Pular para o conteúdo
❦ Literatura Online

As Minas de Prata — Tomo 1

· José de Alencar
–
Música para focar

Deslize para virar a página

AS MINAS DE PRATA, TOMO 1, LIVRO 1

Capítulo 1

Raiava o ano de 1609.

A primeira manhã de janeiro, esfolhando a luz serena pelos horizontes puros e diáfanos, dourava o cabeço dos montes que cingem a linda Bahia do Salvador, e desenhava sôbre o matiz de opala e púrpura o soberbo panorama da antiga capital'do Brasil.

A cidade, n'ascente apenas, mas louca e gentil, elevando aos ares as grimpas de suas tôrres, olhando o mar que se alisava a seus pés como uma alcatifa de veludo, era então, pelo direito da beleza e pela razão da progenitura, a rainha do império selvagem que dormia ainda no seio das virgens florestas.

A natureza preparara no grupo de outeiros apinhado um trono de relva sôbre o qual a linda cidade dominava o oceano, sorrindo ao nauta que da extrema do horizonte a saudava com um olhar amigo, para dar-lhe o bom-dia, se chegava, e enviar-lhe o último adeus, quando se partia.

Despertando com os primeiros raios da alvorada, a população baiana recobrava a atividade depois do repouso. As casas se abriam para receber o ar e a luz da manhã; a pouco e pouco os mil rumores do dia, que são a voz das cidades, iam enchendo o espaço antes ocupado pelo silêncio e pelas trevas.

Os mesteirais e vilãos já percorriam as ruas, não com a calma e regularidade de homens que vão ao trabalho ou ao cumprimento da obrigação diária, mas com a agitação doce e a jovial sofreguidão de quem busca o prazer e corre após uma alegre esperança.

Vestidos com maior apuro do que punham nos trajes domingueiros, homens e mulheres saudavam-se entre si com tal efusão, desejando as boas saídas e estréias de ano; apertavam as mãos com tamanha cordialidade, que percebia-se na disposição geral dos ânimos a doce influência de um motivo qualquer de regozijo público.

Com efeito não era a festa do ano-bom a causa única da jovial expansão; outra havia. Aquêle dia estava marcado para os festejos com que a Bahia desejava solenizar a chegada do nôvo governador geral do Estado do Brasil, D. Diogo de Menezes e Siqueira, que depois de haver permanecido um ano na Capitania de Pernambuco para dispor sôbre coisas da administração, aportara finalmente à capital no dia 17 de dezembro de 1608.

Não havia exemplo de semelhantes demonstrações em uma cidade onde os governadores e capitães-generais, revestidos de poderes absolutos, eram recebidos com desconfiança, e muitas vêzes despedidos com alegria. Mas D. Diogo de Menezes, depois conde da Ericeira, e um dos abalizados varões que governaram o Estado do Brasil, merecia pelo seu nobre caráter e espírito superior uma demonstração especial da parte dos baianos.

Contudo, essa única circunstância não bastara para excitar na classe rica o desejo de receber o nôvo governador com festas públicas, se o interêsse, primeira lei das ações humanas, não inspirasse o mesmo pensamento como um hábil expediente de política colonial.

Durante o tempo que se demorara em Pernambuco, D. Diogo de Menezes tinha revelado sua fôrça de vontade, e mostrara o firme propósito de repelir a intervenção que o bispo D. Constantino Barradas e a Companhia de Jesus exerciam anteriormente sôbre o govêrno temporal. A luta se travara com uma questão de etiquêta e precedência, a que dera lugar a procissão do Corpo de Deus celebrada em Olinda.

Justamente nessa época os senhores de engenho, que formavam a classe nobre e rica da Bahia, sustentavam contra os jesuítas a grande questão da servidão dos índios, e compreendiam a vantagem de ter de seu lado um homem como D. Diogo de Menezes, cujo voto autorizado devia pesar nas decisões do Conselho da Índia e no ânimo de El-rei D. Felipe III.

Por isso, chegado que foi o governador, se concertaram para fazer-lhe uma recepção brilhante. Em catorze dias estavam concluídos todos os preparativos e aprestos necessários para solenizar com a entrada do ano os benefícios do nôvo govêrno.

O programa do festejo primava pela variedade e boa escolha. Depois da missa cantada, seguida de Te Deum, havia alardo da gente de guerra e companhias de ordenanças em frente aos paços; à tarde devia correr-se no Terreiro do Colégio uma luzida cavalhada com a qual se dariam jogos, torneios e alcanzias; à noite danças pelas ruas e arcos de luminárias concertados com palmeiras ou festães de flôres na Praça do Governador.

Não era preciso tanto para excitar a imaginação viva da mocidade baiana e fazer girar como corrupios tôdas as comadres devotas e mexeriqueiras, de que a metrópole brasileira já naquele tempo estava abundantemente provida.

A Bahia não passava então de uma pequena cidade habitada por cêrca de mil e quinhentas almas; mas seus vizinhos eram abastados e gostavam do luxo; havia muitos colonos ricos de fazendas de raiz, peças de prata e ouro, jaezes de cavalo e alfaias de casa; alguns tinham o melhor de cinco mil cruzádos de renda, e diz Gabriel Soares, "tratavam suas pessoas mui honradamente com muitos cavalos, criados e escravos".

Esses cabedàis que atualmente parecem mesquinhos eram naquele tempo avultados; a facilidade com que se adquiriam e o gênio natural da população inclinada ao fausto e prodigalidade alimentavam na Bahia e Pernambuco um luxo superior ao de Lisboa, e entretinham o gôsto pelas festas e divertimentos.

Não há pois admirar se a capital do Brasil despertou quinta-feira, 1o de janeiro de 1609, possuída do alvorôto agradável que produz uma esperança prestes a realizar-se, e precede a satisfação de um desejo afagado de nossa alma.

Às seis horas o sino pequeno da Sé, tangido ràpidamente, soltou os alegres repiques, que pelo som argentino parecem as vozes travêssas dos anjos do Senhor, chamando os fiéis; os ecos vibrando no ar foram apressar as palpitações de muito coração que os esperava com impaciência. Quase ao mesmo tempo o carrilhão do Colégio dos Jesuítas retroando pelo espaço acompanhava o canto matutino da tôrre episcopal; suas notas graves, sombrias e plangentes, unindo-se aos repiques das outras igrejas, formavam o concêrto majestoso com que a religião da luz e da verdade saúda o nascimento do dia.

Apenas a primeira badalada do sino repercutiu nos ares e a larga portada da Sé abriu de par em par, o grupo de velhas beatas, que tinham amanhecido no adro da igreja, envôltas em longas mantilhas de rebuço, esgueirou-se pela teia das naves e lá foi tomar lugar no cruzeiro.

Em pouco as lájeas do vasto pavimento se iam cobrindo daquelas trouxas negras ou pardas de sêda e burel, que nem longes tinham de vulto humano; da massa enorme levou-se um sussurro, a princípio imperceptível, que foi crescendo, como se um enxame de vespas esvoaçasse pelo âmbito da igreja.

Nesse momento invadiu o altar uma corporação, que hoje tem perdido muito da sua primitiva importância social, mas que no século XVII apresentava um papel distinto em tôdas as carolices e galhofas da época; doze meninos do côro, metidos em sacos de lã vermelha, espalharam-se pelo corpo da igreja armados do competente acendedor.

Foi um rebuliço; os rapazes travessos, rindo como perdidos, pisavam de propósito os vestidos das velhas devotas, que se conchegavam resmoneando uma ladainha de imprecações; a mocidade imprudente não respeitava a velhice; os ânimos se exacerbavam, o sangue fervia; afinal, esgotado de parte a parte o rosário das injúrias consagradas pelo estilo, os dois campos lançaram mútuamente o último e o mais terrível dos insultos.

Os rapazes soltaram a palavra infamante de barata, a que as velhas retorquiram com o epíteto não menos afrontoso de formigão: e depois disso, como não havia despique possível de tão grande provocação, a não serem as vias de fato que o respeito do lugar impedia, cada uma das duas hostes inimigas retraiu-se e voltou silenciosamente a suas ocupações.

Era tempo; porque a igreja enchia-se de fiéis, e no adro viam-se já as cadeirinhas e palanquins que traziam à missa as donas e filhas dos ricos senhores da Bahia.

Tinham parado na calçada dois moços, ambos na flor da idade, ambos elegantes e bem parecidos, mas tão semelhantes no trajar, como no molde da beleza varonil.

O mais velho, que teria vinte e dois anos, era moreno. A fisionomia franca e aberta, as côres frescas e rosadas, o porte firme e direito sôbre uma estatura regular, mostravam compleição vigorosa; mas sua expressão ressumbrava tanta graça, o sorriso que lhe brincava nos lábios era tão faceiro, havia tal donaire nos seus movimentos, que a fôrça muscular desaparecia sob a flor da feliz organização, como a robustez do tronco sob a virente fôlha.

Vestia gibão de gorgorão côr de pérola guarnecido na orla por delgado fio de ouro com que eram igualmente tecidos os passamanes, e calção de veludo turqui debruado nas costuras por fino cairel de prata. Torçal de sêda escarlate suspendia-lhe ao flanco esquerdo o florete; o boné de veludo azul com um broche de rubi cingia os anéis dos cabelos negros; CRISTÓVÃO SIMULOU NÃO PERCEBER O ESTREMECIMENTO DE PRAZER QUE TEVE SEU COMPANHEIRO, E VOLTOU O ROSTO SORRINDO.

A meia côr de pinhão debuxava a perna bem contornada, e o sapato raso com espora afilada calçava um pé fino e aristocrático.

Naquele tempo em que a profusão de côres vivas e bordados era o toque da louçania, não se encontrara decerto um cavalheiro trajado com mais gentileza e primor; a riqueza apenas se mostrava, para não ofuscar o bom gôsto na combinação artística das lindas côres, nem o esmêro do corte e piques das roupas.

Também na Bahia não havia mancebo casquilho como Cristóvão de Garcia de Ávila, senhor de fazenda passante de cinqüenta mil cruzados, e descendente de uma das famílias nobres que tinham vindo do Reino com Tomé de Sousa, em 1549.

Nesse momento, voltado para a Praça do Governador, êle enfiava o olhar pela rua que desembocava no Largo da Sé, e pela qual esperava despontasse alguma coisa, que visìvelmente o interessava.

O outro môço contava apenas dezenove anos. Trajava tudo negro, de simplicidade extrema, mas de esquisita elegância. Um aljôfar isolado brilhava na touca de veludo prêto; as preguilhas da mais fina lençaria de alvas deslumbravam; a espora ligeira que mordia o salto do borzeguim, e a cruz da espada eram de aço, mas tão bem polido que cintilava como custosas pedrarias.

O cetim negro das vestes dava muito realce à súa bela cabeça erguida com meneio altivo, e à alvura rosada de sua tez. Os grandes olhos pardos tinham os raios profundos e reflexivos que desfere a inteligência nos momentos de repouso; o lábio superior, coberto pelo buço de sêda que pungia, arqueava graciosamente com expressão grave; era de alta estatura, e tinha como seu companheiro o talhe esbelto, mão e pé supremo esmêro.

Mas o que especialmente o caracterizava, era uma sombra imperceptível, que às vêzes deslizando pela fronte alta e inteligente, carregava ligeiramente as linhas do perfil e imprimia-lhe na fisionomia o cunho da vontade tenaz; nestes momentos sentia-se que a razão calma, firme, inflexível, dominaria, se preciso fôsse, as expansões da mocidade.

Os dois cavalheiros continuavam a conversa começada quando se encontraram no adro da igreja.

— Perdes teu tempo, dizia Cristóvão de Ávila sem tirar os olhos do seu alvo predileto.

— Não sei em que melhor o possa empregar do que em praticar com um amigo, respondeu o cavalheiro sorrindo.

— Mal vais com disfarces que dalgo não servem, que de mais descobrir a verdade. Digo que perdes teu tempo, quando teimas que entre tantas damas gentis não haj a uma por quem desejes esta tarde tirar uma argolinha, ou correr um passe d'armas.

— E para ti há alguma? perguntou o outro desviando de si a alusão.

— Bem sabes que sim. Não sou de segrêdos; tão santa coisa é o amor que Deus nos pôs n'alma, que não me pej a de trazê-lo no rosto e à face de todos.

— Assim deve ser para quem é nobre e rico, e não teme repulsa; mas outros há que não têm direito de erguer a vista, embora mais alto que ela tragam o coração.

As últimas palavras foram pronunciadas com ligeiro assomo de orgulho ofendido, que imediatamente sufocado esvaeceu em sorriso melancólico.

— À fé que não compreendo, Estácio. Tão nobre és, como os melhores, e rico; porque a ninguém mais que a ti, devem de pertencer as terras que teu avô Diogo Álvares conquistou ao gentio para El-rei, de quem as houvemos nós e nossos pais.

O môço ia replicar, quando uma cadeirinha de cúpula dourada, que vinha das bandas do Terreiro do Colégio, carregada por dois negros vestidos à mourisca com aljubas de lã escarlate, excitou vivamente sua atenção.

Cristóvão simulou não perceber o estremecimento de prazer que teve seu companheiro, e voltou o rosto sorrindo. Nem um nem outro reparou em certa dama que nesse instante e cêrca dêles passava para a igreja, acompanhada de uma velha aia. Estava ela completamente velada com o espêsso crepe da mantilha, de modo que era impossível distinguir feições. Vendo o gesto de Estácio, lançou rápido e furtivo olhar para descobrir a causa de sua emoção, e entrou na Sé murmurando consigo:

— É já rendido de amôres!

CAPÍTULO II - COMO OUTRORA REZAVAM NA MISSA DUAS BEATINHAS BAIANAS

A penas a cadeirinha parou no adro da igreja, as cortinas de damasco verde franjadas abriram-se, e a ponta do escarpim de veludo que escondia um pé de menina pousou de leve na calçada, como a asa de uma gaivota quando roça a flor-d'água no vôo rápido.

Um homem de meia-idade e compleição robusta, que acompanhava a cadeirinha, estendeu o braço para receber a mão afilada e transparente, que apenas tocou o veludo da manga, como se receasse magoar-se ao çontato da macia pelúcia.

Logo assomou o vulto delicado de uma môça vestida com faceiro e gracioso traje das andaluzas; vasquina de sêda azul bastante curta para mostrar a nascente da perna divina, e véu bastante longo para ocultar o rosto e seio, deixando apenas ver a côr de leite e a luz de dois olhos, que brilhavam mais que os diamantes do colar.

O cavalheiro que trajava vestes pretas tirou o gorro e corando inclinou-se, quando a môça passava diante dêle para entrar na igreja. Recebeu em troca um olhar rápido e profundo, dos que vêm do íntimo e se desprendem, como chispas d'alma.

— Bem certo é o anexim, que o mal e o bem 'a face vem, disse Cristóvão gracejando.

— Nem sempre!

— Segredos são escravos rebeldes, que mais amiúde se tornam senhores; por mais fundos que os tragas, êles sobem à tona quando mal pensas; se lhes cerras os lábios, falam pelos olhos.

— Aos olhos de um amigo.

— De todos. Mais vale não os ter; e com isso dou-me às maravilhas.

— Se tivesses de lutar com a fortuna que é inconstante e com os homens que são maus, respondeu o môço gravemente, terias outro falar, Cristóvão.

— Digo-te que não.

— Tu vês o mundo como bom e jovial companheiro, de quem não hás mister ocultar teus sonhos de prazer; aquêles que tem nêle' um inimigo, êsses nunca lhe esconderão demais sua alma.

Nisto, um mancebo que trazia com certo garbo vaidoso as luzidas galas de suas roupas de veludo e sêda carmesim, aproximou-se e cortejou risonho os dois mancebos.

— Trajais de negro em dia como êste, senhor Estácio Correia? disse êle com volubilidade.

— Trago luto por meu pai e por minha mãe, respondeu o cavalheiro com certo vexame.

— Vai para quatro anos que morreu uma, e outro deixou-vos no bêrço: Não cuidei que levásseis a piedade tão longe. ;

— Desavisado fui, senhor D. Fernando de Ataide, em não consultar vosso calendário para saber que tempo duraria meu sentimento; quando vier à estampa vossa pragmática, regularei por ela meu traje. Até lá a cada um seu gôsto e modo de viver.

Estácio acompanhou o dito com um sorriso de ironia.

— Pesa-me que vos enfadasse tão inocente reparo; não foi mais que simples curiosidade. Ouvi dizer algures que pretendeis abraçar a vida eclesiástica e entrar na Companhia de Jesus, razão por que conjeturei que a gravidade do futuro estado vos obrigava já a trazer vestes sombrias.

Uma faísca cintilou no olhar de Estácio; pareceu-lhe que a desculpa de Fernando ocultava um motejo; mas a expressão de bonomia que viu no semblante do môço conteve a palavra provocadora que os lábios iam soltar.

— Enganou-vos quem tal disse, respondeu friamente.

— Oh! Aí chega D. Elvira de Faiva e sua mãe! Já me não admira vervos tão apurado, senhor D. Cristóvão d'Ávila!

Esta exclamação jovial partiu dos lábios de um cavalheiro que se acercara do grupo; era homem que orçava pelos vinte e cinco anos, de mediana estatura. e com certo desplante militar no porte arrogante; o rosto, cuja alvura primitiva desaparecera sob os raios do sol tropical que lhe queimara a tez, apresentava fisionomia espanhola, a que dava realce o bigode retorcido e a pêra afilada.

O gibão e as calças de tufos eram amarelos golpeados sôbre veludo prêto; uma capa negra forrada de sêda da mesma côr das roupas caía-lhe sôbre o ombro esquerdo, mostrando no canto as armas de Portugal bordadas a retrós, o que indicava que o cavalheiro pertencia à milícia; tinha um chapéu de feltro branco e meias botas de couro alourada com rendas na canhão.

Cristóvão durante a conversa distraía-se em seguir com os olhos uma liteira que passava pela frente da Santa Casa de Misericórdia; ao ouvir a exclamação voltou-se para o cavalheiro sorrindo:

— Achais que mal empregue meu cuidado, senhor alferes? perguntou o môço com afabilidade.

— Por Deus, que não! Tão formosa dama não pisou ainda esta terra de gentio. Aposto cinqüenta cruzados em um lanço de dados, que não me mostram, nem mais airosa, nem mais prendada.

— Esqueceis vossa irmã, D. José! retrucou Fernando de Ataíde.

— Oh! Não vos tinha visto, Dom Paladino! exclamou o alferes rindo; mas se com isso vos ofendi, estou pronto a aceitar-vos a requesta.

Dizendo estas palavras, D. José apertou amistosamente a mão de Fernando; e cortejou com um modo frio e soberbo a Estácio. Este empalidecera ouvindo as últimas frases e desviou-se do grupo.

Um quinto mancebo, que trajava também à milícia, batera famíliarmente no ombro do alferes.

— Aceito a aposta, contando que sejais vós mesmo o árbitro, D. José!

— Oh! Padilha!... Por quem parais então, amigo?

— Por uns maganos d'olhos negros que luzem através de certa rótula de sobrado na rua das Palmas!

— Olhem o taful!... -

— Ah! ah! ... Então o nosso alferes também adora as sotas de carne e osso! exclamou Cristóvão rindo.

— Caluda, senhores! acudiu D. José com um sério cômico; isto por enquanto está em segrêdo. Não espantemos a caça, que é arisca!

E os mancebos a rir, como se ri nessa idade feliz. A liteira tinha parado; vinham nela duas senhoras. Uma teria quarenta anos de idade; bela ruina em que o tempo, deixando impressa a sua passagem, respeitara a obra primitiva da natureza. Os cabelos haviam embranquecido, a tez perdera os toques rosados e murchara ao fogo do sangue que a escaldava outrora; o fresco dos traços desaparecera com o sôpro ardente dos prazeres; mas aquêle busto descorado debuxava ainda sob a máscara da velhice prematura as formas de um belo tipo da raça hebraica

— Judite ou Madalena.

A bôca, embora crestada na flor dos lábios, dizia quanta paixão e quanto amor devia ter ela desfolhado nas carícias lascivas, nos sorrisos sedutores e nas palavras ardentes, que semeara pelo caminho da vida; o seio branco, como o mármore de um túmulo, frio como êle, servia de urna às cinzas do coração que outrora o fizera arfar com os ímpetos de desejos irresistíveis; os olhos, êsses brilhavam como nos dias da juventude, e pareciam o clarão da chama interna que consumira lentamente a seiva daquele corpo, como o óleo de uma lâmpada.

Ao seu aspecto adivinhava-se que essa mulher devia ter amado muito na sua vida e abandonado ao prazer uma alma ardente e insaciável. Agora, que a beleza fugira e os sentidos se acalmavam, tinha ela necessidade ainda de algum sentimento profundo e veemente que desse expansão às energias da natureza criada para a paixão.

Esse sentimento era a religião; tôdas as faculdades que outrora o amor absorvera, voltavam-se para a nova preocupação, e se entregavam a ela com igual ardor e afã: a mulher apaixonada e voluptuosa transformara-se na devota fanática; em face de Deus, como diante dos homens, foi sempre a mesma: foi o verbo das almas cujo destino na terra se resume em uma só palavra — amar — sublime encarnação do anjo feito mulher.

A môça que a acompanhava era sua imagem, mas perfumada pela mocidade, iluminada pelos raios da vida que desponta, colorida pelos reflexos de sangue tépido e puro que circula sob a cútis transparente, animada pela doce confiança que naquela idade abre os límpidos horizontes da existência e solta o vôo à imaginação ávida.

O mesmo fogo da paixão, a mesma voluptuosidade do prazer, que deixara uma sombra de suas erupções no rosto envelhecido da mãe, brilhava nos olhos pretos e fúlgidos, no sorriso lânguido e no requêbro gracioso da filha; mas a inocência e pureza d'alma vendavam ainda essas irradiações com a expressão modesta e ingênua, que as tornava mais perigosas.

D. Luísa de Paiva e sua filha desceram do palanquim, e recebendo as saudações dos cavalheiros que estavam parados no adro, dirigiram-se à capela-mor onde já estavam as almofadas de veludo roxo, que então as damas faziam conduzir à igreja por pajens escravos.

Chegada à porta que abria da sacristia para a capela, Elvira lançou um olhar em volta do pavimento já quase inteiramente ocupado pelas damas, e viu a sua almofada colocada no centro ao pé de uma menina que tinha o véu descido, a mesma que pouco antes tanto havia excitado a atenção de Estácio Correia.

Imediatamente a môça, roçagando a vasquina curta, deu um passo para tomar o seu lugar.

— Fiquemos ali, disse D. Luísa mostrando o estrado.

— Tenho a minha almofada perto de Inesita, respondeu Elvira voltando-se.

— Bem; não te esqueças! ...

— Oh! não; tenho-a de cor, disse a môça com um sorriso malicioso.

E atravessando por entre as outras damas, foi ajoelhar-se ao lado de Inesita, que embebida na sua oração tinha os olhos baixos e as pálpebras descidas.

— Por quem roga a minha santinha com tanta devoção? perguntou Elvira baixinho.

A menina sobressaltando-se corou através do véu; depois sorriu à sua amiga. .

— Vieste tão tarde! disse ela em tom de queixa.

— É que não tinha alguém que me esperasse com seu olhar todo melancólico.

— Cala-te; estão nos olhando, balbuciou a môça.

— Se nos olham, menina, é que nos querem, respondeu a amiga sorrindo. Estácio e Cristóvão tinham entrado pouco havia; colocados junto à grade que dividia a capela do corpo da igreja, não perdiam nenhum dos movimentos das duas meninas.

— Tua mãe?. .. perguntou Inesita.

— Não a vês na frente, bem próxima ao altar? Dela não há susto, continuou a môça gracejando; enquanto não desfiar a última conta do rosário e não recitar tôdas as orações do livro dominical, não dá por coisa alguma.

— Pois desce o véu, não te voltes, e podemos conversar enquanto não principia a missa; pensarão, vendo-nos falar, que dizemos nossas rezas.

— Sonsinha que és!... exclamou Elvira com um sorriso. Não queres que me volte para não ver onde vão presos êsses olhos.

— Vão a Deus.

— A Deus no céu, e a êle na terra.

— Minha tentação, queres sossegar?

— Não me deixeis cair em tentação! ... continuou Elvira com ar de malícia e fingindo que orava.

— Com as palavras sagradas não se brinca!... É pecado! disse Inesita séria.

— A quem o- dizes? A mim que sei tôdas as rezas! Minha mãe tem tido o cuidado de mas ensinar; ainda hoje, sabes a penitência que me deu? De recitar uma ladainha maior do que a Rua dos Mercadores!

— Foi isto que te demorou?

— Não, Inesita, respondeu a môça perdendo de repente o seu ar faceiro e entristecendo, foi coisa pior... Oh! muito pior!

— O quê?

— Chorei tôda a noite.

— Ele te...

— Êle não, mas por causa dêle. Minha mãe não quer ir hoje à festa.

Inesita teve um triste sobressalto, e emudeceu buscando no espírito um meio de amparar a amiga:

— Se pedir-lhe eu?

— É escusado; quando lhe metem alguma coisa de religião na cabeça, não há volta; disseram-lhe que não está bem a uma dama devota ver folguedos do mundo.

— E tu perdes tão lindas coisas?

— Hão de estar galantes as corridas, não é verdade? Depois me contarás?

— Sem faltar nada. Mas ninguém dirá, ao ver-te tão prazenteira, que hajas chorado tôda a noite.

— Que queres? Quando cheguei, esqueci tudo, para só me lembrar que estava perto de ti.

— De ti!... disse Inesita inclinando imperceptìvelmente a cabeça para o lado da grade sem contudo erguer os olhos.

Elvira reparou no movimento da amiga e quis tirar sua desforra.

— Bem sei, respondeu ela travessamente, que estar perto de uma é estar perto do outro; a sombra acompanha o corpo.

— Vamos rezar, menina acudiu Inesita meio enfadada.

— Vamos. Sabes tu as Obras da misericórdia?

— Que pergunta!

— Não as sabes, não; porque elas mandam consolar os aflitos; e ali está uma alma penando por tua causa à espera de um só olhar teu.

Inesita corou inclinando ainda mais a fronte; porém os cilios de sêda, que roçavam as faces, se ergueram e cerraram logo, deixando coar um olhar doce e aveludado, que foi tremulando embeber-se no rosto de Estácio.

— Agora sim cumpriste tua devoção!

— Elvira!... Cuidas que também eu não reparo no que fazes?

As duas meninas continuaram o alegre colóquio, cujo matiz gracioso não se pode desenhar; porque há gestos feiticeiros e inflexões harmoniosas, que só os lábios e a gentileza de uma mulher sabem dar às palavras mais simples.

Naquele tempo, como hoje, como sempre, duas môças amigas que se encontravam, tinham tanto que dizer entre si, e estavam tão cheias de segredos e confidências, que o lábio rosado não emudecia, enquanto não destilava todo o mel que havia nos favos delicados do coração, tôda a fragrância que respiravam as rosas d'alma em botão.

A mulher é sempre mulher; mudam os usos, as modas, os costumes e as línguas; mudam os tempos e com êles nós os homens; porém o anjo frágil e delicado que Deus prendeu à terra é a fenix moral, que renovando-se em todos os séculos e em tôdas as eras, remoça a humanidade, e a purifica.

Assim, quem ouvisse aquelas duas beatinhas dos começos do século dezessete, conversando tão travêssa e profanamente sob a aparência do mais profundo recolhimento, esquecendo o traje e o lugar, julgaria escutar as falas de duas môças dos nossos dias, trocando no seu jardim as confidências de uma véspera de baile.

D. Luísa às vêzes lançava à filha uma vista rápida e severa, que retirava satisfeita para fitá-la de nôvo no resplendor das imagens; de feito, Elvira e Inesita com o véu baixo, as mãos cruzadas, as frontes inclinadas e os lábios a moverem frouxamente, tinham um tal ar de compunção, que ninguém suspeitaria o mais leve pecadinho sob aquêle beático recolho.

Entretanto, elas ainda falavam de mil coisas; não tinham dito nem metade da mútua confissão.

CAPÍTULO III - EM QUE MESTRE BARTOLOMEU REVELA SEUS DOTES PARA A SOLFA CANTADA

A igreja estava apinhada.

A nave sepultada em meia obscuridade servia de moldura ao retábulo da capela, a qual cintilava com a luz dos círios e os reflexos metálicos das alfaias e galas que cobriam os altares.

No centro da esfera luminosa, nublada pela fumaça do insenso, que exalava da caçoula de prata lentamente embalançada pelo turiferário, destacava a cruz negra do martírio, de onde a imagem de Cristo dominava a multidão curvada e respeitosa.

Eram sete horas e meia quando soaram os atabales do têrço postado no largo.

Chegava o governador D. Diogo de Menezes, conduzido debaixo de pálio pelos juízes e vereadores do conselho, e acompanhado por D. Diogo de Campos, sargento-mor do Estado do Brasil, pelo alcaide-mor da Bahia, Álvaro de Carvalho, provedor da fazenda, o desembargador Baltasar Teles, ouvidor, escrivão dos contos e mais gente do serviço de El-rei.

O cabido saiu fora a recebê-lo com as etìquêtas do formulário, e o conduziu ao setial colocado do lado do evangelho; no mesmo plano estava o assento forrado de damasco branco dos oficiais da câmara; vinham depois o ouvidor alcaide, provedor e os outros ministros.

Do outro lado via-se a poltrona episcopal, vaga pela ausência de D. Constantino Barradas, que se achava de visita na capitania de Pernambuco; seguiam-se as dignidades da Sé e o côro dos cônegos; no fim havia um banco de veludo roxo que devia ser ocupado pelo provincial dos jesuítas à direita do dom abade de São Bento e do custódio dos franciscanos.

D. Diogo de Menezes era um verdadeiro fidalgo no porte senhoril como no caráter egrégio: achava-se então no vigor da idade, no período de transição dos quarenta para os cinqüenta anos, em que então os homens daquela têmpera chegavam ao perfeito desenvolvimento de sua organização, e adquiriam a robusta virilidade, que ilustrou a história de tantos feitos brilhantes.

O grave parecer esclarecido por um espírito superior era o documento do passado honroso e o prenúncio da carreira ilustre que ainda tinha a percorrer; a severidade não excluía a afabilidade das maneiras e a polidez do trato, que caracterizavam o fino cavalheiro.

Homem de govêrno, escravo do dever, para quem a lei era religião, e a honra culto; conhecia-se contudo que êle compreendia, e talvez mesmo sentisse ainda, o entusiasmo heróico e cavalheiresco, que iluminara as lendas e os romances da média idade, e já então apenas lançava os frouxos clarões da luz que bruxuleia ao extinguir-se.

Apenas o governador, fazendo uma cortesia geral, sentou-se na cadeira arcalifada, ouviu-se o temperado de garganta sonoro e clássico do mestrede-capela, que do alto de seu trono regia a orquestra; quase imediatamente a larga tira de papel pautado, tangida pelo braço robusto, assentou no respaldo da grade de côro a palmada estridente e simbólica.

Era o sinal para começar a missa cantada, primeira pancada de compasso que abria o solfejo de velho in-fólio colocado sôbre uma estante.

O mestre-de-capela, cheio de sua importância, meneava aquela tira de papel pautada com a galhardia de um general brandindo a espada vitoriosa em frente ao seu exército no momento da batalha.

Os meninos do côro tomaram seu lugar; uma exígua figura, coberta de longa capa de raso prêto, saiu do esvão da tôrre, e dirigiu-se lenta e compassadàmente para o teclado do órgão, sôbre o qual estava aberto um grosso alfarrábio das solfas do P. Manuel Mendes.

A côr lívida, os olhos profundos e cingidos de uma orla de bistre, as faces encovadas, davam àquele semblante um aspecto triste e lúgubre; os cabelos grisalhos e revoltos caíam sôbre a testa vasta e proeminente; o hábito do estudo lhe acurvara o corpo emagrecido, diminuindo aparentemente a estatura raquítica, que pouco excedia de cinco palmos craveiros.

Tal era o licenciado Vaz Caminha, o mais sábio letrado da cidade do Salvador, que apesar de suas elucubrações forenses e da gravidade do ofício, fazia ao mestre-de-capela a mercê de tocar órgão na Sé, por ocasião de grandes festividades, mediante a espórtula de um tostão em prata e o jantar na mesa do senhor bispo, quando êste se achava na Bahia.

O discípulo de Bártolo e Scoto endireitou a tripeça, sentou-se trançando as perninhas em forma de cruz grega, e apoiando o queixo sôbre o polegar da mão esquerda, sestro que lhe era famíliar, esperou o segundo sinal.

— Sua senhoria acaba de chegar, disse o mestre-de-capela. Podemos dar comêço, se vos praz, senhor licenciado.

— Por mim não se espere, mestre Bartolomeu.

— Atenção! exclamou o chefe da orquestra, voltando-se para os meninos do côro. Atacam o ut com presteza, stíbito, compasso quaternário.

E erguendo o braço hercúleo, e volvendo uma última vista em tôrno, assentou com o rôlo de música um segundo estalo, que foi o prelúdio da mais tremenda algazarra jamais ouvida em templo cristão.

Os gritos agudos e esganiçados dos meninos do côro, impelidos com tôda a fôrça dos pulmões, feriam o ouvido como o estrídulo, mugia, a voz de baixo profundo do mestre Bartolomeu, que com uma só nota enchia o vasto âmbito da catedral.

O monstruoso concêrto durou cinco minutos em formidável crescendo; baixando afinal de tono em tono, reboando pelas altas abóbadas, expirou como o trovão que rola ao longe pelas nuvens, ou o oceano encapelado quando geme sob a refega do vento.

No entanto o licenciado Pêro de Campos, deão, que oficiava na ausência do bispo, revestido dos guisamentos sacerdotais, subia ao altar acompanhado dos dois acólitos; e o cantochão desafinado dos cônegos respondeu dignamente ao desafio musical da orquestra.

O mestre-de-capela, à guisa de alguns cantores modernos, desempenhava ao mesmo tempo dois papéis, o de baixo e o de contralto; cerrando pois as largas queixadas, expeliu pelo nariz uma voz de tiple, fanhosa e esguichada, que meteria inveja ao mais alentado eunuco da Capela Sixtina; era um alegro predileto do grande solfista.

Assim, apenas terminou, ainda com as bochechas insufladas e o suor a correr-lhe pela testa, voltou-se para Vaz Caminha, que feria as teclas com a mesma gravidade que teria, se estivesse consultando um texto do Corpus juris ou arrazoando um agravo para a Casa de Suplicação.

— Que dizes dêste solo, senhor licenciado? É solfa dêste vosso servo.

— Optime! respondeu o letrado cortêsmente.

Era a vigésima vez que o bom do Bartolomeu cantava aquêle trecho e terminava pela pergunta referida, à qual o advogado com a regularidade dos homens sisudos e pensadores respondia pelo mesmo adjetivo.

A ponto que isto passava no côro e a missa cantada prosseguia, muitos sentimentos diversos e bem estranhos à cerimônia sagrada agitavam os atores principais da cena.

D. Diogo de Menezes vendo a cadeira do provincial dos jesuitas vaga, sorrira de um modo significativo; compreendera que a ausência não motivada, no dia em que celebravam a sua chegada, era um primeiro manifesto de guerra que lhe lançavam os aliados do bispo D. Constantino.

Embora fôsse tôda mental e íntima a reflexão, o fidalgo ergueu a cabeça com expressão de energia, como se aceitasse o desafio e se preparasse para a luta; depois lembrando-se onde estava, inclinou diante de Deus a fronte que trazia sempre alta em face dos homens.

Mais longe, as duas meninas, logo que começara o sacrifício, haviam cessado a conversa e emudecido no santo respeito que lhes inspirava o sublime mistério da religião cristã; mas o espírito de Elvira, rebelde e tenaz, voltava às suas preocupações, apesar de todos os esforços que ela fazia para afastá-lo de tais idéias e trazê-lo à oração, que os lábios balbuciavam automàticamente.

A donzela lembrava-se das festas que deviam ter lugar à tarde, festas que a haviam feito sonhar tantas horas, e iam passar enfim sem que as gozasse; sua fantasia revoava por tôdas aquelas imagens brilhantes e esquecia a realidade para viver ainda alguns instantes de esperança; mas a ilusão desvanecia-se breve e tornava ainda mais pungente a decepção. .

As vêzes em sua cólera infantil, a inocente fazia protestos de querer mal à sua mãe por causa da crueldade com que a condenava à solidão no momento em que todos haviam folgar e rir; eram ímpetos passageiros, como as faúlhas que saltavam das chamas e se apagam no ar.

Por fim acabava pedindo à Virgem perdão para o mau pensamento que tivera; e resignada à sua desventura, enfiava por entre o véu um olhar longo e apaixonado, que penetrava até o coração de Cristóvão, e voltava de lá mais sereno e consolado.

Inesita, essa estava inteiramente absorvida pela oração; o espírito de Deus a dominava; e só de espaço em espaço, nos momentos em que a alma saindo da meditação lembra-se que tem um corpo, a tímida menina sentia-se viver pela recordação do lugar onde estava e da proximidade de Estácio; então sem ver, adivinhava que o olhar do môço a envolvia em um raio de amor, e estremecia com a sensação de gôzo inexprimível.

Mas o que ela não podia adivinhar era a angústia que confrangia a alma do môço, ajoelhado junto à grade e tão pálido, que o oval de seu rosto iluminado por uma réstia de sol, destacava entre as roupas negras como um relêvo de alabastro em medalha de ébano.

Estácio descobrira a alguns passos D. Fernando de Ataide, que não tirava os olhos da menina; tanto bastou para que uma suspeita cruel entrasse em sua alma; lembrou-se que talvez o olhar de Inesita fôsse dirigido a seu rival, e desejou até que ela não erguesse mais a vista, nem se voltasse de seu lado.

O môço era pobre e modesto; aquêles que como êle amaram um dia, compreenderão o martírio que sentia pensando que D. Fernando de Ataide, nobre e rico, podia depor aos pés de sua amada um belo nome e soberbas prendas, enquanto que êle apenas tinha um coração leal a oferecer.

A dama desconhecida e velada não tirava os olhos de Estácio, senão para volvê-lo a Inesita. Por vêzes inclinara-se para a gorducha de sua companheira, como se lhe quisesse falar, e disfarçava, até que afinal a palavra retida escapou-lhe dos lábios:

— Sabeis, Brásia, quem sej a aquêle cavalheiro que agora ajoelha perto à grade, bem em frente a nós?...

— Vejo dois, D. Marina, tão gentil um como outro! De qual falais?

— Do que traja negro.

— Não sei, não, dona; mas não faltará quem o saiba.

— Pois indagai, e onde mora.

A velha estabeleceu logo um cochicho que percorreu tôda a longa fila de beatas estendida pela nave da catedral.

A festa prosseguia, o côro e o cantochão continuavam alternando, quando foi ouvido na porta da igreja um ligeiro rumor causado por muitas pessoas, que voltavam o rosto para ver alguma coisa que estava passando fora.

O objeto que tanto excitava a curiosidade, a ponto de distrair assim a atenção do ofício divino, era um navio de alto porte que encoberto pelas sombras da noite se avizinhara da terra, e aos raios do sol nascente aparecia à entrada do pôrto com as velas enfunadas pela fresca viração da manhã.

D. Diogo acenou ao capitão de sua guarda:

— Manuel de Melo, inquiri da razão dêste rumor! disse-lhe à puridade.

Nesse tempo ainda não se tinha desmoronado o tabuleiro que ficava em frente da Sé, e pique da montanha, com uma vista soberba para o mar; por isso daquela posição distinguia-se já perfeitamente o navio que velejava demandando o pôrto, e o casco e a mastreação, e a bandeira espanhola a flutuar na pôpa. A não escassear o vento, era natural que em menos de duas horas estivesse fundeado.

A notícia transmitiu-se ràpidamente. Há uma espécie de corrente elétrica nas grandes massas de povo; dois minutos depois de ouvir-se o rumor na porta da igreja ninguém já ignorava a grande nova.

— É uma fragata espanhola, ao que parece procedente do reino, que entra a barra, informou ao governador o capitão-da-guarda.

Este fato que hoje não tem muita importância pela sua freqüência, naquele tempo de raras e difíceis comunicações entre o Brasil e a metrópole, era um acontecimento do maior interêsse. Para os governadores e empregados no serviço real queria dizer a solução de altas questões da administração do nôvo Estado; para o povo exprimia talvez o deferimento aos pedidos das câmaras sôbre redução de impostos, extinção dos estancos e servidão dos índios; para os mercadores de grosso trato significava o recebimento de cabedais ou de gêneros de tráfego; para os particulares era o provimento da mercê que haviam requerido, ou a reforma da sentença de que tinham agravado; para as mulheres, além da parte que tomavam no que dizia respeito a seus pais, irmãos e maridos, havia a curiosidade, sentimento poderoso em tôdas as filhas de Eva.

Já se vê pois, que desde o governador D. Diogo de Menezes até a última das beatas escondida em algum canto, tôdas as pessoas, que se achavam na igreja, desejaram ìntimamente ver acabada a missa; os cônegos acordando salmeavam o cantochão como se cantassem um solau; o licenciado apressara o compasso; o deão saltara por engano uma página do missal; as velhas correram duas contas por cada padre-nosso.

No meio da geral preocupação só ficaram estranhos Elvira e Inesita, que continuavam as suas orações; Cristóvão, Estácio e Fernando, para os quais o mundo se resumia nas duas meninas; D. Luísa de Paiva, imóvel em seu êxtase religioso; finalmente o mestre-de-capela, que apesar dos cônegos, do salto da página, do toque de órgão, apesar de tudo, solfejava um andante com imperturbável sangue-frio, sem engolir uma nota ou falhar uma pausa.

