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Clarice Lispector adormeceu com um cigarro aceso em 1966, e o incêndio quase lhe custou a mão direita

Em setembro de 1966, Clarice Lispector adormeceu fumando, sofreu queimaduras graves e quase perdeu a mão direita, mas seguiu escrevendo até A Hora da Estrela.

Retrato colorido de Clarice Lispector em 1969, de cabelo ruivo curto e roupa preta, segurando um ramo de flores pequenas cor-de-rosa, diante de um fundo escuro salpicado de flores. Ampliar a imagem de destaque
Clarice Lispector em agosto de 1969. Foto: Maureen Bisilliat/Instituto Moreira Salles (CC BY-SA 4.0)

Em setembro de 1966, Clarice Lispector adormeceu com um cigarro aceso no quarto do apartamento onde morava, na Rua Gustavo Sampaio, no Leme, Zona Sul do Rio de Janeiro. O fogo tomou o quarto, a escritora tentou apagá-lo com as mãos e saiu com queimaduras graves pelo corpo e, sobretudo, na mão direita, que os médicos chegaram a cogitar amputar.

A mão foi salva, mas não voltou a ser a mesma. Clarice tinha 45 anos, era autora de Perto do coração selvagem, Laços de família e A paixão segundo G.H., e escrevia à máquina. Depois do incêndio, passou por cirurgias e enxertos, conviveu com cicatrizes e com a perda de parte dos movimentos da mão com que trabalhava.

Mesmo assim, ela não parou de escrever. Foi depois do acidente que ela começou a assinar crônicas semanais no Jornal do Brasil e publicou Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969), Água viva (1973) e A hora da estrela (1977), seu último livro lançado em vida.

Como foi o incêndio no apartamento do Leme

O incêndio começou no quarto, onde Clarice dormia. Em texto publicado pelo blog de Severino Francisco no Correio Braziliense, o jornalista descreve que o fogo pegou primeiro nas cortinas e se espalhou pelo apartamento. Durante três dias, a escritora ficou entre a vida e a morte.

Há duas explicações para ela ter enfrentado as chamas com as próprias mãos. A escritora Marina Colasanti, que trabalhou com Clarice no Jornal do Brasil, conta em depoimento publicado pelo Instituto Moreira Salles (IMS, que guarda o acervo da autora) que Clarice tentou apagar o fogo para não pôr em risco os dois filhos. Já o norte-americano Benjamin Moser, autor da biografia Why This World (lançada no Brasil em 2009 pela Cosac Naify como Clarice, uma biografia e reeditada pela Companhia das Letras), escreve que ela tentou salvar seus papéis.

Clarice passou cerca de dois meses internada na Clínica Pio XII, em Botafogo, segundo ensaio de Bruno Cosentino no site do IMS dedicado à escritora. Algumas fontes em inglês falam em três meses de hospital. Marina Colasanti lembra que, ao saber do acidente, mandou duas dúzias de rosas ao hospital e acompanhou de longe a notícia de que a mão direita poderia ser amputada. “Felizmente, não aconteceu”, escreveu.

A mão direita e a escrita depois do fogo

Clarice Lispector, de cabelo ruivo curto e colares de contas brancas, sentada numa poltrona de couro marrom diante de um fundo cinza, segurando um cigarro e olhando para a câmera com expressão séria, em imagem de vídeo.
Clarice Lispector em entrevista ao programa Panorama, da TV Cultura, em 1977. Imagem: Reprodução/TV Cultura

As sequelas ficaram visíveis no próprio trabalho de Clarice. No acervo do IMS há um exemplar de A legião estrangeira (1964) em que ela revisou os contos à mão, com mudanças de pontuação e de palavras que dariam origem a Felicidade clandestina (1971). Segundo a pesquisadora Elizama Almeida, em ensaio publicado pelo instituto, a “caligrafia insegura, trêmula” indica que a revisão foi feita depois do incêndio, que comprometeu seriamente os movimentos da mão direita.

A máquina de escrever também ficou mais difícil. Naquela época, a única forma de ter cópia de um texto era encaixar uma folha de papel-carbono entre duas folhas, e Clarice tinha dificuldade para fazer isso com a mão queimada. Marina Colasanti, que cuidava dos textos dela na redação do Jornal do Brasil, conta que a escritora entregava os originais sem cópia e se justificava dizendo que “o carbono frrrranze”, puxando o erre da língua presa. A frase virou apelido na redação.

A mão queimada aparece até nas entrevistas que Clarice fez para a revista Manchete no fim dos anos 1960, na seção “Diálogos possíveis com Clarice Lispector”. Em uma delas, o poeta Vinicius de Moraes interrompe a conversa para dizer: “Tenho tanta ternura pela sua mão queimada…”. A própria escritora tratou do assunto na imprensa: entre os temas recorrentes das crônicas do Jornal do Brasil, o poeta Eucanaã Ferraz lista “sua mão queimada”, em ensaio sobre essas crônicas.

O que Clarice escreveu depois de 1966

Foto em preto e branco de Clarice Lispector em 1972, sentada num sofá antigo de madeira entalhada. Ela tem cabelo curto com franja, usa colar de pérolas e blusa de estampa geométrica, e olha de lado para a câmera.
Clarice Lispector em março de 1972. Foto: Domínio público/Acervo Arquivo Nacional

Cerca de um ano após o incêndio, quando já tinha feito várias operações na mão e na perna (de onde era retirado tecido para os enxertos), Clarice foi convidada por Alberto Dines, editor-chefe do Jornal do Brasil, a escrever crônicas semanais para o Caderno B. Ela manteve a coluna de 1967 a 1973. Os textos foram reunidos depois em A descoberta do mundo (1984), organizado pelo filho Paulo Gurgel Valente, com 468 crônicas em ordem cronológica.

A produção de livros também seguiu, segundo a cronologia de obras do IMS:

  • 1967: O mistério do coelho pensante, primeiro livro para crianças, escrito nos anos 1950 a pedido do filho Paulo.
  • 1968: A mulher que matou os peixes, também infantil.
  • 1969: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, romance sobre Lóri, professora primária que se apaixona por Ulisses, professor de filosofia.
  • 1971: Felicidade clandestina, contos.
  • 1973: Água viva, nascido de um manuscrito chamado “Objeto gritante”, montado a partir de crônicas e nunca publicado.
  • 1974: Onde estivestes de noite e A via crucis do corpo, contos.
  • 1977: A hora da estrela, a história de Macabéa, datilógrafa alagoana no Rio de Janeiro, contada pelo narrador Rodrigo S. M.

Nas notas de A hora da estrela guardadas pelo IMS aparecem lado a lado a caligrafia da autora e a de Olga Borelli, amiga e assistente que a ajudou a organizar os manuscritos dos últimos anos e que depois montaria o póstumo Um sopro de vida (1978). O livro de Macabéa saiu em outubro de 1977 pela José Olympio e, quase cinco décadas depois, aparece na lista dos livros mais vendidos de 2026 no Brasil. Clarice Lispector morreu em dezembro de 1977, pouco mais de onze anos depois do incêndio.

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