois de ser humilhado pelo próprio comandante. O poema segue as consequências dessa decisão até a morte do troiano Heitor e o funeral dele.

Por isso, quem procura na Ilíada o cavalo de madeira, a queda de Troia ou a morte de Aquiles não vai encontrar nada disso. O poema termina antes do cavalo de Troia, com Troia ainda de pé e Aquiles ainda vivo. O cavalo aparece em outras obras, como a Odisseia, também atribuída a Homero, e a Eneida, de Virgílio.

Composta provavelmente no século VIII a.C., a partir de uma longa tradição oral, a Ilíada tem 15.693 versos divididos em 24 cantos e é considerada a obra fundadora da literatura ocidental. A seguir, o resumo dos cantos, os personagens, a análise dos temas, o que o poema não conta e as traduções disponíveis no Brasil.

Do que trata a Ilíada

Fragmento de papiro antigo, amarelado e rasgado, com fibras soltas nas bordas e buracos no meio. Traz várias linhas de texto em letras gregas maiúsculas, escritas à mão com tinta escura, divididas em duas colunas.
Fragmento de papiro com versos da Ilíada, copiado no Egito no século II a.C. Imagem: Biblioteca da Universidade de Michigan/Wikimedia Commons

A Ilíada trata da ira de Aquiles e do preço que gregos e troianos pagam por ela. O título vem de Ílion, outro nome de Troia, cidade da Ásia Menor (atual Turquia) cercada havia quase dez anos por uma coalizão de reinos gregos. Na tradição mítica, a guerra começou quando o príncipe troiano Páris levou Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta.

Homero não conta essa origem: ele parte do princípio de que o ouvinte já conhece a história. O poema abre com uma briga entre Aquiles e Agamêmnon, irmão de Menelau e chefe das tropas gregas, e acompanha o que acontece quando o melhor guerreiro se recusa a lutar. No poema, os gregos são chamados de aqueus, dânaos ou argivos.

A abertura, chamada de proêmio, resume o assunto. Na tradução de Odorico Mendes, publicada em 1874, os primeiros versos dizem:

Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,
Verdes no Orco lançou mil fortes almas,
Corpos de heróis a cães e abutres pasto:
Lei foi de Jove, em rixa ao discordarem
O de homens chefe e o Mirmidon divino.

“Peleio” quer dizer filho de Peleu; “Orco” é o mundo dos mortos; “Jove” é Júpiter, nome latino de Zeus; “o de homens chefe” é Agamêmnon, e “o Mirmidon divino” é Aquiles, líder dos mirmidões.

Resumo da Ilíada

O resumo da Ilíada pode ser dividido em três movimentos: a briga e o afastamento de Aquiles, a vantagem troiana que culmina na morte de Pátroclo e a volta de Aquiles, que termina com a morte de Heitor e a devolução do corpo ao pai.

Afresco antigo e desgastado, com partes descascadas e manchas, sob uma faixa de ornamentos geométricos. Figuras pintadas em tons de vermelho, ocre e azul aparecem lado a lado. No centro, um guerreiro se inclina sobre um prisioneiro ajoelhado e o fere no pescoço com uma espada. À esquerda, uma figura alada abre as asas. À direita, um demônio de pele azulada segura um martelo, ao lado de guerreiros armados e de um prisioneiro nu.
Aquiles sacrifica prisioneiros troianos no funeral de Pátroclo, em afresco etrusco da Tumba François, em Vulci (350-330 a.C.). Imagem: Askelladd/Wikimedia Commons (CC0)

Cantos I a IX: a ira de Aquiles

No canto I, Agamêmnon recusa devolver Criseida, filha de um sacerdote de Apolo, que ele recebeu como prêmio de guerra. Apolo manda uma peste ao acampamento grego. Obrigado a devolver a moça, Agamêmnon toma para si Briseida, a cativa que cabia a Aquiles. Humilhado, Aquiles se retira da guerra e pede à mãe, a deusa Tétis, que convença Zeus a dar vitórias aos troianos até que os gregos reconheçam seu valor.

