Pular para o conteúdo

Revista

Poemas

“A mão que afaga é a mesma que apedreja”: o maldito verso de Augusto dos Anjos

O verso "A mão que afaga é a mesma que apedreja", de Versos Íntimos (Eu, 1912), conferido na primeira edição e explicado no contexto do soneto de Augusto dos Anjos.

Fotografia antiga em tom sépia de Augusto dos Anjos jovem, num medalhão oval sobre um cartão envelhecido e manchado. Ele usa um barrete alto, casaca escura de gola fechada e colarinho branco, tem bigode fino e olha para a direita. Ampliar a imagem de destaque
Augusto dos Anjos, autor de "Versos Íntimos", em sua foto de formatura, de 1907. Foto: Photographia Chic (Monteiro e Cia.)/Wikimedia Commons

O verso “A mão que afaga é a mesma que apedreja” é de Augusto dos Anjos e fecha o primeiro terceto de “Versos Íntimos“, soneto do livro Eu, publicado em 1912. Quem fala é o eu lírico, a voz do poema, que se dirige a um “tu” chamado de “amigo” e o aconselha a não esperar nada de ninguém: o mesmo gesto que oferece carinho pode, logo depois, virar agressão.

A ideia não para aí. Dois versos adiante, no último terceto, o poeta retoma as mesmas palavras e transforma a constatação numa ordem: “Apedreja essa mão vil que te afaga”. O que era um diagnóstico amargo sobre as pessoas vira um conselho de revide, e é essa virada que dá ao soneto o seu tom de desforra.

A estrofe do verso, aqui na grafia atualizada, está na página 101 da primeira edição de Eu:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Na edição original, o título aparece como “Versos Intimos”, sem acento, e o verbo é grafado “affaga”, segundo a ortografia da época. Ao pé do soneto vem a indicação “Pau d’Arco, 1901”: o nome do engenho da Paraíba onde o poeta nasceu e o ano em que datou o poema, onze anos antes de o livro sair.

Onde o verso aparece em “Versos Íntimos”

O soneto segue a forma clássica de dois quartetos e dois tercetos, com versos de dez sílabas. Abre com uma pergunta e uma exclamação juntas, “Vês?!”, e com uma cena de abandono: ninguém compareceu ao “formidável / Enterro de tua última quimera”. Quimera, aqui, é ilusão, um sonho que não se realizou. A única companhia que sobrou foi a Ingratidão, comparada a uma pantera.

O segundo quarteto explica por que ninguém apareceu: “O Homem, que, nesta terra miserável, / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera.” Para o eu lírico, quem vive cercado de crueldade acaba cruel também. O conselho que vem antes desses versos é seco: “Acostuma-te à lama que te espera!”

Então chega o terceto do verso famoso. Ele começa com um gesto banal, riscar um fósforo e acender um cigarro, e o tom muda do lamento para a frieza. “O beijo, amigo, é a véspera do escarro” prepara a frase seguinte com a mesma lógica: cada gesto de afeto anuncia o seu contrário, como a véspera anuncia o dia.

O último terceto fecha o poema com ordens. Se alguém ainda sente pena da “chaga” (a ferida) do amigo, ele deve apedrejar “essa mão vil que te afaga” e escarrar “nessa boca que te beija”. As palavras do terceto anterior (mão, afagar, apedrejar, beijo, escarro) voltam em ordem trocada, agora como ação de quem foi ferido.

O que o verso diz sobre o pessimismo de Augusto dos Anjos

“A mão que afaga é a mesma que apedreja” junta afeto e agressão numa só pessoa e num só gesto. O verso não afirma que todo carinho é falso; afirma que o carinho não garante nada, porque quem acaricia hoje pode atacar amanhã. Por isso o eu lírico não pede ao amigo que se proteja, e sim que ataque primeiro.

Essa visão combina com o restante de Eu, livro marcado pelo pessimismo e pela ideia do ser humano como matéria sujeita à doença e à decomposição. O crítico Anatol Rosenfeld aproximou essa poesia do Expressionismo alemão, movimento que usava o feio e o deformado para expressar angústia, e a definiu como uma “poesia de necrotério na qual se disseca e desmonta ‘a glória da criação'”, como registra a Enciclopédia Itaú Cultural. O comentário está no ensaio “A costela de prata de Augusto dos Anjos”, do livro Texto/contexto (1969).

“Versos Íntimos”, porém, quase não usa o vocabulário científico que marcou o poeta. Não há “epigênesis” nem “amoníaco”, palavras de outros poemas do livro: as imagens são cotidianas, como beijo, cigarro, fósforo e mão. O pessimismo é o mesmo, mas dito numa linguagem que qualquer leitor entende na primeira leitura.

O título também pesa na interpretação. “Íntimos” sugere conversa reservada, de alguém que fala baixo a um amigo, ou a si mesmo. O texto não identifica quem é o “tu”, e as duas leituras se sustentam: o soneto pode ser um conselho a outra pessoa ou um desabafo do poeta diante do próprio fracasso.

Onde ler Eu, de Augusto dos Anjos

Eu foi o único livro que Augusto dos Anjos publicou em vida, numa edição paga pelo irmão, Odilon dos Anjos. O poeta morreu dois anos depois, em 1914, aos 30 anos. O livro, com “Versos Íntimos” e os demais poemas, pode ser lido de graça na plataforma, na página de Eu, com opção de download em EPUB e PDF.

Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.

Avatar photo
Sobre quem escreveu

Fundador e editor do Literatura Online. Graduado em Letras (Português/Inglês) pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com TCC dedicado à obra de Paulo Leminski e um ano de especialização em Teoria da Literatura. Sua maior área de interesse é a poesia brasileira, com ênfase nos poetas do Romantismo e do Modernismo. Escreve análises de poemas e obras literárias para estudantes do ensino médio, universitários de Letras e leitores apaixonados por literatura.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Os comentários da Revista são feitos com a conta do Literatura Online: a mesma, gratuita, que guarda seu progresso de leitura.