CAPÍTULO IV - EM QUE VEM A LUME UM PAPEL VELHO

A cerimônia religiosa terminou por volta de nove horas.

Em pouco tempo a multidão deixou a igreja quase solitária e foi apinharse à beira do terreiro, para ver a fragata que distava do pôrto cêrca de um tiro de canhão.

Elvira e sua amiga dirigiam-se à pia de mármore branco colocada à porta, como de costume; a alguma distância seguiam D. Luísà de Paiva conversando com o pai de Inesita. Era êste D. Francisco de Aguilar, nobre castelhano, senhor do engenho Paripe, homem principal, como se dizia naquele tempo.

Alto, robusto, ainda verde e bem conservado, D. Francisco era o verdadeiro tipo do hidalgo andaluz. Orgulhoso de seu sangue, de sua pátria e de seus cabedais, altivo no trato dos que julgava inferiores, sêco nas maneiras, tinha contudo a verdadeira nobreza, que a educação e o hábito podem apurar, mas não é o privilégio dos brasões, pois a dá o coração; sabia ser grande e generoso quando os prejuízos de fidalguia não se opunham aos impulsos de sua alma.

Elvira e Inesita apressando o passo chegaram à pia, onde os dois amigos já as esperavam; mas D. Fernando aproximara-se no mesmo momento, e tomando água na palma, ofereceu-a cortêsmente às duas meninas.

Inesita hesitou; tímida como era, não teve ânimo de recusar; embebendo a pontinha dos dedos alvos e delicados, ia levá-los à fronte, quando viu o olhar de Estácio; a pobre menina estremeceu e sem saber o que fazia, deixou cair o braço desfalecido.

Quanto a Elvira, mais animosa, voltou-se para Cristóvão. O cavalheiro encorajando-se com êsse movimento adiantou-se, e apresentou-lhe a mão onde brincavam algumas gotas d'água; depois de benzer-se, a menina umedeceu de nôvo os dedos e com um movimento rápido lançou de longe um borrifo na fronte do mancebo.

— Para que sejais esta tarde bem feliz, disse ela enrubescendo.

— Basta que desejeis para que o seja, respondeu o mancebo não se contendo de alegria e felicidade. Que o vosso olhar me acompanhe...

— O olhar, não, que é impossível; o pensamento, sim, respondeu Elvira com uma expressão melancólica.

— Por quê? Lá não estareis? perguntou o môço em sobressalto.

— Não; minha mãe...

A aproximação de D. Luísa e Aguilar cortou a conversa; as duas meninas saíram da igreja, Elvira satisfeita porque ao menos consolara Cristóvão de sua ausência; Iuesita zangada consigo mesma porque não tivera coragem de recusar o oferecimento de Fernando, e com Estácio, porque depois do seu movimento em vez de apresentar-lhe a mão voltara-se triste e desaparecera; de modo que ela foi obrigada, para benzer-se, a molhar os dedos na pia.

Quanto a Ataide, como todos os homens que têm plena confiança em sua riqueza, não percebera nem a indecisão da menina, e o movimento que produziu o olhar de Estácio, nem o disfarce com que Inesita molhara de nôvo os dedos na pia. Radiante sob o gibão de veludo carmesim acompanhou o fidalgo castelhano.

No adro e por ocasìão de despedir-se, Inesita voltou-se para D. Francisco:

— Meu pai, instai com D. Luísa para que leve esta tarde Elvira às festas do Terreiro do Colégio.

— Vosso pedido tem mais valia do que o meu, mas se o quereis...

— Impossível, senhor D._ Francisco. Fiz voto de não assistir a festas profanas; e quebrar um voto, disse-me o padre Luís Figueira, é incorrer em excomunhão latae sententiae.

O castelhano, ouvindo o texto, voltou-se para trocar um sorriso com Fernando.

— Mas, acudiu Inesita, Elvira que não fêz voto podia ir comigo!

— Não lhe está bem aparecer em lugares de folia sem sua mãe, menina. prova de descomedimento, que não assenta em donzela recatada.

O tom severo destas palavras, mais de repreensão que de resposta, desconcertou Inesita, que não soube o que replicar; despediu-se de sua amiga, e entrou na cadeirinha lançando um olhar a furto em busca de Estácio.

Este depois que desaparecera, tomando pelo corredor lateral, encostara-se à portada de onde observara tôda a cena anterior, e seguira com os olhos a cadeirinha, cujas cortinas ao longe lhe pareciam entreabertas por uma mãozinha mimosa.

Era o tempo que o palanquim de D. Luísa sumia-se também, e Cristóvão saía da igreja. Estácio foi-lhe ao encontro.

— Julgava-te longe, disse Cristóvão; vi-te sair pouco há.

— Mas não tive a fôrça de ir-me, embora fôsse o melhor, respondeu o môço com um sorriso triste.

— Que te aconteceu?

— Nada. Dize-me: tens desejo de primar esta tarde sôbre todos, par'a merecer o olhar dela, não é verdade?

— Acertaste, menos em um ponto, Estácio; desejo vencer nos torneios e jogos porque ela lá não estará, e assim farei que não team outras, o que só merece a mais bela.

— E contas ganhar todos os preços? perguntou Estácio com intenção.

— Todos os que não quiseres para ti.

— Por quê não os outros?

— Porque nem quero medir-me contigo; nem que o quisesse, o poderia com vantagem.

— Não digas tal!

— Não o diria a outro, ainda que sentisse a sua espada na gorja; digo-o a ti com a mão no coração.

— Pois ouve, acudiu Estácio; também a mim repugna-me roubar um prêmio que te pode pertencer; toma-os todos, mas cede-me uma só coisa.

— Qual, Estácio?

— Cede-me teu lugar na primeira corrida.

— Meu lugar! ... Mas diriam que tive mêdo!

— Não receies tal; a confusão da partida impedirá ver; demais não lucras na troca. D. José de Aguilar é dos mais aguerridos campeões que entrarão em liça.

— Ah! compreendo; não te queres bater com o irmão de D. Inês!

— É um dos motivos; o outro saberás depois.

— Pois está dito; mas por isso não te deixes vencer por minha causa. Lembra-te que também te olham. Adeus; vou-me com pressa.

— Em pouco irei ter contigo.

Os dois moços apertaram-se as mãos; e separaram-se tomando direção oposta.

Terna e sincera amizade os ligava. O modo singular por que nascera essa afeição anunciou logo a têmpera daquelas duas almas, ainda não batidas na incude do mundo.

Costumavam os fílhos das principais famílias, quando por tarde saíam a passeio acompanhados de seus aios, reunirem-se na Praça do Governador onde estava assentada uma bateria a pique da Ribeira. Aí entretinham-se em ganhofas e folguedos próprios da infância.

Uma vez acertou Estácio de passar por ali tornando da casa de Vaz Caminha, onde tinha escola de pueris. Um, gibão rapado, de mangas tão justas que o crucificavam, barrete que de machucado já tinha virado carapuça e calções com remendos davam ao rapazinho um aspecto realmente grotesco. Os meninos o receberam com tremenda algazarra que o acompanhou até sumir-se do lado oposto.

Percebendo que a mofa era com êle, Estácio parou e voltou face aos rapazes, afrontando-os com o olhar e gesto. Desde então o discípulo e afilhado de Vaz Caminha teve para si, que fôra cobardia escolher outro caminho. Tôdas as tardes ali passava, embora para isso fizesse uma, volta. Os meninos o atropelavam como da primeira vez com vaias e apupos. Êle passava impávido e calmo, empertigando-se em sua pobreza e desafiando-os a todos.

Cristóvão que era da roda, soube afinal quem fôsse o tal rapazito; e uma tarde quando êle passava, deixou muito zangado os companheiros botou-se de carreira ao filho de Robério Dias.

Esperou-o a pé firme Estácio, julgando que o outro vinha brigar. Deitando ao chão um maço de cadernos, arregaçou as mangas.

— Não venho para brigarmos, senão para nos conhecermos, pois somos parentes! disse Cristóvão sorrindo e com um modo afável.

Passada a primeira surprêsa de ver aquela fala e modo em um menino tão bem trajado e que parecia de família rica e principal, o escolar respondeu altivo:

— Não tenho parentes mais que uma tia!

— Pois não sois filho de Robério Dias?

— Que vos importa isso?...

— Eu sou filho de Garcia de Ávila!

— Não vos conheço! ...

— Que mal, se temos o mesmo sangue! Perguntai a vossa tia.

— É escusado! ... Sei eu que não tenho parentesco com gente de vossa qualidade; sou pobre! ...

ESPEROU-O FIRME ESTÁCIO, JULGANDO QUE O OUTRO VINHA PARA BRIGAR.

Dizendo essa palavra com orgulhosa arrogância, o escolar foi seu caminho sem mais palavras. Nos dias seguintes, por espaço de duas semanas, tôdas as tardes Cristóvão fazia parar Estácio para convencê-lo do seu mútuo parentesco, e a tôdas as instâncias respondia êste com uma orgulhosa esquivança. Não se enganava Cristóvão. Seu terceiro avô, Garcia de Ávila, também terceiro de nome, tivera uma filha natural, Isabel Garcia, casada em segundas núpcias com Diogo Dias, neto do Caramuru, e segundo avô de Estácio; donde vinha entrelaçamento de afinidade entre as duas famílias.

Uma tarde, Cristóvão perdeu a paciência, e disse para Estácio:

Ou me reconheceis por vosso parente ou brigo convosco.

— Briguemos,; é melhor.

Atracaram-se ali mesmo; mas o aio de Cristóvão correu a separá-los, e o fêz maltratando Estácio. O menino afastou-se indignado.

— Eu te castigarei, maroto!

Cristóvão irado arrancou a vergasta que o aio trazia e com ela o fustigou.

No dia seguinte muito cedo esperava por Estácio à porta de Vaz Caminha para lhe comunicar que o criado fôra expulso de seu serviço e de sua casa. Desde essa manhã ficaram camaradas; os anos vieram fazê-los amigos e afinal irmãos.

Tornemos a Sé.

Estácio seguiu para as bandas de Santo Antônio. A alguns passos encontrou Vaz Caminha, que atravessava gravemente o largo com a cabeça baixa, e entregue a funda meditação.

Logo que terminara a missa, o licenciado recebera do mestre-de-capela a competente moeda de prata; mergulhando-a na comprida bôlsa prêsa ao ilhós do calção, esgueirou-se pela escadinha do côro, e foi acompanhando a chusma de curiosos ver o navio que entrava na barra.

Depois de alguns minutos de observação, conhecendo que em menos de uma hora não se poderia haver notícias do Reino, resolveu ir confortar o estômago, e nesta intenção louvável dirigia-se ao modesto tugúrio, quando foi encontrado por Estácio.

— Bom-dia, mestre, disse o môço quando o velhinho passava. Tão embebido ides em vossas reflexões, que não vêdes os amigos?

O licenciado ergueu a cabeça, de chôfre e os olhos pequeninos pestanejaram com vivacidade jovial.

— Bem aparecido, pequeno! Há bons quatro dias que não vos ponho olhos. Bem diz o ditado: "que para os moços são as festas e para os velhos as crestas".

— Levais a mal, que tome parte nos brincos e jogos de cavalheiros?

— Ao contrário, filho. Lograi a vossa mocidade, que perto vem o tempo dos cuidados; e bem aziago é quando não se tem nos maus dias uma boa lembrança para consolar o espírito.

— Acho-vos hoje mais triste que de costume, mestre; alguma coisa vos amofina?

— É próprio da velhice; quando a idade é muita e a saúde pouca, sobram os enfados e mínguam as esperanças. Mas não semeemos flôres em cinzas, que não brotam; dizei-me antes, se estais contente e satisfeito, se contais que ninguém vos dispute hoje na galhardia e boas manhas?

— Farei o que em mim estiver; e ajudando Deus, espero dar-vos algum prazer.

,,, E as roupas estão ao vosso agrado? Ajustam-vos bem? São de fino estôfa? perguntou o velho com terna solicitude.

— Ricas não podem ser, bem o sabeis; mas também não desmerecem em um cavalheiro: talhou-as o melhor algibebe da cidade, mestre Cosme.

— Ainda bem; dai-me com isso mais gôsto do que pensais; porém — acrescentou o licenciado fitando o olhar no semblante do môço — alguma coisa ainda vos resta que me dizer?

— O que, mestre?

— Aquelas galas devem ter sido bem apreçadas, e do pouco que possuo sempre há para vos não deixar a mercê de fanqueiros e algibebes.

Estácio apertou com efusão a mão sêca e mirrada do velho; cuja oferta tão delicada como generosa lhe tocara o coração.

— Obrigado, mestre; lembrastes que de feito me faltava referir-vos alguma coisa, que esta manhã tinha em mente, e passou-me na missa; mas não é o que pensais. Graças à minha mãe que me deixou um saquitel com algumas dobras, poucas é verdade, pude enroupar-me; sem isso não o faria; pobre como sou, gasto do meu, não uso do alheio. São vossas lições.

— Que bem aproveitaram; mas não é alheio, filho, o que pertence àqueles que nos amam; porque êsse está como depósito em outras mãos, e para ser nosso basta querermos.

— Outra vez obrigado, mestre; felizmente não careço despir-vos do vosso necessário para satisfazer fantasias de rapaz.

— Assim não haveis precisão de nada?

— De vossos conselhos, muita; e tanto que, se me dais licença, vou recorrer a eles.

— É verdade; o caso que tínheis em mente?

— Dêle mesmo é que vos quero falar.

— Estamos à soleira, melhor é entrarmos.

— Como vos parecer.

Conversando, Estácio e Vaz Caminha tinham tomado por detrás da Sé; seguindo por uma rua estreita e solitária, quebraram em um beco apenas guarnecido por algumas habitações, que se destacavam a espaços entre as linhas de cêrcas cobertas de melão-de-são-caetano.

O beco descia em ladeira e formava no centro uma espécie de vala por onde corriam as águas da chuva; junto das cêrcas serpejavam dois trilhos que serviam de caminho, e iam dar à entrada das casas, para as quais subia-se por alguns degraus feitos de tijolo. Um monturo, que servia de despejo às casinhas das vizinhanças, ardia lentamente fazendo grande fumaceira.

A casa do licenciado era a segunda; pouca diferença tinha das outras. Baixa, com duas gelosias e uma porta, paredes caiadas de branco e beiradas saídas, o edifício dava perfeita idéia da arquitetura do tempo. Ao lado esquerdo via-se o quintal coberto de mamona e beldros, com touças de bananeiras; encostados ao oitão, o galinheiro, e uma espécie de hôrto onde cresciam alguns pés de arruda, hortelã, manjericão e perpétuas.

Uma velhinha com saia de ganga amarela e manta escura de rebuço, que lhe cobria a cabeça com um capuz de freira, de volta da missa entrara no poleiro, e fizera uma revolução; as frangas cacarejavam, os galos batiam as asas, os pintos pipilavam, quando felizmente para o povo galináceo o licenciado chegou à casa.

Apesar de serem nove horas do dia, a porta exterior estava fechada, como se usava então, que não se tinha inventado a polícia, e cada um era obrigado a velar na segurança própria; Vaz Caminha chegou ao canto da casa, e erguendo-se nas pontas dos pés para ver por sôbre a cêrca do quìntal, chamou a caseira.

— Euquéria! Abride, filha!

A velhinha correu tanto quanto o permitiam suas pernas curtas e trôpegas; decorrido um momento, o licenciado entrava em seu cartório acompanhado de Estácio.

Duas altas estantes de livros, um telônio cheio de autos e papéis, um bufete e alguns tamboretes rasos, eram os móveis que ornavam o gabinete, onde a luz filtrava amortecida pelos vidros das janelas, cobertas da mesma poeira clássica que jazia sôbre os grandes alfarrábios, e das veneráveis teias de aranha suspensas ao teto.

— Vossa colação aí está sôbre o bufete, senhor licenciado. Se não precisais de mim vou-me aos pintainhos, que estão morrendo do mal triste.

— Ide, filha; eu cá me aviarei.

— Jesus! exclamou a caseira voltando a correr com as mãos na cabeça.

— Heim!... Já pela manhã vos começam a aparecer as almas do outro mundo? disse Vaz Caminha para a velha.

— Que Deus Nosso Senhor, nos livre e guarde! Ai! só de falar já estou tremendo, minha Virgem Santíssima! Mas vai, senhor licenciado, que por um triz não me escorrega ainda hoje de vos dizer! ... E três dias há que o trago mesmo aqui na ponta da lingua! Quando digo que estou já com esta cabeça varrida, não querem acreditar! Pois é assim!

— No fim das contas, o que há, Euquéria? Dizei-o de uma feita.

— É o vosso vinho, que está por um dedal. Daqueles dois odres que se encheram pela Assunção, um encarquilhou que nem, com o devido respeito, o roquete do senhor deão, o outro que aí tendes, bem escorropichado, muito dará, se der, um meio pichel.

— Bem, filha; havemos de prover ao necessário. Ide com Deus.

Vaz Caminha tirou o barrete e arrastou dois mochos para junto do bufete, onde havia sôbre o mantém de algodão grosso, porém de alvura deslumbrante, uma escudela com três ovos escalfados, uma cestinha com bananas passadas, um regueifa e pão e um pichel de estanho polido como prata.

— Sentai-vos, pequeno, e refazei com o que há; não chega para regalo, mas basta para quebrar o jejum.

— Não tenho fome, mestre; almoçai vós, eu esperarei.

— Por quê?... Os ouvidos nada têm com o estômago; se quereis, falai, que vos presto atenção, e se não, fazei como vos aprouver.

Durante isto, o licenciado sentava-se ao bufete arregaçando as mangas, escorria no canjirão o resto de vinho do odre pendurado por detrás de uma das estantes, e começava seu parco almôço. Estácio de pé encostado ao telônio deixava que êle satisfizesse o apetite para começar.

— Então? disse Vaz Caminha erguendo os olhos.

— Não é coisa de grande monta, replicou Estácio. Ontem pedi à tia o cofre que me deixou minha mãe quando faleceu, para tirar algumas dobras guardadas numa bôlsa, e deparou-me o acaso com um papel do qual nunca tive notícia. Talvèz me possais explicar o sentido.

— De qual papel falais?

— De uma carta escrita à minha mãe, há cêrca de quatro anos. Por sinal que ainda se achava selada, disse o môço tirando do seio do gibão um papel dobrado e já amarelento.

— Lede essa carta.

Estácio desdobrou o papel e leu:

A D. Clara Dias Correia Senhora

Pára em minhas mãos um papel de mor valia que pertenceu a vosso falecido marido Robérío Dias; como seja demais precioso para sujeitá-lo a perda na remessa, mandareis havê-lo por pessoa de confiança.

Em São Sebastião, aos 28 de setembro de 1604.

D. Diogo de Mariz

Vaz Caminha perturbou-se de tal maneira ao ouvir as primeiras palavras, que levou a naca de pão ao nariz, e ficou de bôca aberta sem poder proferir uma palavra.

CAPÍTuLO V - QUEM ERA O LICENCIADO VAZ CAMINHA, ALIÁS DOUTOR DE CAPELO

Vaz Caminha era natural da vila de Arraiolos, em Portugal, e descendente de uma família de aldeãos, para quem o mundo não existia além do estreito horizonte em que se debuxava o campanário da igreja paroquial.

O futuro legista estava pois condenado a vegetar nos labôres campestres, se a natureza deserdando-o da robustez e vigor proverbial na família, não o houvesse predestinado para uma vida espiritual e meditativa: nascera de sete meses e mostrara desde logo que pouco desenvolvimento teria sua organização acanhada.

Os pais sentiam profundo anôjo de ver aquêle menino raquítico e débil, que tiritando de frio e encolhido a um canto, acompanhava com a vista, nas longas tardes de inverno, os brincos de dois rapagões fortes e rosados a saltarem no eirado da granja.

A mãe especialmente tinha tomado tal desgôsto a êsse fruto imaturo de suas entranhas, que a não ser a solicitude de uma irmã, o menino não teria decerto sobrevivido à indiferença e abandono em que ela o deixava; mas a Providência parece colocar sempre ao lado das criaturas fracas e desamparadas um coração que as proteja e abrigue; é a fôlha para a larva do inseto.

Felizmente um monge do convento dos Loios tomou o menino sob sua proteção, e depois de o haver feito aprender as pueris e gramaticais, mandou-o ouvir na Universidade de Coimbra as aulas maiores de degredos; porém, o môço estudante preferiu dedicar-se à jurisprudência, e seu protetor atendendo às boas disposições que mostrava, não o contrariou.

Vaz Caminha cursou tôdas as cadeiras, das quais fêz exame privado. Defendendo sucessivamente as conclusões magnas exigidas pelo Estatuto da Universidade, tomou um após outro os graus que então havia de bacharel, mestre licenciado e doutor; e ganhou na sábia congregação de

Coimbra a fama de um dos mais profundos romanistas do tempo.

O legista recolheu-se então à sua vila natal; aí entregue às lidas forenses, teve a nobre ambição de ilustrar seu nome obscuro; aproveitando os momentos que lhe deixavam os calientes, como depois fêz Lobão, empreendeu escrever um Comentário às Ordenações Manuelinas, obra de plano vasto, em que se investigavam as verdadeiras fontes daquele código do direito português.

Correram os anos. Vaz Caminha concluiu sua obra, limou-a conforme o preceito de Horácio, e sentiu o desejo muito natural de trazer à luz o fruto de suas longas vigílias; mas então a imprensa era um luxo dispendioso, e as cópias em pergaminho, a que se recorria na falta daquele agente da circulação, não custavam menos.

Ora, o fôro de Arraiolos era escasso; o advogado poucas economias tinha feito, apesar da parcimônia com que vivia; de modo que a obra estava condenada a jazer na arca de papéis e autos, se um acontecimento imprevisto não viesse dar a seu autor uma esperança de obter a fazenda necessária para a realização de seu grande desejo.

Criara-se em 1588 uma Relação na Bahia; desde que o tribunal começasse a funcionar, o número das demandas aumentaria infalìvelmente; no Brasil, terra abundante de ouro e balda de letrados, os provarás e embargos deviam ser pagos por bom preço; um advogado pois que se fôsse ali estabelecer tinha tôdas as probabilidades de adquirir rápida abastança. Foi êsse o raciocínio de Vaz Caminha, e devemos confessar que não pecava contra a lógica; assim embalando-se na idéia risonha de poder realizar o sonho de sua vida, resolveu definitivamente embarcar-se para a cidade do Salvador; deixou algumas economias à irmã que velara sôbre sua infância e ainda o acompanhava, e partiu para Lisboa.

Um navio estava a fazer-se de vela, e nêle ia um dos desembargadores da nova Relação, Baltasar Teles, que encontramos feito provedor-mor da fazenda; o nosso advogado aproveitou o ensejo, e obtendo uma passagem, deixou as terras da pátria, para ir procurar longe os meios de dar-lhe uma prova do seu amor, e de erguer um monumento à sua glória.

Com feliz travessia chegou êle à Bahia, e foi assentar os seus penates, isto é, suas estantes, seus livros, seu telônio, seu manuscrito e a velha Euquéria naquela mesma casinha por detrás da Sé; imediatamente os demandistas recorreram à experiência do nôvo jurisconsulto, a quem o povo, ignorante das distinções acadêmicas, chamava geralmente — o senhor licenciado.

Vaz Caminha, modesto como era, nenhum caso fêz; mas não deixou de lhe causar impressão o caráter especial do fôro baiano. O advogado era apenas um conciliador de partes; afora essa tarefa de nada servia; porque os embargos, os agravos e recursos tinham sido substituídos por uma exceção peremptória não consignada no formulário dos praxistas — a adaga ou o arcabuz.

Começavam-se muitos pleitos, porém, todos eram decididos extrajudicialmente; os físicos vendiam alguns récipes e os boticários as suas mezinhas; os padres ganhavam freqüentes encomendações; mas ao advogado nada rendia êsse modo expedito de terminar os processos. Assim Vaz Caminha compreendeu que antes da chegada da Relação nada se podia fazer.

Desde então principiou um hábito que êle ainda conservava na ocasião em que o encontramos; todos os dias ao raiar da alvorada saía de casa, e no seu passeio matutino dirigia-se ao largo da Sé, de onde se descortinava tôda a baía. Ali ficava cêrca de uma hora com os olhos engolfados no horizonte a ver se enfim surgia o galeão, em que vinha a desejada Relação.

Ora, "esse galeão partira em meados — de 1588 de Lisboa, tendo a seu bordo o governador Francisco Giraldes, donatário dos Ilhéus, e os desembargadores nomeados para instalarem o nôvo tribunal; sucedendo arribar duas vêzes, os passageiros tomaram isso como aviso do céu e deixaram-se ficar em Portugal.

Nem mais novas houve da Relação. Vaz Caminha resignou-se e continuou a magra advocacia que pouco mais lhe rendia que em Arraiolos; então lembrando-se de algumas lições de cravo que tomara em sua mocidade, aceitou o lugar de organista da Sé, o que lhe deixava no fim do ano algumas patacas.

A gente que se ocupa da vida alheia chamava-o de avarento; mas ignorava que sublimes sentimentos ocultava aquela restrita economia; não sabia que dos modestos lucros êle mandava dar uma pensão em Portugal à irmã que lhe servira de mãe, e o resto destinava para a publicação de sua obra, o maior serviço que podia prestar ao seu país.

Quando os rapazes que passavam para a escola, vendo-o que se dirigia para o largo da Sé triste e cabisbaixo, o perseguiam com risos e galhofas gritando — vais? vais, Caminha? — mal pensavam que aquêle homem que durante vinte anos, chovesse ou fizesse sol, ia tôdas as manhãs olhar o mar e o horizonte, não se iludia já com a esperança vã e ridícula de ver chegar o navio que trazia a Relação.

O que o levava lá era a saudade da pátria, a sublime nostalgia do velho que sente o corpo vergar para uma terra, que não é a sua, e em cujo seio talvez descansarão suas cinzas, entre gente estranha, longe do berço; o que êle ia ver não era nem o mar, nem os navios, era sim o horizonte intenso, no fundo do qual os olhos d'alma lhe mostravam o modesto painel de sua aldeia natal. .

Que lhe importava que o mundo risse? As dores profundas e grandes se escondem nos refolhos do coração, aí vivem, aí morrem, sem que a compaixão pública as profane; só Deus lhes sabe o segrêdo, e lhes manda às vêzes uma doce consolação na terra, ou lhes guarda um prêmio no céu.

Para o liçenciado essa consolação fôra um menino. Três anos depois que chegara à Baía, em 1590, conheceu Robério Dias o célebre possuidor do segrêdo das Minas de prata. Corria que voltava da Espanha descontente, porque Filipe II lhe recusava o título de marquês das Minas, que pedira como prêmio da descoberta, e o nomeava apenas administrador. Viera êle esperar na cidade do Salvador o nôvo governador-geral D. Francisco de Sousa, aproveitando o ensejo para passar algum tempo com sua mulher, de quem andava ausente havia bom par de anos.

Robério sofrera uma grande decepção e era infeliz; não há laço que mais prenda e solde duas almas do que a desgraça; tendo necessidade de consultar o advogado para deixar os seus negócios em boa ordem, achou nêle um conselheiro, que breve tornou-se amigo; estabeleceu-se intimidade, a tal ponto que, partindo para o sertão com o governador, Robério, a quem um pressentimento cerrava o coração, abriu-se completamente com Vaz Caminha e deixou-lhe o cuidado de velar sôbre sua mulher e o filho que ela ainda trazia no ventre.

O pequeno Estácio veio a ser um consôlo para o legista, a quem a sorte negara o doce sentimento da paternidade: êsse menino e sua mãe criaram para o seu coração virgem uma família espiritual, em cujo seio ia esquecer as saudades de sua boa irmã e as lembranças de seu velho Portugal.

Um ano não era decorrido, quando Robério Dias adoeceu e morreu no sertão sem haver revelado o segrêdo das Minas de prata; êste fato deixando órfã ao desamparo aquela criança, ainda ligou-a mais ao licenciado, que sentia necessidade de repartir com uma criatura humana a afeição que votara aos seus queridos alfarrábios.

Cuidar da educação de Estácio foi imenso prazer para êle; ensinou ao menino as humanidades; depois, modesto como era, e desejando dar-lhe uma instrução acabada, entregou-o a mestres de primeira fôrça; na idade de quinze anos o môço começou a freqüentar as aulas do Colégio dos Jesuítas, na qual tivera tais adiantamentos, que os padres instavam para que êle entrasse na ordem.

Este projeto porém encontrou séria oposição da parte de Álvaro de Carvalho, que se associara a Vaz Caminha, na educação do môço e se incumbira de ensinar-lhe as artes da cavalaria. O velho alcaide sonhava para seu protegido um mais brilhante futuro, que o da roupeta.

Eis como se achavam as coisas no momento em que Estácio, acabando de ler a carta dirigida a sua mãe por D. Diogo de Mariz, dobrava-a tranqüilamente sem reparar na alteração de fisionomia e na posição grotesca de Vaz Caminha.

— Podeis dizer-me, mestre, que papel é êsse de mor valia, pertencente a meu falecido pai?

O licenciado conseguiu restabelecer-se do abalo que sofrera; atirando-se a Estácio, arrancou-lhe das mãos o papel e leu-o de nôvo, enquanto o môço olhava-o admirado da singular excitação que pela primeira vez quebrava a pausada e fria gravidade do advogado.

Quando acabou de ler, segurando o papel nos dedos trêmulos, voltou-se para o estudante:

— Não sabeis a história de vosso pai?

— Sei dela o que me tem ensinado a tradição popular; contam que meu pai conhecia o segrêdo de grandes minas de prata, que recusou descobrir por haver El-rei negado a recompensa que pedia.

— A tradição mente, filho; Robério era incapaz de uma tal vilania; depois de haver prometido cumpria.

— Mas então por quê ainda hoje é desconhecido o segrêdo?

— Ouvide, filho; o que vou referir-vos foi dito há dezenove anos por Dias na véspera de partir-se para o sertão, de onde um pressentimento lhe advertia que não devia voltar; desde então ficou sepultado em mim, e só agora sai de meus lábios para vossa alma. Assim, é como se vosso pai vos falasse do seu túmulo.

CAPÍTULO VI — QUE DÁ VERSÃO DA HISTÓRIA DO CÉLEBRE ROBÉRIO DIAS

O velho recolheu-se um instante.

Estácio comovido preparava-se para escutá-lo.

— Estas famosas Minas de prata do Brasil, que tanto mal têm feito, excitando a cobiça de uns e causando a desgraça de outros, fazendo que reis esqueçam seus povos e sacerdotes sua divina missão, foram achadas em 1587 por vosso avô, o Moribeca, de uma maneira que ainda hoje se ignora.

— Ah! Não foi meu pai!

— Para não esquecer o lugar e direção em que demoravam, deixou no tronco das árvores em todo seu trajeto certos golpes que deviam orientá-lo em uma segunda jornada. Infelizmente não a pôde levar a cabo; enfermou quando ordenava os aprestos dela, na hora derradeira chamou o filho e lhe comunicou sua descoberta.

Robério cuidou logo em fazer a jornada para aviventar os rumos e marcos apostos por vosso avô, antes que o tempo e os acidentes os destruíssem. Partiu quase escoteiro, seguindo as pegadas do pai e chegou ao lugar indicado.

— Quando isso? perguntou o môço.

— Em fins dêsse mesmo ano de 1587, ainda eu não estava no Brasil. Vosso pai, por prudência e para não dar rebate aos garimpeiros que o acompanhavam, saiu do rancho como para caçar. Seguindo as indicações, deu com a entrada da caverna; achou-se em uma longa crosta subterrânea; havia escuridão profunda; mas com pouco o luar enfiando pelas fendas da pedra, deu em cheio sôbre aquelas paredes alvas e brilhantes; vosso pai admirado julgou ver úm palácio encantado no qual o pórtico, a fachada, as colunas, tudo era de prata.

— E voltou carregado de riquezas?

— Não trouxe nem uma oitava de metal; seria revelar o segrêdo e expor as minas à ambição de todos que o acompanhavam, tanto mais quando de repente foi surpreendido pelas vozes de alguns que se aproximavam. Resistiu à tentação e voltou como fôra. De volta à Bahia, caso de maravilhar, encontrou na voz do povo, e assoalhada por tôda a cidade, a nova da descoberta. Disse-me Robério que atribuia êsses boatos à muita cópia de prata em alfaias que vosso avô havia mercado, logo após sua chegada do sertão; e de feito, casa alguma rica da Bahia competia com a vossa, Estácio, em baixela e copa.

— Agora come-se nela em escudela de pau, e bebe-se em pichel de estanho!

— É a lei dêste mundo, filho; devemos nos resignar. Vosso pai tivera o cuidado de substituir os primeiros sinais por outros de mais dura, bem como de escrever a rota da jornada de modo a poder em qualquer tempo ir com segurança e presteza às minas.

— Ah! êsse roteiro que D. Diogo de Mariz anuncia?. .. exclamou Estácio.

— Esperai! acudiu o licenciado interrompendo-o com brandura. Era o primeiro intento de Robério empreender por si mesmo a exploração das minas; mas os boatos que começaram de correr, como vos disse, o fizeram mudar de parecer.

— Foi então que passou às Espanhas?

— Sim; refletiu, e julgou que melhor era seguir rumo direito; embarcou-se para o reino; levava o roteiro dentro de uma bôlsa de couro que nunca o deixava. Por infelicidade precedia-o a fama do que ia fazer; depois de oferecer o segrêdo das minas a Filipe II, que lhe prometeu de seu moto próprio o título de marquês, quando abriu a bôlsa para entregar o manuscrito, não o achou; tinham-no roubado.

— Ah!... balbuciou Estácio cujos olhos brilharam de indignação.

— El-rei, desconfiado como era, não conhecendo o caráter do homem que com êle tratava, suspeitou um embuste; voltou atrás; e proveu D. Francisco de Sousa no govêrno para vir ao descobrimento das minas, nomeando vosso pai simples administrador.

— Apesar de perdido o roteiro?

— Robério afirmou ao rei, que sua memória supriria o papel; e Filipe II receando que outrem lograsse o tesouro, tomou aquela resolução. Robério veio então para esta cidade esperar o governador, e aqui durante dezoito meses de estada tive eu a dita de conhecê-lo; um ano depois partia para não tornar, deixando a meu cuidado vossa mãe que vos trazia ainda no ventre.

— Terminai! ... exclamou o môço.

— O resto sabeis: são as desgraças que enlutaram vosso berço, filho. Robério confiou demais da sua memória, na qual cinco anos de cuidados e tribulações tinham apagado a reminiscência da primeira jornada; por fim, depois de esforços baldados, tido como falso e embusteiro, êle, a honradez em pessoa, foi prêso de uma febre maligna, e finou-se no delírio que lhe mostrava ainda uma vez a visão daquela tarde, em que entrara nas minas. O governador D. Francisco de Sousa dera conta a El-rei do que passara, e sôbre as cinzas ainda quentes de vosso pai executava-se a sentença de confiscação que vos reduziu à extrema pobreza.

O môço enxugou a lágrima que tremulou em seus olhos límpidos; e beijou com ternura e respeito filial as mãos sêcas do velho.

— Depois vós me servistes de pai, e quando, vai para cinco anos, minha mãe deixou-me para ir-se aonde a chamava seu espôso, fôstes vós ainda que tomastes o lugar que ela ocupava neste mundo.

— Não falemos disto, disse o licenciado passando a manga pelos olhos; o passado é dos velhos, pequeno; aos mancebos deu Deus o futuro. Ele vos pertence; podeis realizar a obra de vosso pai. O papel de que fala esta carta é o roteiro de Robério; não pode ser outro.

— Assim, eu sou rico! disse o môço como acordando de um sonho.

— Rico é o menos; tendes em vossas mãos um grande poder; o ponto é saberdes usá-lo.

— Me guiareis com a vossa experiência; ensinareis a gozar da riqueza àquele a quem ensinastes a suportar a pobreza.

— Em tempo praticaremos sôbre isso; hoje tendes o espírito todo empregado em folguedos e festas.

— É verdade! respondeu Estácio lembrando-se de Inesita; agora mal vos escutaria.

— Ide, ide, pequeno, onde vai o vosso pensamento; não vos demoro. Somente lembrai-vos que esta carta é mais que a vossa felicidade, é a reabilitação da memória de vosso pai.

— Não o esquecerei nunca, mestre.

— Guardai-a, o segrêdo que ela encerra, como um arcano; tirai exemplo da desgraça de Robério.

— Não pode estar melhor do que em vossas mãos, respondeu o môço entregando-lhe o papel.

— Não, filho, um velho fraco e inerme, é má guarda de tesouro tamanho, a alma é impenetrável, mas o corpo fàcilmente se quebra.

Sois môço e valente cavalheiro; a riqueza mudou-vos de repente a carreira; habituai-vos desde já a trazer a vossa fortuna, como a vossa honra, na ponta de vossa espada.

— Então vossos projetos?...

— A Providência acaba de destruí-los.

Mais estabelecidos das comoções por que tinham passado, o velho voltou ao seu almôço, e Estácio escondendo no seio o papel, dispôs-se a partir.

— Uma coisa porém me parece obscura ainda.

— Apontai-a, filho, que vo-la explicarei podendo.

— Por quê esta carta que continha tão importante revelação estava ainda fechada com o fio prêto que a selava? Por quê nunca minha mãe falou-me dela? Quem a entregou?

— O escrito traz a data de 28 de setembro de 1604; que no mesmo dia pártisse de São Sebastião, devia chegar aqui meado de outubro; vossa mãe já estava sacramentada; uma semana depois rezávamos por sua alma; a carta que lhe trouxeram ficou pois na caixinha onde guardava suas alfaias, tal como a tinham entregado. Quanto ao mensageiro, decerto algum colono que passou ao reino ou a esta capitania.

— E êsse homem não devassaria o segrêdo? disse Estácio tomado de súbita inquietação.

- claro que não, respondeu o licenciado com o acento da convicção.

— Como o afirmais?

— Se êle soubesse o conteúdo da carta, não a entregaria, e por si, por terceìro, se apresentaria a D. Diogo de Mariz para receber o papel.

— Tendes razão. E estais informado da pessoa que é êsse D. Diogo?

o provedor-mor da fazenda de São Sebastião; bom português, fidalgo às direitas, descendente da casa dos Marizes, uma das melhores do tempo do Senhor D. Afonso Henrique, que Deus tem. É filho de D. Antônio de Mariz, que prestou grandes serviços no govêrno do sr. D. Antônio Salema, e há anos correu ter perecido às mãos do gentio aimoré.

— Julgais então que durante os quatro anos que passaram, êle tinha fielmente guardado o roteiro?

— Não conheceis um português, Estácio! Com esta sêde de ouro que traz ao Brasil tantos aventureiros, os costumes dos nossos maiores se perderam; mas entre êstes ainda há cavalheiros que sabem o que devem à sua honra e aos seus brios. D. Diogo de Mariz é um dos poucos dessa raça que lá se vai com o seu tempo; o roteiro, se o não roubaram, ainda está em seu poder e intato.

— Quando assentais que deva partir? perguntou o môço com certa vivacidade.

— Devagar, filho; depois trataremos disso. Festina lente.

A citação latina anunciou ao môço que Vaz Caminha ia apresentar-se sob um aspecto que já conhecemos.

Com efeito havia naquela exótica figura três homens diversos.

Um era o homem de sentimento e efusão, que só a Estácio se revelava nos momentos de intimidade: uma bela alma fechada num corpo grotesco; uma pérola fina escondida em casca rude e grosseira.

O outro era o homem do fôro, o advogado sêco e dogmático, inflexível no raciocínio, recheado de textos romanos, armado com o ergo formidável que acentuava as conclusões de sua lógica de aço; a necessidade de ganhar os meios de subsistência tinha criado essa personalidade, que sendo a menos verdadeira, era a que a todos se manifestava.

O terceiro homem, que havia dentro daquela organização raquítica, era o homem de talento, o autor ainda desconhecido de uma obra concebida e realizada durante muitos anos de trabalho e longas noites de insônia. Espírito vivendo no futuro, alimentado pelo fogo íntimo que queima lentamente, absorvido na gestação de um pensamento grande, ninguém o compreendia; a ninguém se revelava essa última fase de sua vida. Era um mistério entre êle, a candeia que o alumiava e Deus que o encorajava.

Os três elementos dessa organização tinham constituído uma vida à parte; cada uma das fases da tríplice existência tinha seu órgão diverso e sua esfera distinta.

No primeiro homem funcionava o coração; no segundo a vontade; no terceiro a inteligência.

Pai espiritual e amigo pela necessidade de amar; advogado pela obrigação de se alimentar e socorrer sua irmã; autor pela febre d'alma que excita o espírito a criar alguma coisa, e deixar durante a rápida passagem neste mundo seu nome impresso e seu pensamento materializado em algum objeto.

Ora, Estácio amava seu mestre; mas respeitando o advogado, sentia uma certa dissonância, entre seu caráter leal e a lógica forense que se arma muitas vêzes do sofisma para escurecer a verdade; por isso apenas Vaz Caminha anunciou com o primeiro texto latino que o jurisconsulto ia aparecer, o mancebo apertando-lhe a mão, partiu.

Ia seu caminho bem preocupado com os pensamentos que lhe suscitara a revelação de seu padrinho, e por isso não ouvia que o chamavam.