Nos cantos seguintes, a guerra continua sem ele. Páris e Menelau duelam pela posse de Helena, mas Afrodite salva Páris no meio da luta. Os deuses quebram a trégua, e o guerreiro grego Diomedes chega a ferir Afrodite e Ares. No canto VI, Heitor volta à cidade e se despede da mulher, Andrômaca, e do filho pequeno, uma das cenas mais conhecidas do poema. No canto IX, Agamêmnon, encurralado, envia Odisseu, Ájax e o velho Fênix com presentes para pedir a volta de Aquiles, que recusa.

Cantos X a XVII: os troianos chegam aos navios

Com Zeus favorecendo Troia, Heitor rompe a muralha que os gregos ergueram para proteger os navios. Hera chega a fazer Zeus dormir para que Poseidon ajude os gregos, mas a vantagem dura pouco. No canto XVI, Pátroclo, o companheiro mais próximo de Aquiles, pede para lutar com a armadura dele. Aquiles aceita, com a condição de que ele só afaste os troianos dos navios. Pátroclo desobedece, avança até as muralhas de Troia e morre pelas mãos de Heitor, com ajuda de Apolo. Heitor fica com a armadura de Aquiles, e os gregos lutam para recuperar o corpo.

Cantos XVIII a XXIV: a volta de Aquiles e o resgate de Heitor

Aquiles transforma a ira contra Agamêmnon em ira contra Heitor. Tétis encomenda ao deus Hefesto uma nova armadura, com um escudo descrito em detalhes no canto XVIII. Reconciliado com Agamêmnon, Aquiles volta ao combate, mata dezenas de troianos e chega a lutar contra o rio Escamandro. No canto XXII, Heitor enfrenta Aquiles diante das muralhas e morre; antes de morrer, prevê que Aquiles também cairá diante das portas de Troia. Aquiles amarra o corpo ao carro e o arrasta.

O canto XXIII narra os jogos fúnebres em homenagem a Pátroclo. No canto XXIV, guiado pelo deus Hermes, o rei troiano Príamo entra à noite no acampamento grego para pedir o corpo do filho. Aquiles se lembra do próprio pai, Peleu, e chora com o velho inimigo. O poema termina com o funeral de Heitor em Troia.

Personagens principais da Ilíada

Os personagens principais da Ilíada se dividem entre o lado grego, o lado troiano e os deuses, que interferem o tempo todo.

  • Aquiles: filho do mortal Peleu e da deusa Tétis, o maior guerreiro grego. Sua ira move o enredo.
  • Agamêmnon: rei de Micenas e comandante da expedição. A arrogância dele provoca a briga do canto I.
  • Pátroclo: companheiro inseparável de Aquiles. Sua morte faz o herói voltar à guerra.
  • Heitor: filho mais velho de Príamo e principal defensor de Troia. Luta por dever, mesmo prevendo a queda da cidade.
  • Príamo: rei de Troia, já idoso. Protagoniza o encontro com Aquiles no último canto.
  • Andrômaca: mulher de Heitor, que teme ficar viúva e perder o filho pequeno.
  • Helena e Páris: o casal cuja fuga deu origem à guerra. Helena se culpa; Páris prefere o quarto ao campo de batalha.
  • Menelau: rei de Esparta e marido de Helena.
  • Odisseu: rei de Ítaca, conhecido pela inteligência. É o herói da Odisseia, onde aparece com o nome latino de Ulisses em muitas traduções.
  • Ájax, Diomedes e Nestor: guerreiros gregos que sustentam a luta na ausência de Aquiles; Nestor é o conselheiro mais velho.
  • Briseida e Criseida: mulheres capturadas na guerra, tratadas como prêmios. A disputa por elas desencadeia a ira.

Os deuses na Ilíada

Os deuses da Ilíada tomam partido e lutam ao lado dos mortais. Hera, Atena e Poseidon apoiam os gregos; Apolo, Afrodite e Ares favorecem os troianos. Zeus fica acima das facções e tenta fazer cumprir a promessa feita a Tétis, mas também é enganado pela mulher, Hera.

