A poeta mineira Adélia Prado, de 90 anos, está nas listas de apostas para o Prêmio Nobel de Literatura 2026, que a Academia Sueca anuncia na quinta-feira, 8 de outubro, às 8h de Brasília. Nas casas britânicas Ladbrokes e Coral, a autora de Bagagem está cotada entre 31 para 1 e 33 para 1, conforme a casa e o dia da consulta. Na prática, isso significa algo perto de 3% de chance, na visão do mercado de apostas.
É pouco perto da favorita, a chinesa Can Xue, mas é raro ver um nome brasileiro nessas listas. Nenhum escritor do Brasil recebeu o Nobel desde a criação do prêmio, em 1901. A cotação chega num momento simbólico para a autora: em 2026, o livro de estreia dela completa 50 anos, e ela tem um título novo disputando o Prêmio Jabuti.
O que dizem as apostas
Na lista da Ladbrokes reproduzida pelo Literary Hub, Can Xue lidera com 10 para 1. Depois vêm o japonês Haruki Murakami (14 para 1), o australiano Gerald Murnane e o americano Thomas Pynchon (16 para 1). A portuguesa Lídia Jorge, outro nome de língua portuguesa na disputa, aparece com 20 para 1, ao lado da canadense Margaret Atwood e do francês Michel Houellebecq. A também canadense Anne Carson, uma das poucas poetas da lista, divide a faixa de Adélia.
A presença nas apostas não quer dizer que Adélia tenha sido indicada. A Academia Sueca não divulga candidatos, e os documentos de indicação ficam em segredo por 50 anos. As casas de apostas montam as listas a partir de prestígio, traduções e repercussão na imprensa, e os favoritos raramente vencem.
A língua portuguesa tem um único Nobel de Literatura, o do português José Saramago, em 1998. Brasileiros já foram indicados, segundo o arquivo de indicações aberto pela Fundação Nobel: Coelho Neto nos anos 1930 e Jorge Amado a partir do fim dos anos 1960, entre outros. Nenhum chegou ao prêmio.
Uma estreia apresentada por Drummond
Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 13 de dezembro de 1935. Formou-se em Filosofia em 1973 e só publicou o primeiro livro em 1976, aos 40 anos.
A estreia tem uma história conhecida. O poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna recebeu os originais e os mostrou a Carlos Drummond de Andrade. Drummond gostou do que leu e encaminhou os poemas ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Imago, que publicou Bagagem. Ao apresentar a estreante na imprensa, Drummond resumiu a poesia dela numa frase muito citada até hoje: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo”.
O diálogo com Drummond está dentro do próprio livro. O poema que abre Bagagem, “Com licença poética”, responde ao “Poema de sete faces“, em que um “anjo torto” manda o poeta ser gauche (desajeitado, deslocado) na vida. No poema de Adélia, o anjo muda de figura e de recado:
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Os versos mostram o tom que marca a obra: humor, consciência da condição feminina e intimidade com a tradição literária, tudo numa linguagem de conversa.
O cotidiano e o sagrado
A poesia de Adélia Prado junta duas coisas que pareciam distantes: a vida doméstica de uma cidade do interior e a experiência religiosa. Cozinha, quintal, casamento, desejo, doença e morte aparecem nos poemas lado a lado com Deus, os santos e a liturgia católica. O sagrado não fica no alto; aparece no feijão, na roupa no varal, no corpo da mulher.
Depois de Bagagem, ela publicou O coração disparado (1978), que venceu o Prêmio Jabuti, e uma série de livros de poesia que inclui Terra de Santa Cruz, O pelicano, A faca no peito, Oráculos de maio, A duração do dia e Miserere (2013). Também escreveu prosa, como Solte os cachorros e Os componentes da banda.
A obra chegou ao teatro no fim dos anos 1980 com Dona Doida, monólogo adaptado por Naum Alves de Souza a partir de poemas dela e interpretado por Fernanda Montenegro, um dos trabalhos marcantes da carreira da atriz. No exterior, a poeta é traduzida para o inglês por Ellen Doré Watson. Em 2014, recebeu no Canadá o prêmio pelo conjunto da obra do Griffin Poetry Prize, um dos principais prêmios de poesia do mundo.
Camões, Machado de Assis e um livro novo
O reconhecimento mais recente veio em 2024, quando Adélia ganhou dois dos prêmios mais importantes da língua portuguesa pelo conjunto da obra. Em 26 de junho, a Fundação Biblioteca Nacional anunciou que ela era a vencedora do Prêmio Camões 2024, no valor de 100 mil euros. O júri descreveu a obra como muito original e a autora como uma voz inconfundível da literatura em língua portuguesa. Ela foi a terceira brasileira a receber o Camões, depois de Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Telles.
No mesmo mês, a Academia Brasileira de Letras lhe concedeu o Prêmio Machado de Assis, o mais antigo prêmio literário do país, entregue desde 1941. Adélia foi a 11ª mulher a recebê-lo.
Em 2025, depois de 12 anos sem livro inédito, ela lançou O jardim das oliveiras (Record), com 105 poemas inéditos. O título remete ao lugar onde, segundo os Evangelhos, Jesus rezou na véspera da crucificação. O livro está entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti 2026 na categoria Poesia; os finalistas saem em 14 de outubro, e a cerimônia de premiação está marcada para 27 de outubro, em São Paulo.
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