— Psiu! ... Psiu! ... Senhor cavalheiro! Brásia corria após êle e o alcançou.

— Fazei a mercê de esperar, meu rico senhor!

— Que desejais, mulher?

— Certa dama que vos viu na missa está tão rendida de vosso gentil parecer, que ansiosamente deseja falar-vos um instante que seja.

Estácio ficou surprêso e passado; não era mancebo de aventuras; nunca as tivera, nem mesmo as sombras. Ficou pois a olhar mui sério, para a aia, sem lhe ocorrer alguma resposta.

— Que lhe hei de eu levar à formosa dama, meu rico senhor?

— Dir-lhe-eis que êste seu servo não merece seu agrado, e nem já se pertence, pois rendeu-se cativo de outros encantos, tornou Estácio gravemente.

A Brásia titubeou; mas logo espevitada acudiu:

— Mas, gentil namorado, não me entendestes ou eu não me expliquei assãz... Não sou correio de Cupido, que bem diversa é a incumbência que trago! ... A -dama, sabendo da vossa bizarria, quer valer-se dela, para seu amparo!

— Ah! Então carece ela de mim?

— Pois que tão apressada me mandou...

— Onde a posso eu encontrar?

— Esta mesma noite de hoje, ao escurecer. Ficai parado no adro de Santa Luzia, olhando fito para as bandas do mar.

— Esta noite não poderei, pois devo estar no torneio.

- verdade, mas em acabando êle?

— Lá estarei, se fôr por instantes, pois devo voltar para o sarau.

— Pois sim, disse a Brásia esgueirando-se.

Entretanto o legista terminava tranqüilamente seu almôço, e se dispunha a sair de nôvo, quando o vultozinho da tia Euquéria assomou à porta.

— O pequeno já se foi, senhor licenciado? perguntou ela.

— Agora mesmo saiu; ainda não dobrou o canto. Por quê?

- pena que se fôsse; podia dar-me uma demão para cortar lá no horto um cachinho de bananas que caem de maduras! Faz gôsto ver!

— Pois Euquéria, disse Vaz com ar severo, é essa incumbência que quereis dar a um môço cavalheiro?

— Ai!... Tal não me lembrou, senhor Vaz; mas não leveis a mal, que me arrependo, e dos arrependidos é o reino do céu. Como êle foi quase criado aqui...

— Contudo já é um homem.

— Um rapaz, resmungou a velha; para homem ainda lhe falta muito. Porém as frutinhas? Ficam perdidas? Mete dó! Já estão sorvando! .

— Não vos amofineis, Euquéria, há de se arranjar.

— Como, é que eu não sei, porque o cacho não é lá muito baixo, e nem vós mesmo, senhor licenciado, com serdes de boa altura, podeis deitar-lhe a mão.

Com efeito Vaz Caminha tinha mais meia polegada que a sua caseira.

— Talvez por aí venha logo mestre Bartolomeu, disse Vaz Caminha.

— Esse sim! Era um achado! Mas virá êle?

— É natural.

— Pois vou preparar meu tabuleiro para po-las à sêca. Não gostastes dessas passas que vos servi na colação?

— Não desgostei, não; estavam tenras.

— São bem, assim assim, como os nossos figos de Arraiolos, não é verdade, senhor Vaz? Se nós os tivéssemos cá? Que de anos não lhes tomo o gôstol Fazem bem pela Páscoa...

E a velhinha começou a fazer a conta.

O licenciado deixou-a nessa profunda elucubração; tomando o barrete e sua cana de Bengala, ganhou a rua e seguiu para as bandas do Colégio dos Jesuitas.

CAPÍTULO VII - QUE TRATA DAS NOVAS DO REINO E DO MAIS QUE SE SEGUIU

A poucos passos de casa, o advogado encontrou o desembargador Baltasar Teles, seu antigo companheiro de viagem, que como ele, esperara debalde pela encantada Relação, e afinal se consolara de sua inércia forense nas lidas financeiras do cargo de provedor-mor da fazenda.

O magistrado voltava de palácio, onde deixara o governador ocupado com a leitura dos despachos reservados que vinham do reino.

— Então, doctor, não foi ainda desta vez! ... Nada de Relação.

— Virá quando Deus fôr servido, e El-rei o ordenar, senhor desembargador. Quais novas do reino? Boas?

— Não sei, se boas, se más; sei que são importantes. El-rei houve por bem dividir outra vez seu Estado do Brasil em dois govêrnos, separando as capitanias do Sul.

— El-rei terá razão de assim proceder, senhor Baltasar Teles; mas não é menos certo que pouco avança, quem não segue rumo direito. Ainda em 1577 se uniam os dois governos, e já os dividem!

— Pensais com acêrto, doutor Vaz Caminha. Porém não pensam assim vossos amigos, que tão certo como ser hoje quinta-feira, foram os motores disso.

— Falais dos padres, senhor desembargador?

— Falo dos da Companhia de Jesus, que bem conheceis.

— Ubi ef fectus, ibi causa. Que interêsse podem ter êles na divisão?

— O de vingar-se de D. Diogo de Menezes, pela audácia de lembrar-lhes o texto das Santas Escrituras. Os filhos de Jesus costumam esquecer que seu reino non est de hoc mundo.

— Estou que vos enganais, senhor provedor.

— O tempo vos abrirá os olhos, senhor Vaz Caminha.

— Sabe-se já quem foi o provido no govêrno do Sul?

— D. Francisco de Sousa há muito o estava por carta régia de 2 de janeiro passado.

— D. Francisco de Sousa!... É o que veio há anos em cata das minas de prata de Robério Dias?

— O mesmo, e desta vez traz não só o provimento de governador, como a superitendência das minas, com regalia de conceder fôro de fidalgo e hábitos nas três ordens, passando por mote a sucessão a seu filho, independente da confirmação de El-rei.

— Julgais então que os padres da Companhia para humilhar D. Diogo de Menezes obtiveram tudo isto?

— É fora de dúvida. Quem, se não êles, obteriam prerrogativas, como governador algum ainda as teve?

O licenciado abanou a cabeça.

— Afora estas, não há outras novas?

Conta o sargento-mor que os desembargadores nomeados ficavam a partir para virem instalar nesta cidade a nova Relação; mas tantas vêzes nos tem chegado a mesma notícia, que já não há crer nela.

— Chegarão quando menos os esperem. E passageiros? Muitos?

— Algumas famílias de Ilhéus para a colonização das terras, e um padre da Companhia.

— Só um? perguntou Vaz Caminha.

— Achais que são poucos os que já existem em sua casa do Terreiro? Orçam por noventa e tantos.

— Não é isso que me causou estranheza, senhor desembargador; poucos ou muitos, nada tenho com o número; é natural que onde sobra o trabalho das reduções e apostolados, mais se empenhem as fôrças da Companhia. Por outro motivo pareceu-me singular a vinda do padre.

— Por quê, doutor? Não andam êles sempre de arribação?

— Sim; mas não se manda um soldado para aumentar a guarnição de uma praça, senhor provedor.

— O que se manda então?

— Manda-se um bom cabo de guerra para defendê-la; ou um mensageiro para levar-lhe instruções superiores.

— É possível que assim aconteça. O que fôr soará, respondeu o provedor despedindo-se.

O licenciado continuou seu caminho refletindo sôbre a conversa que tivera com o desembargador Baltasar Teles. Não era que seu espírito andasse ocupado com as questões da governança da terra; em sua posição modesta e com seu gênio, nunca aspirara a fazer papel de político; e até recusara em 1562 representar a vila de Arraiolos em Côrtes, desviando de si os votos do conselho, e fazendo nomear outro procurador.

Mas os homens de inteligência, habituados ao estudo e meditação, não se podem conservar indiferentes aos fatos de importância que passam sob seus olhos: embora não lhes interessem de perto, sentem êles a necessidade de os apreciar. A inteligência é irmã também; atrai o que entra em sua atmosfera.

Estranhava que o govêrno espanhol em vez de conservar a unidade da administração colonial, imagem da unidade da monarquia, voltasse ao antigo sistema da divisão que pouco havia fôra condenado; não acreditava que uma simples vingançazinha dos jesuítas dêsse causa àquela mudança repentina e impolítica.

A lembrança da cena que há pouco fivera lugar em sua casa entre êle e Estácio; a coincidência de ser o nôvo governador D. Francisco de Sousa, o mesmo que em 1591 viera com Robério Dias ao descobrimento das minas de prata; o fato da existência do roteiro que se julgava perdido; tôdas essas circunstâncias, apresentando-se de repente e conjuntas a um espírito sagaz e profundo como o seu, deviam impressionar.

A ambição insaciável dos reis de Espanha, os quais desde a descoberta do nôvo mundo, sugavam o sangue da América para arrancar do seio dessa terra o ouro e as pedras preciosas que a natureza aí depositara, o desejo de obter as famosas minas de prata, cuja abundância e riqueza a tradição popular havia engrandecido, explicariam perfeitamente a nova política e a nomeação de outro governador e superintendente.

Também não deixava de causar certo reparo ao nosso advogado a chegada do jesuíta, que naturalmente, como fizera sentir ao provedor, vinha incumbido de alguma missão importante; qual ela fôsse, é o que êle não podia adivinhar. Isso o inquietava involuntàriamente. Um quer que seja lhe fazia recear que o segrêdo de Estácio se achasse envolvido em todos êsses acontecimentos.

— Cuidemos de sondar os ânimos! disse entre si. Assim pensativo atravessava o doutor o largo da Sé, quando lhe ocorreu a advertência da tia Euquéria, de que a sua provisão de vinho das Canárias já estava exausta, e pois carecia nova para o dia seguinte. Quebrou na primeira travessa em busca de uma taverna muito afreguesada, que havia ali perto, servida por um tal Brás Judengo.

A varanda da taverna ainda estava deserta e a porta cerrada; porém Vaz Caminha, como freguês antigo, penetrou no interior. Já êle vinha do fundo desenganado de encontrar viva alma com quem falasse, um murmúrio de vozes abafadas feriu-lhe o ouvido. O advogado sondou com o olhar os cantos escuros do aposento.

Viu no fundo uma fresta triangular interiormente esclarecida por uma candeia.

— Bom! pensou Vaz Caminha. Está justamente na adega.

De fato, a fresta dava para o vão subterrâneo de uma escada onde o bodegueiro havia construído a cava dos vinhos. Enfiando o olhar pela abertura, o advogado pôde ver e ouvir distintamente o que passava no interior.

Na estreita área ladrilhada, que formava o fundo da adega, estavam dois homens sentados em face de um e outro lado da quartola, cujo tampo lhes servia de mesa; outros barrilotes deitados faziam as vêzes de tamboretes.

A candeia, colocada sôbre um tijolo saliente da parede, projetava a luz de chapa sôbre o meio perfil dos dois companheiros.

Um dêles era um negro, môço e robusto, cuja tez escura refletia os raios da luz, como o lustro do jacarandá polido. Tinha a feição comprimida peculiar à sua raça: o olhar pesado e tôrvo; nos lábios grossos, o sorriso carnal da animalidade africana. Com os cotovelos apoiados sôbre o arco da quartola acompanhava os movimentos do outro.

Era êste o taverneiro, o Brás Judengo, como o chamava o vulgo; homem de estatura meã, entre gordo e magro, de cabelo prêto corrido e barba ruiva encarapinhada; espécie de ecletismo vivo no moral como no físico; alma anfíbia, habitando no vício tão bem como na virtude.

Não professava religião alguma, porém usava de tôdas: era ao mesmo tempo pelos padres da Companhia e pelos senhores de engenho, a favor e contra a liberdade dos índios; vivia bem com o alcaide e com os ratoneiros; açoitava negros fugidos e também os entregava aos donos quando lhe davam pingue espórtula.

Seu verdadeiro nome era Joaquim Brás; pelo menos assim foi dado no rol da câmara, quando se tratara do assentamento dos moradores e vizinhos do conselho. Dêsse nome usava êle sempre que traficava com os mercadores judeus. Neste caso pronunciava Baraz e escrevia Joakim com k em vez de q; isto dava a assinatura certo cheiro de velho testamento; bastante para conciliar a benevolência dos vendedores, e não tanto que comprometesse.

Era èste o taberneiro, o Bras judengo...

Se vivera nos tempos modernos, o Sr. Brás (Joaquim) ou Joakim Baraz faria um importante papel na política; e primaria sem dúvida entre os mestres de certa escola, que aceita todos os princípios e apóia todos os govêrnos.

O Brás naquele momento acabava de riscar a giz sôbre o chantel do barrilote diversos traços que figuravam a tôsca planta do interior de um edifício.

— Pronto! exclamou êle largando o giz e enchendo na mesma quartola, que lhe servia de mesa, uma caneca de vinho.

E continuou, depois de beber:

— O dinheiro está por baixo do oratório, não é? O negro acenou com a cabeça:

— Aqui, respondeu assentando a ponta do dedo sôbre um dos traços de giz.

— Então, replicou o Brás, bem vês, Lucas, que tenho razão: é melhor cavar dentro da casa. Anda mais lesto e vai-se pela certa!

— Não! disse o negro com a palavra breve e decidida. Dentro não se pode; há de ser por fora.

— Mas vem cá, filho! Devagar, que é o meio de apressar.

O bodegueiro designou a planta.

— Se o oratório está aqui, temos que para lá chegar, carece atravessar a recâmara da dona. Ora, cavar tudo isto por baixo da terra, não é cavar um queijo do Alentejo.

— Gimbo muito! Para a pena, retorquiu o negro.

— E a dona não há de ouvir, quando estiverem a cavar por baixo da cama dela?

— É não fazer barulho.

— Custa pouco a dizer: Beba, mas não engula! O som de ferro no chão, por fôrça que se há de ouvir, filho de São Benedito!

— Pois a querer, é assim! disse o negro, que se ergueu resolutamente e bateu com a palma da mão no barrilote. Dentro da casa ninguém entra, que não deixo eu!

— Está bem! acudiu o bodegueiro, não vai a zangar. Tudo se arranja.

O advogado apenas teve tempo de ganhar a varanda, antes que os dois interlocutores assomassem no tôpo da escada subterrânea.

— Ó de casa! disse Vaz Caminha batendo com a bengala no ladrilho. Não há quem acuda aos fregueses?

— Já se vai! Já se vai! gritou o Judengo, supondo que batiam à porta da rua.

— Ora sejais bem aparecido, sô taverneiro! Tarde madrugais, para que vos Deus ajude.

— O senhor licenciado!... Cá dentro?... Por onde entrou sua mercê? exclamou o taverneiro arregalando os olhos.

— Não está má! Pela porta! Quereis que entrasse pela janela? .

— Mas se a porta estava fechada!

— Tanto não estava, que por ela entrei eu!

E como o Brás embatucasse, continuou o advogado rindo maliciosamente:

— A isto chama-se no digesto, mestre Brás, provar in continenti pela vista dos olhos, aspectu.

O bodegueiro disparatou afinal:

— Já sei! Foi aquêle maldito que se pôs ao fresco e deixou-me às escâncaras, em risco de me limparem a casa!... Martim! Martim! Diabrete, filhote de demo, com perdão, de sua mércê, senhor licenciado! Anda por aí de bródio i Não tem que ver... Deixa estar, cão, que eu te guardarei boa pitança.

Quando o bodegueiro acabou de vociferar e acalmou o furor que o tomara por ver a porta aberta, Vaz Caminha apreçou o vinho e continuou seu itinerário. Mal tinha êle dado uns trinta passos na rua, o negro, que o seguira de longe, entregou-lhe uma carta.

Vinha na capa o seguinte enderêço:

"Para o Sr. Vaz Caminha, letrado da Bahia, que mora por detrás da Sé".

— Quem te manda? perguntou o advogado reconhecendo no portador o companheiro de Brás na adega.

— O papel diz, respondeu Lucas.

O advogado rompeu o sêlo, augurando mal daquela estranha missiva; a carta continha estas palavras:

"Pessoa que tem razão de segrêdo, muito deseja aconselhar-se com o senhor licenciado, Não permitindo seu sexo e posição que o procure ela, pede para vir à sua casa esta mesma noite de hoje, depois do sino de recolher. Um escravo fiel acompanhará sua mercé".

— Senhor vai? perguntou Lucas, vendo o advogado dobrar lentamente o papel.

Vaz Caminha fitou os olhos vivos na face do negro; sentiu um ligeiro estremecimento, recordando a cena misteriosa da adega; não obstante respondeu com a voz clara, ainda que um tanto baixa:

— Irei, filho, irei!

— Depois do sino?

— Onde te encontrarei?

— Na bodega, respondeu Lucas.

— Aqui serei a ponto.

Não foi sem inquietação, sem mêdo, digamos francamente, que Vaz Caminha se meteu naquela arriscada aventura; porém o advogado tinha, em falta da coragem física, a coragem moral dos homens de vontade firme. De mais, que interêsse havia em atentar contra sua vida, que a ninguém prejudicava?

Tomando pela rua dos Mercadores, o licenciado foi sair no Terreiro, junto ao Colégio dos Jesuítas, vasto e belo edifício que ocupava uma das faces do largo, com a frente voltada para o nascente.

No meio do Terreiro via-se armada em vasto círculo uma paliçada, que abria para o lado do convento e rematava nos cantos com palanques alcatifados de gases e lambéis de côres vivas. Nas ruas próximas e no largo havia profusão de fôlhas aromáticas que serviam de tapête; as escadas e os estrados porém estavam cobertos de lindos panos de Flandres com vistosas ramagens.

Muitos oficiais mecânicos, carpinteiros e capelistas, trabalhavam ainda nos preparativos dos festejos da tarde; os primeiros erguiam as colunas e arcos que tinham de servir aos diversos jogos; os segundos pregavam as telas, e armavam sôbre os assentos preparados para as damas os ligeiros toldos de tafetá, que deviam resguardar os formosos rostos dos raios do sol.

O licenciado deu uma vista indiferente àqueles trabalhos, e atravessando o Terreiro, entrou a larga portaria do convento, aberta pelo irmão Bernardo, que se desfêz em mesuras ao visitante.

— Servus servorum!

— De Deus, de quem todos o somos, irmão Bernardo. Como vai o vosso achaque?

— Sempre na mesma, senhor licenciado! Um cansaço... Ah! ... Que nem posso com êste corpo.

O achaque do irmão porteiro era a preguiça, que êle diagnosticara — afrontação.

No rés-do-chão do edifício ficavam, de um lado as vastas salas do refeitório e a rouparia, do outro o pátio, nome que davam os jesuítas às aulas de latim e mais estudos menores; no fundo viam-se por entre as grades das janelas o hôrto e a grande cêrca do convento, a qual ia ter ao mar.

Enquanto Vaz Caminha subia os primeiros degraus da escada de pedra, que conduzia aos aposentos superiores, assomou no tôpo a figura de um frade já quebrado pelos anos, o qual tendo visto pela janela entrar o advogado, fôra cortêsmente ao seu encontro.

— Ave, doctor, semper amabilis! disse o jesuíta com a expressão da mais viva cordialidade.

— Gratia vobis, pater provincialis, respondeu o legista com igual expansão.

E acabando de subir, apertou a mão que lhe estendia o provincial Fernão Cardim.

— É de mister que Deus mande um dia de ano-bom, para que os seus servos possam ter-vos nesta sua casa.

— Tão poucas não são as festas do ano, padre provincial; e elas não passam sem me ver sentado à mesa dêste convento, onde a vossa amizade me acolhe com verdadeiras mostras de bondade.

— Não é razão, carissime doctor, para nos privar de vossa companhia nos dias não santificados; se eu fôra vosso confessor, vos daria essa penitência por algum pecadozinho que deveis ter cometido na mocidade.

— Não era preciso ir tão longe; hoje mesmo, P. Provincial. Sou homem, e o salmista o disse: Homo, natus de muliere, repletur multis miserüs...

— Livre-nos Deus de ofender vossa modéstia. Mas passando ao assunto profano, vindes disposto a jogar nossa partida do costume?

— Decerto, e por sinal que me deveis uma desforra da última vez. Preparastes um lance que me desorientou bastante.

verdade! respondeu o provincial, esfregando as mãos com visível satisfação. Avancei um pião defendido por um castelo; xaqueei o rei, e antes que pudésseis defender-vos, dei-vos o mate como delfim! ... Belo lance! ... Tinha-o estudado.

— Também eu havia preparado um, mas tínheis o jôgo tão cerrado, que me desfizestes tôdas as combinações.

— Deveras! ... Não me havíeis dito tal.

— Pensais que se fica de ânimo sereno, quando se perde uma partida de honra? Porque, se vos lembrais, era um desafio! ...

— Lembro-me! Lembro-me... exclamou o frade não cabendo em si de contente; fazei por tomar hoje a resposta.

— Nêste propósito venho eu; e já vos advirto que custareis a levá-la.

— Melhor! Gosto da vitória disputada.

— A propósito, sabeis novas do reino? A Relação virá? perguntou o licenciado com um ar de perfeita ingenuidade.

— Breve deve estar por aí; já El-rei tinha provido os desembargadores, respondeu o provincial não podendo esconder um sorriso. Quanto às novas, de grande monta são para êste estado.

O jesuita repetiu então o que Baltasar Teles já havia contado ao licenciado, sem contudo fazer nenhuma observação sôbre as causas que tinham motivado a resolução de Filipe III.

— Quem não há de receber isso de rosto alegre sei eu, disse Vaz Caminha.

— O senhor D. Diogo de Menezes! ... Não se pode queixar senão de si!

— Êle mesmo o procurou com suas mãos... E o nôvo governador veio na fragata? perguntou o advogado.

— Não; mas já deve estar em Pernambuco, de onde seguirá direito para o Rio de Janeiro.

— Então ninguém de vulto chegou?

— De vulto, não; chegou-nos um irmão que vem fazer residência nesta casa por ordem do Geral.

— Bem-vindo seja, que nesta terra de gentio nunca serão demais os missionários de Cristo. Pena é que fôsse um somente, acrescentou o licenciado.

— Com o tempo virão outros, doutor, respondeu o provincial risonho. Mas entrai, entrai! ...

Esta conversa tivera lugar no tôpo da escada, onde os dois velhos amigos se haviam encontrado.

Ao convite do jesuita, Vaz Caminha o seguiu pelo corredor que dividia os dormitórios, e entraram ambos na biblioteca.

Esta parte do convento, uma das mais importantes depois da secretaria, estava colocada ao lado do sul; era uma vasta sala, com janelas rasgadas, das quais se gozava de uma vista admirável sôbre o mar. Grandes estantes de livros cobriam as paredes de alto a baixo; no fundo pendia um grande retrato a óleo de Santo Inácio de Loiola, o fundador da Companhia; o artista espanhol que desenhara êsse quadro tinha reproduzido com fino colorido a expressão sublime do soldado de Navarra, coberto com a roupeta do monge.

A longo da sala estava uma mesa comprida, carregada de instrumentos astronômicos e matemáticos, de tinteiros, livros e papéis; aí sentados, diversos religiosos aproveitavam a manhã para realizarem os trabalhos de paciência e estudo, que são o mais precioso legado deixado por essa Ordem à civilização moderna.

Muitos copiavam manuscritos de história; outros traduziam em guarani as orações cristãs para uso dos indígenas; êstes se entregavam a estudos de botânica e classificavam uma planta brasileira ainda desconhecida; aquêles tiravam a limpo suas observações astronômicas; alguns escreviam crônicas das religiões, ou cartas sôbre o estado das reduções.

Quem visse êsses homens, assim ocupados em marcarem com o sêlo de sua inteligência todos os conhecimentos, em ligar seu nome, não já à religião, mas à história, à geografia, à política, filosofia e até às artes, não se admiraria que, unidos pelo mesmo pensamento e dirigidos por uma só vontade, houvessem criado a Ordem poderosa que, espalhando-se pelo mundo dominou os tronos, curvou os reis; e lutou com os govêrnos das nações mais fortes.

Um frade, que nesse momento entrou na sala, avistando o advogado, encaminhou-se logo a êle para o saudar. Vaz Caminha respondeu à cortesia com sinais de respeito e acatamento que não tivera mesmo falando ao provincial.

Quem era pois êsse jesuita, e que elevado grau ocupava na Companhia?

Era o P. Inácio de Louriçal, um simples professo, de todo alheio aos negócios secretos, a que nenhuma importância ligava; e por isso o menos qualificado do grau. Mas bastava olhar aquêle meigo semblante de velho, coroado de nívea auréola de cãs, para ver ali estampado o evangelho da bondade.

Quando passavam os outros professos, cujo voto pesava nos negócios da Companhia, a gente melhor desbarretava-se; para o P. Inácio ninguém se arredava, pois quase o não percebiam; mas o povo, que via esgueirar-se furtivamente o modesto frade encolhido na roupeta, murmurava baixinho: Santo homem! ...

Vaz Caminha respeitava-o como a um príncipe da igreja; e sempre que o via, beijava-lhe mau grado a manga do hábito, que o frade esforçava por esquivar.

— Então, doutor, o nosso estudante trocou hoje os estudos pelas gritas e torneios?...

— Bom é, P. Inácio, que conheça o mundo para saber o que abandona... Bem entendido... Se tal fôr seu gôsto e vontade!

— Sem dúvida!... Pois o contrário seria fazer de um bom mancebo um mau padre. Não lhe parece, P. Provincial?

Um sorriso fugiu pelos lábios finos de Fernão Cardim:

— Demos hoje sueto aos negócios em atenção ao dia que é.

A sinêta tocou chamando a comunidade à refeição. Era a ponto de meio-dia.

Quando Fernão Cardim e o licenciado iam descer a escada, o irmão despenseiro chegou-se a êles e dirigiu-se ao superior com o costumado respeito.

— O P. Gusmão de Molina pede a Vossa Reverendíssima, que o dispense por hoje de comparecer ao refeitório.

— O dia da chegada é sempre concedido ao pouso; dizei ao nosso irmão que se restabeleça das; fadigas da travessia; melhor cumprirá depois os deveres do nosso Instituto.

Com pouco, a comunidade, rodeando a longa mesa de jantar, murmurava a prece do ritual.

CAPÍTULO VIII - COMO O P. PROVINCIAL DEU XAQUE AO REI E FOI XAQUEADO

Deu uma hora da tarde.

Na vasta sala da biblioteca, pouco antes deserta, andava um frade, que percorria o aposento a passos vagarosos, com o movimento automático e maquinal do homem absorvido em funda meditação.

As vêzes parava em face do quadro de Santo Inácio de Loiola; erigia então a alta estatura, fitava no retrato o olhar ardente, e rasteando na tela as linhas das feições nobres e expressivas, trocava com a imagem inanimada um sorriso de orgulho.

Quem o observasse nesse momento, compreenderia o que passava em sua alma.

Aquela fronte larga e proeminente, cobrindo como uma abóbada de mármore os olhos fundos, onde a pupila negra brilhava na sombra com reflexos de um fogo vulcânico nas trevas da noite; o oval do rosto que terminava na ponta de uma barba saliente, o nariz aquilino, as faces longas, a bôca fina e cerrada; todos êsses traços enérgicos pareciam cinzelados pelo molde do busto, que o artista havia desenhado no quadro suspenso em um dos panos da biblioteca.

Era tal a semelhança, que à primeira vista se julgaria que o vulto do fundador da Ordem de Jesus destacara da moldura, e encarnando-se, passeava pela sala deserta, a resolver na mente os destinos futuros da poderosa criação de seu espírito, êsse apostolado que devia conduzir a humanidade dos umbrais da Idade Média ao pórtico da civilização moderna.

Mas passada essa primeira ilusão, conhecia-se que entre aquêles dois homens, o que revivia no quadro e o que o contemplava, havia mais de um século: separava-o o túmulo de duas gerações; um nascera com a descoberta do nôvo mundo, em 1492; o outro apenas contava trinta anos de idade.

Não era portanto um retrato em face do original, como a princípio parecia; era sim uma recordação, um tipo conservado pelo artista, que a natureza por uma misteriosa coincidência caprichara em reproduzir, e que talvez o artifício inspirado por oculto pensamento tratara de aperfeiçoar.

Depois de rever-se um momento naquela imagem, como em um espelho moral, onde se reproduziam as suas idéias, o frade continuava seu passeio, perlongando o aposento.

Então já não era o mesmo homem; o talhe acurvava-se; a cabeça inclinando obscurecia os traços da fisionomia; os olhos afundavam quase ocultos pelo senho carregado; as faces se contraíam, e a bôca ainda mais cerrada, repuxando os músculos faciais, abria rugas precoces naquele rosto que antes parecia expandir-se em tôda a robustez da idade.

Nessa ocasião representava mais dez anos; era quase um velho, gasto pelas vigílias e macerações de uma prática ascética, arrastando com o passo já meio trêmulo uma existência atribulada, expiando talvez no jejum e penitência os erros da mocidade desregrada.

Qual dos dois homens era o verdadeiro? Qual das suas fisionomias era a máscara que disfarçava a outra?

A mocidade não se finge; o fogo do sangue, que borbulha nas veias e ferve no coração, depois que os anos o gelam, não há mais aquecê-lo; essa expansão da vida no momento de sua florescência, uma vez passada, nada a faz voltar.

Se pois havia máscara na fisionomia dêsse homem, era a velhice prematura, que desaparecia quando o espírito distraído por algum pensamento grave esquecia a matéria que êle escravizara, deixando o corpo, livre da pressão, reivindicar sua atividade e desenvolver-se de repente com o impulso da vigorosa constituição.

Havia apenas três horas que o P. Gusmão de Molina desembarcara e achava-se no convento; ninguém sabia ao certo o que o trazia ao Brasil e quem o enviava; mas era natural que tocado do mesmo fervor de Nóbrega e Anchieta, viesse apostolar entre os selvagens e plantar a cruz nos desertos, cingindo-a com as palmas do martírio.

Assim pensavam todos e o mesmo provincial, a quem o recém-chegado nada comunicara a respeito de sua viagem: apenas no momento de beijar-lhe a mão, dera-lhe o toque simbólico do grau de professo, e tanto bastou para que o superior não lhe dirigisse uma só palavra e o acolhesse como filho da casa.

O PROVINCIAL TINHA O ROSTO AINDA MAIS PRAZENTEIRO E O GESTO AINDA MAIS VIVO E ANIMADO.

Rodeado pela comunidade que estava ansiosa por saber notícias da Europa, Molina satisfêz a todos e ao mesmo tempo informou-se do estado das coisas no Brasil; daí a uma hora ficou ao corrente das questões importantes da Ordem, na Bahia; não porque lhe houvessem os padres revelado segredos que ignoravam, mas porque a sua perspicácia lera a verdade nas notícias vagas que lhe ministravam.

Quando a sinêta do refeitório tocou, o recém-chegado, que desejava estar só, mandara pedir dispensa ao provincial; e depois de tomar na cela uma açorda confortante e um cálice de vinho de relêgo, dirigiu-se à biblioteca então completamente deserta.

Aí, seu primeiro cuidado foi passar um exame minucioso nos papéis que os padres haviam deixado sôbre a mesa na ocasião de irem à refeição; leu um trecho ou uma página de cada um dêsses trabalhos, e fêz o seu juízo a respeito da capacidade de seus autores; pela escolha das matérias deduziu observações que deviam servir-lhe para conhecer o caráter daqueles homens.

Depois de ter assim interrogado êsses objetos e lido em seu aspecto tudo que êles exprimiam, como pouco antes havia lido no espírito dos frades, Molina deixou-se levar pelos pensamentos que de tropel lhe assaltavam o espírito e o transportavam a outras regiões.

É nessa ocasião que o encontramos medindo a passos lentos a sala da livraria, até que a comunidade voltando da refeição o veio interromper em suas elucubrações.

Fernão Cardim e Vaz Caminha entraram em iíltimo lugar. O provincial tinha o rosto ainda mais prazenteiro e o gesto ainda mais vivo e animado. O licenciado conservava o sério imperturbável que nunca o abandonou; a ventura lhe negara uma das expressões características da fisionomia humana; seu lábio não sabia sorrir.

Atravessando a sala os dois encontraram-se com o P. Gusmão de Molina, que continuava seu passeio:

— V. Paternidade já repousou dos incômodos da travessia? perguntou Fernão Cardim.

— Quando basta para cumprir as ordens de V. Reverência, disse Molina com humildade.

— As ordens do nosso Instituto, P. Molina, replicou Fernão Cardim. Mas para isso ainda é cedo; mal chegaste, e ninguém conheceis na cidade do Salvador.

— É verdade: ninguém que eu saiba.

— Pois quero que vosso primeiro conhecimento seja o melhor. Aqui está o doutor Vaz Caminha, principal advogado da terra, homem de boas letras e melhores virtudes, com quem gostareis de praticar.

O frade e o licenciado cortejaram-no cerimoniosamente.

— Agradeço a V. Reverência o favor que me depara; porém receio que pessoa de tanto saber não se desagrade da companhia de um pobre servo de Deus, ignorante nas coisas que deleitam o espírito.

— V. Paternidade bem sabe, respondeu mansamente o doutor, que as aves da altanaria antes de erguer o vôo rastejam com o chão para desentorpecerem as asas; aos homens de grande engenho sucede o mesmo, descem muito para subirem mais.

O frade lançou um olhar rápido sôbre o velhinho. Adivinhou êle que essa crosta rude e grosseira cobria delicada polpa e um espirito elevado?

O provincial tinha-se afastado alguns passos para inspecionar o serviço de um donato que preparava o jôgo de xadrez, colocado junto à janela sôbre um bufete; vendo tôdas as peças enfileiradas em seu lugar, voltara-se para o licenciado.

— Não façamos esperar aos reis, doutor! disse Fernão Cardim apontando para as figurinhas chinesas e sorrindo de seu trocadilho.

— Não sou capaz de tal descortesia; aqui me tendes. Fazendo uma reverência ao P. Gusmão, o licenciado foi tomar o seu lugar à direita do bufete e defronte do provincial; êste esquecendo o mundo concentrava sua atenção no tabuleiro, cujas casas pretas e brancas se lhe afiguravam posições estratégicas de dois exércitos inimigos no começo de uma grande batalha.

— Toca-vos a mão, Vaz Caminha, disse o provincial depois de tirar a sorte.

— É justo, replicou o letrado; aqui são os piões que primeiro saem.

E dizendo isto empurrou um trebelho, que fêz o jesuíta erguer a cabeça e olhá-lo espantado.

— Que é isto, doutor! Jogais o pião do roque?

— Omnis variatio delectat, P. Provincial. Quero experimentar jôgo nôvo.

— Não creio que vos deis bem com a lembrança.

— A experiência mostrará.

Fernão Cardim desconcertado em seus planos com a saída do parceiro, levou o anelar à testa e refletiu profundamente no lance, até que ao cabo de cinco minutos resolveu-se a fazer a primeira jogada.

A biblioteca a pouco e pouco ficara deserta; os padres acabando o trabalho, desciam à cêrca do convento, e aí à sombra das árvores prosseguiam na leitura de alguma obra; outros saíam ao cumprimento de seus deveres religiosos e apesar de ser o dia de festa iam, como confessores que eram de diversas, casas, à cura das almas.

Entretanto a partida de xadrez se travara; o provincial completamente absorvido não dava fé de coisa alguma; porém Vaz Caminha dividia a atenção entre o jôgo e os importantes acontecimentos daquela manhã, que vieram perturbar a calma e doce monotonia de sua existência.

Não lhe saía da memória a carta que Estácio lhe mostrara; quanto mais refletia, maior vulto tomava a suspeita de que as últimas novidades políticas do reino tivessem alguma conexão com o destino de seu pupilo. A estas preocupações vinham ligar-se a lembrança do misterioso emprazamento daquela dama desconhecida que dizia precisar de seu conselho. Também não deixava de impressioná-lo a presença do jesuíta recém-chegado, que continuava a passear de um canto a outro da sala.

O ar de excessiva humildade do P. Molina não o tinha iludido; adivinhara que sob aquela aparência enganadora se escondia o superior, o qual não tardaria a revelar-se.

Nisto o jesuíta aproximou-se do bufete e estêve alguns instantes a contemplar o jôgo, que se complicara em suas variadas evoluções. Segurava então o provincial uma das peças, e assentando-a de chapa na próxima casa exclamou com ar de triunfo.

— Xaque ao rei!

O licenciado era um hábil jogador; com um volver d'olhos apreciava a posição do parceiro, e opunha uma defesa invencível, ou preparava um ataque decisivo; descobria tôdas as manhas do adversário e previa os mais bem combinados lances.

Êle tinha porém estudado o parceiro e conhecido seu fraco; por isso como homem que sabia viver, perdia sempre, e sacrificava a gloríola de jogador de xadrez à vantagem real e positiva de conservar um amigo, que lhe podia servir de muito em caso de necessidade.

Assim quando o provincial, pensando que ia ganhar a partida, soltou o primeiro grito de triunfo, já o seu parceiro, que desejava ainda por algum tempo disputar a vitória, tinha prevenido o ataque e inutilizado todo o plano, cobrindo o rei com um cavalo.

— Ah! tínheis cavalheiro à mão! disse Fernão Cardim desconcertado.

— Se V. Reverendíssima em vez de xaquear de longe aproximasse sua dama do rei, não sucederia isso, disse o P. Molina, em tom condoído; e na segunda jogada daria mate.

O provincial mordeu os beiços de despeito:

— Não sabia que V. Paternidade era forte no xadrez.

— Pouco entendo dêste, como de outros jogos.

— Entretanto tem avisos prudentes que não são de principiante, mas de mestre.

P. Gusmão sorriu:

— Tais avisos não os aprendi nesse tabuleiro de sessenta e quatro casas, porém em outro maior a que chamam o mundo, P. Provincial. Se eu quisesse atacar um governador, ou, um rei, não o ameaçaria de longe para que êle se prevenisse; aproximar-me-ia ao contrário para conhecer-lhe o fraco, e dar mais certeiro o golpe.

O licenciado volveu a furto os olhinhos para o frade e admirou a expressão de energia que realçava a inteligente fisionomia; o provincial embebido em novos cálculos não deu atenção ao incidente.

Ouviu-se no Terreiro a música das charamelas, adufes e pífaros em concêrto com o vozear alegre da multidão.

O P. Molina dirigiu-se a uma das janelas que abria sôbre a praça; por entre as rótulas pretas enfiou o olhar rápido e incisivo do homem observador.

Entretanto os dois enxadristas continuavam impassíveis. O convento poderia tombar sôbre suas cabeças, que o estrondo da queda não perturbaria o provincial na elucubração profunda do xeque-mate, e o paciente doutor no quilo do jantar e das idéias que ruminava desde a sua chegada. Si fractus illabatur orbis, Impavidum ferient ruinae.

CAPÍTULO IX - FICA BEM AVERIGUADO QUE O LATIM É UMA LÍNGUA BÁRBARA

Os prelúdios da música anunciavam que a festa ia começar. Esplêndido e magnífico era o espetáculo que apresentava o Terreiro do Colégio. A multidão, que enchia a praça, ondulava marchetando-se das côres vivas e brilhantes dos trajes e atavios.

Pelas janelas das casas pendiam vistosas colchas da Índia com franjas e lavores de preço; uma infinidade de bandeirolas, flâmulas e galhardetes esvoaçava ao sopro da brisa do mar, formando um íris móbil e volante.

A claridade do sol, batendo de chapa sôbre a imensa alcatifa de sêdas e veludos, fazia cintilar as facetas das pedrarias, o polimento das armas e o lustro dos arneses, cujos reflexos esguichavam como espadanas de uma cascata de ouro.

Na sombra que projetavam os toldos de sêda, outro quadro se desenhava menos vivo, porém mais delicado. Em volta das arquibancadas do circo, como colar de pérolas, ou festão de rosas, estavam as mais formosas damas da Bahia, desfolhando o sorriso na ponta do lábio travêsso, vertendo côres e feitiços das faces rosadas.

Ao primeiro lanço d'olhos, o painel se mostrava confuso e enredado, como os mosaicos chineses e os arabescos mouros.

Logo após a multidão que se agitava na praça figurava um dragão de mil côres, a enroscar em anéis o dorso de escamas prateadas. Afinal quando a vista se fitava, os objetos tornavam-se distintos, as formas várias destacavam; podia-se então apreciar a disposição da cena.

O circo ainda completamente deserto abria-se no centro mesmo da praça. Corriam em volta duas teias: a primeira que servia de estacada era de gradil verde; a segunda que ceparava a multidão estava coberta de raso vermelho; entre ambas havia um passeio estreito, no qual já apareciam alguns cavalheiros.

Pela cinta exterior se elevavam de espaço a espaço compridas lanças com suas divisas listradas; ao longo delas estavam postados os soldados do têrço da fortaleza de Santo Antônio da Barra, com as couras amarelas e as alabardas afiadas, prontos a manter a multidão em respeito e sossêgo.

A meio do círculo, em face uma da outra, tinham armado duas tendas verdes, a primeira destinada para os aventureiros; assim chamavam naquele tempo os cavalheiros que tomavam parte nos vários jogos e sortes. A segunda era reservada para os mantenedores.

Fronteira à entrada da liça e mais elevado, erguia-se um gracioso pavilhão de damasco branco dividido em três arcos: o do centro mais largo fôra adereçado com finas alcatifas e lindos coxins de veludo para o governador e as famílias por êle convidadas; os das extremidades para os oficiais da câmara e ministros de justiça, fazenda e guerra:

Uma escadaria tapetada descia, para um largo estrado, que ficava sobranceiro à liça; aí viam-se as três cadeiras dos juizes em tôrno de uma mesa coberta de veludo com a salva de prata, onde se guardavam as jóias e objetos de primor, que deviam ser dados em preço de valor e galhardia aos cavalheiros que se avantajassem nos jogos.

