O mangaká japonês Tetsuya Chiba morreu aos 87 anos, em um hospital de Tóquio, no dia 22 de outubro. A morte foi anunciada nesta terça-feira (27) pelas editoras Kodansha e Shogakukan, que publicaram a maior parte da obra dele. Chiba é o desenhista de Ashita no Joe, mangá de boxe lançado em 1968 que se tornou um dos títulos mais influentes da história dos quadrinhos japoneses e que está sendo publicado no Brasil pela NewPOP.
Segundo a agência japonesa Jiji Press, a causa da morte foi a síndrome mielodisplásica, doença da medula óssea que afeta a produção das células do sangue. O comunicado da Kodansha não citou a causa. O funeral foi restrito à família, e a Shogakukan informou que estuda uma cerimônia de despedida aberta.
A Kodansha, que publicou Ashita no Joe na revista Weekly Shonen Magazine, afirmou em comunicado divulgado pela conta da revista no X que o autor tinha “um amor e uma confiança sem fim no mangá como forma de criação” e que sua contribuição foi “insubstituível” (em tradução livre), segundo o ComicBook.com.
Ashita no Joe (algo como “O Joe de amanhã”) tem roteiro de Asao Takamori, pseudônimo de Ikki Kajiwara, e desenhos de Chiba. A série saiu de 1968 a 1973 e conta a história de Joe Yabuki, um jovem pobre e sem casa que descobre o boxe num bairro miserável de Tóquio, passa por um reformatório e encontra ali o rival que muda sua vida, Toru Rikiishi. A coleção reunida em 20 volumes vendeu mais de 20 milhões de exemplares no Japão.
O mangá virou fenômeno social. Quando Rikiishi morreu na história, depois de uma luta contra Joe, os fãs organizaram em 1970 um funeral de verdade para o personagem, realizado no auditório da Kodansha com centenas de pessoas. No mesmo ano, os sequestradores de um avião da Japan Airlines, militantes de esquerda, declararam “Nós somos o Joe de amanhã”, lendo na série uma mensagem de revolta contra a ordem estabelecida.
O desenho final, em que Joe aparece sentado no canto do ringue, coberto de “cinzas brancas”, deixa em aberto se o boxeador está vivo ou morto, e Chiba nunca resolveu a questão. “Eu também estava, em parte, consumido até o fim. Desenhei exatamente o que sentia naquela época”, disse o autor sobre a última página, em fala relembrada pelo jornal Sports Hochi (em tradução livre). A produção semanal foi tão desgastante que ele chegou a ser internado com úlcera e precisou interromper a série algumas vezes.
A história ganhou duas séries de anime dirigidas por Osamu Dezaki (1970 e 1980), longas de animação, um filme com atores em 2011 e, em 2018, Megalobox, releitura futurista criada para os 50 anos do mangá.
Da Manchúria ao primeiro mangaká com a Ordem da Cultura
Chiba nasceu em Tóquio em 11 de janeiro de 1939 e passou a infância em Mukden (atual Shenyang), na Manchúria, região da China então ocupada pelo Japão. Com a derrota japonesa na Segunda Guerra, a família ficou escondida no sótão de um amigo chinês do pai antes de conseguir voltar ao Japão, em 1946. Para distrair os irmãos menores, ele desenhava e contava histórias em pedaços de papel, experiência que apontava como a origem da sua carreira.
Estreou profissionalmente aos 17 anos, em 1956, ainda no ensino médio, em livros vendidos para locadoras. Antes de Ashita no Joe, fez sucesso com Shidenkai no Taka, sobre um piloto de caça, e Harris no Kaze. Depois, levou o mangá esportivo para o kendô (Ore wa Teppei), o sumô (Notari Matsutaro) e o golfe (Ashita Tenki ni Naare). Desde 2015 publicava na revista Big Comic, da Shogakukan, o mangá autobiográfico Hinemosu Notari Nikki, interrompido em setembro por problemas de saúde.
Presidiu a Associação Japonesa de Cartunistas e foi reitor da Universidade de Arte Bunsei de 2019 a 2022. Em 2024, tornou-se o primeiro mangaká a receber a Ordem da Cultura, uma das maiores honrarias do governo japonês. O Prêmio Chiba Tetsuya, criado pela Kodansha em 1980 para revelar novos autores, leva o nome dele.
No Brasil, Ashita no Joe: Em Busca do Amanhã começou a sair pela NewPOP em 2024, em edição 2 em 1 com cerca de 380 páginas por volume. Oito volumes já foram lançados, a R$ 79,90 cada, e a coleção ainda não foi concluída.
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