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Entendendo a literatura

“Atar as duas pontas da vida”: o plano do narrador de Dom Casmurro, de Machado de Assis, que fracassa na frase seguinte

A frase do capítulo II de Dom Casmurro, dita pelo narrador Bento Santiago, anuncia um plano que fracassa na frase seguinte e avisa o leitor sobre a memória que conduz o romance.

Retrato antigo em tom sépia de Machado de Assis, de cabelo grisalho, barba cheia e pincenê preso a um cordão. No canto superior direito há um grande sinal de aspas em vermelho-escuro. Ampliar a imagem de destaque
Machado de Assis, autor de Dom Casmurro. Foto: Acervo da Academia Brasileira de Letras (domínio público, via Wikimedia Commons)

“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.” A frase está no capítulo II de Dom Casmurro, romance que Machado de Assis publicou em 1899. Quem fala não é o autor, mas o narrador, Bento Santiago, um homem já velho que vive recluso no subúrbio carioca do Engenho Novo e decide contar a própria vida.

A frase anuncia um plano: juntar a velhice e a juventude, como quem amarra as duas pontas de um fio. O plano fracassa já na frase seguinte, quando o próprio narrador admite: “Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui.” O romance inteiro nasce dessa confissão de fracasso, e é por isso que o trecho ajuda a entender o tipo de narrador que conduz o livro.

O trecho completo aparece no capítulo II, intitulado “Do livro”, conforme a primeira edição (H. Garnier, 1899), aqui com a grafia atualizada:

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.

Onde a frase aparece em Dom Casmurro

O livro começa com dois capítulos curtos em que o narrador se apresenta. No primeiro, ele explica o título: um rapaz do bairro recitava versos para ele no trem, viu-o cochilar, ficou ofendido e passou a chamá-lo de “Dom Casmurro”. A alcunha pegou entre os vizinhos, e o narrador a adotou como nome da obra. “Casmurro”, explica ele, está no sentido popular de homem calado e metido consigo.

No segundo capítulo, ele conta os motivos que o levaram a escrever. Anos antes, mandara construir no Engenho Novo uma cópia da casa da infância, na antiga rua de Matacavalos: o mesmo sobrado de três janelas de frente, as mesmas alcovas e salas, as mesmas pinturas no teto e nas paredes, com medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa. É logo depois de descrever essa casa que vem a frase sobre atar as duas pontas da vida. A reconstrução, portanto, foi primeiro de tijolo e tinta, e não deu certo.

O narrador conta então que tentou outros projetos, como um livro de jurisprudência, filosofia e política e uma “História dos Subúrbios”, e desistiu de todos. Até que os bustos pintados na parede “entraram a falar-me” e o aconselharam a contar os tempos idos. Ele espera que a narração lhe dê “a ilusão” de reviver o passado e evoca, como fez “o poeta do Fausto” (Goethe), as sombras do passado: “Aí vindes outra vez, inquietas sombras…?”. O capítulo termina com o anúncio de que a evocação começa “por uma célebre tarde de novembro”, e a partir do capítulo III o velho Bento passa a contar a adolescência de Bentinho, como era chamado quando menino.

O que a frase revela sobre o narrador

Lida em sequência, a passagem mostra um homem que já sabe que não conseguiu o que queria antes mesmo de começar a escrever. A casa copiada tem o mesmo rosto da antiga, mas não a mesma “fisionomia”; a imagem que ele usa é a da tinta posta na barba e no cabelo, que conserva só a aparência, porque “o interno não aguenta tinta”. O que falta, diz ele, não são apenas as pessoas que perdeu ao longo da vida: “falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”.

Essa é a chave da frase. Atar as duas pontas da vida seria reencontrar, na velhice, o menino que ele foi. Escrever o livro passa a ser a segunda tentativa, depois da casa, e o leitor é avisado de saída de que ela também pode falhar. O narrador, por isso, não promete a verdade dos fatos: promete uma reconstrução feita pela memória de alguém que não se reconhece no próprio passado.

O professor Marco Cícero Cavallini, da Universidade Estadual de Maringá, comenta o trecho num artigo publicado em 2008 na Revista de Letras, da Unesp: “Há aqui, além de uma consciência da dificuldade de se restaurar o passado, uma obsessão e um enigma, obsessão pelo vivido e o enigma do próprio narrador não se reconhecer em suas reminiscências.” Para ele, o narrador “não é nada claro nas suas intenções”.

Na Revista Linguasagem, da UFSCar, Verônica Franciele Seidel lê o romance como uma autobiografia de ficção, em que o velho que escreve (Dom Casmurro) e o menino de quem ele fala (Bentinho) são a mesma pessoa em tempos diferentes. Diante do trecho do capítulo II, ela conclui que “já é possível verificar uma falência do narrador/protagonista em atingir seu objetivo de ‘atar as duas pontas da vida'”.

Esse ponto tem consequência para o resto do livro. Dom Casmurro é conhecido pela dúvida sobre Capitu, o grande amor de Bentinho, e essa dúvida existe porque tudo o que o leitor sabe dela passa pela memória de Bento Santiago. A frase do capítulo II é o primeiro aviso de que essa memória é incompleta e interessada. É o que os estudos de literatura chamam de narrador não confiável: aquele cuja versão dos fatos o leitor não pode aceitar sem desconfiar.

Onde ler Dom Casmurro

O romance está em domínio público. O texto integral pode ser lido de graça na página de Dom Casmurro no Literatura Online, dividido em capítulos.

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Sobre quem escreveu

Fundador e editor do Literatura Online. Graduado em Letras (Português/Inglês) pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com TCC dedicado à obra de Paulo Leminski e um ano de especialização em Teoria da Literatura. Sua maior área de interesse é a poesia brasileira, com ênfase nos poetas do Romantismo e do Modernismo. Escreve análises de poemas e obras literárias para estudantes do ensino médio, universitários de Letras e leitores apaixonados por literatura.

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