Pela beira do estrado passeava com um ar de importância a fazer inveja ao mais pedante desembargador da casa da suplicação, nosso conhecido mestre Bartolomeu, que pelo seu porte atlético e pela entonação majestosa de sua voz, fôra escolhido para desempenhar as funções de arauto. O cantor da capela tinha um aspecto soberbo sob suas vestes de cerimônia; mirava-se com ufania na cota d'armas que lhe cobria o peito, no jubão roxo com morenilhos de retrós, e no brasão que trazia do lado esquerdo.

Sôbre o arco central que sustentava a cúpula do pavilhão tinham pintado as armas que Tomé de Sousa dera à cidade do Salvador quando a fundara; eram uma rôla branca sôbre campo verde, tendo no bico um ramo de oliveira com o seguinte dístico em letras de ouro: Sic illa ad arcar reversa est.

Esse emblema recordava a tradição bíblica. A rôla simbolizava a mensageira de Deus que viera anunciar ao Brasil a aurora da civilização, como no comêço do mundo anunciara ao gênero humano a bonança depois do dilúvio; a arca era a cidade onde num futuro bem próximo se devia salvar a colônia da invasão estrangeira.

Sob o dossel do pavilhão já se achava D. Diogo de Menezes, o qual nesse momento esquecia seu elevado cargo, para lembrar-se como cavalheiro do que devia às damas das mais nobres e ricas famílias, que por convite especial ocupavam os lugares distintos, e formavam por assim dizer a pequena côrte do governador.

Entre tôdas, uma linda menina atraía os olhares dos cavalheiros, que em sua ardente admiração a proclamavam rainha da beleza.

Era Inesita.

O longo véu, que de manhã na missa lhe ocultava o rosto e disfarçava o talhe, desaparecera; agora o traje de gala deixava contemplar em seu brilho as graças da encantadora criação, que a natureza concebera em algum momento de enlêvo e cristalizara com um beijo de mãe.

Tudo era mimoso e delicado no corpo gentil que palpitava de esperança e amor, ondulando no requêbro suave, desatando nos movimentos faceiros como se a alma lhe vertesse dos lábios, para embebê-la de luz e envolvê-la tôda em um só e único sorriso.

A coifa de fios de ouro, colhendo as tranças negras em volta da cabeça, ia terminar em coração na fronte pura, onde os cabelos riçados anelavam-se como espiras de um diadema, lembrando o gracioso penteado, a que uma rainha infeliz dera seu nome. .

As sobrancelhas arqueavam como traços fugitivos de um pincel embebido em nanquim; e as pálpebras ligeiras, ou cerravam-se beijando as faces com os longos cílios e azulando a tez com as tênues sombras, ou deslaçavam como fôlhas de rosa nadando em gôtas de leite.

Nesses rápidos instantes via-se a limpidez e a perfeição de seus grandes olhos; a pupila negra, engolfada no cristalino úmido e transparente, coalhava em glóbulos de luz branca e serena; o olhar não era visão, sim reflexo da irradiação íntima, doce fulgor de inocência e candidez.

Aljôfar diáfano enrubescendo aos raios do sol; alva lencaria corando ao reflexo de fitas escarlates; fino esmalte onde o brando e o carmim se cambiam; nem uma dessas -imagens pode dar uma idéia da cútis mimosa, que se aveludava aos toques da luz.

Brincava-lhe o coração nos lábios rosados, que enflorava o meio sorriso, abrindo nas faces duas covinhas graciosas, ninhos feiticeiros, onde se incubavam desejos de amor extremo; porém às vêzes uma expressão séria colhia êsse deslace das feições gentis, e traçava em tôda a pureza as linhas harmoniosas, que, desenhando o colo flexível, torneavam as espáduas e iam, fugindo, perder-se na volta de um colarinho de renda. O corpilho de malha de ouro, atufando-se para debuxar o relêvo de dois seios de virgem, depois estreitando para moldar o talhe esbelto e senhoril, cerrava a cintura de menina, e abria as asas sôbre as amplas dobras da saia de raso branco, que arfava com o influxo das formas sedotoras.

Das largas mangas de volante, apanhadas por um broche, escapavam os lindos braços cujos contornos divinos pareciam talhados no mais cândido alabastro; as mãos pequenas e melindrosas, uma machucava a cambraia rendada de um lenço de Valência, a outra brincava no regaço, alisando distraìdamente os rofos do cetim.

Trazia gargantilha e pulseira de rubins; o cinto de veludo azul era bróslado de ouro e cravejado de gemas preciosas; dois lindos diamantes engastados nos pingentes das arrecadas tremulavam suspensos à pontinha da orelha, como gotas de orvalho pendurando-se das pétalas de uma flor ou borbulhando nos lábios de uma concha nacarada.

Tinha a cabeça recostada no espaldo do coxim de veludo, e deixava os olhos vagarem incertos pela cena que se desdobrava em face, acompanhando o fluxo e refluxo da multidão alegre e pressurosa.

Eis que súbito rubor acende-lhe a côr mimosa das faces; e ligeiro estremecimento, de sensitiva que se arrufa, corre-lhe pelos ombros delicados.

As pálpebras cerraram; o sorriso que ia desabrochar fugiu dos lábios; a mãozinha buliçosa descaiu-lhe imóvel; a fronte inclinou tìmidamente; o seio ofegou, comprimido por uma sensação estranha.

Vira dois cavalheiros que atravessavam pelo fundo da praça; um dêles fazendo estacar o fogoso ginete, procurava de longe com os olhos algum objeto querido; a donzela reconhecera Estácio, e foi prêsa do sentimento vago que se apodera da virgem na presença do homem amado.

Que sentimento é êsse? Misto indefinível de pudor e vaidade, de inefáveis alegrias e misteriosos pressentimentos: vaga alternativa de receio e confiança, de inquietação e serenidade.

Estácio vestia saio e calças de cetim azul guarnecido de alvo torçal; as armas eram pretas com lavores dourados; o talabarte e cinto, de couro negro pespontando de branco com espiguilha de prata. Do capacete rematando em longo velilho flutuante sôbre as ancas do animal, escapava-se a alva pluma que enroscando em volta do pescoço, iabeijar a face afogueada pelo sol; montava com elegância um soberbo cavalo negro, que estremecia de ardor e impaciência sob o freio coberto de espuma; na mão direita trazia a lança com manga de sêda azul; na esquerda tinha passado o escudo sôbre o qual via-se a letra: Amor vincit omnia.

O outro cavaleiro era Cristóvão; trajava, como seu amigo, roupas do mesmo molde e das mesmas côres. Cavalgava um ginete tordilho arreado com primor; sela coberta com teliz de veludo, e jaezes de aço tauxiado com frisos de ouro; na tarja via-se por timbre uma estrêla brilhando entre nuvens em campo azul com a legenda latina: Me videt, ducit me.

Um instante Inesita, pálida e trêmula, estêve sob a influência magnética do olhar de Estácio, como sentindo aquêle raio luminoso deslizar-lhe pelo rosto e abrasar-lhe as faces; até que as pálpebras ergueram-se a mêdo. De um volver ela viu o gesto de admiração ardente que se pintava no semblante do môço.

Ergueu a cabeça desvanecida: o sorriso de adoração, que adejava nos lábios de Estácio, acabava de refletir como um espelho sua beleza deslumbrante.

Seu olhar envolveu amorosamente as feições do môço em ondas de luz; depois fitou-se no escudo, e procurou decifrar com o coração, mais que com o espírito, o enigma da divisa. Um quer que seja lhe dizia que ali havia uma palavra para ela; na impossibilidade de traduzir, soletrava decorando uma a uma as letras.

Nisto D. Diogo de Menezes, aproximando-se pela frente do pavilhão, tomou-lhe a vista. A menina, mau grado seu, não se pôde conter; deixou escapar um movimento de contrariedade tão vivo que fêz o governador sorrir.

— Bem vejo que o sol queima a quem lhe faz sombra! Disse D. Diogo motejando.

Inesita arrependeu-se da sua imprudência.

— Não é assim?

— Que sei eu! balbuciou ela confusa.

— Sabem êsses lindos olhos, que me estão deitando quebranto, porque...

— Por quê?...

— Porque lhes roubei um olhar que andava enleado. Deus sabe onde.

— Oh! não! exclamou a donzela muito corada. Eu digo o que era.

— Algum guapo cavaleiro?

Estácio e Cristóvão tinham desaparecido na estrada da rua; Inesita, conseguindo encobrir sua perturbação, graças à inata dissimulação das mulheres, abanou a cabeça com um arzinho de malícia.

— Eram aquelas tenções dos escudos, que estavam me aborrecendo! disse ela meio arrufada.

— Ah! As divisas em latim! ... exclamou o governador rindo.

— Não é mal feito escreverem numa língua que não se entende? _

— Certo que parece falta de galantaria; mas assim usaram nossos pais.

— É que as à damas então sabiam muito! replicou a môça.

— Menos que hoje, e os próprios cavaleiros mal soletravam essas palavras; isso porém não impedia que as trouxessem gravadas no coração, mais do que no escudo.

— Melhor fôra que as compreendessem; o que se guarda no espírito vai-se; o que sentimos n'alma, fica para sempre.

— Oh! que as sentiam! Bebiam com o primeiro leite e só as perdiam com o último suspiro.

— Embora! Antes as queria na língua que falamos.

— Já vejo que vos enfada não poder entendê-la; não seja isso razão de quererdes mal aos nossos cavaleiros; em vindo êles vos traduzirei as letras dos seus escudos.

— Tôdas sem faltar uma? acudiu a menina contente.

— Desde a primeira até a última.

— Que bom é saber! disse Inesita sorrindo.

Os três juízes do campo, Álvaro de Carvalho, D. Francisco de Aguilar e Baltasar Teles, dirigiram-se ao governador pedindo-lhe vênia para começar a festa, e voltaram logo a ocupar seus lugares. Imediatamente tocaram de nôvo as charamelas e adufes, cujos sons se confundiram ao longe com o tropel dos cavalos.

Daí a instantes uma cavalgada brilhante e luzida apareceu no canto da rua, e fazendo sua entrada na liça, deu volta à teia; saudou o governador e as damas com airosos meneios e giros das lanças, e foi colocar-se à direita.

Conduziu-a D. Fernando de Ataide, que vinha ataviado com aprimorado luxo, vestia saio e caluças de cetim carmesim acairelado de galão de ouro; de prêto, com a longa pluma, eram os pespontes e orla do cinto e talim; armas brancas, lança com manga escarlate, e no escudo a letra — Voc qui perrutiant illum!

D. José de Aguilar, irmão de Inesita, era o segundo; tanto êle como os outros cavaleiros em número de vinte trajavam irmãos; e do mesmo modo que Fernando, suas côres eram prêto e escarlate.

Com pouco a segunda quadrilha, conduzida por Cristóvão, e composta também de vinte cavaleiros trajando azul e branco, entre os quais distinguia-Se pelo seu garbo e gentileza Estácio Correia, assomou à entrada da liça e desfilando com igual solenidade, foi postar-se à esquerda.

Então Inesita impaciente olhou travessamente para o governador.

— Quereis lembrar-me que o prometido é devido! disse D. Diogo com amabilidade. Por onde começaremos!

— Pelo céu, respondeu Inesita sorrindo. Aquela estrêla! Era um disfarce inocente para não se trair perguntando pelo que mais a interessava; era também um meio de aproximar-se de seu fim, porque Estácio estava logo depois do amigo.

D. Diogo correu os olhos pelos cavaleiros.

— É de Cristóvão de Ávila?... Tem a letra: Ela me v e me guia...

— Áh! que linda é! exclamou Inesita lembrando-se de Elvira.

— Não é menos a do outro cavaleiro que não conheço. Sabeis quem seja?

A menina enrubesceu e só pôde fazer um gesto negativo; porque a voz prendeu-se-lhe nos lábios.

— Tem um nobre parecer, continuou o fidalgo; sua divisa é o verso de um grande poeta romano.

— Mas a primeira palavra não é latim! acudiu Inesita com vivacidade.

— Tem as mesmas letras e o mesmo sentido: diverge porém na pronúncia; diz-se, ámor.

— Ora! Nas falas portuguêsas é mais doce! respondeu a menina ingênuamente.

— E também nos corações portuguêses! replicou o governador galanteando.

— E a significação do verso?

— Tendes razão. Ei-la: O amor tu.do vence. Que vos parece? Não é gentil, e sobretudo verdadeira?

— Quem sabe! murmurou a donzela tornando-se melancólica de repente.

— Oh! Lá está D. Fernando de Ataide que traz um mote a fazer inveja aos mais esforçados lidadores dos tempos da cavalaria: Desgraçados dos que baterem no seu escudo.

Inesita sorriu com desdém.

— Vosso irmão é que foi lacônico: AEre! Disse muito em uma palavra: seu escudo é de bronze.

Êsse mote do alferes era uma travessura inocente de Fr. Carlos da Luz, confessor da casa. Na dúbia significação daquela palavra latina tinha êle reunido as duas faces mais salientes do caráter do fidalgo: re, fortaleza de bronze; cere, cupidez de moeda.

D. Diogo continuou a traduzir as divisas mais engenhosas dos diversos cavaleiros; êsse doce entretenimento distraía seu espírito das graves preocupações que lhe trouxeram os importantes despachos chegados do reino naquela manhã.

Seu orgulho sofrera com a separação do govêrno do Sul; mas para não dar aos inimigos e sobretudo ao partido dos jesuítas o prazer de se regozijarem com sua mortificação, o fidalgo como hábil político tinha o semblante tão prazenteiro e risonho que não parecia o mesmo homem de aspecto frio e severo.

Inesita já não prestava atenção a D. Diogo; tendo sabido o que desejava, seus olhos foram-se presos no semblante do môço e o espírito começou a revoar como falena ou silfo em tôrno das palavras escritas no escudo do cavaleiro.

Tênue sombra de melancolia anuviara o rosto mimoso; a frase entusiasta que Estácio pedira ao poeta para exprimir a energia de seu amor e a nobre ambição de- sua alma, lhe acordara no coração um pensamento triste, antes acalentado com os murmúrios da festa.

De repente a menina estremeceu; notara o lugar em que se achava Estácio; observou que êle tinha de bater-se com seu irmão. Embora não passasse de um jôgo o combate, apertou-se-lhe o coração com essa idéia. Ver assim em luta duas feições, e não saber qual delas preferir, era cruel; desejava que o homem a quem amava vencesse, mas não queria ver seu irmão vencido.

CAPÍTULO X - DE COMO SE CORREU SEGUNDA LANÇA

Volvam-se os olhos a outro ponto da cena.

Sôbre o telhado de uma casa térrea próxima à liça, estava desde cedo trepada uma súcia de galopins de tôdas as côres, começando no mais retinto focinho africano ou no vermelho acobreado do caboclo, e acabando no branco ruivo do pequeno ilhéu do Faial.

O princípio da obediência é uma lei essencial de tôda a associação, ainda mesmo efêmera. Reuni duas criaturas; uma obedece infalivelmente à outra, senão, brigam ambas para saber qual terá a primazia. A república dos galopins, que se estabelecera provisòriamente com território no telhado da casa, não podia eximir-se à regra constitucional da sociedade: tinha um chefe, a quem obedecia.

Era êste um caboclinho de doze a treze anos, a quem seus camaradas chamavam Martim. Não tinha êle coisa alguma saliente, que não fôsse sua excessiva fealdade. Era realmente seu rosto o cunho de um desconcêrto completo da fisionomia humana; o nariz usurpara o molde do queixo; a testa era cabeluda; o pescoço começava na bôca; as orelhas comiam as bochechas; os olhos, como os do caranguejo, projetavam-se fora das órbitas, ou recolhiam-se dentro.

Qual fôsse o título a que devia Martim o mando sôbre seus camaradas, será difícil atinar. Não era êle o mais esperto, embora não lhe faltasse certa agudeza; não era o mais forte também; muitos dos que ali estavam obedecendo a seu aceno, tinham mais coragem e dupla robustez. Quanto à posição, a do bicho da taberna de mestre Brás era somenos à do estúpido moleque ou do baleguinho mais imundc da ribeira.

Essa grande questão social, do direito e razão dos que sobem e paciência dos que descem, é um problema que por muitos séculos há de esperar solução. Acaso e felicidade — responde a voz geral quando interrogada a respeito de semelhante anomalia. Penso eu porém que é isso sintoma da degradação da consciência pública. Só a ignorância aceita, e o indiferentismo tolera o reinado das mediocridades.

Aquelas crianças ali estavam no Terreiro do Colégio, desde o começo da festa; submergidas na multidão, privadas absolutamente de ver o que passava na liça, agitavam-se insôfregas de um para outro lado. A necessidade as reuniu em frente de uma casa térrea, cujo telhado as estava do alto convidando a verem a gôsto os folguedos e jogos. Difícil, mas não impossível, era a escalada; e qualquer da roda já a teria praticado, se não fôsse o receio de que o dono da casa, um velho remendão, levando a coisa a mal, aplicasse algumas lambadas de tirapé ao intrometido.

Neste comenos, Martim escapo das garras do taberneiro, chegou e foi logo metendo-se na súcia. Ninguém lhe deu atenção; continuaram os outros a mirar o telhado com olhos compridos e a tentarem uma investida, de que recuavam logo pela razão sábia do tirapé. O caboclinho tinha já perdido o pudor 'do castigo; acostumado ao regime do bodegueiro que diàriamente o moía de pancadas à vista da gente tôda que enchia a taberna, era coisa de pouca monta para êle uma lambada de mais ou de menos. Arrostou pois impávido o tirapé do remendão; e em dois saltos encarapitou-se na beira do telhado. Cessou a indecisão; todos os outros, com exceção de alguns medrosos, o imitaram.

Eis por que se achou Martim feito chefe da súcia. Quanta gente deve como êle a posição elevada que alcança, a ter perdido o pudor do castigo que inflige a opinião pública?

Subindo ao seu improvisado palanque, avistou o caboclinho na teia os pajens que circulavam a liça, prontos a acudir ao sinal dos vários cavaleiros a quem serviam. Entre êsses chamou especialmente a atenção de Martim um rapazito pouco mais velho que êle, trajado em corpo, com pelote de belbute côr-de-rosa. Apenas o lobrigou, entregou-se a um trabalho tal de gesticulação que parecia um telégrafo em caso de perigo. Afinal como de nada lhe valessem os respectivos sinais, levou as mãos à bôca em forma de buzina e gritou:

— Gil!...

O côro respondeu: — ... il, il, il! ...

O pajenzito voltou-se para o telhado, e dando com o caboclinho, levou a mão aberta à bôca: com o dedo anular fêz o gesto de silêncio e com a palma o de espera. Tudo isto com certo empertigamento casquilho, que bem mostrava quanto o pajenzito tomava ao sério suas funções.

— Bico! disse Martim para os outros. Não me piem!

— Nada de barulho! ... acudiram alguns.

O resto calou-se; e arregalou os olhos porque a corrida estava próxima.

O sinal da investida soou na liça.

As duas quadrilhas, de lança em reste, arremeteram à desfilada uma contra a outra, e esbarraram no meio da estacada, como as trombas d'águas que embatem no oceano pulverizando-se. Os cavalos, de chôfre estacados no ardor da carreira, empinaram, topando peito com peito; as lanças romperam nos escudos, que retiniram ferindo-se; os justadores, com o ímpeto da peleja, dobrando sôbre os cantos, se enovelaram no turbilhão.

Um instante foi impossível distinguir entre os vórtices daquele torvelinho de homens o que passara; os espectadores mudos e suspensos esperavam cheios de curiosidade; Inesita pálida e sem respiração sentia paralisadas no seio as pulsações que há pouco o faziam intumescer-se brandamente; o próprio D. Diogo, em quem revivera a imagem, desmaiada já, das esperanças e glórias da mocidade, reanimou-se com o choque dos cavaleiros.

Rápido e fugace passou êsse momento de ansiedade: foi como pausa imperceptível no meio da lufa-lufa do combate.

Os cavalos arcando, arrancaram afinal em nova desfilada, nitrindo, aspirando o ar pelas narinas dilatadas, tirando ao vento as crinas esparsas. As duas quadrilhas, deslançando-se como fios de uma meada, atravessaram a arena e foram de nôvo alinhar-se na extremidade oposta àquela de onde tinham partido.

Então pôde-se apreciar o resultado da justa, e ver os destroços que a onda de cavaleiros em seu furor havia deixado sôbre o campo; ginetes estropiados, campeões desarmados, lanças rompidas, capacetes e jaezes rolando pelo chão, e um justador desmontado, tendo a seus pés o escudo que lhe saltara do braço.

Inesita conseguiu abafar o grito de prazer, que expirou nos lábios e perdeu-se na ruidosa aclamação do povo saudando o vencedor.

O cavaleiro desmontado era D. Fernando de Ataide; de cabeça baixa e desfigurado, o môço corria-se de vergonha diante dos olhares da multidão; a custo ergueu o escudo que deixara cair, cavalgou de nôvo, e foi colocar-se à direita de sua quadrilha.

OS CAVALOS, DE CHÔFRE ESTACADOS NO ARDOR DA CARREIRA, EMPINARAM...

Uma tremenda surriada o acompanhou durante o curto trajeto.

O pajenzinho vendo por terra D. Fernando, voltara-se para o telhado, e sem que o percebessem, introduzira na bôca dois dedos, fazendo o gôsto de assobiar. Martim compreendeu e transmitiu a senha aos sócios; imediatamente a vaia estrugiu pelos ares.

— Caiu! ...

— Fiau, fiau, fiau!

Do outro lado da liça Estácio apertava sorrindo a mão de Cristóvão; laivos do nobre orgulho que é reflexo das almas superiores, brilhavam no semblante do môço, a quem o fervor da peleja avivara o cunho de energia, que a natureza lhe imprimira na feição.

Entre todos os espectadores Inesita únicamente viu e compreendeu o apêrto de mão dos dois amigos; para os outros não passaria de uma felicitação; para ela a quem nada escapara, era um agradecimento.

Só o olhar da mulher que ama, olhar que vê com coração e adivinha com os pressentimentos, podiam-no acompanhar no meio do turbilhão da investida daqueles cavaleiros, e reconhecê-lo entre tantos outros ataviados com as mesmas côres.

Ainda com o ânimo partilhando entre os dois sentimentos que a dominavam, Inesita ouvira o sinal; mas quando os cavaleiros chegaram as esporas aos flancos dos fogosos animais que saltaram com o ímpeto da dor, o grito do coração mais forte, sopitou a voz do sangue.

Durante um segundo a menina só viveu naquele olhar que protegia seu amante.

Viu Estácio, que estava à esquerda de Cristóvão, tomar ràpidamente a destra na ocasião da partida. Seguira o môço, por entre a lufa-lufa, até que a sua lança batendo em cheio no escudo de D. Fernando, saltou em estilhaços. Vira o negro corcel retrair-se de um salto, devorar a terra e estacar na teia, onde chegavam ao mesmo tempo os outros cavaleiros.

O que porém a menina não tinha visto, porque seu olhar se condensara todo para envolver Estácio, fôra que a lança impelida com a fôrça da carreira obrigara D. Fernando de Ataíde a vergar sôbre as ancas da cavalgadura, perdendo a sela e caindo por terra desmontado.

Quando pois as duas quadrilhas separando-se deixaram a descoberto o centro da estacada, ela soltara aquêle grito de triunfo e gratidão ao mesmo tempo; meneou a cabeça altiva com o orgulho sublime da mulher que se enobrece pela glória do homem amado, e agradeceu a Estácio do fundo do coração a delicadeza de respeitá-la na pessoa do irmão.

Seu olhar encontrou o olhar do môço e estremeceu; mas não fugiu sem vazar n'alma de Estácio um raio de luz, dêsses que ficam eternamente, e douram os sonhos azuis do amor puro e as ilusões diáfanas que alvorecem na manhã da vida.

Entretanto, os espectadores admiravam Cristóvão, a quem naturalmente atribuíam a façanha; alguns, é verdade, que julgavam ter visto na confusão da peleja justar com D. Fernando de Ataide um campeão que montava ginete prêto; mas não deram a isso grande atenção.

Ao passo que os juízes consultavam, Inesita curiosa e inquieta não se podia conter.

— A quem caberá o preço? disse ela como falando consigo mas bastante — alto para ser ouvida pelo governador.

— Sem dúvida que a D. Cristóvão de ávila, que bem o mereceu disse D. Diogo. Melhor lança não a tem E)-rei em seus Estados do Brasil.

— Que fêz êle? perguntou a menina surprêsa.

— Não vistes? Desmontou o mais brilhante cavaleiro da quadrilha escarlate, D. Fernando de Ataíde, que lá está cobrando novos brios para tomár sua desforra.

— Cuida o Senhor Governador que fôsse êle?

— Tenho como certo, menina. Era o primeiro.

— Antes de partir, disse Inesita com vivacidade.

— E no recontro ainda o era, como agora.

— Não! Eu bem vi! ...

— O quê? perguntou D. Diogo.

Inesita balbuciou; ia trair-se, mas dissimulou a tempo.

— O cavaleiro que correu com D. Fernando não montava um cavalo prêto?

— Com efeito, quer-me parecer que assim era! acudiu D. Diogo pondo os olhos no tordilho de Cristóvão. Mas seguramente que foi engano...

— Tão verdade como ser azul meu cinto! disse a donzela em tom de profunda convicção.

— Pode ser... Mas eis o que vai tirar-nos a dúvida, respondeu o governador mostrando com um aceno a mesa onde se sentavam os três juízes.

O arauto fazendo uma profunda cortesia aos três cavaleiros, chegou-se à beira da rampa. Aí desempenando o corpo e correndo um olhar pela multidão, soltou a voz sonora e enfática no meio de profundo silêncio:

— Em nome de Sua Senhoria, o Senhor D. Diogo de Menezes e Siqueira, Fidalgo de Fôro Grande, Governador e Capitão-general dêste Estado do Brasil por Majestade de D. Filipe III que Deus guarde...

Aqui mestre Bartolomeu inclinou-se; temperou a garganta, e tomando a respiração, continuou:

— Os cavalheiros Álvaro de Carvalho, Alcaide-mor da Bahia, Baltasar Teles, Provedor da Fazenda, e D. Francisco de Aguilar, Senhor de Paripe, juizes nomeados pelo mesmo Senhor Governador para decidirem dos jogos e torneios dados em honra sua e satisfação de sua chegada pelos homens bons desta cidade, nobres e mercadores; mandam proclamar em praça, por arauto e passavante, ao som e toque de caixa, o nome do campeão que por suas boas partes e gentilezas houve o preço da justa; e outrossim ordenam que o mesmo se afixe por edital na entrada da liça.

Houve uma curta pausa, durante a qual mestre Bartolomeu gozou da sofreguidão geral. Os espectadores suspensos esperavam de sua bôca a aclamação do vencedor, a quem aliás todos já conheciam, o nome soou por fim na estacada.

— O cavaleiro D. Cristóvão de Garcia de Ávila!

O despeito que sentiu Inesita foi tal, que uma lágrima borbulhou em seus límpidos olhos e empanou-os. Doeu-lhe aquela injustiça, e doeu-lhe sobretudo que o voto de seu pai a tivesse confirmado; nesse momento quis mal a Cristóvão, a quem ela estimava por ser amigo de Estácio, e a Elvira, porque o amava.

— Bem vêdes que foi engano vosso, menina, disse o governador recostando-se na poltrona de veludo.

— Sou capaz de jurá-lo ainda sôbre a cruz, senhor Governador; foram êles que se enganaram.

Cristóvão, mal o arauto pronunciou seu nome disparou o animal apesar do movimento que fêz Estácio para retê-lo; esbarrando em frente ao pavilhão, levantou o capacete com um movimento gracioso:

— Por desleal e cobarde em haveria eu, daria a todos direito para como tal me tratarem, se recebesse por prêmio de valor o que a outrem pertence. O preço desta justa, se alguém o houve, foi decerto o cavaleiro que de um bote da sua lança atirou por terra o contrário, e o desarmou.

— E não sois vós êsse cavaleiro? perguntou álvaro de Carvalho.

— Não, senhores! E o declaro alto e bom som: foi Estácio Correia!

O povo, que simpatiza com tudo que é grande e nobre, admirou a ação dos dois amigos: a modéstia e heroísmo de um, a franqueza e lealdade do outro; nos seus aplausos e vivas entusiásticos ligou os nomes de ambos, como se foram ambos vencedores.

Martim encolheu-se todo para expelir do franzino corpo o grito estridente, como se espreme e escorropicha de um odre todo o vinho que êle contém. Apertando os joelhos contra o ventre, gania que era um desespêro:

- à i... i..., i... i... va!. ..

As damas agitavam os lenços, e sentiam lá no fundo do coração uma voz doce a dizer-lhes baixinho que elas amariam qualquer um daqueles dois moços, ou mesmo ambos, se fôsse possível, somente por prêmio e honra de tão bela ação.

As mulheres naquele tempo tinham dessas nobres inspirações; não sabiam tanto calcular com os sentimentos; conheciam a santidade de sua missão neste mundo, e não havia glória ou virtude que elas não dourassem com um raio de amor.

A alegria de Inesita foi imensa; sua alma expandiu-se; O olhar úmido e fagueiro agradecia a Cristóvão, às damas, ao povo, ao último dos galopins trepados nas esquinas das ruas, a glória de Estácio; essa glória lhe pertencia também pela santa comunhão que o amor cria logo entre duas almas.

Quanto a D. Diogo, habituado a estudar os homens, tinha conhecido por aquêle traço o caráter dos dois amigos; eram valentes esgadas e braços leais com quem a todo o tempo poderia contar.

No meio dos generosos sentimentos que despertara a imprevista declaração de Cristóvão, havia três homens que se conservaram frios e impassíveis: eram os juizes. Compenetrados dos deveres de sua posição, tão severos e rigorosos em pontos de honra, como se tratassem de decidir da vida e fazenda alheia, consultavam sôbre o caso; uma decisão injusta nesse objeto os infamaria tanto, como a suspeita de subôrno em uma causa importante.

Os jogos militares daquele tempo tinham no meio da aparente futilidade um pensamento sério e de longo alcance; serviam de exemplo e escola à mocidade, que se amestrava para as verdadeiras lutas, e bem cedo adquiria esfôrço e brios. Eram estímulo para nutrir na população o espírito guerreiro necessário em épocas de conquista. Por isso os reis e governadores os tinham em tanto aprêço.

Explicada a troca que se dera entre os combatentes, os três juizes dividiram-se nas opiniões: Álvaro de Carvalho entendeu que o prêmio era de Estácio, pois o caso nada influía na decisão; Baltasar Teles porém foi de voto que o fato da troca do lugar, sendo uma irregularidade, anulava o ato posterior; e citou imediatamente boa cópia de textos latinos para confirmar seu parecer.

— Não se trata agora de decidir pleitos, nem demandas, senhor desembargador, replicou Álvaro de Carvalho com firmeza. Em negócios de armas tenho por melhor lição a minha velha experiência do que todos os textos e alfarrábios da vossa livraria.

— Ninguém vos tolhe o alvitre; dei o meu voto e disse.

— Voto de togado! murmurou o velho alcaide. E vós, senhor D. Fernando de Aguilar, como vos parece.

— Estou com o senhor Baltasar Teles; o preço não foi ganho.

— Pois então fazei o que vos aprouver, exclamou Álvaro de Carvalho batendo com o punho fechado sôbre a mesa; mas declarai que tal decisão não teve o meu conselho.

Soltando estas palavras arrebatadas, o velho, forte e vigoroso apesar dos seus setenta anos, subiu os degraus do pavilhão; os olhos brilhavam como fogo juvenil, e a mão trêmula de cólera repuxava com impaciência as pontas retorcidas do longo bigode branco.

— Onde ides tão açodado, Alvaro? Que vespa vos mordeu? perguntou sorrindo o governador, que conhecia o gênio do soldado.

— Vou em busca de um homem, que tenha o arrôjo de dizer-me, a mim, Álvaro de Carvalho, que minto, quando afirmo que gente de beca e traficantes de açúcar entendem tanto de justas, como eu de trapaças e rabulices.

— Que sucedeu?

— Não acabam êles de decidir que aquêle valente mancebo, Estácio Correia, não deve ganhar o preço, porque fêz virar de cambalhotas a D. Fernando, em vez do vosso alferes?

— E agora o que contam fazer?

O arauto publicou então a decisão dos juízes, que mandavam Estácio correr nova lança com o seu contrário, o D. José de Aguilar, a fim de que o preço fôsse conferido em regra.

— Está vendo, Sua Senhoria! exclamou Álvaro de Carvalho. Tem isto algum jeito? É ou não rabulice?

— Sossegai, Álvaro, não desarrazoeis por nonadas. Respeitai a opinião dos outros, para que respeitem a vossa.

— Porém, se é uma injustiça! acudiu Inesita inquieta. O senhor Governador não devia consentir.

— Que posso eu, menina? perguntou D. Diogo.

— Não fôstes vós que os nomeastes? Tendes direito de ordenar-lhes que emendem seu êrro! ...

— Reparai, D. Inês, disse o fidalgo sorrindo, que censurais gravemente vosso pai!

A menina caiu em si:

— Não podia ter tal pensamento; mas êle foi severo demais, não é verdade?

— Foi injusto! exclamou o alcaide. E Deus queira, não se arrependa êle!

— Estácio é capaz de fazer a vosso irmão pior do que a D. Fernando. Eu conheço aquêle rapaz!...

— Vamos, Álvaro, não desampareis o vosso posto, disse D. Diogo. Ide e sêde menos arrebatado, meu velho soldado; nem tudo se leva à ponta de espada.

O alcaide desceu lentamente a escadaria.

— Oh! impedi êste combate, senhor Governador, disse Inesita inquieta.

— Por quê vos assustais? perguntou D. Diogo com bondade.

— Tenho medo! murmurou a menina.

— Mas não passa de um jôgo! Deixai que brilhe vosso irmão!

As caixas rufaram anunciando o combate; os dois cavaleiros tomaram praça, e esperaram o sinal da partida.

CAPÍTULO XI - O QUE TEM DE SER SEMPRE É

A curiosidade pública estava excitada ao último ponto. Tôdas as simpatias eram por Estácio, privado injustamente do preço que havia ganho com a tão brilhante mostra de seu esfôrço e perícia; assim a esperança de vê-lo sair vencedor da segunda prova a que o submetiam, trazia suspensa a máxima parte dos espectadores.

Entretanto Inesita, que instantes havia, saudara com tamanha efusão a vitória do môço e sentira orgulho em amar o homem que todos admiravam, agora tinha mêdo só de pensar que êle podia humilhar seu irmão, e expô-lo à irrisão pública.

Mas desejaria que D. José de Aguilar derrotasse o galhardo cavaleiro há pouco aplaudido com entusiasmo? Não; dentro de sua alma pedia a Deus que tal não sucedesse; queria o impossível, que ambos vencessem, e nenhum fôsse vencido.

Mil vêzes arrependida de ter vindo a essa festa que devia causar-lhe tantas e tão cruéis emoções, a donzela invejava a solidão de Elvira que a essa hora acompanhava de longe e com o pensamento a seu amante, sem curtir as aflições por que ela estava agora passando.

Nisso encontrou os olhos de Estácio e sem compreender por que sentiu renascer-lhe no seio a esperança; mais corajosa, porém inquieta sempre e palpitando, pôde contemplar a cena que ia começar.

Os dois cavaleiros partiram ao sinal; levavam ambos após si as vistas ardentes e curiosas da multidão; mas todos os votos e desejos acompanhavam Estácio únicamente.

Vencendo rápidos a distância que os separava, os dois campeões toparam no meio da arena. O choque foi tão violento que os animais abriram; mas, com admiração geral, só um escudo feriu-se, só uma lança rompeu-se.

Estácio, resolvido a não se medir com o irmão de Inesita, em vez de levar a lança no reste, terçava-a na destra; na ocasião do encontro, fincando-a no chão, recebeu sem vergar o arremêsso do adversário. .,

O povo cheio de pasmo viu tudo isto, a princípio sem compreender; depois por uma rápida intuição conheceu que o mancebo não tinha querido de propósito bater o contráriò; mas a razão ninguém a podia adivinhar; geralmente atribuíram ao orgulho ofendido pelo voto dos juízes. O povo deu-lhe razão. .

Até D. Diogo de Menezes voltou-se para Inesita e disse:

— Vosso irmão teve a melhor; porém juro-vos que antes me queria vencido como feito de Estácio, do que vencedor como D. José.

— Pôr quê então? perguntou a donzela ainda branca e desmaiada como a espiguilha de seu lenço de Valência.

— Não podeis compreender isto, menina; só quem está habituado a jogar uma lança, sabe quanto esfôrço é preciso para receber em cheio e sem toscanejar o arremêsso de um cavaleiro à disparada.

— Entretanto o preço será de outrem? disse Inesita esquecendo no entusiasmo do amor que se tratava de seu irmão.

- a regra da cavalaria: houve-se como herói, mas herói vencido.

De feito, o colar de ouro, preço da justa, foi conferido a D. José de Aguilar, o qual brindou com êle a primeira dama que avistou na galeria.

Entretanto o alferes não estava satisfeito com sua vitória; o ato de Estácio revelava desdém que o ofendia. Se êle houvesse adivinhado a verdadeira causa, ainda mais ofendido se julgara em seu orgulho, com o amor da irmã pelo filho de Robério Dias, réu de traição, que era, diz a Ordenança, "o mais grave e feio caso que um homem pode cometer ".

uanto a Inesita, corou vendo seu irmão aceitar prêmio que lhe não pertencia. Um assomo de cólera fêz borbulhar o puro sangue andaluz que lhe circulava nas veias. Nesse instante a menina jurou em sua alma que vingaria Estácio da injustiça dos mais.

Há quem entenda êsse composto inexprimível de fraqueza e fôrça, de susto e heroísmo que forma o caráter da mulher?

Tímida em face da sociedade, corando com um olhar, estremecendo com a farfalha da sêda de suas próprias vestes, desmaiando ao menor choque, de repente essa criatura frágil e nervosa tira de seu coração a energia necessária para lutar com o mundo, e defender contra todos e contra tudo o homem a quem ama.

A menina esquiva, que não tem a coragem sequer de sorrir a seu amante, receando mostrar nos lábios o segrêdo de sua alma, breve, já é capaz de todos os sacrifícios para proteger na desgraça o escolhido de seu coração.

No entanto os cavaleiros tinham atirado os troços das lanças quebradas, recebido dos pajens umas hastes longas e delgadas, cobertas de sêda de vários matizes.

Terçando-as como piques, atacaram-se com evoluções rápidas, caprichando cada um em mostrar mais destreza e agilidade.

Era a isso que então chamavam jôgo das canas.

Estácio, fiel à sua palavra, apenas defendia-se, e como só êle podia disputar a primazia a Cristóvão, cujos volteios raciosos eram de todos admirados, coube o preço a êsse último; o môço o escondeu no peito da véstia com bastante pesar de algumas damas que se julgavam com direito à prenda.

Seguiu-se o jôgo das argolinhas.

Tinham passado um torçal de sêda, que prendendo-se ao teto agudo das tendas, dividida a meio a estacada; no centro, presos por um fio de retrós, pendiam vinte anéis de ouro, que balouçavam com o sôpro da aragem; os raios do sol no ocaso, tremulando sôbre as argolinhas, ainda as tornavam mais vacilantes ao olhar.

As duas alas de cavaleiros, empunhando lanças muito mais longas e maneiras que as de combate, alinharam-se em suas primeiras posições, uma à direita, outra à esquerda: ao som da música deviam partir ambas à rédea sôlta, e dando meia volta à teia, unirem-se na entrada da lìça, a fim de correrem direito à argolinha contra o pavilhão do governador.

Assim tinham os cavaleiros de passar sucessivamente dois a dois, um da ala azul, outro da ala escarlate; afastando-se depois, circulariam de nôvo a teia continuando sem interrupção o jôgo, que só terminaria tirado o último anel.

De todos os jogos era talvez o mais apreciado dos mancebos gentis e namorados; porque além do preço de ligeireza e agilidade, tinham direito de oferecer as argolinhas que enfiassem com a ponta da lança, a qualquer das damas presentes, que em retribuição da galantaria os prendavam com diches e mimos.

A música tocou uma marcha rápida; a cavalhada partiu.

Os primeiros cavaleiros eram Cristóvão de Ávila e Fernando de Ataide par a par; seguiam-se logo Estácio e D. José de Aguilar; vinha após o resto dos campeões.

Cristóvão enfiou a primeira argolinha, e passou; mas em vez de oferecê-la, guardou-a, como já tinha feito com o bracelete que recebera em preço; Fernando de Ataide e D. José nem roçararrr' os anéis; Estácio atirou a lança por cima do cordel, e foi apanhá-la no ar muitos passos além.

— É altivo aquêle mancebo! disse o governador. Como lhe negaram o primeiro preço, desdenha os mais.

— E no seu caso, o senhor Governador não faria o mesmo? replicou Inesita.

— Talvez! respondeu o fidalgo sorrindo.

A corrida continuara; só restava uma argolinha; as outras tinham sido atiradas, muitas por Cristóvão, algumas por D. José e outros cavaleiros; Fernando não conseguira enfiar uma só.

Estácio estava satisfeito e contente, como se tivesse ganho todos os prêmios; para êle a grande recompensa não eram nem as jóias dadas pelos juizes, nem os aplausos do povo; era a humilhação de seu rival diante de Inesita; essa tinha-a já conseguido de uma maneira estrondosa.