Esse contraste é central no poema. Os deuses brigam, se ferem e fazem as pazes sem consequência duradoura, porque são imortais. Os humanos pagam com a vida pelas mesmas paixões. O contraste deixa mais visível o que define a condição humana na Ilíada: a certeza de morrer.

Estrutura e estilo: cantos, verso e epítetos

A Ilíada foi escrita em hexâmetro datílico, o verso tradicional da épica grega, com seis unidades rítmicas (pés) por linha. A língua do poema mistura dialetos e nunca foi falada no dia a dia: é uma língua literária, criada ao longo de gerações de cantores. A divisão em 24 cantos, um para cada letra do alfabeto grego, é atribuída aos estudiosos da Biblioteca de Alexandria, séculos depois da composição.

A origem oral explica marcas que surpreendem quem lê hoje. A mais conhecida é o epíteto, uma expressão fixa que acompanha um nome: “Aquiles de pés velozes”, “Aurora de dedos róseos”, “Hera de braços brancos”. Nos anos 1920 e 1930, o estudioso americano Milman Parry e seu assistente Albert Lord mostraram que essas fórmulas ajudavam os aedos (cantores que recitavam epopeias de memória) a compor os versos durante a apresentação. Repetições de cenas inteiras, como as de banquete e de armar-se para a luta, têm a mesma função.

Outro recurso é a comparação longa, que interrompe a batalha para descrever uma cena do campo ou da natureza: um leão atacando o rebanho, uma tempestade, um incêndio na floresta. Essas imagens trazem o mundo em paz para dentro da guerra. A Ilíada também é o modelo do gênero épico no Ocidente: narrador em terceira pessoa, invocação à musa, começo no meio da ação e herói de dimensão coletiva.

Análise: os temas da Ilíada

O tema central da Ilíada é a ira e o que ela destrói. A palavra grega usada no primeiro verso, mênis, designa uma cólera duradoura, quase sagrada. A ira de Aquiles contra Agamêmnon custa a vida de muitos gregos e a de Pátroclo; a ira contra Heitor leva o herói a desonrar um cadáver. O poema só se resolve quando essa ira cede, diante de Príamo.

Honra e glória. Os guerreiros lutam pela timé (honra, medida também em prêmios e presentes) e pelo kléos (a fama que sobrevive à morte). No canto IX, Aquiles conta que tem duas sortes possíveis: voltar para casa e ter vida longa sem fama, ou ficar em Troia, morrer jovem e ganhar glória eterna. A escolha pela glória define o herói épico.

Mortalidade e luto. A Ilíada descreve centenas de mortes, muitas delas com o nome do guerreiro, a origem e a família que ele deixou. O poema dá peso a cada morte. O luto de Aquiles por Pátroclo, o de Andrômaca e o de Príamo ocupam os cantos finais, e o encontro entre Aquiles e Príamo mostra os dois inimigos chorando juntos, cada um pelos seus mortos.

A força e a violência. Em 1939, no início da Segunda Guerra Mundial, a filósofa francesa Simone Weil escreveu o ensaio A Ilíada ou o poema da força. “O verdadeiro herói, o verdadeiro tema, o centro da Ilíada é a força” (em tradução livre), afirma na primeira frase. Para Weil, a força transforma em coisa tanto quem a sofre quanto quem a exerce, e o poema não esconde essa brutalidade de nenhum dos lados.

Os dois lados da guerra. Embora grego, o poema não trata os troianos como vilões. Heitor é o personagem mais próximo do leitor: um homem com família, que luta para defender a cidade e sabe que vai perder.

O que a Ilíada não conta

A Ilíada não conta o início nem o fim da Guerra de Troia. Ficam de fora o julgamento de Páris, o rapto de Helena, a morte de Aquiles, o cavalo de madeira e o saque da cidade.

