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Revista Literatura Online

Raul Pompeia resumiu numa frase o que o mundo pede de quem sai de casa pela primeira vez

A frase do pai de Sérgio na primeira página de O Ateneu (1888), de Raul Pompeia: contexto, sentido e o que ela diz hoje.

Retrato antigo em tons de sépia de Raul Pompeia, que parece ser a reprodução fotográfica de uma pintura. Ele aparece de frente, em close, com cabelo escuro e curto, óculos de aro fino sem hastes, bigode farto e colarinho branco sob o paletó escuro. Ampliar a imagem de destaque
Raul Pompeia, autor de O Ateneu, romance que começa com o conselho "Coragem para a luta". Foto: Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

“Coragem para a luta.” É com essa frase que um pai se despede do filho de 11 anos na primeira página de O Ateneu, romance de Raul Pompeia publicado em 1888. Quem conta a cena é o próprio menino, Sérgio, já adulto, lembrando o dia em que foi deixado na porta de um internato do Rio de Janeiro. O aviso inteiro é curto: “Vais encontrar o mundo”. E o que esse mundo pede de quem sai de casa pela primeira vez, segundo o romance, é coragem para enfrentar o que o carinho da família não ensinou.

A frase funciona ao mesmo tempo como incentivo e como alerta. O pai não promete que vai dar tudo certo; ele avisa que haverá luta. E o narrador, anos depois, confirma que o conselho estava certo, mas de um jeito mais duro do que o menino podia imaginar.

O trecho abre o primeiro capítulo do livro (aqui, com a ortografia atualizada):

“Vais encontrar o mundo”, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. “Coragem para a luta.”

Onde a frase aparece em O Ateneu

O Ateneu conta a vida de Sérgio num colégio interno de elite no Rio de Janeiro do Segundo Reinado, dirigido pelo vaidoso Aristarco, um educador que trata a escola como vitrine e anúncio de si mesmo. O livro tem o subtítulo Crônica de Saudades e é narrado em primeira pessoa por Sérgio adulto, que relembra a entrada no internato e os anos de convivência com colegas, professores e o diretor.

O romance saiu primeiro em capítulos, como folhetim, na primeira página do jornal carioca Gazeta de Notícias, a partir de 8 de abril de 1888, como mostra o professor José Alcides Ribeiro, da USP, em artigo publicado na Revista USP. Pompeia havia estudado, ele mesmo, como interno no Colégio Abílio, no Rio, experiência que serve de base ao livro.

A frase do pai é a primeira linha do romance. Logo depois dela, o narrador já comenta o que aquele aviso significou: diz que experimentou “a verdade deste aviso”, que o despia “das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho” do amor doméstico. A imagem da estufa resume o contraste que move o livro: em casa, o menino era protegido como uma planta delicada; no internato, encontra um clima rigoroso.

O que a frase quer dizer

Lida isoladamente, “coragem para a luta” parece um conselho simples, quase uma fórmula de despedida. No contexto do romance, ela ganha duas camadas. A primeira é a do pai, que fala com sinceridade e prepara o filho para uma vida sem a proteção da família. A segunda é a do narrador adulto, que olha para trás com ironia e sabe que a luta no Ateneu foi feita de humilhações, disputas de poder, amizades instáveis e da hipocrisia de um diretor que vendia virtudes.

A ironia é uma das marcas do livro. Em artigo sobre a ficção de Pompeia nos jornais, José Alcides Ribeiro observa que, em O Ateneu, “a comicidade explorada pelo autor apóia-se substancialmente na ironia, que solicita uma decodificação ativa, crítica” do leitor. A frase de abertura é um bom exemplo: o leitor só percebe todo o peso dela depois de conhecer o internato.

O narrador também desconfia da nostalgia. No mesmo parágrafo, ele diz que nos lembramos “com saudade hipócrita” dos “felizes tempos”, e logo depois chama a expressão de eufemismo: para ele, a incerteza de hoje já existia na infância, com outra aparência. O subtítulo Crônica de Saudades, portanto, também é irônico.

O que a frase diz a quem lê hoje

Quase todo mundo já ouviu alguma versão do aviso do pai de Sérgio: no primeiro dia de escola, na mudança para outra cidade, no primeiro emprego, na faculdade longe de casa. São momentos em que alguém que gosta de nós sabe que não poderá ir junto e resume em poucas palavras o que deseja. A frase de Pompeia reconhece que esses começos assustam e que a coragem não elimina a dificuldade, só permite atravessá-la.

O romance acrescenta uma nuance que a frase sozinha não mostra. Sérgio não sai do Ateneu como herói que venceu a luta; sai alguém que entendeu o mundo de outro jeito, com menos ilusão sobre as pessoas e as instituições. Talvez seja essa a lição mais honesta do livro: a coragem pedida na porta do colégio não serve para provar nada a ninguém, e sim para seguir aprendendo, mesmo quando o mundo é menos gentil do que a casa de onde viemos. É o que Sérgio descobre depois que o pai vai embora.

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