Restava porém uma argolinha: Cristóvão falhou-a, e Fernando, que moderava o galope do cavalo, ia com a lança direita enfiá-la; percebendo isso, o sangue afluiu ao coração de Estácio; pareceu-lhe que via já o cavaleiro oferecendo o anel a Inesita e recebendo em troca uma prenda.

O môço fincou as esporas nos flancos do nobre corcel que saltou, e alongando-se como uma flecha devorou o espaço. No momento em que Ataide ia tocar a argolinha, o cavaleiro passou envôlto em uma nuvem de poeira. Foi como uma águia que voasse, arrebatando a prêsa no bico adunco.

A celeuma do povo saudou êsse admirável esfôrço de agilidade. Inesita não pôde conter-se, e bateu as palmas das mãos com o prazer infantil das crianças; as damas agitaram os lenços; Álvaro de Carvalho, esquecendo sua imparcialidade de juiz, soltou uma exclamação entusiasta.

Estácio, ao ver a argolinha de outro tremular na ponta de sua lança, sorria; mas foi logo tomado de um receio; parou indeciso. Afinal vencendo a timidez e o acanhamento, chegou defronte do pavilhão, e apresentou corando o troféu de sua vitória a Inesita.

O cavaleiro tinha os olhos baixos; o coração saltava-lhe aos ímpetos; a mão tão firme no combate, tão segura e certeira no golpe, tremia como a de um velho já inválido, ou de uma criança débil.

A menina também corou, mas impelida pela coragem que despertara a luta por que passara, tomou na ponta dos dedos rosados o fino aro de ouro; e reparando que a lança de Estácio perdera na corrida a manga de sêda, por um movimento rápido atou na hástea seu lencinho de renda.

Quando Estácio no retirar da lança viu flutuar a alva e fina tela, que durante tôda a festa se perfumara ao contato das mãos da menina, aquecera-se com o seu hábito, a felicidade inundou-lhe os seios d'alma; tomou o lenço, como se fôra relíquia, e beijou-o à face de todos.

Estas cenas de galantaria eram usuais nos jogos e festas do tempo; a ninguém pois causavam estranheza; as damas pensavam que o mesmo fariam por seu cavaleiro; os moços invejavam a fortuna de Estácio; quando ao povo êsse achava a coisa mais natural que um garção tão guapo e uma cachoupa tão airosa se amassem com extremos.

D. Diogo de Menezes acompanhou os movimentos de Inesita com ar de bondade paternal, que adoçava a seriedade habitual de sua nobre fisionomia.

— Por isso dizem que não há homem atilado a quem a menina mais simples não cegue com seu ar de santinha!

— Ainda está para ser o primeiro que eu cegasse, tornou-lhe Inesita maliciosamente.

— Já me não admira, continuou o fidalgo levantando-se, das gentilezas de certo cavaleiro. Quem tinha para animá-lo tão feiticeiro sorriso, se não fizesse proezas, nunca mais devera cingir uma espada.

— Os governadores também fazem madrigais? perguntou a donzela faceirando.

— Não; mas fazem traduções, respondeu o governador aunimando-lhe a face.

Houve um intervalo no divertimento.

Os cavaleiros apeando foram cortejar as damas, e depois, mudar de roupas e armas para as novas justas; formaram-se os círculos de conversação onde se discutiam os feitos dos diversos campeões, a graça com que uns meneavam seu ginete, o garbo com que outros traziam a lança. Duas pessoas, porém, havia ali para quem a cena muda entre Estácio e Inesita não passara despercebida; não a tinham visto com os mesmos olhos complacentes.

Um era Fernando de Ataide que duas vêzes batido por Estácio e conhecendo agora a causa, ardia em desejos de vingança; a outra era D. José que também adivinhara o motivo por que o môço se esquivara de medir-se com êle; ambos estavam ofendidos em seu orgulho, e numa esperança que partilhavam.

O alferes protegia a afeição de seu amigo por Inesita; embora sua irmã mostrasse completa esquivança a D. Fernando, atribuía isso à timidez da menina, e acreditava que afinal o amor conseguiria vencer o recato.

Conhecendo porém que se iludira, e suspeitando agora que sua irmã amava outro homem, sentira despeito profundo: sobretudo sendo êsse um môço obscuro e pobre, como Estácio, o qual embora nobre, tinha em seu nome a nódoa, que deixara a condenação do pai.

Orgulhoso e de gênio arrebatado, D. José não podia sofrer semelhante afronta. Resolveu imediatamente castigá-la, antes mesmo que Fernando de Ataíde pedisse ao môço satisfação pelo modo descortês por que se houvera.

Enquanto os dois amigos passeavam na volta da teia conversando sôbre o que passara, álvaro de Carvalho indo ao encontro de Estácio, o abraçou com efusão e guiou ao pavilhão para apresentá-lo ao governador.

— Aqui trago a Sua Senhoria o nosso herói! Poucos anos, porém muitos brios.

— Isto mostra que na escola de um velho lidador de vossa têmpera, Álvaro de Carvalho, a experiência vem mais depressa que a idade! respondeu o governador unindo em um só elogio a perícia do mestre e o valor do discípulo.

— Sua Senhoria engana-se! retrucou o alcaide com a habitual rudeza e batendo famíliarmente no ombro do môço. Homens desta estofa, não se fazem aqui embaixo, vêm já feitos.

— Não creia, Sua Senhoria, talhou Estácio corando; o pouco que sou, devo a dois homens que Deus me deu em troca da família que me levou bem cedo: o senhor Álvaro de Carvalho que me ensinou a trazer esta espada para um dia servir ao meu rei; e um santo homem que prezo e estimo como meu pai, porque dêle recebi tanto ou mais que daquele que me deu o ser.

— Pois trataremos de acabar a obra de ambos dando-vos campo mais vasto do que esta liça, disse D. Diogo. Não é justo que tão valente lança se embote em folguedos, quando o serviço de El-rei e a causa da religião tanto carecem de bons defensores.

O governador afastou-se com o velho alcaide, e Estácio voltando-se viu de longe Inesita.

Estava recostada a um dos arcos do pavilhão e procurava o amante com os olhos por entre a multidão: mal sabia que o môço estava tão perto dela.

Mas de repente o coração, palpitando com violência anunciou-lhe a aproximação de Estácio: por súbita e instantânea revelação, que não se explica, ela sentiu a fôrça de um ímã que atraía tôda sua alma.

Volveu os olhos e deu com o mancebo.

Violenta comoção abalou o corpo delicado, que estremeceu como se o envolveram ondas de fluido magnético; o sangue fugiu-lhe das faces, queimando o coração. Murchara nos lábios a flor do sorriso. Assim uma planta delicada, oculta na sombra, enlanguesce quando um raio ardente do sol vem súbito aquecê-la. As fôlhas desmaiam, inclina-se a haste, as flôres abrocham; até que a luz filtra nos poros, e a seiva, correndo pelas fibras, reanima a vegetação e a expande mais brilhante.

Passado aquêle deslumbramento, a menina surgiu dentre a esplêndida auréola de sua beleza. No sorriso, aveludado pela inefável doçura do coração feliz, a alma exalava perfume suave de rosa mística, voando para o céu azul dos castos amôres.

Também Estácio sentia o doce enlêvo do coração, ainda não desflorado de esperanças: bebia vida e eternidade no sorrir de Inesita.

Depois de um instante de muda contemplação, em que essas duas almas vazando uma na outra, desviveram em si para renascerem anjos no puro e santo afeto que as unia, Estácio quis falar; a voz evaporou-se em tênue suspiro:

— D. Inês! ...

A doçura do seu nome, balbuciado pelos lábios do mancebo, afagou-a, como a melodia de um canto celeste; igual só houvera na terra uma harmonia; era a do nome de Estácio, que lhe adejava no sorriso, e já ressoava ìntimamente nas cordas d'alma.

Mas foi um grito de espanto que lhe escapou.

A menina vira D. José, parado diante dela, lívido de cólera, mordendo o beiço e cobrindo Estácio com a vista odienta.

Êste, no encantamento da presença de Inesita, não o percebera.

— Não parece bem que uma môça se desacompanhe das outras damas, minha irmã. Tomai o vosso lugar, disse o alferes com um modo brusco e descortês.

Estácio voltou-se friamente para D. José.

O alferes acompanhou a irmã até que a viu sentar-se trêmula e pálida no coxim; então dirigiu a palavra ao mancebo.

— Só agora posso agradecer ao senhor estudante a generosidade que há pouco houve para comigo, e o preço de que me fêz mercê! disse o alferes com um tom de chasco bem visível.

— Nada tendes que me agradecer, senhor alferes, nada me deveis, respondeu o môço com uma polidez glacial.

— Oh! que vos devo! Mais do que pensais, porém conto breve pagar e com usura. Não pretendeis tomar parte no torneio?

— A perguta é escusada.

— Não tanto como parece; porque careço de avisar o senhor estudante de uma coisa, continuou o fidalgo com o mesmo ar de ironia. Não trago roupeta, sigo a milícia: quando tiro a minha espada, ou se trate de jogos ou de combates, tenho sempre que é negócio a valer. Será um defeito; mas já não estou em idade de aprender.

Estácio não respondeu.

— Assim trate cada um de defender-se às vêzes, continuou D. José. Bem pode suceder que brincando mesmo, tenha o profundo desgôsto de passar a minha espada pelo corpo de alguém.

— É tudo quanto me tínheis a dizer, senhor alferes? perguntou Estácio com a maior calma e dignidade.

— Tudo; e agora que está de aviso o senhor estudante, se por acaso escolhesse outro campeão, seriam capazes de dizer que tinha mêdo!

— E não errariam, senhor D. José, realmente tenho mêdo!

— Ah! exclamou o alferes.

— Tenho mêdo de matar-vos; porém por felicidade vossa e minha, sei me dominar.

Estácio voltou as costas ao alferes, e encontrou fito nêle o olhar de Inesita. Êsse olhar era uma interrogação e uma súplica.

A menina de longe não escutara as palavras, mas vira a expressão de D. José, e prêsa de cruéis pressentimentos procurava ler no semblante do môço a confirmação dos seus receios, pedindo-lhe ao mesmo tempo indulgência para seu irmão.

Estácio sorriu-lhe; sorriso triste, acerbo e pungente, úlcera d'alma cicatrizando nos lábios.

CAPÍTULO XII — DA SÁBIA CONTROVÉRSIA DE DOIS CRONISTAS SÓBRE CASOS DE CONSCIÊNCIA BEM ESCABROSOS

O borborinho de festa, que enchia o Terreiro do Colégio e o entusiasmo da população baiana iam quebrar-se de encontro à mudez austera e sombrio aspecto do Convento dos Jesuítas.

Grave e silencioso, como o espírito que o dominava, o vasto edifício que dava no meio da alegria e contentamento, que fizera sorrir tôdas as habitações vizinhas, guarnecidas de colchas e alcatifas. Assim grave e recolhido, se julgaria estranho ao espetáculo representado em face dêle.

Tal não era: por detrás da grade que vestia uma das janelas, dois frades, enfiando os olhos pelas frestas, seguiram desde o começo os incidentes do festejo, praticando em voz baixa, para não perturbarem o provincial e o licenciado Vaz Caminha, que continuavam a partida de xadrez, valentemente disputada de parte a parte.

— V. Paternidade conhece sem dúvida aquela donzela com que fala o governador neste momento? perguntou o P. Molìna.

— É D. Inês, filha de D. Francisco de Aguilar, um dos mais ricos senhores de engenho da Bahia.

— Quem é o confessor da casa?

— Fr. Carlos da Luz, do Patriarca São Bento.

— Como! Deixaram que nos preterissem?

— Não ignora V. Paternidade, que os senhores de engenho nos são adversos, por causa do negócio da servidão dos índios.

— Embora! Há sempre meios de insinuar-se. E tenho para mim como um grande êrro que cometeram, abandonarem a outros a direção da consciência daquela menina.

— Por quê motivo assim pensa o P. Molina?

— Li algures, P. Inácio, que as mulheres governam metade dos homens; e essa metade governa a outra. Quem tivesse o poder de dirigir a consciência dêsse ente frágil, dominaria o mundo!

— É possível que tenha razão!

— Diga-me; essa menina já não tem mãe?

— Tem-na; porém enfêrma de uma paralisia.

- filha única?

— Não; ali está o irmão, D. José de Aguilar; é o segundo cavaleiro de escarlate.

— Vejo! A casta de homem que é êsse D. José?

— Dizem ser dado ao jôgo e perdulário. Segue a milícia; é alferes do piquête do governador.

— Despacho por D. Diogo de Menezes?

— Pelo próprio.

— Ah! murmurou o P. Molina.

— De que se admira?

— De coisa alguma. Repare o P. Inácio quanto o governador se enleva com a prática daquela menina.

— Quase não dá atenção ao mais.

— Quer sabér V. Paternidade o que me está passando pela idéia?

— Diga o P. Molina. De tão agudo engenho nunca serão demais os avisos.

— V. Paternidade me acanha... bondade extrema para o mínimo dos servos de Cristo. O que disse não passa de humilde reparo.

— Não é razão para privar-nos dêle.

— Ora pense o P. Inácio... Não seria bem possível que a mão frágil de uma donzela quebrasse a soberba do governador poderoso, que pretendem ser de tão rija têmpera? Têm-se visto dêstes milagres. Davi matou Golias, e bastou para tanto uma pequena pedra.

— Faz mau juízo de D. Inês o P. Molina: é donzela de muito recato que estimam quantos a conhecem pelas prendas e virtudes.

— Nem digo o contrário; mas o P. Inácio há de concordar comigo que no fundo do coração da mulher mais virtuosa, lá existe um átomo de vaidade, como brasa em borralho. Um sôpro, e verão a chama atear-se.

— Quer com isto dizer que a julga capaz de galanteios tais!

— Quero dizer que o confessor de D. Inês seria um mau servo de Deus, se dentro em quinze dias não tivesse o governador em sua mão.

— E a virtude dessa donzela, P. Molina, não a leva em conta?

— Que entende V. Paternidade por virtude?

O frade embatucou com a pergunta: fitou os olhos surpresos no companheiro, que sorria com a maior beatitude:

— A prática do justo ainda com sacrifício do bem-estar, o cumprimento dos deveres que se resumem todos no amor de Deus, não será a virtude?

— Não decerto, P. Molina.

— Pois decida entre estas qual seja a virtude de mais preço. A virtude de Susana, espôsa de Joaquim, que resistiu aos juízes de Babilônia somente para não pecar diante do Senhor, in conspectu domini e a virtude de Judite, que Deus abençoou na sua fôrça para vencer os inimigos de Israel?

— O caso é difícil. Segundo o voto do P. Molina é a última dessas virtudes a mais agradável ao senhor?

— Segundo o voto dos mestres em cuja lição nos devemos formar, P. Inácio. A virtude é robustez do ânimo: a beleza da mulher, como a fôrça do homem, são instrumentos na mão do operário de Cristo.

P. Inácio curvou a cabeça diante daquela filosofia perigosa, que assentava a religião sôbre as ruínas de tôdas as crenças e dos sãos princípios da moral; havia nessa argumentação tal cunho de energia e tom de convicção profunda, que subjugava a seu pesar o espírito do jesuíta.

— Não consta que aquela menina ame algum cavalheiro? perguntou de repente o P. Gusmão.

— Não curo das coisas mundanas, P. Molina. O que soa é que seu irmão D. José de Aguilar protege os afetos de um Fernando de Ataide, de quem é amigo.

— Esse Fernando é o primeiro cavaleiro à direita do alferes?

— Justamente.

Nesse momento soaram as trombetas anunciando a investida; os dois jesuítas continuaram êste exame, trocando de vez em quando as suas observações, até a ocasião em que a voz do arauto publicou a sentença dos juízes, e Cristóvão de Ávila proclamou Estácio Correia como o vencedor na justa.

Ouvindo o nome de seu discípulo, repetido pelas aclamações entusiásticas do povo, o licenciado sentiu uma comoção violenta, que lhe paralisou os movimentos: a mão direita, que havia tomado o rei, com a intenção de rocar, parou suspensa sôbre o tabuleiro. Assim ficou um instante, com o ouvido atento e a alma dilatada para receber os ecos da ovação que saudava o môço cavalheiro.

Por fim voltando ao jôgo e vendo que tinha ainda suspensa a peça que devia mover, sem reparo colocou-a quatro, MAS NÃO ERAM QUAISQUER DOIS ENXADRISTAS OS DOIS PARCEIROS QUE DISPUTAVAM HAVIA DUAS HORAS A MAIS RENHIDA BATALHA... ou cinco casas além. O provincial, estremecendo com o caso nunca visto, deu um salto no tamborete; logo um grito de dor partiu dos lábios pálidos e convulsos de Fernão Cardim.

Catástrofe horrível, capaz de enlouquecer um enxadrista, provocara o grito. Os joelhos do jesuita, movendo-se imprudentemente na ocasião do seu espanto, tinham virado o bufete e atirado no meio da sala o tabuleiro com as peças, que ainda rolavam no soalho, perseguidas pelo licenciado, cujas perninhas custavam a alcançá-las.

O provincial, de braços cruzados, cabeça caída e cãs em desordem, contemplava os destroços da partida de honra. Mário sôbre as ruínas de Cartago não tinha decerto nem mais eloqüência na expressão, nem mais tristeza no olhar, do que Fernão Cardim nesse instante solene.

Mas não eram quaisquer enxadristas os dois parceiros que disputavam havia duas horas a mais renhida batalha que tenham pelejado em trebelhos chineses; o licenciado tomando imediatamente a resolução pronta que exigia o caso, ergueu o tabuleiro, e começou a reconstruir de memória o seu jôgo tal como êle se achava na ocasião do desastre.

— Que fazeis, doutor? perguntou o provincial com a voz trêmula.

— Não Vêdes? Ponho as coisas no estado em que se achavam ante, bellum.

— E podeis lembrar-vos? acudiu o frade desanuviando o rosto.

— Do meu jôgo perfeitamente, como vos deveis recordar do vosso.

— Oh! Estou vendo-o como se ainda aí estivesse! Sou capaz de refazê-lo a olhos fechados.

Os dois parceiros puseram mãos à obra; em breve a partida foi restabelecida; não afiançamos que o frade não aproveitasse o ensejo para melhorar a sua posição; e que o licenciado se visse abarbado com algum xaque improvisado ameaçando de nôvo o seu rei. Como porém nenhuma das partes beligerantes pôs a menor dúvida sôbre a posição estratégica do inimigo, o jôgo continuou sem mais acidente.

No entanto a conversa prosseguia entre os dois jesuítas.

— É esforçado aquêle cavaleiro, dizia o P. Molina; como se chama?

— Estácio Dias Correia; é filho do célebre Robério Dias, possuidor do segrêdo das minas de prata.

— Tem bela presença! Deve ser capaz de grandes coisas,- se tiver bom conselho!

— Não lhe falta; o licenciado Vaz Caminha que V. Paternidade já conhece, é seu pai espiritual; e o alcaide-mor Álvaro de Carvalho, que ali está entre os juízes, o estima em muito; e êle o merece, posso assegurar

O P. Inácio do Louriçal lia durante o tempo que passava na Bahia uma cadeira de ética. A èle encarregava Vaz Caminha a direção do Estácio, logo que o menino, então na idade de quinze anos, começara de cursar as aulas do colégio. O velho sacerdote se afeiçoara a seu aluno, em quem descobria muitas qualidades, mas nenhuma inclinação para a vida claustral.

Tornou o P. Molina:

— Que faz êle?

— Deve acabar êste ano os estudos neste colégio; pelo desejo do doutor, professaria; porém o alcaide opõe-se com tôdas suas fôrças e espera que se lhe depare ocasião de seguir a carreira das armas.

— E os haveres? Poucos?

— Nenhuns; é pobre como Jó.

— Ignora o segrêdo de seu pai?

— Robério Dias morreu com êle.

— É o que reza a tradição; mas podia ser boato para adormecer a vigilância dos governadores.

— Sabe V. Paternidade alguma coisa a êste respeito? pergúntou o P. Inácio com vivacidade.

— O que se repete; ouvi contar uma vez essa história, e quer-me parecer que tais minas nunca existiram.

— Estou que se engana o P. Molina.

— Pode ser. Tem razões para pensar o contrário, P. Inácio?

— Talvez.

O P. Molina sorriu:

— Ainda vive a mulher do Robério Dias?

— É morta há cinco anos.

— Com quem vive o filho?

— Com uma tia velha, D. Mência.

— P. Inácio é confessor da dama?

— De que tira essa conjetura?

— É dela naturalmente que houve certeza da existência das minas de prata, respondeu o frade.

O P. Inácio perturbou-se:

— Errado vai o P. Molina: não abuso do segrêdo da penitência. O que ouço no confessionário entrego-o a Deus, e só trago comigo a satisfação de ter ajudado a remir da culpa uma alma arrependida.

— Mas suponha que um penitente revela um crime que vai cometer-se, homicídio, verbi gratia: deixaria que se consumasse podendo prevenir?

— Suplicaria ao Senhor que iluminasse o espírito dêsse homem; mas não trairia o segrêdo da confissão.

— E julga que o Senhor exalce a súplica de um criminoso, porque o era, participando com o seu silêncio ao crime que ia perpetrar-se?

— Tem uma lógica terrível, P. Molina.

— Quanto sei, digo-o a V. Paternidade, aprendi dos que durante dois séculos engrandeceram a nossa ordem para a maior glória de Deus. Êles me ensinaram, P. Inácio, que os companheiros de Jesus desde que prestam voto de obediência passiva aos superiores, não têm vontade sua.

O frade encarou com o companheiro, como para ver se era o mesmo homem que lhe falava, tão grave lhe pareceu a entonação daquela voz há pouco doce e insinuante; mas o P. Molina já não lhe dava atenção e estava completamente embebido em ver a festa.

Houve uma pequena pausa durante a que o P. Molina contemplava a festa, e o P. Inácio contemplava seu estranho companheiro.

O mais velho dos dois jesuitas estava surpreendido do caráter audaz e do espírito arguto que revelara nesta conversa o frade chegado aquela manhã da Espanha.

O tom humilde e tímido com que às vêzes falava o P. Molina indicava o homem habituado à obediência; outras vêzes a sua voz acentuava a palavra com energia e firmeza, e o seu olhar caía incisivo e penetrante.

Decorreu algum tempo ainda; de repente ouviu-se a vozinha frautada do provincial, gritando:

— Xaque-mate!

— Tinha de ser vossa a partida! acudiu o licenciado com ar contrito.

— Custou-me! Mas enfim... Oh! podeis gabar-vos de que me destes que fazer doutor.

— É o que me consola, P. Provincial; há derrotas que honraram aquêles que as dão, e também os que as sofrem.

— Para quando a desforra?

— Domingo; tantas vêzes hei de perder, que uma virá em que lograrei a melhor.

O licenciado dispôs-se a partir, deixando Fernão Cardim ainda enlevado diante do lance admirável com que terminara a partida; lance que Vaz Caminha tinha previsto, e não evitara por ser tempo de dar fim ao jôgo.

— Já nos deixa o senhor doutor? exclamou o P. Molina com amabilidade.

— São horas, Padre-Mestre; ruit nox, respondeu o licenciado mostrando o sol que se escondia no horizonte.

Despedindo-se do provincial e dos dois jesuítas, Vaz Caminha ia transpor a porta da livraria, quando a voz do P. Molina o fêz voltar.

— Doutor, olhai que vos esqueceu a bengala!

- verdade! disse o licenciado mordendo os beiços; ia tão distraído. Tomando a bengala e despedindo-se de nôvo, o velhinho desceu enfim a escadaria do convento; o P. Inácio tinha-se retirado à sua cela. Ficando só com Fernão Cardim, o P. Gusmão de Molina deu uma volta pela sala deserta, sondando cóm o olhar os escuros recantos, e parou junto do bufete, onde o provincial estava ocupado em recolher as peças do jôgo.

— Fareis reunir esta noite o capítulo, P. Provincial disse em voz baixa, examinando um dos trebelhos de marfim.

— O capítulo? replicou Fernão Cardim como homem que não compreende o que se lhe diz.

— O capítulo, sim, P. Provincial, respondeu o jesuita sorrindo.

— P. Molina, chegastes hoje; isso revela a falta que acabais de cometer. Talvez nas outras províncias se pratique de maneira diversa, embora tal não me conste; mas nesta governo eu, e não admito que nenhum irmão, ainda mesmo confesso, se ingira nas minhas atribuições.

O provincial tinha perdido a sua bonomia habitual e revestira-se da rigidez e dignidade própria do superior, quando se quer fazer respeitar.

— V. Reverência à vista disto não está resolvido a reunir o capítulo esta noite? disse o P. Gusmão friamente.

— Não, P. Molina, reunirei quando me aprouver.

— Neste caso alguém o convocará.

— Quem? E com que autoridade?

— Breve o saberá V. Reverência.

A noite caía, como dissera o advogado citando Horácio; o sol mergulhava no oceano, coroado de luz e majestade, sempre rei, no ocaso como no momento da ascensão.

As sombras do crepúsculo desdobravam-se já e vestiam a natureza; o silêncio pairando no espaço, descia lentamente sôbre a cidade há pouco tão agitada e ruidosa; todos sentiam a influência da hora mística, breve pausa entre a luz e a treva, imagem da vida oscilando entre berço e túmulo. Soavam trindades.

- CAPÍTULO XIII - DOS COMBATES QUE HOUVE EM HONRA DA PRINCESA MOURA

O largo apresentava nôvo aspecto; as tochas acesas em volta e as luminárias suspensas nas janelas das casas, derramavam sôbre as alcatifas cobertas de lentejoilas e a claridade das luzes, menos brilhante que a do sol, porém mais suave e fascinante.

A um lado da teia, junto à tenda destinada aos mantenedores, tinham preparado um coxim com dossel; dois cavalheiros, D. José de Aguilar e Fernando de Ataíde, de pé no último degrau, pareciam esperar a pessoa que devia ocupar aquêle trono oriental.

Tocaram os anafis na entrada da liça; todos os olhos voltaram-se para ver o nôvo espetáculo que se apresentava. Vinha na frente um truão coberto de guizos, fazendo esgares

e trejeitos que provocaram o riso da multidão; seguiam dois mouros arrastando as curvas cimitarras; outros dois caminhavam ao lado de um palanquim conduzido por negros vestidos como eunucos, sôbre o qual vinha sentada uma mulatinha de dezoito anos.

Era um tipo brasileiro, cruzamento, de três raças; americano nas formas, africano no sangue, europeu na gentileza. O moreno suave das faces, os grandes olhos negros e rasgados, os dentes alvos engastados no sorriso lascivo, o requêbro lânguido e sensual do porte sedutor sob o traje oriental, davam-lhe ares de verdadeira sultana.

Véu branco e transparente, prêso ao airão dourado, descia-lhe sôbre o rosto, avivando mais o brilho dos olhos e o carmim dos lábios; as calças largas de tafetá. cerreando no artelho de uma perna bem torneada, deixavam admirar o pé delgado por entre o bordado da alpaca de sêda; o saiote de cassa e índia, prêso ao justilho de renda, desaparecia sób a cabaia amarela, semeada de aresta de prata, que lhe càía dos ombros.

Acompanhavam o palanquim oito môças vestidas igualmente à oriental; essas não tinham capa e traziam passado à cintura uns chales de lã de côres vivas; vinham duas a duas, dando as mãos e formando graciosas figuras de dança, que realçavam as formas esbeltas. Fechava a marcha a banda da música que tocava os anafis e outros instrumentos mouros.

Chegando junto do estrado onde se achavam os dois cavalheiros, os eunucos pousaram em terra o palanquim. A princesa moura no meio de suas escravas, ajoelhou sôbre o tapête, que estendera um dos guerreiros do séquito.

— Ilustres cavalheiros, disse ela. Eu sou a princesa AIzira, filha d'El-rei da Pérsia, que trazida pelo grande esplendor de vossa fama e nomeada de vosso valor, venho pedir-vos amparo e proteção contra o mau fado que me persegue; pois tendo aceitado o espôso que meu pai me destinara, sou agora maltratada da sorte e havida como perjura por um príncipe que me queria.

Parece que a rapariga não recitou exatamente seu papel de comédia; porque

D. José, surprêso, murmurou-lhe ao ouvido:

— Que me perseguia!

A princesa deu um muxôxa, e fingindo enxugar duas lágrimas rebeldes, que nem sequer umedeceram o canto dos olhos negros, abaixou a cabeça para esconder o riso brejeiro que frisava a ponta do lábio.

— Erguei-vos formosa princesa, que não de joelhos, mas sôbre um trono, deveis mandar a vossos leais cavalheiros. E secai êsses belos olhos, que com favor de Deus e vosso amparo, breve haveremos pronta o desagravo de vossa injúria.

Estas palavras foram proferidas por D. Fernando de Ataíde; e logo erguendo com tôda a galantaria a fingida princesa, a fêz sentar no coxim preparado sôbre o estrado.

A odalisca deu sinal a suas escravas; estas imediatamente trançaram novas danças, ainda mais graciosas e originais que as primeiras; nos intervalos o histrião mouro divertia o povo com visagens e truanices.

Esta espécie de auto que acabavam de representar era naquele tempo o prólogo necessário do torneio; lembrava as tradições da cavalaria andante, que apesar da sátira homérica de Miguel Cervantes, ainda viviam no Amadis de Gaula, no Palmerim da Inglaterra, e na imaginação dos cavalheiros de vinte anos ou das meninas namoradas.

D. Fernando e D. José se haviam recolhido à tenda, onde se armavam para manterem a liça contra os aventureiros que a viessem disputar. Mal terminaram as danças, um arauto foi pregar no meio do campo, sôbre a haste de uma lança, o cartel de desafio, que era assim concebido:

"Os dois cavaleiros escolhidos pela formosa princesa Alzira para defenderem sua causa, dizem e farão conhecer a todos os que aceitarem seu gaje, e lhes provarão a três botes de pique e outros tantos de espada, que é justo que uma dama aceite de preferência o espôso que seu pai e senhor lhe destinou."

Como mestre Bartolomeu terminava o proclamo do cartel, lançando no meio da arena as manoplas, gaje do combate, os mantenedores saíram da tenda; ao mesmo tempo apareceram na extrema da estacada dois cavaleiros de armadura branca e morrião prêto.

Traziam a viseira caída; era impossível conhecê-los; ambos adiantaram-se lentamente até o centro da liça; erguendo o gaje dos mantenedores em sinal de que aceitavam o desafio, descalçaram as guantes e os arremessaram aos pés dos adversários.

Os juízes deram o sinal; os justadores tomaram campo.

— Bem vêdes, Sr. D. José, que sou dos primeiros! disse um dos cavaleiros de armas brancas colocando-se em face do alferes.

— Ah! em bem o resolvestes! respondeu o môço cujos olhos lampejavam.

— Descortesia grande seria não responder a tão gracioso convite, retrucou o outro com desdém.

Inesita, que reconhecera nos dois aventureiros Estácio e Cristóvão, sentiu renascerem os sustos, vendo seu amante colocar-se em frente de seu irmão; porém o mancebo pareceu adivinhar o que passava em seu espírito, porque antes de arrancar, pousou a mão aberta sôbre a cruz da espada. Compreendeu ela o misterioso juramento? Talvez; um quer que seja serenara o soçôbro de sua alma.

O combate começara; rotos os piques sem vitória decisiva de parte a parte, os cavaleiros desembainharam as espadas, e atacaram-se de nôvo.

D. José tinha cumprido sua palavra; desde o princípio do combate procurava por todos os meios fazer do jôgo um d'uelo; porém a sua arma encontrava sempre a arma de Estácio, que se defendia com o maior sangue-frio, resolvido a não tomar a ofensiva, nem derramar uma gôta do sangue que para êle era sagrado, porque era o de Inesita.

O môço alferes, a pouco e pouco se ia enraivecendo com aquela resistência fria e invencível, que não esperava encontrar em um estudante; ignorava que as lições de Álvaro de Carvalho tinham criado um discípulo, digno do mestre na perícia, superior pela robustez do braço e pela calma inalterável do espírito.

O despeito o tomou a ponto que perdeu a prudência; precipitou-se sôbre o contentor com tal sanha, que a multidão, surprêsa da animosidade, excitada mais por estímulo de vingança que por brios de cavaleiro, ficou pasma esperando a peripécia do combate.

Então foi a vez de Inesita estremecer pela vida de Estácio, ameaçada a cada momento por seu irmão, cuja espada brilhando à luz das tochas semelhava nos rápidos volteios uma lingua de fogo, e parecia, ora embeber-se no peito do môço, ora lamber-lhe o rosto.

Estácio não se alterou:

— Guardai-vos melhor, sr. alferes! dizia êle ao adversário desviando-lhe os botes.

— Curai de vós e não de mim, respondeu D. José, furioso.

— Pois me dais mais cuidado em não ferir-vos, que em defender-me, como quereis que faça? Pareceis ter antes em mente matar-vos a vós, que a mim mesmo.

De repente a espada do alferes, retraindo-se como uma cobra, distendeu-se com velocidade espantosa, e ia tocar o coração do seu adversário, quando a lâmina de Estácio, vibrou com o rasgo que lhe imprimiu a mão ágil, e enleou-se na outra, tirando-a ao longe, e deixando desarmado o alferes que rugia de raiva e humilhação.

O môço ergueu a arma; tomando-a pela ponta, apresentou-a de nôvo a D. José; mas os juízes interpuseram sua autoridade, e mandaram dar fim ao combate.

— Ficará para melhor ensejo, disse o alferes embainhando a espada; quando não haja testemunhas que nos olhem, e juízes que nos estorvem.

Estácio inclinou-se, e procurou o olhar de Inesita, para dizer-lhe que tinha cumprido seu juramento; nesse instante Cristóvão conseguia também desarmar o adversário. Os dois amigos, senhores do campo, mantiveram a liça contra os outros aventureiros que se apresentaram, até que por volta de oito horas fechou o torneio.

D. Diogo de Menezes e seus convidados recolheram-se a palácio, cujas salas estavam preparadas para um esplêndido sarau que devia pôr têrmo aos festejos do dia.

Diferentes danças e mascaradas começaram então a percorrer as ruas, armadas de uma extremidade à outra com arcos de luminárias e alamêdas de coqueiros, de cujas palmas pendiam lampiões de várias côres.

Entre as ondas de povo, que enxameava na praça do Palácio, distinguia-se o vulto atlético de Bartolomeu Pires, que dominava a multidão com a estatura e com a voz. O mestre-de-capela, apesar de seus cinqüenta anos puxados, não era de todo insensível ao efeito que produzia o seu vistoso traje de arauto sôbre alguns mantéus que o cercavam nesse momento.

— Que ancho está mestre Bartolomeu! Nem dá pelos pobres! disse uma voz feminina.

O cantor voltou-se e viu a alguns passos uma comadre alta e esgrouvinhada, rastejando já pelos sessenta.

— Como queria que a visse, tia Eufrásia, no meio desta balborda? respondeu o mestre-de-capela, torcendo entre os dedos as falripas que lhe pendiam pelas faces rubicundas.

— Cruz! Que é uma confusão de dia de juízo! continuou a tia Eufrásia. Nunca me vi em semelhante entaladela! E para que, minha Mãe Santíssima? Para não ver nada, mesmo nada!

— Pois inda agora chega? perguntou mestre Bartolomeu.

— Prouvera que assim fôsse, que não andaria por aí há boas duas horas aos empuxões! Que gentinha tão pífia! Credo!... Nada há tir-te nem guar-te com ela! E se uma criatura solta um arre lá, engrifam-se todos! Olhe, mestre Bartolomeu, que se não fôsse porque, fazer hoje uma estralada! ...

E a matrona, fincando as mãos nos quadris e alongando a belfa, bamboleou o corpo, desafiando a peonagem.

— Alguma lhe aconteceu, que está assim tão arrenegada? disse o mestre-de-capela admirado daquele desempenho marcial.

— Pudera não! retorquiu a tia Eufrásia. Pois não vejam êstes peralvilhos a faltarem com o respeito à gente para se derreterem com a bruxa da alfeloeira!...

— Quem? A Joaninha?

— Ela mesma. Quem mais há de ser senão a enjeitada da parteira, que a leve o demo? Porque fêz de princesa moura, não se cuida já uma dona! Nanja eu, que com ser uma adela, com minha tenda afreguesada, me tenho em tamanha conta como aquela bisbilhoteira. Mas a culpa, fique com esta que lhe digo, é de quem lhe meteu um par de caraminholas na cabeça.

Nessa ocasião ouviram-se os assobios e apupos do poviléu:

— A bruxa! ... Olha a bruxa!

— Avó torta de Satanás! ...

— Pede ao teu louro que te estique a pele, enjeitada do demo! ... '

A causa dessa vozaria era uma velha mulher coberta de andrajos, que mostrava tôdas as aparências de mendiga; mas o povo a tinha em conta de feiticeira.

A sua fisionomia provocava a atenção por uma singularidade incompreensível; a fronte coroada de cabelos grisalhos e revoltos era sulcada de rugas profundas que lhe sarjavam também as faces crestadas de nódoas e cosidas de cicatrizes; o nariz disforme tinha as vermelhas protuberâncias que revelam o longo uso da embriaguez. Entretanto nesse semblante decrépito e corroído pelos anos e pelo vício, os olhos e a bôca estavam respirando mocidade. Ninguém pode fazér uma idéia do aspecto repulsivo que tinha essa pupila negra nadando em leite, e êsse lábio rosado sorrindo sôbre alvos dentes, no meio daquela horrenda máscara.

Fugindo diante dos apupos, deixando na mão dos rapazes os farrapos de seus andrajos, a mendiga acertou de encaminhar-se para o lugar onde praticavam mestre Bartolomeu e a adela:

— Não deis ouvidos ao que ela diz, mestre Bartolomeu, é uma má mulher! gritou a bruxa.

— Sai-te, mendiga!

— Antes mendiga que ladra! ... Cuidas tu, miserável, se sabe do teu comércio danado com o judengo? E da tavolagem que dás no fundo da tenda? E do mais que por aí vai?...

— Vamo-nos daqui, mestre Bartolomeu, que hoje parece anda o diabo sôlto. Dia de festa é sempre isto! ... Muito beberrico, por fôrça que hão de vomitar quanta blasfêmia há!

— Vai, vai, maldita, para a pocilga; mas ouve o que te digo! ... Estes olhos, que a terra há de comer, não se fechem sem que te vejam pendurada no largo do Rosário de súcia com teu bonifrate!

Depois dessa praga a feiticeira perdeu-se outra vez na multidão, e deixou que a adela continuasse seu colóquio com o mestre-de-capela, que seguia um tanto ressabiado do que ouvira e desejoso de ver-se livre da companheira.

De repente soou a voz do licenciado Vaz Caminha; rompendo o cardume de povo que o submergia, conseguira êle afinal surgir na espécie de esteiro, que o Pires ocupava no meio das vagas revôltas dêsse mar agitado.

O mestre-de-capela, apenas o descobriu, estendeu-lhe sua proteção, afastando com um vigoroso arranco dos ombros a mó de gente que ameaçava esmagar o exiguo talhe do jurista.

— Que idéia foi a vossa de deixar-vos ficar neste apêrto, senhor licenciado? Fazia-vos a esta hora em casa bem sossegado.

— Um dia não são dias, mestre Bartolomeu, respondeu Vaz Caminha sorrindo.

— Assim é, mas na vossa idade...

— Os velhos gostam às vêzes de lembrar-se de seu tempo. Partia-me do Colégio, como principiava o torneio, e influí-me para ver o menino...

— Vistes então como êle desarmou o alferes? Que bote, heim!

— E não lhe achastes um belo parecer? perguntou o advogado satisfeito.

— Com perdão de sua mercê, acudiu a tia Eufrásia fazendo uma mesura ao doutor. Era o cavaleiro mais guapo de quantos se apresentaram; eu sei de alguns que se relavam de inveja.

— Porém o melhor foi na cavalhada, disse o mestre-de-capela. Não assististes?

— Não, respondeu o licenciado.

— Pois eu vos conto.

— E a da argolinha? retorquiu a matrona.

Tomando seu ar grave e solene das grandes ocasiões, Bartolomeu Pires começou a narrar em voz de cantochão a cena, que passara por causa da distribuição do primeiro preço, e na qual êle representara o importante papel de pregoeiro.

Mal tinha concluído o exórdio, quando a tia Eufrásia, que o escutava com atenção religiosa, descrevendo uma elipse, veio-lhe de encontro ao abdome volumoso e proeminente que repercutiu como um adufe.

— Jesus! Valei-me! ...

O mestre-de-capela acompanhou êste grito da matrona com um grunhido surdo, arrancado pela dor que sentira e o obrigara a dobrar a respeitável corpulência.

O acidente desagradável, que atalhara de um modo tão desastroso a eloqüência de mestre Bartolomeu, era produzido por uma revolução súbita que se operava na multidão. Em meio da praça fôra ouvido um clamor; de repente um torvelinho de homens, deslocando as massas de povo, precipitou para as extremidades, esmagando quanto se opunha à sua passagem.

O côro de lamentações e gemidos, o chôro do mulherio que se encomendava a todos os santos do calendário, as imprecações e juras do poviléu, e algumas vozes de ameaça que se destacavam na confusão geral, formavam o ruído da torrente impetuosa, que transbordava de seu leito, ecoando pelas ruas adjacentes.