  • O cavalo de Troia: é mencionado na Odisseia e narrado em detalhe no canto II da Eneida, poema latino de Virgílio do século I a.C.
  • A morte de Aquiles: o poema só a anuncia, na profecia de Heitor no canto XXII. O famoso calcanhar vulnerável não aparece em Homero; vem de fontes posteriores.
  • A queda de Troia: é pressentida por Heitor e por Andrômaca, mas acontece fora do poema.

Muitos desses episódios vinham de outros poemas épicos gregos sobre a guerra, que se perderam e são conhecidos só por resumos antigos.

Traduções da Ilíada no Brasil

O leitor brasileiro tem pelo menos quatro traduções poéticas completas da Ilíada feitas a partir do grego, com propostas bem diferentes.

  • Odorico Mendes (1874): em decassílabos sem rima, muito concisa, com neologismos como “Aurora dedirrósea” e nomes latinos dos deuses (Júpiter, Minerva, Netuno). É a tradução disponível para leitura gratuita na plataforma Literatura Online.
  • Carlos Alberto Nunes (anos 1940): recria em português o ritmo do hexâmetro, com versos longos de 16 sílabas. Teve reedições pela Nova Fronteira.
  • Haroldo de Campos (2002): chamada pelo poeta de “transcriação”, em versos de 12 sílabas, com foco na sonoridade do original. Foi feita ao longo de cerca de dez anos.
  • Frederico Lourenço (2005 em Portugal, 2013 no Brasil): em versos livres, privilegia a clareza e a fluência. Saiu no Brasil pela Penguin-Companhia.

Para uma primeira leitura, a tradução de Frederico Lourenço costuma ser a mais acessível. A de Odorico Mendes exige mais esforço por causa do vocabulário e da sintaxe, mas é útil para quem estuda a tradição épica em língua portuguesa, que inclui Os Lusíadas, de Luís de Camões.

Adaptações e releituras

A Ilíada é recontada desde a Antiguidade. A Eneida, de Virgílio, parte da derrota de Troia para narrar a fuga do troiano Eneias até a Itália. No cinema, o filme Troia (2004), com Brad Pitt como Aquiles, adapta os eventos do poema, acrescenta o início e o fim da guerra e tira os deuses de cena.

Entre os romances recentes, A Canção de Aquiles (2011), da americana Madeline Miller, reconta a história pela voz de Pátroclo e pela relação dele com Aquiles. O livro venceu o Orange Prize em 2012 e foi publicado no Brasil.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura a história da Ilíada?

A ação da Ilíada se passa em cerca de 51 dias, no último ano do cerco a Troia. Boa parte desse tempo é ocupada por intervalos, como os nove dias de peste do canto I e a trégua concedida para o funeral de Heitor no fim do poema. As grandes batalhas se concentram em poucos dias.

Qual é a diferença entre a Ilíada e a Odisseia?

A Ilíada narra um episódio da Guerra de Troia, centrado na ira de Aquiles. A Odisseia conta a volta de Odisseu para casa, em Ítaca, depois do fim da guerra, numa viagem de dez anos. A primeira é um poema de guerra; a segunda, de viagem e retorno.

Homero existiu de verdade?

Não há certeza. Os gregos antigos consideravam Homero um poeta real, mas não existem dados biográficos confiáveis sobre ele. Muitos estudiosos entendem que a Ilíada resulta de séculos de tradição oral e foi fixada por escrito mais tarde, e o debate sobre um autor único continua aberto.

Por que Aquiles fica com raiva de Agamêmnon?

Aquiles fica com raiva porque Agamêmnon toma dele Briseida, a cativa que havia recebido como prêmio de guerra. Para o herói, perder o prêmio na frente do exército é uma ofensa pública à sua honra, e por isso ele se recusa a lutar.

Onde ler a Ilíada de graça?

A tradução de Odorico Mendes está em domínio público e pode ser lida gratuitamente na página da Ilíada na plataforma Literatura Online, que também oferece os arquivos em PDF e EPUB.

Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Os comentários da Revista são feitos com a conta do Literatura Online: a mesma, gratuita, que guarda seu progresso de leitura.