Passado o primeiro momento de entalamento, mestre Bartolomeu percebendo o que sucedia, endireitou-se; filou pela gola da garnacha o licenciado que já garrava arrastado pelo turbilhão, e dispôs-se a resistir ao combate furioso das ondas do povo que se encapelavam umas sôbre outras.

Firme e impávido como rocha, com a tia Eufrásia que lhe agarrava as panturrilhas, e o licenciado metido embaixo do braço, jogando ao mesmo tempo os ombros hercúleos e a pesada manopla habituada abater o compasso do fabordão, opondo à enxurrada que o envolvia, as formidáveis ancas, mestre Bartolomeu Pires oferecia um grupo digno de uma estátua, que não teria inveja à de Laocoonte.

Com pouco a multidão rarefêz-se; no centro da praça via-se uma pinha de gente, que falava a um tempo e aos empurrões como para descobrir alguma coisa que passava no meio do ajuntamento; entre a vozeira e o borborinho que fervia sôbre tantas cabeças encandecidas, distinguia-se um rugido, que parecia antes de fera que de homem.

O mestre-de-capela tinha-se aproximado, seguido pelo licenciado sempre calmo e sereno e pela matrona, que já restabelecida do susto estava com a curiosidade aguçada ao último ponto, tanto que foi metendo o nariz pela primeira aberta que o acaso lhe deparou.

Ia-lhe custando caro a sofreguidão, porque sem o socorro de Bartolomeu, que ainda desta vez lhe valeu, era muito provável ficasse de menos com a rodilha do toucado, que se embaraçara nos colchêtes de um gibão; mas o cantor, vendo-a naquelas aflições, quase de rastos, com a melena esticada sôbre o occipício, recorreu a um meio sumaríssimo: livrou-a, arrancando o colchête e com êle um punhado dos cabelos grisalhos da tia, que estrebuchou de dor.

Vaz Caminha voltava-se então:

— Mestre Bartolomeu, acudi se é tempo, que talvez poupeis algumas vidas! disse o advogado. Sinto não ter fôrças para ajudar-vos.

— Como quereis que afaste êste poder de gente? não vêdes que estou a esforçar tanto há?

— Por isso não; meios nunca faltam, respondeu Vaz Caminha com uma mansidão ordinária.

— Pois se o sabeis, cervi-me com o vosso conselho. O licenciado chegou-se ainda mais do grupo, e alçando a voz, brandou:

— O alcaide e seus homens!

Imediatamente, como por uma influência mágica daquelas palavras, o grupo se abriu, e os espectadores voltaram-se, interrogando com os olhos e com a fala, para saber onde apareciam as personagens anunciadas, a quem competia velar sôbre a segurança pública.

Aproveitando a primeira aberta, o advogado barafustou por entre o povo; após êle o mestre-de-capela e a matrona em quem a curiosidade podia mais do que o receio de uma segunda descabelação; porém os três pararam diante do espetáculo horrível que se apresentou às suas vistas.

Um mariola trigueiro, com a fisionomia decomposta pela raiva, a fronte golpeada, os cabelos em desordem e o olhar inflamado, brandia na mão direita uma larga adaga já escorrendo sangue, e com o braço esquerdo cingia pelo talhe uma pobre môça, que êle meneava como um escudo, contra aquêles que o atacavam; mantendo assim imóvel, ou pelo receio de ser ferida ou pelo receio de ferir a rapariga, a multidão que o cercava.

Apesar disto, tinha em frente um competidor que não lhe deixava um momento de repouso.

Era homem ainda môço, de pequena estatura, mas de uma construção vigorosa; tinha pescoço de touro, ombros largos e quadrados como o plinto de uma coluna, braços curtos e grossos, quase sem formas, terminando em duas manúpolas formidáveis, cujo pêso bastaria para vergar o infeliz sôbre quem se abatessem.

Vestia escarlata grosseira; na cinta de couro branco que apertava o pelote ao corpo, via-se um largo manchil de carniceiro, que indicava a sua profissão de magarefe ou cortador de reses nos açougues.

Desprezando aquela arma temível e servindo-se dos braços nus, parecia cuidar unicamente de arrancar das mãos do seu adversário a rapariga, que se debatia já quase a desfalecer. Insensível às feridas que lhe rasgavam o ombro e o pescoço, indiferente ao sangue que lhe escorria pelas vestes, o carniceiro não toscanejava; tôda sua atenção estava concentrada na luta e todos os seus esforços eram para livrar a vítima do conflito, sem contudo ofendê-la. Depois de conseguido êsse fim, quando já o não tolhesse o receio de tocar com sua arma o corpo delicado da môça, então ninguém sabe o que aconteceria.

Vendo êste combate do primeiro lanço de olhos, a tia Eufrásia vacilou sôbre os joelhos, levando as mãos às repas e bradando misericórdia:

— Filho! Anselmo! ... Quem me acode! ... Ai! meu Jesus de minha alma!

Vaz Caminha com risco iminente de vida adiantou-se erguendo a cana de Bengala, ao passo que mestre Bartolomeu procurava tomar de esgulha o filho da tia Eufrásia, que arrastava a rapariga, e fàcilmente se conhecia ser o causador da desordem.

Percebeu isto o Anselmo; afastou a tia Eufrásia e fêz girar a adaga com tal fôrça e agilidade, que obrigou a multidão a recuar.

— Arredo! gritou êle. Arredo! ...

Então foi horrível a confusão; o povo que em princípio, impelido com o pânico, escoara pelas ruas vizinhas, voltava excitado pelo desejo de conhecer a causa do tumulto. De nôvo arremessando-se para o centro da praça como fluxo de maré, comprimindo o estreito círculo do combate, enovelou espectadores e adversários num só remoinho.

CAPÍTULO XIV QUE REZA DE MAGAREFES E ALFELOEIRAS

Uma espada volteou no ar; houve um grito abafado e o tumulto serenou de chôfre.

Era o tempo, em que o alcaide-pequeno com os seus quadrilheiros armados de lanças desembocava pela rua da Sé, e varava entre o povo para aproximar-se do lugar do conflito e prender os delinquentes, que transgrediram a Ordenação do Livro Quinto, levantando volta e assuada.

Mas já o tumulto fôra apaziguado; da luta renhida e encarniçada apenas restava o môrno silêncio que sucede aos grandes clamores, como às grandes borrascas.

Inesperada intervenção pusera têrmo ao combate; quando Anselmo impelido com a pressão da onda popular, amiudava os golpes, surgiram dentre a multidão Estácio e Cristóvão; fôra a espada do primeiro dos cavalheiros que batendo de prancha, fizera voar a adaga da mão do lutador.

Estácio, ao sair do torneio, correra à casa tomar suas roupas de gala, para ir-se ao sarau.

Na volta parou como prometera no adro de Santa Luzia, olhando para o mar. Sentiu logo o contato macio de mão que lhe apertava docemente o braço, e as falas de uma voz maviosa, como o canto do sai.

A dama velada estava em face dêle:

— Deus vos recompensará, cavalheiro, a graça de acudir tão pronto ao meu rôgo.

— Ordenai, senhora, em que vos possa eu ser agradável.

— Esta que vos fala é uma dama infeliz e ao desamparo dos homens, sem outro apoio mais que Deus. Em sua angústia inspirou-lhe êle que se valesse do vosso braço, e venho em seu nome pedir-vos proteção contra a desventura. Me recusareis?

— Não a pode recusar um cristão ao próximo, nem um cavalheiro às damas.

— Bem me dizia o coração que esperasse tudo de vossa generosidade. Não é porém chegado ainda o momento de recorrer ao vosso esfôrço; em êle chegando vos mandarei aviso. Até lá permiti que me conserve velada e desconhecida.

— Não preciso conhecer-vos para servir-vos; basta que me assegureis que vossa causa é boa e justa.

— Eu vo-lo juro!

— Então só careço de conhecer vosso inimigo.

— Heis de conhecê-lo em tempo. Não vos quero deter mais. Sei que vos esperam no sarau.

A voz teve um ligeiro estremecimento.

— É a hora de lá estar, disse Estácio.

— Dai-me vosso braço; deixar-me-eis em caminho.

A dama seguiu com passo demorado ao flanco de Estácio, fazendo-lhe perguntas sôbre as justas e o torneio. A pouca distância um vulto aproximou-se dêles e com voz lacrimosa solfejou:

— Esmola pelo amor de Deus!...

— Não trago moeda comigo! murmurou a dama. Estácio tirou da cinta a bôlsa esguia, e se não fôsse a escuridão, sua companheira veria o rubor que lhe acendeu as faces. Com doce violência, cheia de faceirice, ela arrebatou-lhe a bôlsa das mãos, exclamando:

— Quero dar-lhe eu mesma! Depois voltarei o que ficar-vos a dever.

Tirou da bôlsa algumas pequenas moedas de prata, resto dos dobrões deixados pela mãe de Estácio, e deu-as à mulher que implorara a caridade e logo sumiu-se. Então os seus dedos nevados, com uma graça irresistível, repuseram a bôlsa à cinta do cavalheiro.

— Ora vos deixo, cavalheiro. Ide-vos, aonde já revoam vossos pensamentos.

Desprendeu-se do braço de Estácio e afastou-se, lentamente, como se desejasse ser retida; mas êle ficou olhando-a alguns instantes, e encaminhou-se à casa de Cristóvão que já o esperava.

Juntos se dirigiam a palácio, quando o borborinho dos curiosos, os gritos dos adversários, o fluxo e refluxo da multidão, os atraíram ao lugar do conflito.

O primeiro cuidado dos cavalheiros foi livrar das mãos de Anselmo a rapariga que parecia causa e vítima da briga.. Ela tinha desmaiado com o susto que sofrera; apenas livre cobrou os espíritos, e Cristóvão reconheceu, apesar das vestes rôtas e ensangüentadas, o rostinho brejeiro e petulante da princesa moura, não alindado como há pouco, senão pálido, amortecido e velado pelos cabelos em desordem.

— Então, formosa princesa, disse o môço sorrindo, não te contentas que senhores e cavalheiros justem por tua beleza, e ainda vens dar torneio na praça pública?

— Por minha mãe vos juro, senhor cavalheiro, que não é culpa minha, replicou a rapariga abaixando as pálpebras resadas.

— É minha, aposto! acudiu o mancebo gracejando.

- de quem Deus perdoe o muito mal que me queria fazer, respondeu a princesa. Como saía do torneio, seguiram-me êstes dois que aí vêdes, e tanto se travaram de razões, que por fim vieram às últimas. E eu inocente que pague as custas.

— Estás ferida? perguntou Estácio.

— De ferro não, que antes o fôra que da fama. Que não dirão de mim?

— Sossega, Joaninha, acudiu Cristóvão, mal não pode vir a quem mal não obrou.

— Sabes o que deves fazer? disse Estácio para a rapariga.

— Agora mo direis, senhor cavalheiro, respondeu ela fazendo uma mesura graciosa.

— Pois que esta noite tens foros de princesa, escolhe dêstes dois paladinos teus, cujo queres ser a dama dos pensamentos.

— Justo! exclamou Cristóvão. É o meio de terminar a contenda. Qual preferes?

— Nenhum, disse a alfeloeira com desdém.

— Queres mostrar esquivança que não sentes; fala.

— Quem eu escolheria, talvez me não quisesse a mim, ou me não soubesse querer, murmurou Joaninha com uma sombra de melancolia. Mais val que ninguém o sabia.

— E se eu te disser que sei? tornou Cristóvão.

— Voto a Deus que não!

— Não será êste mariola que te defendia contra o outro, e agora esquece o sangue que lhe corre das feridas para não tirar os olhos de ti?

— Tiburcino! ... exclamou a mulatinha fazendo um muxôxo. Êle sabe que não; tanta vez lhe tenho dito, que não há conta já. Se continua a querer-me, mal de si.

— E nem dó tens de o ver naquele estado por tua causa? disse Estácio.

— Oh! que sim! Dó, muito! Como o sangue lhe corre! exclamou Joaninha. Rasgando uma tira de tafetá de seu manto de princesa já esgarçado, chegou-se para o carniceiro e tratou de estancar-lhe o sangue.

Um estremecimento de prazer abalou o corpo robusto de Tiburcino, quando sentiu o tato das mãos da alfeloeira; a fisionomia que a dor contraíra achatou-se com um riso alvar.

Chegavam então os homens do alcaide. Os respeitáveis quadrilheiros daquela época já cultivavam, como seus dignos sucessores da polícia moderna, o velho axioma do "mais val tarde que nunca". Não vinham a tempo de aplacar o tumulto, mas sempre conseguiram empolgar o mariola, que incorrera na pena da Ordenação.

Anselmo, apenas desarmado pelos dois cavalheiros fôra subjugado por mestre Bartolomeu, apesar das súplicas da mãe, cujas lamúrias e choradeiras eram entremeadas de baldões contra a pobre rapariga, que excitara a ojeriza da tia Eufrásia.

Cristóvão obtivera da autoridade a soltura de Tiburcino, que outra culpa não tinha senão a de querer obstar a violência feita à Joaninha. Os quadrilheiros conduziram únicamente Anselmo, que se foi, lançado sôbre a cena que deixava, um olhar tôrvo e mau.

Anunciando a música em palácio o começo do sarau, os dois amigos iam partir, quando Estácio percebeu o doutor Vaz Caminha, a quem não tinha visto, pelo cuidado com que o advogado se ocultava atrás de mestre Bartolomeu.

— Estáveis aqui? perguntou o môço com solicitude e reparando nas vestes amarrotadas do licenciado. Nada vos sucedeu neste tumulto?

— Nada, nada; podeis tranquilizar-vos, filho. Saí quite por um rasgão na capa; mas não é coisa que valha a pena.

— Vinde, deveis estar farto de ver povo e luminárias; vou conduzir-vos à casa, para que não fiques sujeito a alguma pior.

— Há tamanha confusão! disse Cristóvão.

— Não vos inquieteis, outra vez vos digo. Ide-vos ao sarau; eu fico por aqui.

— Tanto gostais da festa? admira-me isso!

— Nihil mirari, filho, é o parceiro do sábio, bem o sabeis.

— Mas não podeis andar só, no meio desta vilanagem, replicara Cristóvão.

— Deixai-me vosso pajem, Estácio; êle me basta.

— Gil! disse Estácio alteando a voz.

Um menino de catorze anos, vivo e esperto, que acompanhara os cavalheiros e se conservava a alguma distância, chacoteando e rindo com outros da sua idade, aproximou-se.

— Segue o senhor doutor; tu me respondes pelo que lhe acontecer.

— Não tem dúvida, senhor Estácio! respondeu o pajem com certa galhardia, levando a mão a uma pequena adaga que trazia à cinta, e perfilando o talhe franzino.

Os dois cavalheiros e o doutor sorriram do recacho cavalheiresco de Gil.

— Já vêdes que estou em boa guarda; parti-vos tranquilos; não esperdiceis os momentos de prazer, que tão raros vem e tão cedo vão.

Estácio e seu amigo deixando o licenciado, atravessavam para palácio. Antes de lá chegarem, a mendiga que os vira passar correu a êles.

— Não quereis ouvir a buena-dicha, cavalheiros? disse ela com voz submissa e volvendo em tôrno olhares suspeitosos.

— Se adivinha és, como se incultas, dize-nos primeiro onde dançará um dia, na corda ou na fogueira?

— Não quereis então que vos tire a sina?

— Para quê?. .. retorquiu ávila. Se boa fôr, não acreditaremos na sorte; se ruim, melhor é não saber.

A bruxa enristou-se, chocando com um olhar perverso os dois mancebos que passavam diante dela ricos de mocidade e esperança.

— Pois heis de sabê-la! resmungou ela. Ouvi bem e guardai!

Deu à voz uma entonação sarcástica-:

— Sois tão amigos, gentis cavalheiros, tão unidinhos do coração, que ao cabo desejareis trincá-lo um ao outro! ... E soltou uma risada.

Estas palavras e o relincho sardônico que as envolveu, vibraram tristemente na alma de Cristóvão. Não que fôsse supersticioso; porém a amizade que votava a Estácio era sensível e nervosa, como a afeição de uma dama. Voltou-se para a feiticeira.

— Vinde cá, mulher! Tomai...

Apalpou o cinto e sorriu; lembrara-se de aplacar as iras da Sibila das ruas, e conheceu que não tinha moeda.

— Trazes bôlsa, Estácio?

— Que significa isto?... exclamou o outro.

O estudante, tirando da cinta a bôlsa para dá-la ao amigo, ficou surprêso porque não era a sua, mas outra primorosamente bordada a fio de prata e pérolas. Abrindo-a viu que estava cheia de meias dobras. As mãos lhe queimavam como se brincasse com brasas ardentes; parecia-lhe que os olhos de tôda a multidão o perseguiam como receptador do alheio.

— Cristóvão também admirado replicou:

— Estás mais rico do que esperavas?

— Esta bôlsa não me pertence!

— E como se acha em teu poder?

— Não sei! ...

A bruxa resmungou a rir:

— Fortuna de quem empresta às damas caridosas! ... Estácio lembrou-se de repente da dama velada.

— Ah! agora entendo! Vem, que te contarei...

— Empresta-me primeiro uma moeda para dar a esta pobre. Aí tendes, mulher, rogai pela ventura de uma boa e santa amizade!

— Rogarei, bom cavalheiro! E sumiu-se.

Ouvindo o nome de Gil, Joaninha que ligava as feridas de Tiburcino, voltou o rosto; seu olhar afetuoso envolveu o menino. Depois, quando os cavalheiros se afastaram, disse-lhe sorrindo:

— Adeus Gil; não me falas?

— Deus te dê boa noite, Joaninha, à fé que te não tinha visto.

— Vem cá, onde vais?

— Vou meu caminho, respondeu o menino tomando a direção em que ia o licenciado.

A alfeloeira acabou de curar o magarefe. Êste durante todo aquêle tempo não proferira uma palavra, tão absorto ficara em devorar com os olhos as formas sedutoras da môça. Estava como embriagado; temia que sua voz quebrasse o encanto, em que o tinha prêso o toque suave das mãos mimosas.

— Agora podeis ir-vos à casa repousar. As feridas não vos doerão tanto, disse Joaninha.

— Não são estas as que mais me doem; outra tenho, e bem funda, que sangra como nenhuma.

— Para essa não lhe sei o remédio, replicou a rapariga sorrindo.

— Sabeis-lo; mas não quereis dá-lo!

— Que o quisesse, não podia.

— Basta já de negaças, Joaninha. Tanto há que me trazeis assim neste embelêco! Por São Tibúrcio, meu divino patrono que se não pondes têrmo a isto, a cousa acaba mal.

— Escutai cá, Tiburcino. Já vos disse o que podia dizer, não mais. Tenho eu culpa de me quererdes, mau grado meu?... Fazei o que vos aprouver; porém mal aconselhado anda quem pensa ganhar a vontade de alguém com tais abafas.

— Não vos enquizileis, por quem sois, Joaninha de minha alma! Ninguém me tira de que sou um néscio e um sandeu. Não sei que faço; mas tende dó de mim; dizei-me ao menos que se me não dais esperança, também a outro...

— Oh! lá isso é demais, sô Tiburcino! Cada um tem seu segrêdo; nunca perguntei o vosso, deixai o meu em santa paz.

— Por Deus, que atinarei! exclamou o carniceiro batendo com o punho no peito amplo e vigoroso. Então isto há de virar, ou eu não me chamo mais Tiburcino!

— Que haveis de fazer? perguntou a rapariga medindo-o com os olhos.

— Inda perguntai-lo. É pouco roubar-me tudo? E eu que cruze os braços? E não me desforre?...

— Pois então desforrai-vos em mim; pois lhe quero a êle, sem que êle a saiba; ouvis?

— Calai-vos que me ensandeceis!

— Para quê me fazeis falar?

— Se me tendes dito isto há uma hora quando êle queria levar-vos, aqui ficaríamos os três.

— De quem cuidais? De Anselmo? Como vos enganais!

— É êle mesmo! Outra não me escapará.

— Pois bem, ficai-vos com essa; mas sempre vos digo, que se armardes brigas, não achareis mais cavalheiros que vos livrem da gaiola.

— Ouvide, Joaninha.

— Não quero ouvir nada. Deixai-me sossegada; estou cansada de aturar magarefes!

Tiburcino quis segui-la, mas debalde: a mulatinha tinha-se perdido na turbamulta. Então o tomou tal acesso de raiva e ia contra si mesmo, que aferrando um punhado de cabelos, arrancou-o com desespêro.

Estava escrito, que a tia Eufrásia passaria nessa noite por tôdas as provanças; tendo-se aproximado para ouvir a conversa de Joaninha, que lhe devia dar tema vasta de murmurações, acertou que a mão de Tiburcino, com o movimento brusco que êle fizera, deu tal repelão nas ventas da matrona que a estendeu a fio comprido.

— Aqui d'El-rei! ... Que me matam!

O amante infeliz de Joaninha, preocupado com seu imfortúnio, nenhum caso fêz do acidente; maldizendo-se do seu caipirismo, foi afogar as mágoas com um trago de vinho de Caparica na bodega do Brás Judengo.

A retirada porém não o salvou da ladainha de epítetos afrontosos, que a adela cantou em todos os tons, e com as várias modulações da voz fanhosa e esganiçada.

— Magarefe dum demo! Cão tinhoso! Coisa ruim! Bargante! Alma danada! ... Pragas te consumam cascarréia de mouro! Judengo! Marrano! ... Tu me pagarás com lingua de palmo.

A tia Eufrásia continuaria a glosar êste mote pelo resto da noite, se um dos quadrilheiros, que o alcaide deixara entre a multidão para evitar novos destúrbios, não a interrompesse.

— Arre lá também! Cala-te, bôca praguenta! Se não queres ir pelo mesmo caminho que Anselmo...

A adela tragou o muito que ainda tinha a vomitar; e tratou de recolher antes que lhe sucedesse mais alguma catástrofe nessa noite que para outros fôra tão cheia de folgares e alegrias, para ela tão farta de amarguras.

Ao tempo que isto tinha lugar, Joaninha perdida entre o povo, corria inquieta e sôfrega de um a outro ponto; desde que deixara Tiburcino parecia procurar entre a multidão uma pessoa; mas todos os seus esforços eram inúteis, e a levavam de decepção em decepção.

A vida dessa rapariga tinha a sua crônica misteriosa. Ninguém sabia de seus pais; mas quase tôda a gente a conhecia por causa de sua profissão de alfeloeira ou mercadora de doces e confeitos, que ela vendia pelas ruas numa cestinha de palha; neste mister ocupava todo o dia, percorrendo de uma extrema à outra a cidade do Salvador, às vêzes, quando sentia-se fatigada ou quando o sol estava a pino sentava-se na portada da Sé ou no cruzeiro do Colégio. Divertia-se então em trançar palha de várias côres, com que tecia lindos cabazes e os mais vistosos abanos que ver-se podiam:

Êstes dois ramos de negócio sobravam para sua subsistência. Ninguém a via desalinhada, senão mui composta e bem trajada. A beleza e graça natural davam-lhe o sentimento de faceirice inseparável de tôda a mulher, que conhece o poder de seus encantos e deseja ostentá-lo, ainda que Por simples e inocente vaidade.

A propósito da alfeloeira, um reparo.

Há pequenas indústrias que por sua natureza são próprias da mulher, e formam a sua especialidade na grande oficina do trabalho social. Exercê-las o homem, a parte robusta e livre, parece além de efeminação, injustiça ao sexo frágil e delicado, cuja atividade não é só restringida pela natureza, mas acanhada pelos usos e costumes.

Sentiram os antigos legisladores a necessidade de garantir a mulher contra a indecorosa concorrência do homem na exploração dessasindústrias, femininas por sua natureza. A ordenação do livro 1o, tít. 101 proibia que houvesse alfeloeiros e obreiros; porém acrescentava "se algumas mulheres quiserem vender alféloas e obreias, assim nas ruas e praças, como em suas casas, podê-lo-ão fazer sem pena".

Por quê não será aproveitada na legislação moderna tão salutar disposição?

A liberdade' do trabalho tem limites; e nenhum mais justo e sagrado do que a proteção devida pela sociedade às órfãs do século e pupilas da lei. Se a especulação do homem não disputasse à mulher o direito ao trabalho, quem sabe quantas misérias não seriam remidas do vício? O pão amassado com o suor é acerbo alguma vez; o pão amassado com lágrimas amarga sempre.

Voltemos a Joaninha.

Corriam sôbre seu nascimento dizeres cuja origem aliás ninguém conhecia.

Contavam em que certa noite aparecera na rua uma criança envôlta nas faixas; ali fôra achada por uma parteira já idosa, a comadre Brites, que voltava de assistir certa dama. A boa mulher recolhera a criança e a educara.

Diziam mais que na toalha da menina vinha cosida uma carta na qual se pedia à pessoa que a encontrasse, tivesse dela cuidado até a idade de vinte anos, em que seus pais a reconheceriam, recompensando largamente a alma caridosa que a houvesse recolhido. Daqui tiravam mil comentários; e não faltava quem dissesse que êste mistério ocultava um alto nascimento.

É a sorte dos enjeitados darem tema às fábulas fantasiadas pela imaginação popular, sempre disposta a acreditar no maravilhoso. O que havia de certo a respeito de Joaninha era ter sido ela criada pela velha parteira a quem pagava a educação que lhe dera com muito amor e o melhor dos ganhos de sua indústria. A princípio a tia Brites ajudara com seu escasso mealheiro o pequeno negócio; mas em pouco a freguesia tornou-se tão numerosa, as alféloas de Joaninha começaram a ser tão cobiçadas pelas bôcas mimosas das meninas baianas, os seus abanos tão desejados pelas fidalgas, o seu gentil sorriso tão admirado pelos cavalheiros, que logo colheu os frutos do seu trabalho. A uma confessavam todos que na cidade do Salvador não havia nem mais feliz, nem mais formosa alfeloeira.

O desamparo de sua vida livre, bem como a ausência de família, junto à pobreza e ignorância do estado, fêz sôpro aos rapazes namorados que seria uma conquista fácil; mas Joaninha, que já tinha ganho pela formosura e jovialidade a admiração geral, ganhou com uma virtude austera e uma esquivança constante, a estima e respeito da boa gente. Acabaram por confessar que ela não era só a mais gentil, senão a mais honesta de tôdas as alfeloeiras dos dois reinos de Portugal e Algarves.

Em verdade, nessa existência vagabunda não devia fato por pequeno que fôsse, o qual pudesse nascer a mínima suspeita contra a honestidade de Joaninha; não se sabia, nem sequer desconfiava, de um rapaz ou mesmo senhor a quem ela tivesse dado mostra de bem querer. Entretanto essa pessoa existia, pois a rapariga o confessara na conversa com Tiburcino; mas o nome estava guardado tão dentro do coração, que nem olhos de rivais, sempre alerta, tinham podido ver na sombra dêsse mistério. Seria seu amor mal pago? Assim parecia à primeira vista; pois a alma feliz é flor a desabrochar; tem um perfume que rescende.

Mas custaria a admitir semelhante conjetura quem vir a expressão travêssa e viva de seu olhar o sorriso malicioso, e a faceirice do gesto galante. Amôres tristes e mal afortunados não vivem em crisália assim dourada e brilhante. Que houvesse completa felicidade, também não era provável. Em certas horas, mais freqüentes quando estava só e ninguém a via, a expansão do contentamento desvaecia: anuviava-lhe o rosto sombra fugace de melancolia, recôrdo ou pressentimento de mágoas.

E porque, em assunto de amôres, "essa dor é tão palreira, diz o nosso João de Barros, que logo descobre o que sente o coração", a crença geral decidia-se pela absoluta isenção da feiticeira mulatinha.

Entretanto a alfeloeira continua a correr em tôdas as direções senr achar o que procurava. Não se podendo ter já de fatigada, sentara-se na soleira de uma porta; e começou de cantarolar um vilancete, olhando de longe para as janelas iluminadas do palácio.

O que Joaninha cantava a meia voz, era, se a crônica não mente, uma trova de Gil Vicente, em compasso de lundu: "Quem quereis que veja olhinhos, Que se não perca por êles,

Lá por uns jeitinhos lindos Que vos metem em caminhos; Senão espinhos infindos".

Houve momento em que a alfeloeira suspirou; sentiu cobrir-lhe o coração uma das nuvens de melancolia que às vêzes passava no céu dos seus pensamentos. Breve rarefêz-se a névoa, pois ainda no fundo de sua alma ingênua e pura não estancara a fonte das alegrias inefáveis da juventude, que o mundo, vasto areal, a pouco e pouco vai sorvendo, até que o exaure.

Quem a visse então, acompanhando a música do sarau com a voz e as inflexões da cabeça, traçando com a ponta do pé figuras e passos de danças, e dando estalinhos de castanhola nos dedos, não julgara possível esconder aquêle sereno júbilo da ocidade um pesar oculto.

Passavam Bartolomeu Pires e Vaz Caminha. O licenciado oferecera ao mestre-de-capela uma vez de vinho; nessa intenção dirigiram-se à bodega do Brás.

Gil, cumprindo à risca a ordem de Estácio, acompanhava o licenciado, caminhava arremedando com a sua figurinha de pajem o andar solene e magistral do ex-arauto.

Mal descobriu o menino que seguia sem vêla, Joaninha ergueu-se de um salto, e cobriu os olhos do pajem com as palmas das mãos.

Êle não se mostrou surprêso da travessura.

— Cuidas que não te conheço as mãos? Tanta alféloa tenho manjado amassada por elas!. ..

— Também! Não se doam mais elas das que amassarem para ti respondeu Joaninha despeitada.

— Por quê então? Algum mal te fiz eu!

— Inda agorinha! Quase nem me falaste.

— Não viste o cavalheiro mandar que seguisse o senhor licenciado?... Lá dobram canto! Vou-me após êles.

— Espera!

— Que me quereis?

A alfeloeira hesitou corando.

— O senhor Estácio está no sarau? perguntou depois de uma pausa.

— Pois que para lá foi; lá deve estar.

— Que lindas que são aquelas danças! disse ela suspirando, com os olhos escoltados para o palácio. Não te fazem inveja? Não estimarias também ter a tua dama, Gil?

— Ixe! Eu cá penso nisto! disse o travêsso pajem afastando-se.

— Até amanhã! ... gritou a alfeloeira.

— Guardas-me alguma coisa?

— Vê-lo-ás.

— Pois sim.

Gil correu a alcançar o licenciado que de fato quebrara a esquina; Joaninha voltando-se deu com Tiburcino.

O magarefe estava sombrio e tôrvo como uma borrasca prestes a desabar; a testa breve e estreita desaparecia franzindo e caía-lhe sôbre os olhos pequenos mas vivos; os beiços grossos, fendia-os uma coisa entre carranca e riso, arreganho de dente, que gelava a medula dos ossos.

Fitando na môça a vista ameaçadora, arrancou a custo da garganta voz surda e cava, antes rugido de fera:

— Sabe-se já por quem vos morreis de amôres!

— Quem? perguntou a alfeloeira pálida e trêmula.

— O senhor Estácio! disse Tiburcino, como se aquêle nome lhe queimasse os beiços.

Joaninha soltou uma gargalhada e desapareceu.

CAPÍTULO XV — DA MALGA QUE SE BEBIA NA TABERNA DO JUDENGO

O ramo de louro, antes gravêto de tão sêco e prêto que era já, suspenso à porta, indicava a taberna do Brás.

As vendas, que ainda hoje se encontram, viajando-se as províncias do sul, dão boa amostra do que era ela. O principal repartimento consistia numa espécie de varanda em quadra, primitivamente aberta e agora fechada com tabiques. Fazia as vêzes de balcão uma janela bastante larga e rasgada na'parede do fundo; ali repimpava-se o judengo no seu trono báquico, feito de um tonel, através de uma cortina de botelhas, almotolias e canjirões.

Sôbre a tez vestuta e denegrida que geralmente apresentam todos êsses objetos desde o edifício até a frasca, espontava aqui e ali um ou outro ponto que tinha ar de frescura e novidade. Eram melhorias introduzidas por mestre Brás depois de sua viagem ao reino.

De ordinário só havia na varanda uma grande mesa esquimada, posta no centro e ao comprido; naquela noite porém, como essa não bastasse para a gente da festa, mestre Brás, sempre fértil em recursos, engendara modos de satisfazer a sua numerosa freguesia. Uma tábua passada da janela a um cavalete, e barris ou quartolas voltados de bôrco, faziam bom suplemento de mesas, estreitas sim, mas suficientes para o pratel e a malga.

O popular enchia a taberna, e o fluxo e refluxo dos que entravam e saíam agitava a multidão. Um caboclinho de doze anos de idade acudia aos fregueses e ia de um a outro canto, já saltando por cima das mesas com uma agilidade de saltimbanco, já mergulhando como um peixe por entre as gâmbias dos bebedores. Havia na fisionomia dêsse menino, como em tôda a sua compleição, ares de tristeza e abatimento. Na ligeireza de seus movimentos não aparecia a vivacidade alegre própria da infância, mas um certo movimento ríspido e frio como o de um autômato.

Era Martim, o bicho da taberna, e já nosso conhecido.

Mestre Brás, de costume sempre alerta aos menores gestos dos fregueses, estava nessa noite prêso de uma preocupação qualquer. Bem profunda e grave devia de ser ela; o giz esquecido na mão inerte já não marcava na fôlha carunchosa da janela o rol da despesa feita por cada freguês, e coisa ainda mais estupenda, a paga escorregava pelos dedos frouxos, sem o infalível contado e recontado. Se a gente que ali estava a beber e vozear tivesse tempo de reparar nestes sintomas assustadores, acreditava por seguro que o demo dera volta ao miolo do taberneiro.

Afinal, depois de bom esperar, os olhinhos pardos que o judengo tinha pregados na porta, fisgaram-se como dois croques em um sujeito que entrava. O recém-chegado trazia com efeito uma cara de caso. Era homem da plebe, de má catadura e piores obras; parara na penumbra da parte de fora, e. apenas viu enfiar-se pelo seu o olhar interrogador e assustado de mestre Brás, levantou a mão direita à altura da face, cerrando-a logo após com o gesto de quem fecha alguma coisa na palma.

O taberneiro pulou no fundo da quartola que lhe servia de tamborete, como se fôsse de borracha. Alongou o pescoço por entre os garrafões, e os beiços moveram-se mudamente como soletrando, sem pronunciá-la, uma palavra:

— Filado?...

O sujeito parece que traduziu a palavra pelo simples movimento labial, pois a confirmou com uma flexão de cabeça; e ao mesmo tempo designou com um olhar a Praça do Palácio. Mestre Brás bufou de raiva, armando um murro ao demo; o caboclinho que se achegava na ocasião o recebeu em cheio no estômago e revirou de cambalhota, sem fôrça de soltar um gemido.

— Toma, enguiço de Belzebu, é para o teu tabaco!... Já!... Salta daí! berrou o judengo atirando à criança um pontapé; vai dizer àquele tiro de azémolas... àquele que ali está restolhando dês trindades, que se ponha ao vento! ... Basta de beberrico! A freguesia está farta e refarta de esperar! Deixem a malga aos outros, que também a querem!

— Bem falado, mestre Brás! exclamaram alguns fregueses que estavam de pé.

— É mesmo! acudiram outros. A cada qual sua vez. Os quatro latagões da camarada que o taberneiro em sua linguagem pitoresca chamara de tiro de azémolas, levantaram a orelha; mas ao avêsso do que se devera esperar de gente de tal laia, foram de manso desocupando a mesa a que estavam agarrados desde o comêço da noite; e esgueirando-se pela porta.

No momento em que se aproximaram do balcão, fingindo pagar o escote ao taberneiro, ëste disse-lhes rápido e em voz quase imperceptivel:

— Fila d'Anselmo! ... Ide sem detença!

O sujeito do sinal parece que só esperava pela camarada, pois foi-se com ela. Ao sair cochicharam os cinco entre si, e logo separaram-se em direções opostas por entre os grupos de festeiros e populares. Com pouco o murmúrio que paira sempre sôbre a multidão com o zumbir das colmeias, se fôra elevando; vozes sôltas soaram mais alto; o popular fervilhou; um primeiro indivíduo correu para a extremidade da rua; depois segundo, logo terceiro; e afinal a turbamulta precipitou-se em cheio.

De envôlta com estrupido dos pés ouvia-se um vozear múltiplo e confuso que parecia dizer:

— Brìga na Praça outra vez!...

A onda de povo, que alastrara pelas ruas adjacentes logo depois da briga de Tiburcino com Anselmo, condensando-se agora, de nôvo refluía, compelida pela curiosidade de assistir a outro espetáculo. Quando ela desembocava na praça, ainda se notava um cordão de gente desdobrando-se para o lado oriental, onde se erguia o edifício do senado da câmara com a cadeia do conselho. Eram os quadrilheiros que conduziam o Anselmo quase de rastos, e esforçavam havia bom quarto de hora para atravessar o pequeno espaço que medeava entre o lugar da briga e a porta da cadeia. Mas os dignos alguazis da câmara além de bisonhos no ofício, tinham de lutar com os repelões do robusto rapaz e com a resistência da turba de curiosos aglomerada na passagem.

Os que formavam a cabeça da serpente popular, e não eram outros senão os cinco homens do Brás, em vez de correr direito ao ajuntamento, resvalaram rente com as casas; de modo a passarem entre a cadeia e os quadrilheiros. A turba coleou e, como êles tinham previsto, veio bater de frente contra o outro grupo, enovelando-se com êle. Houve grande confusão; ouviram-se alguns clamores; e quando a multidão rareou e a ordem se restabeleceu, o Anselmo havia desaparecido.

Mestre Brás ignorava ainda o sucedido, no momento em:que o doutor Vaz Caminha e seu companheiro entravam na taberna; por isso não se há de estranhar que deixasse de festejar, como costumava, a boa vinda à sua casa de pessoas tão conspícuas. Com efeito o taberneiro cada vez mais preocupado saíra do balcão para vir recostar-se à janela; e aí, todo ouvido e todo olhar para a rua, nem sequer vira entrar o advogado.

Bartolomeu porém, que não desempenhava debalde; e com tanta bizarria, o ofício de mestre-de-cerimônias, chamou o judengo aos seus deveres de cortesia e hospedagem, do modo o mais expedito. Lobrigando no vão da janela a figura meã do taberneiro que lhe voltava as costas, o cantor estendeu o braço, espalmando a larga manopla sôbre a cabeça do mísero, que pensou lhe desabara o teto da casa. Então apertando-lhe o crânio entre o polegar e o índex, e torcendo-o pouco mais ou menos como uma cravelha de rabecão, trouxe-o assim à presença do paciente advogado, que modestamente esperava à porta.

— Não vêdes o senhor licenciado que vos faz a honra de entrar em vossa pocilga, mestre cão?

— Deixai! deixai, amigo Bartolomeu!

— O senhor licenciado! ... Mas por Deus que o não tinha visto! ... Meu melhor freguês! ... Bem fizestes de mo advertir mestre Bartolomeu... senhor Bartolomeu Pires... Esta minha cabeça... Também é uma algazarra...

Isto dizia o taberneiro desfazendo-se em zumbaias à direita e à esquerda e encolhendo-se o mais que podia, a ver se fazia-se tão baixo que o não alcançasse segunda vez a formidável manopla do mestre-de-capela.

— Bom! bom!... Não nos azoineis com o vosso falsete! Segui adiante, e trazei-me do melhor, que é o senhor licenciado quem bebe, e eu quem paga. Ouvides!

O advogado quis contestar.

— Então, homem! gritou o cantor com a sua mais cheia voz de baixo profundo. Ainda me estais aí feito um estafermo! ... Presto! ... Em três tempos!

Bartolomeu levantou dois dedos sós para bater o compasso ternário. O Brás eclipsou-se como um relâmpago, e voltou logo com uma candeia na mão direita, pichéis na esquerda e duas botelhas sobraçadas. Abrindo a porta do corredor guiou os dois fregueses a um camarim reservado para as pessoas de condição que não gostassem de se misturar com a gentalha. O taberneiro deitou sôbre a mesa as garrafas e os pichéis; feito o que desapareceu pela porta em três profundas reverências.

A espêssa crosta de pó e as grossas teias de aranhas de que estavam cobertas as duas garrafas, atestavam sua respeitável idade. Quando mestre Bartolomeu Pires, com a delicadeza e antegôsto de exímio bebedor que era, limpava docemente o gargalo para sacar a rôlha, o advogado suspirou e estêve algum tempo embevecido a olhar a poeira que se dissipava no ar; alguma porção lhe caiu na manga da garnacha, que o estremeceu com íntimo e recôndito sentimento.

A botelha viera de seu velho Portugal; quem sabia se aquêle pó não era ainda da terra natal!

— É do superior! dizia entretanto o mestre-de-capela dando na língua o estalo clássico. Tão boa tivesse o excomungado do taberneiro a alma, como tem a adega!

O advogado tomou uma prova no pichel:

— Ótimo! disse êle, e melhor ainda mestre Bartolomeu, porque vem no nosso Minho!

— É verdade, senhor licenciado! Se tornaremos lá ainda!

— A mim espero que praza a Deus deixar que me vá restituir o pó dêstes ossos à terra de que foram amassados; mas a vós bem difícil me parece que lá torneis já agora.

— Por quê então, senhor Vaz Caminha! Cuidais que me não apertem à mim também as lembranças?...

— Oh! que não! ... Alma sã e reta vos sei eu amigo; e nas almas assim a pátria vive sempre presente, ainda que apartado o corpo. Porém esta também é já pátria vossa, por sê-lo de vossa mulher e filhos. Pensais que sejam laços êsses para romperem-se?

— Se todos iremos! . : .

— Êles... E os parentes e a gente dêles, e a terra em que nasceram, também irão convosco?... Levareis uns pedaços do coração, mestre Bartolomeu; outros cá ficarão, como nos ficaram a nós lá dalém mar.

— Mas quando falo de ir, não crede que seja por uma feita, não. É negócio de matar saudade e tornar.

O doutor um instante absorvido em suas recordações, reatou logo a conversa, já menos enternecido.

— E vosso ofício? E vosso estabelecimento da ilha? Haveis de sacrificar a um sentimento outro não menos sagrado? Porque desejais como bom filho rever o nosso Portugal, esquecereis como pai a herança de vossa família?

Mestre Bartolomeu era dono da ilha da Maré; e Gabriel Soares que o conhecera vinte e dois anos antes, deixou notícia dêle e de seu engenho.

— Tendes sobras de razão. Mas suponho que já por êsse tempo tenha a gente pôsto de parte algum cabedal, que direis então?

— Se contais com isso, é outro o caso. Ao que parece as pescarias vos têm ido de feição?

— Assim, assim! Sempre deixam alguns reais!

— E quem dirá, que vivendo nesta terra há cêrca de vinte anos, ainda não vi a vossa ilha, mestre Bartolomeu!

— Porque não haveis querido. Tantas vêzes pedi já debalde, que afinal desenganei. Ainda por São João, que passou.

— Falta-vos o costume. Se uma vez vos dispusésseis, veríeis que é mais cômodo do que andar na terra firme. E tão perto é! Da ribeira lá com bom vento não gasto eu tanto como numa caminhada à Vitória.

— E tendes vós embarcações seguras em que a gente se possa fiar?

— Que dúvida! Os meus barcos de pescaria. Ninguém os tem melhores.

— Contudo, se o mar estiver agitado:'

— Que tem?

— Não haverá perigo?

— Nenhum, vos afianço eu! Ainda que o tempo esteja de borrasca, podeis aí estar tão sossegado como em vossa casa.

— Verdade é, dizia Vaz Caminha, que tenho ouvido andarem batelões muitas léguas pelo mar alto, e mesmo virem a êsse pôrto alguns de Pernambuco. Mas não anda aí exageração?

— Pois se estão chegando todos os dias de Pôrto Seguro e Alagoas! E como são êsses? Podres e abertos que é um milagre não irem ao fundo.

— Os vossos são fortes?

— Os meus?... São de tapinhoã; e conserto-os cada ano que Deus dá!

— Visto que me segurais a viagem, quero desobrigar-me para convosco de tão repetidas instâncias, aceitando um dia a vossa hospedagem.

O mestre-de-capela cheio dos vapores do vinho e do júbilo que acendera a promessa do advogado, desandou na porta que lhe ficava ao alcance do longo braço uma tremenda palmada, que serviu de acompanhamento ao nome do taberneiro solfejado nas sete notas da clave.

— Mais duas! ... gritou o cantor apenas sentiu no corredor os passos do taberneiro.

Brás apareceu instantes depois com duas botelhas, como as primeiras, encanecidas pelo pó. Enchendo os dois pichéis do generoso vinho, mestre Bartolomeu alçou a mão com a solenidade das grandes festas da Sé, a saudou o advogado:

— À satisfação da vossa tão esperada e mais desejada visita, doutor Vaz Caminha!

— Ao hospedeiro amigo! tornou o bom velhinho com sincera expansão.

— Só peço a Deus que cedo nos mande o dia abençoado! acrescentou Pires deitando sôbre a mesa o pichel completamente enxuto.

— Breve será. E mais, dizei: quando pretendeis lá ir?

— Domingo, depois da missa.

— Bem pode ser que me tenhais de companhia. Não é certo ainda... Havemos de concertar até lá.

O advogado, começando a prática sob a impressão do momento, a dirigia com a agudeza dos engenhos superiores ao fim que tinha em mira quando convidara o mestre-de-capela para, de companhia, esvaziarem uma botelha de vinho. De onde provinha o súbito interêsse do doutor pela ilha da Maré, e pelos batelões e pescarias de Bartolomeu Pires, não sei eu. É de crer que êle tivesse suas razões e das melhores, pois era homem que sabia pesar as coisas; mas tão matreiro, que fôra difícil ao mais esperto penetrar-lhe as intenções.

Os velhos amigos continuaram a prática, que se prolongou pela noite adiante. Enquanto êles assim discursavam de vários assuntos, outros incidentes ocorreram na taberna.

Voltando de servir o advogado e o mestre-de-capela, viu Brás postado na porta o mesmo sujeito que pouco antes lhe trouxera a notícia da prisão de Anselmo; mais longe, na rua, apareciam os vultos dos quatro da camarada, tão bruscamente enxotada da taberna. O judengo, do primeiro lanço d'olhos deu boa nova naquela cara espalmada de riso e satisfação. À interrogação muda da fisionomia do taberneiro respondeu o sujeito olhando para o teto.

A casa do judengo tinha uma trapeira, e êle sabia que bons serviços pode prestar essa espécie de porta escusa, aberta sôbre os telhados vizinhos. Escapando-se pelo interior, foi abrir a janelinha do Anselmo, que usurpava essa noite o domínio dos gatos.

— Sempre vos meteis em boas! ... disse o taberneiro, a modo de consolação. Até que um dia vos leve o demo à breca.

— Deixai-me cá!... tornou o outro carrancudo. Cada qual tem seu embelêco, e o meu é aquela maldita rapariga!...

— Ah! o caso é êsse?... Cuidei mais sério! E perder-se uma noite como esta que veio mesmo ao pintar!... Podia já estar o negócio adiantado. ..

— Não digo que não; mas ainda se pode remediar.

— Pode, pode, se não houver detença. Aí tendes com que matar a sêde e forrar o estômago. Aviai e a caminho! O negro deve estar mais que farto de esperar.

Anselmo estava soturno, lembrando o que lhe acontecera; tinha poucas palavras e nenhuma fome. Virou a malga de vinho, e tomando a um canto o arcabuz de mestre Brás e um punhal, disse:

— Onde achais que vos esperem?

— No adro de Santa Luzia.

O mariola sumiu-se de nôvo pela trapeira, e ganhando os telhados até o fim do quarteirão, saltou na rua, escura e deserta nessa passagem depois dando uma grande volta por detrás da Câmara, foi sair em Santa Luzia.

O judengo desceu à varanda.

Na sua ausência o caboclinho, acudindo afinal aos repetidos sinais que lhe fazia Gil desde a chegada, correu à janela. Ligava essas duas crianças um sentimento, que era gratidão da parte do índio e dó da parte do pajem.

— Que tens tu hoje, Martim, que me torces as ventas quando te chamo? Foi mau olhado que te deitou a bruxa da velha Eufrásia, aquela arrenegada?...

— Mau olhado!... mau olhado!... murmurou o índio. Se o fôra!... Bom esmurrar!

— Esmurrou-te?... Ele, o cão do judengo, o focinho de caititu?

— Agora mesmo... Quase me desancou... Tenho todo o corpo moído de pancada... E queres que traga cara de riso, Gil?...

Os meninos ficaram a olhar em silêncio um para o outro. Nisso o taberneiro chegando à porta bispou Martim, e caindo sôbre êle como ave de rapina, fisgou-lhe a orelha, Lá foi o pobrezinho de rastos, batendo por bancos e mesas, até o balcão, onde o judengo o arremessou como um fardo.

Gil sacara do punhal; saltou na ombreira da janela para correr sus ao taberneiro; o menino ia cego de ira; ninguém sabe o que seria do Brás, se um dos companheiros do Anselmo que viu o movimento do pajem, não lhe obstasse o intento.

— Que é isso agora?... Franguinho já de esporão!... Salta, pirralho!

O sujeito que proferia estas palavras tentou agarrar o braço de Gil, mas êste corre-lhe a punhalada tão rápido que ainda arranhou-lhe a mão apesar da ligeireza com que fugira.

— Encolha a munheca, sô barbaças! disse o petulante menino, engrilando o franzino talhe.

Naturalmente o barbaças ia retorquir-lhe a fineza com alguma punhada ou tapa, quando chamado pelos companheiros reuniu-se a êles e seguiram os cinco rua abaixo. Durante a briga de Gil, o taberneiro havia segredado ao ouvido do espia o que fôra combinado com o Anselmo na trapeira. Os cinco da camarada iam pois encontrar-se com o carpinteiro no adro de Santa Luzia.

Depois que partiram, mestre Brás mais sossegado e já prazenteiro, voltou ao estado normal, à sua consciência de taberneiro. Cada grupo de fregueses mereceu um sorriso e uma reverência aferida pela soma provável de escote. O giz começou de trabalhar com a costumada presteza e segurança; e os olhinhos vivos e pequeninos, saltando de mesa em mesa, não viram mais senão as escudelas e pichéis que se esvaziavam, e as bôcas que se enchiam.

Estava escrito porém que essa noite seria de tribulações também para mestre Brás. Outro susto ainda raspou êle, embora passageiro. Foi o caso que mal começou de ser tangido o sino de recolher, assomou na entrada da taberna o negro Lucas. Brás supunha-o àquela hora bem longe daí com o Anselmo e os outros; a inesperada aparição o fêz estremecer, pensando que estivesse o caldo entornado. Entretanto o africano, com a calma bruta que lhe era habitual, passeou o olhar pela varanda, e não vendo o que buscava, endireitou para o balcão.

— Que houve? perguntou rápido o taberneiro.

— Nada!

— A que viste então?

— À festa!... respondeu o negro, cuja face achatou-se com um riso largo.

O judengo teve ímpetos de quebrar uma garrafa na cabeça do negro; mas era homem de suma prudência; reprimiu êsse inconsiderado movimento, e consolou-se em coçar a orelha, à maneira de gato; com a diferença de que o gato coça a orelha de satisfeito, mestre Brás coçava de arrenegado. Lucas deu-lhe as costas e foi sentar-se no poial da janela onde chupitou a golo e golo um martelinho de aguardente.

Por êsse tempo ressonava de bruços sôbre a mesa mestre Bartolomeu Pires, com um ronco de prima de rabecão. Vítimas dêsse bático sono, jaziam atiradas ao canto as quatro garrafas cujo líquido, com exceção de um pichel que bebera o advogado, passara todo pela musical laringe do mestre-de-capela ao seu vasto estômago.

Vaz Caminha, do outro lado da mesa, com o cotovêlo fincado na perna e o queixo apoiado no polegar da mão esquerda, resumia mentalmente os acontecimentos daquele dia e as longas e laboriosas meditações que êles haviam sugerido ao seu espírito.

Havia muito já que o sino emudecera, deixando nos ares a longa e triste vibração do bronze, que trespassou como um gemido plangente o festivo borborinho da praça. Lembrando-se do emprazamento que tomara pela manhã e que tivera todo o dia presente à memória, o advogado ergueu-se afinal e seguiu ao longo do corredor. Saído à varanda lobrigou o negro que tinha nêle cravado o olhar acerado. Vaz Caminha depois de pagar o escote e encomendar o digno mestre-de-capela aos cuidados do taberneiro, ganhou a rua. Lucas desaparecera; mas o doutor viu-o a alguns passos de dístância, que o esperava para servir-lhe de guia.

Ia tomar naquela direção quando Gil, que os espreitava do vão de uma porta fronteira, saiu-lhe ao encontro. O doutor o havia esquecido; habituado a andar sem acostado ou servo, não sentira a falta do menino, e nem lhe ocorrera durante a noite ordem que Estácio dera a seu pajem.

O primeiro pensamento do doutor, vendo-o, foi que estava sem cear à hora tão adiantada; e culpou-se a si daquela crueldade.

— Ainda estais aqui, Gil?

— Se foi a ordem do senhor Estácio!

— Tendes razão, rapaz; cumpristes com o que vos mandaram, não eu com o que devia. Vinde cá, mestre Brás vos dará a ceia; depois ide à casa recolher. Não hei precisão de vós.

— Com perdão de V. Mcê., senhor licenciado, livre-me Deus de tocar coisa de comer e beber em que êste excomungado taberneiro pôs o gadanho. Quanto êle vende é mal agourado, e não me mataria a fome a mim.

- que a fome não é grande, filho; senão faríeis como os outros. Visto isto, já ceastes?

— Se vos digo que não! Mas não vos dê cuidado, que eu tenho aqui quanto basta para não dormir pagão.

E o menino mostrou uma naca de pão que trazia no bôlso, e na qual já havia dado uma ou duas dentadas. O licenciado tranquilo por êste lado, bem que admirado da sobriedade do menino, que preferia aos guisados e covilhetes de mestre Brás a pada sêca e dura, continuou seu caminho. Lucas, seguia adiante guardando a mesma distância.

Dirigiam-se até a extrema sul da cidade, então conhecida por porta de São Bento, em memória das antigas muralhas erguidas por Tomé de Sousa.

CAPÍTULO XVI - DO QUE SÃO ROSAS E MAIS AMORES

Estácio e Cristóvão deixando a bruxa tinham entrado em palácio.

O sarau começara.

As danças figuradas e graciosas do tempo faziam voltear pelo salão, as damas, e também os cavalheiros que tinham tanto garbo em executar um passo airoso de pantomima ou fazer um batão e uma floreta, como no exceder-se pelas armas e feitos guerreiros.

A dança não era então como atualmente desfastio ou pretexto de conversa, mas uma arte que se cultiva com esmêro, e dava ao corpo a flexibilidade das formas e o donaire dos gestos e maneiras; qualidades estas indispensáveis em uma época em que o vestuário elegante e garrido obrigava o homem, sob pena de ridículo, a ter a perna bem torneada, o talhe esbelto, e a rasgar uma cortesia exatamente copiada dos mais belos modelos da côrte de D. João II.

No momento em que os dois amigos entravam, dançava-se um baile de machatins.

Essa linda composição coreográfica, inspiração de um artista de talento, cujo nome a história ingrata deixou no silêncio, fôra inventada em 1603 na Vila Viçosa por ocasião das grandes festas que se fizeram com o casamento de D. Teodósio II, Duque de Bragança. Apesar de seis anos de existência era ainda nos saraus a novidade ou, como hoje diríamos a última moda dos casquilhos da Bahia e Pernambuco.

Inesita fazia uma das figuras do bailado, e esquecia-se no abandono d'alma, entregue tôda ao inocente prazer. Quando a flor desfolha, vai-se o aroma, vem o fruto.

Há na mulher enquanto a maternidade a não santifica, um quer que seja de frívolo e infantil, perfume de puerice, que exala de tôda a sua pessoa. Ainda o estame não abriu.

Assim, naquele instante era Inesita uma criança: de môça se tornara menina; brincava entre os braços de seus cavalheiros, como outrora folgara o regaço materno. Nem já lembravam-lhe as justas, os enlevos e sustos que sentira. Seu mundo ali estava no baile: dançava.

Sua beleza em repouso era para a deslumbrante formosura que lhe dava a agitação e movimento do baile, como a sonbra para a luz: cintilava. Na ondulação das formas, na flexibilidade do talhe e no gesto que desatava em meneios graciosos, havia irradiações esplêndidas.

Estácio aproximou-se, e ela não o viu.

O môço tinha espinhos a pungir-lhe dentro d'alma.

O cavalheiro de Inesita era Fernando de Ataíde. Cada vez que o dançarino, executando a figura do baile, travava da mão da menina ou enlaçava-lhe a cintura, Estácio sentia dor violenta a morder-lhe o coração.

Junto praticavam alegremente das festas e do baile vários convidados; mas êle nada ouvia: os ritornelos da música de envôlta com o borborinho da sala ressoavam a seu ouvido como golpes de um malho, que lhe trabalhasse no cérebro. De repente o nome de Inesita, proferido perto, foi um raio que atravessou a tormenta.

— Então casa D. Inês de Aguilar? dizia um convidado.

— Com D. Fernando de Ataíde? perguntou outro.

— São novas para mim! acudiu terceiro.

— Como para os mais. Se D. Francisco mal acaba de anunciá-lo ao senhor governador!

Fêz-se n'alma de Estácio uma grande treva e maior silêncio. Quanto tempo durou essa noite do espírito, nunca êle o soube; houvera uma solução de continuidade em sua vida: ficou-lhe um vácuo no passado.

Quando voltou a si, estava ao relento, num campo escuro. Quem o trouxe ali? Como viera? Sente-se muitas vêzes nas grandes aflições uma necessidade invencível de agitação; o homem parece que forceja por escapar a si mesmo e à dor que o possui; move-se e caminha, vai sem destino, fugindo ao que vê.

Assim chegara o môço àquele sítio.

Viu que tinha nas mãos um objeto; sentiu que êsse objeto estava úmido. Era o lenço de Inesita que tinham molhado suas lágrimas. Não se lembrava de haver chorado; nem sabia como a prenda da menina saíra do seio onde a tinha guardada.

— Valia a pena defender contra o ódio de seu irmão esta vida que era dela? murmurava-lhe uma voz dentro d'alma.

O CAVALHEIRO DE INESITA ERA FERNANDO DE ATAÌDE.

Por misteriosa associação de idéias desembainhou a espada: dobrou-a no joelho; a lâmina partiu-se.

Olhou êle um instante os pedaços, como olharia na outra vida, precito já, seu despôjo mortal. Rojou-os de si e serenou logo. A dor não se extinguira, não; mas agora a sentia como em distância, longe, bem longe do coração; cercava-o uma névoa espêssa; estava em um mundo estranho e nôvo.

Para êste da terra, acabava êle de finar-se. Quebrando a espada, sua defesa, morrera; sepultara-se atirando os pedaços no chão. Sombra apenas, não já vivente, errava ainda, penando como os duendes dos contos populares.

Após esta, veio outra alucinação. Pareceu-lhe que mão de ferro, gelada e fria, pousava no peito de seu cadáver, e arrancava fora o coração, e fugia pela treva. E êle pôs-se a seguir essa mão, caminhando sem sentir. Tirou-o dêsse pesadêlo uma voz infantil, que lhe falava. Era a voz de Gil, parado em face dêle, com um cavalo à destra.

— O senhor licenciado mandou-me esperar o cavalheiro, pois já não havia precisão de mim. Como estivesse aqui à mão o cavalo, fui buscá-lo, e bem fiz, que já é tarde muito! Cuidei que não acabava mais de esperar! ...

Estácio não ouvia o pajem. Escutava o rumor das palavras; reconhecera o menino, mas só a pouco e pouco foi voltando à realidade, de que escapara por tantas horas. Volveu o olhar pelo sítio onde se achava; era a calçada do palácio, à qual viera como dela se fôra, sem consciência.

Então lembrou-se do que sucedera. Via diante um abismo negro e imenso, no qual êle se afogara e surgia enfim. Na margem de além a sua felicidade perdida; aquém, na outra margem, êle transido e extinto.

Que tempo levara a debater-se no abismo antes de transpô-lo? Quantas horas ou quantos anos aturara essa agonia? Que passara durante no mundo a que pertencera, e na cidade onde habitara?

Fitou Gil; observou a fachada dos edifícios. Procurava êle com êste exame ver se o menino tinha envelhecido ou as construções desmoronado em ruína?

— O sarau?... exclamou afinal.

Nesta interrogação havia um poema inteiro, uma elegia. Era a história de seu amor, cujo triste epílogo fôra aquêle sarau; era o casamento de Inesita aí anunciado; era a ventura de seu rival escarnecendo o infortúnio dêle, Estácio; era o passado e o futuro.

— O sarau?... respondeu Gil. Quanto há de que de lá partimos! Ainda era em ontem!

— Serão que horas?

— É noite alta. Se os galos já cantaram a primeira vez!...

O môço deu alguns passos maquinalmente; o pajem ouviu-lhe palavras sôltas, murmuradas consigo.

— Ao romper d'alma. .. Lá serei. Voltou para o menino.

— Viste quando se partiram do sarau os convidados?

— Eu que chegava e êles que começavam de ir-se.

— Reparaste...

Estácio hesitou.

— Dos primeiros, acudiu o pajem disfarçando, foi o fidalgo que fêz de juiz, sem ser o desembargador.

— D. Francisco?

— Isso mesmo. Foi-se com a doninha e o outro... o alferes.

— E ninguém mais? perguntou Estácio engolindo as palavras.

— Mais não vi eu, tornou o menino sem titubear. E acrescentou consigo:

— Deus me perdoe.

— Não ia também D. Fernando de Ataide?

— Bem pode ser que me escapasse.

— Qual caminho tomaram? Lembras-te? Foram logo direito ao engenho?

— Quer me parecer que não. Vi tomarem para as bandas de Nazaré. Não tem casa aí? Tem-na, que lá vai a Joaninha, a alfeloeira. O senhor Estácio não sabe? Aquela da briga do Tiburcino. .. A Joaninha é uma boa rapariga! Ela conhece esta gente tôda: não há casa em que não entre a mulatinha. um furão!

Já Estácio não o ouvia; revolvia na mente outros pensamentos.

— Gil nós vamos a Nazaré.

— Vamos, senhor Estácio.

— Sabes a que vamos?

— É o mesmo. Lá chegaremos com o favor de Deus. E o pajem puxando o cavalo segurou o estribo.

Estácio pousou a mão sôbre a sela mas em vez de montar reclinou sôbre o pescoço do animal para falar ao ouvido do menino.

— Tenho um desafio com o alferes, Gil.

— Um desafio?

— Se êle traspassar-me meterás a mão no peito de meu gibão, aqui, acrescentou o môço tomando a mão do pajem. Não sentes? É um lenço. Há de estar cortado pelo ferro e tinto do meu sangue. Jura que o entregarás. .. a D. Inês de minha parte.

— Mas... ia dizendo o pajem.

— Ouve! Dir-lhe-ás sòmente êste recado, guarda-o bem guardado: — "Que lhe restituo quanto era dela; o mais tem-no a terra". — Juras-me, Gil?

— Mas êle não há de ferir-vos, senhor Estácio! Por essa fico eu. Quem joga as armas como o cavalheiro, teme-se lá de qualquer alferes? Em já hoje êle não viu a amostra do pano?

— Ninguém sabe o que pode suceder. Jura sempre!

— Pois o quereis juro, por alma de minha santa mãe e por Deus que a tem! Mas são juras em vão; heis de ensinar o alferes para vosso e meu contentamento. Já eu estou saltando! ...

— Digo-te eu, Gil, que sua espada me há de transpassar.

— Não repita estas palavras, senhor Estácio. Dá-me gana de chorar.

— Tens pena de mim, Gil?

— Pena? respondeu o pajem. Também a tenho; porém mais é a raiva só de pensar que vos possam fazer mal!

O môço cingiu a cabeça do menino e a teve algum tempo sôbre o coração; depois montou rápido a cavalo; tomou o pajem de garupa, e lançou-se a galope.

Entretanto Gil, impressionado pelo que acabava de comunicar-lhe o cavalheiro, inquieto com a idéia do próximo combate, sentia-se mais tranquilo, lembrando as provas de esforço e valor que dera o môço estudante, na tarde daquele mesmo dia.

Retraçava na memória infantil os feitos recentes do torneio, as brilhaturas de Estácio e sua galhardia no manejo das armas. Insensìvelmente o menino procurou no flanco do cavalheiro os punhos da espada leal, sua guarda e defesa: tinha necessidade de acariciá-la. A carícia é uma maneira de sentir das crianças e das mulheres; é também um estilo para a língua que fala o coração.

Afagar os punhos da espada, era para Gil um meio de dizer que punha nela tôda a confiança, e um modo de pedir-lhe que transmitisse à sua alma e coragem e a esperança.

Valia tanto como beijar a mão do cavalheiro, tocar com os lábios o ferro que essa mão valente enobrecera.

Nos copos da espada havia uma cruz; diante dessa cruz a alma do menino, bafejada pela fé sublime do cristianismo, ajoelhava aos pés do Senhor, e votava sua eterna salvação pela existência do único protetor e amigo que tinha na terra.

O pajem estremeceu encontrando únicamente a bainha da espada, viúva do ferro, que a acompanhava:

— Vossa espada, senhor Estácio?... balbuciou Gil assustado.

— Perdi-a! ... respondeu o môço breve e ríspido.

— E sem ela como há de ser, pois que vos ides a um desafio?

A voz de Estácio era grave proferindo estas palavras:

— Para morrer já não careço dela!

— Então, acudiu o pajem com um soluço, quereis mesmo que êle vos mate!

— Não é êle que me há de matar, Gil. Morto já fui eu, não de ferro; mas de pena, como nunca a sintas! Nesse momento iam os dois cavalgando perto do lugar, onde o caminho estreito cortava a rua de Santa Luzia. Viram em distância dois vultos que atravessavam, um após outro, como amo e criado.

Estácio reconheceu no primeiro seu mestre e padrinho, Vaz Caminha; logo parou o cavalo e apeando rijo, voltou para o pajem:

— Guarda-te daí, enquanto torno!

O menino deixou-se ficar esmagando nos olhos as lágrimas que lhe saltavam aos punhos. O cavalheiro apressou a marcha para alcançar o advogado:

— Agora vos recolheis, mestre?

— Agora, filho; e vós que vos traz a horas mortas por êstes sítios? Fazia-vos no sarau.

— No sarau?... Má hora, má e aziaga, vergava a cabeça abatida pela dor; as palavras que proferia vieram travando o fel; afogaram-se em lágrimas.

O licenciado estêve a observá-lo bastante tempo; depois, erguendo-lhe a fronte com ternura, impondo a mão sôbre o coração opresso do môço, murmurou-lhe ao ouvido:

— Cedo fôstes homem, filho, para sofrer. Amôres são rosas de todo o ano; breves fôlhas, muitos espinhos. Pior é regá-las de lágrimas que mais nunca secarão.

— Secarão, secarão, mestre! Bem sêcas já estão nesta alma, onde nem goivos quero eu que vinguem já!

O estudante tornou mais calmo:

— Abraçai-me, mestre! É tarde; careceis de recolher-vos.

— Até amanhã. Ireis ter comigo logo cedo?... É preciso para o muito que tenho de comunicar-vos.

Vaz Caminha abraçou o afilhado; êste estreitou-o nos braços com visível emoção.

— Ides de ânimo mais sereno? perguntou o velho com terna solicitude.

— Para onde vou, mestre, respondeu o môço docemente, a serenidade me espera.

O advogado seguiu seu caminho para a casa da dama desconhecida. O outro vulto que o acompanhava era o negro Lucas.

Se Vaz Caminha não viesse tão preocupado dos sucessos dessa noite e de coisas futuras relativas ao próprio Estácio, não deixaria por certo de notar que a tôrva serenidade do môço, ao despedir-se, ocultava como a onda do rio, uma profundeza sinistra.

Reunindo-se ao pajem, Estácio antes de montar disse para o menino.

— Gil, junto do lenço encontrarás também um papel. Este, hás de levá-lo ao doutor com estas palavras minhas: "que se lembre de meu pai e de ti".

O cavalo, arrancando a galope, desapareceu nas trevas.

CAPÍTULO XVII - QUE FAZIA ELVIRA ENQUANTO INESITA BAILAVA OS MACHATINS

Cristóvão apenas quis mostrar-se no sarau, para que sua ausência não desse motivo a reparo: logo se retirou. Embuçado no manto ganhou a rua Santa Luzia, estugando o passo do cavalo, como quem tinha pressa de chegar.

Essa parte da _cidade, embora fôssem oito horas apenas, estava completamente escura e deserta; não se via porta aberta, nem janèla alumiada. Tôda a população tinha-se aglomerado na Praça do Governador e Rua do Colégio, onde gozava dos prazeres e folias da noite, até que fôsse tangido o sino de recolher.

O môço não deu atenção a esta circunstância, como quem tinha outros pensamentos que o ocupavam todo; continuou seu caminho; nem a escuridão da noite o fazia hesitar; adiante quebrou numa esquina, passou junto da igreja de Nossa Senhora da Ajuda, e atravessando uma pequena ribeira, tomou a rua que seguia aclive.

Ao longe o mosteiro de São Bento estampava no céu de azul-ferrête a larga claustra e os vastos dormitórios; à direita corriam as cêrcas das roças plantadas de mangueiras, coqueiros e outro arvoredo frutífero. Estava tudo em sossêgo; apenas se ouvia o ramalhar da aragem nas fôlhas e o borbulhar da ribeira fugindo pela charneca; de quando em quando uns longes rumores da festa passavam como rajadas e entravam no silêncio do êrmo.

Cristóvão parou à beira de um fundo e largo valado, cheio pela recente enxurrada; resfolgando da batida em que viera, enfiou os olhos pela ramagem.

Havia defronte uma cancela; e mais longe erguia-se a casa, destacando confusamente na sombra dos arvoredos. Alva cinta de luz coava entre os bambolins de uma janela e resvalava trêmula pela folhagem, que agitava a viração da noite. O resto da habitação envolto nas trevas repousava da lida diurna.

Uma prancha, que servia de ponte sôbre o valo, fôra retirada da parte de dentro; de modo que a entrada no terreiro da casa tornava-se difícil e perigosa.

O cavalheiro volveu em tôrno olhar rápido e escrutador para certificar-se de que ninguém ali se achava oculto pelas árvores que pudesse espreitá-lo; feito o que apeou-se, ajustou as armas ao corpo, atirou a capa sôbre o ombro esquerdo, e procurando um lugar favorável ao seu intento, conseguiu transpor o valo, graças a alguns ramos inclinados que lhe serviam de apoio. Meteu-se então por entre as árvores, onde a ramagem era mais basta, evitando que os raios da luz que filtravam da janela caíssem-lhe sôbre.

Tanta precaução indicava grande receio de ser descoberto; de feito, às vêzes o môço parava irresoluto se devia prosseguir no seu primeiro intento, ou retroceder enquanto era tempo; mas depois de curta hesitação, sondando de nôvo as trevas e certo de que tudo estava tranquilo e sossegado, cobrava afoiteza e ia por adiante.

Cristóvão era um destemido cavalheiro, valente como as armas, bravo como os filhos da raça ibérica, em cujas veias girava ainda a pura mescla do sangue gôdo e árabe; não fôra pois o receio de um perigo, por maior que se lhe afigurasse, motivo para influir no seu ânimo tal indecisão. Era sim receio de escândalo.

Seu amor e caráter ousado o tìnham lançado naquela aventura noturna; durante a festa a ausência de Elvira o contristara a tal ponto, que decidira ver a môça naquela mesma noite, para oferecer-lhe com a sua alma e vida as jóias que tinham premiado sua destreza e galhardia.

Sem refletir na possibilidade de realizar êsse propósito, saíra do sarau, e achava-se em face da janela de Elvira; mas aí foi que a razão lhe começou de apresentar à mente quanto havia de extravagante e desusado no passo que pretendia dar sem consentimento da môça, nem certeza de que ela levasse em bem semelhante temeridade.

Estando assim com o espírito tomado por mil pensamentos contrários, e com os olhos na janela, a luz vacilou; uma sombra ligeira debuxou-se docemente na atmosfera esclarecida, esfumando os contornos suaves e puros de um busto encantador.

Cristóvão estremeceu; porém já de prazer, não de susto. Deu por bem paga a imprudência, pois ao menos gozava a ventura de ver a imagem da imagem que trazia n'alma. Para êle a sombra vivia e animava-se; houve momento em que lhe pareceu que ela o olhava e sorria; até chegou a acreditar, com a superstição natural do coração amante, que à fôrça de contemplá-la, talvez Elvira recebesse a refração dos raios de tão ardente afeto.

Mas o coração é insaciável; o que a princípio lhe basta para a completa felicidade, logo serve apenas de aguçar o desejo. Sucedeu assim com o môço; a sombra de sua amante em vez de lhe dar prazer, já o torturava com a idéia de não vê-la, a ela própria, estando tão perto, que podia ouvir-lhe a voz terna e amorosa.

Mas essa voz emudeceu em seus lábios trêmulos; pois o esmorecia a só lembrança de ofender a môça e perturbá-la em seu casto repouso. Tanto bastava para quedá-lo mudo e estático em frente do balcão da janela, elevado do chão na altura de uma lança.

Se ao menos pudesse devassar com a vista o interior!... O aposento esclarecido formava uma pequena recâmara forrada com rás simples e ornada no gôsto o mais apurado da época. A um lado estava o leito de madeira embutida com relevos de metal; em volta esfraldavam-se as cortinas de sêda azul suspensas do esparável dourado; aos pés um tapête da Índia; junto da cabeceira, contra a parede, o escabêlo, traste característico dos tempos de fé sã e robusta.

Do lado oposto, no estrado baixo que então fazia as vêzes dos sofás e conversadeiras de moderna invenção, estava Elvira sentada; tinha o corpo escaído em frouxa atitude, os braços distendidos, as mãos cruzadas sôbre os joelhos, a cabeça reclinada um tanto, os olhos fitos no relógio d'água colocado em cima do tremó, sôbre o qual ardia uma vela de cêra, enchamejando-se na face lisa e polida do espelho.

Os cabelos desatados pelas espáduas nuas ensombravam o perfil, amortecendo-lhe a côr; mas deixavam imergidas na claridade as evolutas suaves do colo soberbo, e dos seios que moldava o linho transparente. Traçando a curva graciosa de uma perna admirável, a roupa roçagante de fina beatilha frangia na orla, por onde escapava o pèzinho nu, aninhado em um pantufo de veludo roxo.

Doce enlêvo, ideal sublime de suave melancolia ou de vago cismar, quando a alma engalfada no silêncio e na solidão, partida entre as recordações que voltam e as esperanças que fogem, dói-se com a ausência do bem que fruiu, e enleva-se revivendo no gôzo passado! Voluptuosidade inexprimivel de mágoas doces e agros prazeres para o coração que sofre com o isolamento e praz-se nêle! Hino sublime que o lábio português canta em uma só palavra — saudade!

Corriam os minutos; e ela não mudava de posição.

Os raios de luz brincavam com as gotas do róseo licor que estilavam a uma e uma do globo superior da ampulheta; a claridade decompondo-se nos rubis líquidos, formava um prisma brilhante em cujas irradiações se estereotipava a miríade de pensamentos que esvoaçavam na mente de Elvira. Cada gôta era um instante que fugia, e com êle um feixe de esperanças.

E que podia ela pensar a não ser nas festas a que não assistira, e em Cristóvão por quem mais sentia que por ela, a privação daquele prazer?

Tôda a tarde estivera triste e aborrida; chorava pensando que o lindo cavalheiro que a estremecia, pudesse no meio dos folgares ter um pensamento, um olhar, uma lembrança que não fôsse dela. Cada vez que as aclamações entusiastas do povo, saudando o vencedor, mandavam-lhe um eco dos alegres arruídos, afogava-lhe o coração em lágrimas. que a seu pesar vinham rorejar as faces.

Mas um olhar severo de sua mãe recalcava-lhe a dor no fundo d'alma, até que depois da prece da noite, recolhendo à sua alcova, pôde desabafar a mágoa comprimida; ou antes pôde entregar-se livremente a novos pesares que lhe assaltaram o espírito. A princípio estêve numa impaciência mortal; volvia de um para outro lado, chegava à janela sôfrega e inquieta, inclinava o ouvido, e reprimia as palpitações do coração; por fim, como isto em vez de acalmá-la, a exasperava ainda mais, sentara-se no estrado e contava com ansiedade os minutos da hora que faltáva para acabar o seu suplício.

A última gôta vazou na ampulheta; Elvira ergueu-se de assalto e correu à janela.

No horizonte, entre a escuridão profunda que pairava sôbre a cidade, brilhava um frouxo clarão que ia a pouco e pouco desmaiando; sinal de que as luminárias começavam a extinguir-se. Não se ouvia mais o barbarizo que exala das grandes massas da plebe. O primeiro dobre do toque de recolher acabava de soar.

A festa popular estava terminada; mas uma branda lufada de vento trouxe uns alegres tangeres de música, como para dizer a Elvira que o sarau ainda durava e com êle seu tormento e aflição.

A pobre donzela suspirou.

— Nem mais se lembra de mim! balbuciou com a voz repassada de lágrimas.

De repente a môça, que se recostara ao balcão estremeceu.

Julgou ouvir a brisa murmurar seu nome: o primeiro movimento, depois do susto, foi recolher-se e fechar a janela; mas uma atração invencível a fez voltar; ainda trêmula e fria teve coragem de se debruçar ao balcão para ver entre as árvores.

Quando já mais animosa inclinava a crer que tudo fôra uma ilusão dos sentidos e um receio infundado, os olhos caíram sôbre um vulto, que saindo dentre as sombras, foi súbito ferido pela luz da vela.

Ela quis sufocar, mas tarde, o grito de júbilo e surprêsa que lhe escapou dos lábios; porque tinha reconhecido Cristóvão.

O môço adiantou-se, murmurando o doce nome de Elvira; mas ela em quem o receio tinha vindo de pronto perturbar a alegria inefável a presença do cavalheiro, suplicou-lhe com o gesto que se calasse, e foi ao corredor que passava pelo fundo da câmara, para assegurar-se de que ninguém velava na casa. Mais sossegada com a tranquilidade que reinava no interior, fechou devagarinho a porta, e voltou-se no momento em que já Cristóvão saltava pelo balcão da janela.

A môça recuou cruzando os braços sôbre o seio, com sublime gesto de pudor.

— Oh! não! disse ela suplicante. Cristóvão arrependeu-se do que tinha feito.

— Perdoai-me, Elvira! respondeu êle com respeito. O muito que vos amo fêz-me esquecer o muito que vos devo. Com a mente de falar-vos, e dizer-vos quanto sofri pela vossa ausência, não me lembrei que êste asilo me era vedado; mas crede-me, que não entraria em templo, com recato maior do que entrei aqui.

A môça, prêsa das lábias de seu amante, comovida de tanto amor, mal sabia o que fizesse; já não era o receio que a retinha, sim o pejo.

— Bem penso, continuou o môço, que errei; sêde porém benigna para êsse êrro de que só foste a causa. Trouxe o que por vós e para vós ganhei; e vou-me por onde vim, para que não vos deixe maior aflição da que levo em deixar-vos.

Dizendo isto, o môço deitou sôbre o toucador uma bôlsa que tirou do peito do gibão, e na qual brilhavam entre as malhas de sêda as jóias que tivera em preço dos jogos; após fitando um longo e ardente olhar na sua amada, foi para sair.

Elvira não se conteve mais; lançou pelo colo uma manta de sêda e correu à janela, ao tempo em que o môço ia saltar o balcão.

— Não ides magoado comigo, não? disse ela pousando-lhe as mãos sôbre os ombros e sorrindo.

— Bem sabeis que não, Elvira minha, alma de minha alma! exclamou o cavalheiro ajoelhando a seus pés e beijando-lhe a fímbria do vestido.

Pois então antes de partir contai-me como vos foram as festas sem mim; e se vos deslembrastes de quem não passou um instante, que não estivesse convosco em pensamento.

Cristóvão apontou para a tarja do escudo que trazia bordada no peito do saio:

— Perguntai-o à minha estrêla que nunca me desacompanhou, ou a estas jóias que o são menos do que sois de minha vida. Elas ficam; e eu me parto.

— Não; que me haveis de dizer como as ganhastes; pague-me êsse prazer tão grandes penas quais passei.

— Ah! E não me contareis que penas foram essas?

— Quando souber tudo que fizestes. Vinde; mas falai baixinho que não vos ouça minha mãe.

Elvira fêz Cristóvão sentar-se no estrado, e escutando se tudo estava em silêncio, foi sentar-se junto dêle.

— Oh! que lindas galantarias! exclamou ela soltando no regaço as jóias da bôlsa. Que tão cobiçadas não haviam de ser pelas damas que lá estavam!... Mas quisestes guardá-las para quem menos as merecia!

— Para quem elas menos merecem, senhora minha.

— Mas falai; que não me posso já com o desejo de saber quanto fizestes!

— Não quereis que cerre aquela janela? Podem ver a luz a estas horas mortas, disse o môço erguendo-se.

Elvira corou.

Lembrou-se que estava só com seu amante, à noite calada., e na sua câmara de donzela recatada; pareceu-lhe que fechando a janela, o isolamento ainda se tornava maior; porém sua alma era tão cândida e o amor de Cristóvão tão respeitoso, que se acusou a si mesma daquele seu receio.

— Cerrai! tornou com um sorriso encantador. Não ficamos sós.

— Quem mais está aqui? perguntou Cristóvão admirado.

— Deus! disse ela apontando para o crucifixo que pendia na parede.

— Deus, vossa virtude e minha honra, Elvira! replicou o môço em tom solene, estendendo a mão, como se fizera um juramento.

A janela cerrou-se ocultando a luz que derramava sôbre a folhagem das árvores.

A fachada do edifício ficou em completa escuridão; porém minutos não eram passados que uma luz interior bruxuleou; aparecendo e desaparecendo, percorreu quase tôda a casa até parar em uma sala que deitava para o nascente.

Algum tempo depois ouviu-se o ranger de uma porta baixa que abriam; um vulto embuçado apareceu no terreiro, e avançou a passo. e passo como quem procurava alguma coisa.

A última badalada do sino de recolher ressoava ainda pelo espaço.

CAPÍTULO XVIII - EM QUE OS ARGUEIROS PARECEM CAVALEIROS

Já tinham rezado completas no Colégio dos Jesuítas.

Os frades se retiraram aos seus cubículos; os vastos salões ficaram completamente desertos e às escuras; reinava em tôda a casa profundo silêncio.

Os rumores da festa que ainda enchiam a cidade batiam contra os altos muros externos do claustro; mas nenhum eco do mundo penetrava já no templo do Senhor.

Decorreu uma boa meia hora.

Cinco vultos negros, esgueirando-se pelo comprido corredor que separava os vastos dormitórios, entravam a um e um na sala da biblioteca, e depois de trocarem mesmo no escuro um toque simbólico, agruparam-se defronte da pesada porta de vinhático que dava entrada para o cartório. Era êste o lugar reservado onde se guardavam os papéis de importância, a escrituração mercantil e o cofre da comunidade, cujos rendimentos cresciam anualmente, aumentados pelas doações régias e deixas particulares.

Os religiosos que esperavam à porta do cartório eram o P. Nunes, reitor; o P. Inácio do Louriçal, que vimos conversar à janela do convento enquanto duraram as festas, com o jesuíta chegando naquela manhã; o P. Luís Figueira, autor da gramática da Língua tupí, o qual em 1607 tinha escapado ao martírio entre os selvagens da serra da Ibiapaba, na capitania do Ceará; o P. Domingos Rodrigues, ardente missionário, que havia seis anos reduzira os ferozes Aimorés da capitania; e o P. Manuel Soares, cronista e autor de importantes manuscritos, que infelizmente não chegaram aos pósteros para bem de sua fama.

Havia alguns instantes que os jesuítas esperavam sem trocar uma palavra, quando ouviu-se o roçar de sandálias, e ao frouxo clarão de uma lanterna surda apareceu o provincial Fernão Cardim acompanhado pelo P. Gusmão de Molina.

Os jesuítas não se admiraram de ver entre êles o nôvo irmão que sabiam ser professo; mas conhecendo a política OS JESUITAS NAO SE ADMIRARAM DE VER ENTRE LES O NOVO IRi'lAO QUE SABIAM SER PROFESSO... da ordem, pressentiram que sua vinda ocultava algum negócio grave; o provincial, tirando a chave que trazia à cinta abriu a porta, que fechou interiormente, enquanto um dos outros irmãos acendia a grande lâmpada de prata suspensa ao teto do aposento.

Figure-se um gabinete pouco espaçoso, entre quatro paredes guarnecidas por largos armários que subiam até a abóbada, alcatifado de alto a baixo com uma fazenda espêssa que forrava também o soalho, tendo uma só porta, e fronteira a esta, uma janela revestida de gradil de ferro, e se fará idéia exata dêsse aposento, no qual o som da voz ou dos passos por mais forte que fôsse, morria abafado e não transpirava.

Na larga banca de jacarandá de forma oval via-se o tinteiro, a poeira e a campainha, tudo de prata de lei e de proporções desmensuradas. A cabeceira, que ficava do lado da janela, estava a seda ou cadeira presidencial que ocupava de ordinário o superior da comunidade, quando não se achava presente o provincial; aos lados havia assentos rasos destinados aos simples conselheiros.

Era nesse lugar que os principais da Companhia de Jesus, incumbidos do govêrno da província do Brasil, faziam as suas conferências secretas, nas quais só eram admitidos os irmãos do quatro voto, geralmente chamados os professos, únicos de tôda a numerosa associação, que tinham conhecimento das altas questões políticas que interessavam a Ordem.

Os outros membros, coadjutores, estudantes e noviços, condenados pelo instituto do fundador à obedientia coeca, nem sequer penetravam naquele santuário, onde muitas vêzes decidiam da sua sorte; máquinas animadas, autômatos vivos, moviam-se conforme a impulsão que lhes dava a inteligência superior que os dominava: Perinde ac cadaver.

Quando a mesa achou-se ocupada pelos jesuitas, o provincial voltou-se para o nôvo irmão.

— O capítulo está reunido: V. Paternidade pode falar.

Por tôda resposta o P. Molina inclinou-se e apresentando a Fernão Cardim um pergaminho dobrado, que tirou da manga, disse-lhe com a habitual humildade:

— Faça a mercê de ler, P. Provincial.

O superior ergueu-se com uma ligeira comoção, que logo dominou; beijou a mitra, e fêz a leitura, que foi ouvida em respeitoso silêncio pelos jesuítas.

Era um breve do geral assim concebido:

Nós, Cláudio Aquaviva, pela' autoridade da Santa Sé Apostólica e voto da Conqregação, Superior Geral da Companhia de Jesus, nomeamos o Reverendo

P. Gusmão de Molina Visitador e Assistente na província do Brasil, e mandamos a todos os nóssos irmãos, assim religiosos como seculares, por tal o reconhecem e lhe prestem obediência plena.

Em nome do Padre, do Filho, e do Espírito Santo, amém.

Dado em Roma na Casa da Companhia, aos 5 de agôsto de 1608.

, Cláudio Aquaviva

Ao lado esquerdo do pergaminho via-se sêlo chão em lacre prêto com a mitra do anel que usava o geral; logo abaixo a nota do registro feito na secretaria da Ordem.

Quando o provincial, terminada a leitura, pronunciou pela segunda vez o nome do homem que a mil léguas de distância fazia estremecer todos êsses velhos encanecidos e provados nas vicissitudes da vida, os olhares dos jesuítas cruzando-se caíram sôbre o rosto do P. Gusmão de Molina, como para lhe arrancarem da fisionomia o motivo da nomeação secreta e do poder imenso de que se achava revestido.

O assistente ou visitador era um dos mais altos cargos da Companhia; só tinha superior em hierarquia o geral, de quem era delegado e representante. Dentro da nação ou da província a que era enviado, governava como soberano até o momento em que o poder supremo, que o tinha elevado, o quebrasse de repente como um torrão de argila.

Depois de P. Inácio de Azevedo, morto em 1569 às mãos dos corsários huguenotes, que capturaram a frota, em que vinha êle com sessenta religiosos e o governador D. Luís de Vasconcelos, nomeado para suceder a Mem de Sá, nenhum outro assistente fôra mandado ao Brasil. Quarenta anos durante o geral deixara a direção dessa província entregue ao prelado ordinário.

Era natural pois que os padres ficassem surpresos; essa nomeação secreta, que não lhes fôra comunicada, nem de Portugal, nem da Espanha, indicava um acontecimento de grande alcance, ou uma reforma no govêrno da província; qualquer dêsses dois pontos interessava altamente os professos da Bahia, para que êles se apressassem em conhecer as intenções com que vinha o P. Molina.

Mas a fisionomia dêste não respondeu aos olhares interrogadores.

Calmo e frio, o assistente a-companhara a leitura do breve; seu rosto não tinha expressão, ou se a tinha, era indefinível; não se podia distinguir, que sentimento dominava aquêle semblante imóbil, se a indiferença e a bonomia, ou a severidade gélida e impassível. Os olhos em vez de projetar os raios visuais, pareciam voltá-los interiormente, deixando a pupila baça e pasma como um vidro a que o vapor houvesse empanado o cristal.

Sem dar mostras de aperceber-se da investigação profunda que as vistas perscrutadoras dos jesuítas faziam sôbre sua fisionomia, o P. Molina dirigiu-se ao provincial, que partilhava a desconfiança geral e conservava ainda nas mãos o pergaminho que acabava de ler.

— Queira V. Paternidade passar aos nossos irmãos. Fernão Cardim entregou o breve ao reitor, o qual o deu ao P. Inácio; assim passou de mão em mão até o último. Êste, depois de examinar minuciosamente a letra e o sêlo, como tinham feito os outros, apresentou-o ao assistente, que o recusou com um gesto.

— Julgam que esteja conforme? perguntou êle.

Os seis jesuítas inclinaram-se em sinal de assentimento.

— Registrem-no então.

O P. Molina esperou que o reitor capiasse no livro próprio a carta de sua nomeação, terminado o que, dobrou-a de nôvo e guardou no peito da roupeta; arrastando a cadeira de espaldar colocada à cabeceira da mesa, sentou-se, acenando aos outros que o imitassem.

Um instante volveu o olhar pasmo e sem brilho pelos seis frades recolhidos na aparência, mas interiormente suspensos de seus lábios e ansiosos pela palavra que devia esclarecer o enigma; por fim apoiou os braços à borda da mesa, e deixou cair as frases a uma e uma como se as tivera composto e decorado com antecedência.

— Não precisa dizer-vos eu, pois o adivinhais que me trouxe ao Brasil missão importante. Trata-se de objeto que interessa mais que muito à Companhia. Sabeis que El-rei da França permitiu tàcitamente há cinco anos que de nôvo entrássemos em seus estados; tal concessão foi-nos de grande valia, porém muito nos resta ainda por alcançar. Enquanto o édito de Nantes não fôr revogado, seremos tolerados, mas não admitidos; a Companhia não poderá criar naquele país uma influência bem sólida. Quanto é isso necessário, bem o conheceis; mas por quê meio o obteremos?...

O jesuíta parou deixando a pergunta suspensa; e como não tivesse resposta continuou:

— Um meio há, e pronto, e infalível. o dinheiro, que tudo vence, fará em uma hora maior conversão, do que têm feito tantos anos de apostolado. As guerras atrasaram as finanças da Fránça e o protestantismo de El-rei Henrique IV não será tão intolerante, que repila algum forte subsídio, únnicamente porque lhe é oferecido por mão católica. A Companhia precisa pois de soma avultada, que não lhe pode ser fornecida senão pelas nossas províncias da Ásia e América. Eis a que mandou-me a vontade soberana a quem devemos obediência: espero me ajudareis com o vosso avisado parecer.

Concluindo sua exposição oratória, o P. Molina bem percebeu que nenhum dos seus ouvintes tinha acreditado uma palavra só do que êle acabava de dizer.

Com efeito os padres, sabidos e ousados na arte da dissimulação em que primavam os jesuítas, conhecedores de tôdas as sutilezas e disfarces que tinham costume empregar nas altas negociações, compreenderam que o P. Molina havia realizado o preceito dos mestres da Ordem, os quais ensinavam que — "a palavra era o melhor meio de ocultar o pensamento".

Essa fábula do édito de Nantes, quando por muitos outros motivos não parecesse inverossímil aos membros do capítulo, tinha contra si uma razão de grande pêso; era que, se fôsse verdadeira, o assistente não a confiaria tão fàcilmente sem necessidade a homens cuja discrição não conhecia, e que podiam contrariá-lo nesse plano de exaurir o tesouro da província em benefício de Roma e dos estrangeiros.

Todos êles ficaram portanto firmemente convencidos que o P. Molina tinha preparado aquela história para iludir a sua curiosidade, com o fim de poder depois livremente tratar do verdadeiro objeto da missão e obter dêles os esclarecimentos e informações de que necessitava. Mas escarneceram interiormente daquele ardil tão comum e vulgar, que depunha contra a perspicácia do assistente; e redobraram de atenção para apanhar no meio da discussão a menor palavra, o mais simples gesto que denunciasse o segrêdo.

. Ao P. Gusmão, porém, não escapara a suspeita dos seis conselheiros.

— Que pensa a respeito o P. Provincial? Será possível obtermos alguma parte da soma precisa'!

— A falar verdade, devo confessar a V. Reverência que não julgo a coisa fácil. A terra é rica, porém os haveres vão-se mais em luxo e prazeres da carne, do que em esmolas e deixas pias. Quanto aos bens da Companhia, são poucos por hora, e seu rendimento apenas arrecadado é logo remetido a Portugal. Contudo não esmoreço; e como é em serviço da religião, dela tiraremos fôrças para levar a cabo tamanha emprêsa.

— E o P. Reitor, que aviso nos dá? perguntou o assistente, mostrando-se contrariado.

— Meu voto é de bem pouca monta; mas ajudando Deus, creio que poderei auxiliar V. Paternidade no cumprimento de sua tarefa.

— Vejamos o como.

— Vive nesta cidade uma dama espanhola ainda môça, a quem parece que um grande infortúnio desgostou do mundo.

— Diz que parece, P. Reitor? perguntou o assistente com um sorriso inexprimível.

— V. Reverência admira-se?... Também eu; porém por maiores esforços que tenha feito, ainda não consegui ouvi-la de confissão. Deve de ser um caso grave para que resista a tôdas as admoestações, e mesmo áo terror da condenação eterna!

— Em que nos pode servir essa mulher?

— É possuidora de imensa riqueza, que de seu pai herdou, e não está longe de, mesmo em vida, fazer doação dela à Companhìa.

— Bem, veremos a sua penitente, P. Reitor. Em quanto lhe avalia os teres?

— Ela própria não lhes sabe o valor. Deixou-os seu pai num cofre enterrado em certo lugar; a filha com o seu desapêgo às coisas mundanas nem sequer teve ainda a curiosidade de o ver.

— Pensa então que êsse tesouro esteja no mesmo lugar? disse o P. Molìna com seu fino sorriso.

— Não há razão para que duvide: ninguém mais afora ela sabe do segrêdo.

— Quem enterrou o ouro?

— O pai só e durante a noite, pouco tempo antes de finar-se.

— E essa dama chama-se?

— Tem nome pouco vulgar, que me parece suposto. Chama-se D. Marina de Pena.

Uma plica imperceptível traçou ràpidamente a vasta fronte do assistente; mas desfêz-se logo, e fôra impossível distingui-la da sombra tênue e móbil que projetavam em seu rosto os trêmulos clarões da lâmpada, coando entre os cabelos revoltos.

— Ainda assim, não lhe tenho o segrêdo por muito seguro. Deve se haver serviçais na casa.

— Há uma aia que tomou logo que chegou da Espanha, e mais um escravo. Êsses, se alguma coisa soubessem, já se teriam aproveitado, e não ficariam decerto ao seu serviço.

— Contudo! O ouro é como a luz de que tem a cor e o brilho; ainda no seio da terra surde.

— O que fôr se há de conhecer, disse o reitor um tanto despeitado.

— Certo! Nestes casos as suposições nada valem. Trabalhemos na esperança do sucesso; e a seu tempo a verdade aparecerá. Entretanto já temos por onde começar, e o nosso irmão P. Inácio, naturalmente vai propor-nos algum outro alvitre.

— Se o tivesse, não esperaria que mo pedisse, P. Assistente; porém curo mais dos bens d'alma, do que dos bens terrestres.

— V. Paternidade procede sàbiamente, disse o P. Molina amaciando a voz; sòmente digo que se todos assim procedessem, a Companhia não teria fôrças para vencer tantos inimigos, que a perseguem, nem meios de empregar-se no serviço da religião. Uma coisa não exclui outra, P. Inácio; curemos d'alma, arrostemos o martírio se necessário fôr, para plantar a fé entre os selvagens; mas não esqueçamos que é preciso combater o mundo com suas próprias armas. Esta roupeta que nos veste, não é nem de melhor fazenda, nem de mais custo, do que o hábito de qualquer outra ordem; mas ela representa a milícia de Cristo e o poder imenso da Companhia; por isso abre tôdas as portas, e vê em tôdas as consciências. Dispa-a, e suas palavras, embora ungidas pelo Senhor, cairão em terra sáfara.

O P. Inácio abaixou a cabeça e não respondeu.

— Também pensa do mesmo modo o P. Figueira? perguntou o assistente a outro jesuíta.

— Penso que V. Reverendíssima tem razão; e pesa-me que, sobrando a vontade, falta-me a fôrça de servir à Companhia em objeto de tamanho alcance; mas se uma esperança pode ser de alguma utilidade...

— Uma esperança é já alguma coisa; quando a cultiva mão tão hábil, é flor que sempre vinga e dá seu fruto.

O padre corou modestamente com o elogio do superior: encolheu-se na capa, como um homem que não se pode eximir de certo acanhamento e timidez falando as pessoas autorizadas.

— Tomou-me há tempos por seu confessor, disse êle a senhora D. Luísa de Paiva, viúva já idosa e muito conhecida nesta cidade pelo seu avultado cabedal. Faleceu-lhe o marido há seis anos deixando uma filha única, que está hoje môça. É senhora de muita virtude; mas tem ainda restos de sangue impuro...

— Ah! É de raça judaica! exclamou o P. Molina.

— Infelizmente assim é, respondeu o P. Figueira. Devem ter passado ao Brasil muitos dêsses cristãos novos, depois de levantada a proibição! replicou o assistente pregando os olhos no teto.

— De feito não é pequeno o número dos que tem vindo.

— Para isso compraram tão caro o direito a El-rei, que não soube o que vendia.

Os jesuítas tinham levantado a orelha, apenas o P. Molina fizera o primeiro movimento de surprêsa, e acompanharam o curto diálogo com atenção disfarçada. Pareceu-lhes ter entrevisto o fim secreto da missão do assistente.

Em 1661, os pobres judeus, a quem era proibido, pela lei de 30 de junho de 1567 passar às colônias, ofereceram a soma de 200.00 cruzados pela revogação do interdito; semelhante transação que bem revelava os lucros avultados que essa raça industriosa e mercantil tirava do comércio da Índia e do Brasil, ofendia os interêsses da Companhia. Desde então não cessara ela de insistir pela revogação da lei de 30 de julho de 1601.

Nada mais natural portanto do que tratar agora a poderosa associação de afastar os competidores que lhe disputavam boa parte das riquezas do nôvo mundo. Para tamanha emprêsa fôra mister um homem hábil que excitasse nas populações o espírito de intolerância religiosa, bem intenso ainda no século XVII, coagindo assim El-rei a voltar à antiga proibição de passarem judeus às colônias.

E êsse homem não seria o visitador?

Simultâneamente luziu a centelha no espírito dos cinco jesuitas. O sorriso sutil que mal rugou os lábios mostrava a satisfação íntima da inteligência que alcançara resolver um problema difícil.

Entretanto o P. Molina, a quem não escapara o efeito produzido pela sua pergunta, reatava o fio à narração interrompida.

— Mas isso não nos interessa agora. Dizia V. Paternidade?...

— Que D. Luísa de Paiva é descendente de uma família de judeus; e pois, embora sua fé seja robustíssima, remorde-lhe aquela mácula. Estou que seu zêlo bem aconselhado não duvidará remir a culpa, fazendo esmola de todos seus cabedais a uma casa de oração que possa bem empregá-los no esplendor do culto divino.

— Se não me engano, ouvi que tinha uma filha?

— Não se engana V. Reverência, não, respondeu o P. Figueira sorrindo; tem uma filha; porém essa menina, se já não sente, é natural que venha a sentir breve, irresistível vocação para o claustro; e então...

— Compreendo! A mãe poderá dispor livremente de seus haveres.

— E satisfazer as pias intenções da sua alma devota.

— Nenhum dêstes auxílios é para desprezar-se, replicou o P. Molina; mas não são de pronto resultado; e para o fim que é, de pouco servem. Cumpre recorrer a meios mais rápidos e...

— Se V. Reverência permite?. .. atalhou um frade gordo que ainda não tinha proferido palavra.

— Pode falar o P. Manuel Soares. Estamos aqui para ouvir, disse o assistente.

— Talvez pareça ousadia querer eu decidir ponto em que nossos irmãos se acharam embaraçados; mas cada um deve ocupar-se do que lhe é ordenado; e aquêle não merece mais, que só cumpre o seu dever.

— Então, V. Paternidade julga ter descoberto o meio de dar à Companhia a soma de que ela precisa?

— Julgo que poderei dar à Companhia, não três milhões, porém cinquenta, respondeu o P. Soares.

— Como? perguntou o assistente com vivacidade.

— V. Reverência conhece a história das minas de prata de Robério Dias?

— Ah!...

Esta exclamação indefinível e o riso de ironia que esclareceu o rosto pálido e severo do assistente, não produziram a menor impressão no P. Soares; calmo e plácido, como quem sustenta convicção profunda e inabalável, o frade contentou-se com encolher os ombros.

— Quer V. Reverência prestar-me atenção?

— Sem dúvida; V. Paternidade diga, que o escutamos.

CAPÍTULO XIX — QUANTO INGRATO JÁ ERA NO SÉCULO XVII O MISTER DE ESCRITOR

P. Soares ergueu-se, foi ao canto, abriu uma arca de que tinha a chave, tirou um grosso in-fólio, que deitou sôbre a mesa, a qual gemeu com o pêso do respeitável bacamarte.

Os outros jesuítas, que partilhavam a incredulidade fingida ou sincera do assistente, estremeceram vendo-se ameaçados com a leitura de algum capítulo da obra, e trocaram um olhar de espanto e mêdo. Só o P. Inácio conservara-se indiferente a tudo; apenas algumas vêzes seus lábios finos comprimiam-se como para reter uma palavra que iam pronunciar.

Enquanto o padre mestre espanava o pó da capa de pergaminho do velho alfarrábio, o assistente fazendo uma cara de aborrecimento, parecia revestir-se de boa dose de paciência: preparava-se para cumprir dignamente o seu penoso encargo de superior, obrigado a ouvir todos os pareceres, e a não desprezar nenhuma informação que pudesse favorecer os interêsses da Companhia.

Sacudido o pó, o P. Soares alisou os raros fios de cabelos da imensa calva, encheu as bochechas, afinou a garganta, e retraindo o corpo, levou a mão à capa do livro com a emoção do autor que revê depois de muito tempo o fruto de seu trabalho e o filho de suas elucubrações.

O conclave estremeceu de nôvo; pressentiu que a borrasca ia desabar na forma de algum prólogo monstruoso, recheado de textos e citações; e os há tão longos que usurpam o espaço necessário ao desenvolvimento da obra, e tão insulsos que fazem perder o gôsto do livro antes de o ler. Enganaram-se porém.

O autor no abrir a capa do alfarrábio, voltou atrás e deixou-a cair.

— V. Reverência talvez não saiba a história dêste livro?

— Não P. Mestre, não sei. Pois tem uma história? perguntou o assistente com resignação evangélica.

— - Tem-na, como tudo neste mundo.

— Bem pensado, P. Soares!

Os jesuítas olharam-se com desespêro mudo e concentrado; em vez do prólogo escrito, que talvez só fôra adiado tinham um proêmio oral.

O P. Soares começou:

— Quando chegou a Madrid em 1593 a notícia de ter Robério Dias morrido sem indicar o lugar onde jazem as minas de prata, levantaram-se diversos boatos. No dizer de uns, Robério despeitado porque El-rei não lhe dera o título de marquês... vingara-se levando desta vida o segrêdo. Acreditavam outros que êle estava de boa fé, e nada revelara por se ter desencaminhado um roteiro que seu pai fizera do descobrimento. Queriam muitos finalmente que tais minas só tinham existido na voz pública, in voce popul.

E há de concordar que era essa a opinião mais acertada, disse o P. Molina bocejando.

— Foi a que mais correu entre a gente douta, replicou o imperturbável cronista. O sumo prelado da Companhia entendeu porém que não se devia desprezar, antes cumpria estudar o assunto com a necessária atenção. Procurou-se homem a quem encarregar de tão árdua tarefa; a escolha recaiu ao menos digno. Fui mandado a esta província, e tirando forças dos bons desejos, cumpri a vontade soberana do Geral. Aqui tem V. Reverência a resulta de catorze anos de pesquisas e trabalhos: creio eu que não foram perdidos.

— Descobriu V. Paternidade as minas pelo que vejo! acudiu o assistente com ar de mofa.

— Não, Reverendíssimo; mas achei o modo de descobri-las.

Voltando então a capa do alfarrábio, o P. Soares leu o gordo título da obra, escrito, com tinta vermelha, em bastardinho floreado.

O título rezava:

Memória circunstanciada Que A respeito das famosa's Minas de Prata de Jacobina

escreveu o padre Manuel Soares,

da Companhïa de Jesus, Religioso Professo, e Cronista da Província do Brasil,

Seguida de notas críticas e explicativas para melhor inteligência do texto.

Cidade do Salvador. — Ano MDCVI.

Não se achava muito desenvolvido naquela época o espírito de associação literária, nem se tinha inventado ainda institutos e academias de tôda a espécie; pois é natural que o Reverendo P. Manuel Soares não se esquecesse de comemorar no frontispício do livro, à guisa de alguns autores modernos, os seus diplomas científicos.

Os olhos já apertados dos jesuítas começaram a toscanejar de uma maneira significativa.

— Tem esta memória duas partes. Na primeira trata-se de saber que destino teve o roteiro de Robério Dias. a segunda procura-se conhecer aproximativamente o lugar onde existiam as minas. Vou ler.

— Tudo isso, P. Soares? exclamou o assistente em cujo rosto pintou-se o pavor que lhe inspirava semelhante leitura.

O cronista sorriu:

— O texto é pequeno e escrito em bastardinho; o que avultam são as notas, e estas V. Reverência consultará depois.

— Contudo, não será melhor amanhã?

— Amanhã?... Ninguém sabe o que pode acontecer.

— Está bem, leia, P. Soares, disse o assistente recostando-se no espaldar da poltrona.

A imparcialidade de historiador nos põe o dever de protestar contra a injusta prevenção do respeitável capítulo sôbre a prosa do Reverendo Manuel Soares.

O ilustre cronista da Província do Brasil, como Cervantes, havia pressentido já no século VIII a invenção da escola romântica, à qual deve a literatura moderna tantos primores e maiores extravagâncias literárias. A sua narrativa tinha a forma dramática do poema antigo e a simplicidade do conto da média idade. O estilo chão e fluente desmerecia talvez pela falta do nervo e concisão da frase, mas compensava êste senão com a naturalidade e singeleza da expressão.

É pena que êste livro precioso se tenha perdido, pois sem contar a descoberta importante de que tratava, daria à história que ora escrevemos um testemunho irrecusável de sua veracidade.

O jesuíta abriu o alfarrábio com muita solenidade, e dispôs-se a começar a leitura no meio do mais profundo silêncio, pois era o siléncio da modôrra. De feito o capítulo, com exceção do P. Inácio absorvido em suas meditações, sofria naquele momento, a ação soporifera que sôbre êle exercia a crônica das minas de prata; mas o autor, com a consciência do merecimento de sua obra, não via senão o recolho de quem se preparava à audição.

Não há notícia do que leu nessa noite o Reverendo Manuel Soares, cronista da Província do Brasil; porque ainda é duvidoso que algum dos respeitáveis conselheiros que compunham seu auditório o ouvisse. Antes que o leitor chegasse ao fim da primeira parte, a grande lâmpada, falta de óleo, crepitou e a luz extinguiu-se.

Este caso imprevisto dissolveu o capítulo com verdadeira satisfação dos reverendos professos, que foram acabar no leito o primeiro sono interrompido. O último a retirar-se foi o provincial, que depois de fechar as arcas e armários com a costumada prudência, entregou a correia de chaves ao assistente, como superior da casa.

Já o silêncio se restabelecera nas vastas salas e corredores do convento; todo o claustro parecia entregue ao repouso, quando de nôvo a luz mortiça de uma lanterna alvejou nas trevas, e veio caminhando na direção do cartório.

A chave rangeu na fechadura, e o P. Gusmão de Molina, pois era êle, penetrou no gabinete e fechou-se por dentro. Aí demorou-se o resto da noite, lendo o grosso in-fólio do P. Manuel Soares com ardente curiosidade. Alguma vez parava para refletir, mas prosseguia logo com maior afã a interrompida leitura.

Afinal encontrou êle o que procurava. Leu e releu uma é muitas vêzes a página; acabou arrancando-a sutilmente do ventre do alfarrábio. Dobrou-a e escondeu no bôlso interno do hábito; restituindo o manuscrito à arca onde jazia tornou com o mesmo mistério à cela que lhe haviam destinado.

O dúbio palor que procede a alvorada descorava o oriente, quando o visitador entrou na cela. Ainda uma vez absorveu-se na leitura da fôlha arrancada ao manuscrito, como se a quisesse decorar; depois abrindo o missal, copiou em cifra, de que só êle tinha a chave, o contexto da página.

Então a chama da luz que o esclarecia devorou lentamente a fôlha do manuscrito, cuja cinza pulverizou a mão prudente do jesuíta.

O P. Gusmão abriu o postigo da janela; a fresca brisa que impelia o pirajá da Ponta do Padrão refrescou-lhe a fronte abrasada pela vigília e por fundas meditações.

Longe recortavam-se no escuro do horizonte as colinas de Itaparica; sôbre a polida face do mar passavam, como frouxos reflexos das estrêlas, as velas dos barcos pescadores, que já se aproximavam de terra. Nem mais borborinho de festa, nem mais rumores do mundo.

A cidade repousava fatigada das emoções da véspera, enquanto a natureza plácida preparava a festa serena do nascer do dia.

Interrompeu a meditação do visitador, uma forte pancada vibrada na porta larga do convento por mão robusta e sôfrega. O jesuíta debruçando-se à janela viu parado no pórtico um vulto armado; poucos instantes passados ouviu o diálogo que travava o irmão Porteiro com o desconhecido.

— Quem vai lá por tais desoras?

— Um servo de Deus, irmão Bernardo.

— Um servo de Deus! resmoneou o porteiro. Todos o são quando lhes faz conta.

— Pois não me conheceis? Manuel Batista, escudeiro da senhora D. Luísa de Paiva?

— Bem me queria parecer que já vos tinha ouvido a voz algures. .. Com que então sois Manuel Batista?

— Sim, Manuel Batista.

— O escudeiro da senhora D. Luísa de Paiva?

— O próprio sem tirar nem por.

— Da senhora D. Luísa, viúva do mercador...

— Isso mesmo, irmão Bernardo. Mas com o favor de Deus abri, que já me tendes aqui há bom credo!

— Lá se vai, la se vai, irmão. Com que então sois o escudeiro da senhora

D. Luísa, daquela que mora além dos Padres Bentos? Estais bem certo disso?

O escudeiro mordeu nos beiços uma jura bem pouco cortês e desabafou abalando a portada com um murro furioso.

— Quereis fazer a mercê de abrir?

— Esperai com Deus, irmão Batista. A impaciência é um pecado; e já agora fareis penitência dêle.

— Irmão Bernardo, irmão Bernardo! retrucou Batista: tendes muitas palavras para leigo, e pouca inteligência para um porteiro. Queira Deus que a senhora D. Luísa não faça disso sabedor o Reverendo P. Figueira, que certo o levará ao Provincial.

O argumento calou no ânimo do leigo, que resolveu enfim alumiar a candeia.

— Hum! hum! hum! ... Mas, enfim, dizei duma feita a que vindes.

— Venho procurar o Reverendo P. Figueira da parte da dona.

— E que tamanha estreita é esta? Já se acha ela in extremis?

A porta abriu-se; o escudeiro como quem era conhecedor da casa barafustou pela escadaria em direção aos dormitórios.

O P. Molina chegava à porta da cela para inquirir de Batista o motivo de tão pressuroso chamado que enviav a D. Luísa ao seu confessor, quando encontrou-se face a face com o P. Inácio de Louriçal. Trocadas as saudações com a costumada humildade evangélica, o visitador esperou que o religioso lhe comunicasse o assunto de visita tão matutina.

— Venho pedir a V. Reverência uma graça.

— Diga, P. Inácio; e seja ela tal que eu possa satisfazer a V. Paternidade sem prejuízo do serviço de Deus:

— Não pode ser em prejuízo do serviço de Deus, pois é para seu maior serviço. Venho pedir a V. Reverência que me deixe ir apostolar no sertão, entre os selvagens que tanto carecem da palavra divina, da qual nunca seremos pródigos em demasia, nós, os ministros do Senhor.

— De quando é essa meritória inspiração?... Seria a nossa chegada a esta casa que tanto afervorou o zêlo de V. Paternidade? `

E como o jesuita não respondesse, o visitador continuou em tom de severidade.

— P. Inácio, P. Inácio, o orgulho é mau conselheiro. Initüzm omnis peccati est superbia, disse o Eclesiástico. Ontem fui de contrário aviso ao seu, na maneira de entender o nosso santo ministério; e o fui por dever, que não por mundana vaidade de primar sôbre o próximo. Doeu-lhe a contrariedade; por isso quer já evitar a nossa presença. Não pode ser bem aceita de Deus a oblação que vem do mau pensamento.

— Humilho-me diante de V. Reverência como um grande pecador que sou, mas de orgulho não me acusa a consciência. P. Visitador. O apostolado foi sempre o meu constante desejo; agora mais do que nunca. Entre o gentio, um sacerdote ignorante e simples será sempre agradável ao Senhor ensinando o Evangelho; enquanto que nas cidades, as obras são de vulto e os casos difíceis. As fôrças me falecem para tamanha emprêsa.

— Recaiu em culpa e pena, P. Inácio; essa fingida humildade é soberba ainda. Amesquinha o apostolado; mas está se vendo que sua intenção foi exaltá-lo, desdenhando daqueles que se ocupam com outros deveres, também árduos, do nosso Santo Instituto. Parece que a obediência de V. Paternidade repugna com êles.

— A minha obediência é sem limites, P. Visitador, mas a minha inteligência é acanhada. V. Reverência me ensinou ontem que há deveres que não sei compreender; confesso a minha fraqueza; temo que a minha rudez, não me torne tíbio e irresoluto. receio de pecar por ignorância,

P. Visitador; não falta de zêlo, menos soberba.

— Bem; não comece pelo rigor o uso do pleno poder que o sumo prelado da Companhia nos confiou para govêrno desta Provincia: vá apostolar o P. Inácio. Quando V. Paternidade se achar só com a sua consciência, conhecerá que tínhamos razão; estou que nos virá então de ânimo contrito. Saiba porém que o maior martírio que levamos em oferenda ao Senhor não é o martírio da carne, que nos tinge de vermelho a túnica e macera êste pó de que fomos amassados. Oh! que não! Há mais cru e de maior angústia. : o martírio d'alma, cheia de caridade e crivada das dores que afligem a pobre humanidade; é a coroa de espinhos do apóstolo mandado para resgatar o homem do pecado com as lágrimas e sofrimentos do próximo. Êsse sim é martírio; não de sangue, mas do espírito.

Nesse momento o P. Figueira acompanhado do escudeiro de D. Luísa aparecia na extrema do corredor.

O escudeiro penetrando no convento, correra direito à cela do confessor de sua ama, e sem dar-lhe tempo de vestir a capa, anunciara que vinha:

— P. Mestre! P. Mestre! Trago recado da dona para que sem perda de tempo a vá socorrer com seu adjutório.

— O que houve por lá?

— Saberá o Reverendíssimo que ignoro. A dona só me disse para trazer, que o caso era intrincado e ninguém mais lhe podia valer, senão o P. Mestre.

— Isto foi o que mandaram dizer; diga agora o que sabe, respondeu o jesuíta envergando o hábito.

— O que sei? Mas eu não sei nada, Reverendíssimo!

— Manuel Batista, você não está em estado de graça. Hoje é sexta-feira: vou ouvi-lo de confissão, antes de pàrtirmos.

O escudeiro pôs-se na ponta dos pés e segredou no ouvido do religioso, em cujo rosto pintou-se o assombro do que ouvia.

— A filha! ... A menina Elvira? ! ... exclamou o frade.

— A menos que não sejam coisas do Tinhoso! ... Vade retro!

— Bom, bom! Vamo-nos sem detença. Remiu sua culpa, Manuel Batista. De caminho rezará em voz alta três credos; é a penitência que lhe dou. Para outra vez a terá anoveada.

Encontrando o visitador, o P. Figueira tomou-o de parte para comunicar-lhe o motivo de sua diligência. Pouco se demorou; logo descendo a larga escadaria de pedra, transpôs o limiar e cortou a passo miúdo, mas rápido, na direção dos beneditinos.

Seguia-o de perto o Manuel Batista, o qual em cumprimento da penitência, declarava no tom da verdadeira compunção o Creio em Deus Padre.

O sol já vinha despontando; seus primeiros raios douravam os cimos das verdes colinas grupadas em pedestal à cidade, e iam carminar as orlas das brancas nuvens esgarçadas pelo azul do céu.

O pirajá que durante a noite se desfizera sôbre a cidade, umedecera o arvoredo, que ainda nesse tempo entrava pelo recente povoado, recortando as ruas e praças e dando à cidade uma feição campestre de amena singeleza. As aves silvestres atitavam na ponta dos telhados cobertos de parasitas: o gado mugindo alegremente retouçava à beira do caminho.

Era uma fresca manhã das que vigoram o corpo nos países tropicais, e lavam o peito com os acres perfumes das plantas; manhã que já não se pode hoje gozar senão longe das cidades, procul negotirs.

CAPÍTULO XX - POR QUE O IRMÃO BERNARDO NÃO ACABOU O SONO DA MADRUGADA

E Enquanto o P. Figueira, seguido pelo seu penitente acólito, vai lesto galgando a estreita vereda que serpeja pelo vale na direção dos beneditinos, o compilador destas velhas memórias irá em busca de Cristóvão, que ficou em ação de contar a Elvira as festas do Terreiro do Colégio.

O vulto que a desoras aparecera no pátio da casa de D. Luísa de Paiva e se adiantara manso e manso, era o caseiro e homem de confiança da rica viúva; melhor diríamos mordomo, se êste cargo não fôra privativo das casas de primeira nobreza.

Quando Elvira, reconhecendo Cristóvão embaixo de sua janela, soltou a imprudente exclamação do júbilo que lhe causava a presença de seu amante, o caseiro não dormia. Privado da festa pelas práticas severas da viúva, que impunha o seu beatismo aos próprios fâmulos, Manuel Batista consolava-se com alguns restos da adega do falecido mercador, e preparava-se por meio de uma ceia fria e suculenta para o jejum da sexta-feira.

Ouvindo o estranho grito, o caseiro passou a cabeça pelo postigo; viu um vulto galgar a janela de Elvira, e desaparecer no interior. O doce murmúrio de vozes abafadas, que lhe trouxe a brisa daquele lado, fêz-lhe compreender o que passava, e colocou-o em sério embaraço.

Se o desconhecido fôsse um malfeitor, o negócio era simples. Batista tinha no canto armas de boa têmpera, e sempre pronto um braço robusto e ágil. Mas era outro o caso; a menina levaria decerto a mal qualquer ato de violência contra seu namorado; e o prudente caseiro não se julgava habilitado a obrar, sem ordem expressa da dona.

Firme nessa resolução, fechou o postigo, fêz desaparecer os vestígios da ceia, foi direto à câmara da aia, a quem mandou acordar a viúva. Esta pressentindo um acontecimento extraordinário, se ergueu e compôs logo.

— Que há, Batista?

O caseiro contou quanto sabia.

— Julgais que êle ainda ali esteja? perguntou a dama depois de ouvi-lo friamente.

— A não ter saído enquanto vim prevenir-vos.

— Pois ide e guardai a janela. Dizeis que não é um ladrão; é um ladrão, vos afirmo eu, ladrão de minha honra e sossêgo! Tratai-o como tal!

Batista voltou; D. Luísa tomando uma adaga da antiga armadura de seu marido, erguida ao lado da sala, dirigiu-se, ela só, para o quarto de sua filha.

Elvira e Cristóvão sentados no estrado repetiam ainda uma vez as juras e doces protestos de eterno amor, quando a menina viu pelo espêlho do tremó o lado oposto da tapeçaria que afastavam, e o vulto de sua mãe que surgia lívido e ameaçador, brandindo na mão convulsa o punhal meio oculto pelas dobras da roupagem.

Ela via, pasma de grande terror, o vulto crescer e caminhar com passo hirto, abafado pelo tapête; Cristóvão sem aperceber-se da mudança de seu semblante murmurava as ternas falas que ela já não escutava. Mas quando o punhal vibrado pela mão nervosa, cintilou aos reflexos da luz, rápida como o pensamento, Elvira soltou um grito convulso, e envolvendo o corpo de seu amante, furtou-o ao golpe mortal. A ponta do ferro ainda rasgou a cambraia da anágua, esfrolando a cutis de cetim da mimosa espádua.

Houve grande silêncio; as três personagens desta cena formavam um belo grupo.

Cristóvão, que se erguera surprêso, estava imóvel, de cabeça baixa; em face de D. Luísa, muda e sombria, com o colo distendido, parecia espreitar a prêsa; Elvira, de cabelos desgrenhados, lábio trêmulo, roupas espedaçadas e rubras de sangue, era sublime na ferocidade do seu amor. Debruçada tôda sôbre o cavalheiro, que ela defendia com o corpo voltando o rosto sôbre a espádua para fitar sua mãe, com uma das mãos estreitava o amante ao seio, e com a outra tocava o cabo do punhal na cinta de Cristóvão.

E assim, mãe e filha afrontavam-se, uma nos seus instintos de cruel vingança, a outra no heroísmo de sua veemente paixão. Mas era sôbre-humano o esfôrço; não podia durar. D. Luísa deixou cair o punhal da mão; Elvira desmaiou nos braços de Cristóvão.

O môço pousou sôbre o estrado o corpo inanimado de sua amante e foi ajoelhar aos pés da dama.

— Fugide à minha vista! gritou D. Luísa sufocada pela cólera.

— Grande foi meu crime, senhora; seja grande vosso castigo. Se me julgais indigno do amor de Elvira e de vosso perdão, pereça eu pela mão que ultrajei, mas quisera beijar como filho.

Cristóvão proferiu estas palavras apresentando o punhal que erguera dos pés da dama. D. Luísa hesitou um instante; afinal mostrando a janela com um gesto enérgico, exclamou de nôvo:

— Saíde! Não insulteis esta casa com a vossa presença! Saíde!

O môço conheceu que não havia lutar contra tão violenta cólera; dirigindo-se à janela, saltou no pátio.

A mãe de Elvira correu imediatamente para espreitar o que passava fora; viu cinco vultos botarem-se ao cavalheiro apenas êle tocou o chão. Soou logo o estrupido dos pés que batiam como se a luta andasse travada entre adversários; após o tinir de armas que esgrimiam.

Elvira saiu do desmaio, como por estranha impulsão. Ergueu a cabeça e inclinou o ouvido para receber os ligeiros rumores que vinham de fora. Quando distinguiu a natureza do som áspero e metálico, que lhe irriçara os cabelos, surgiu de um salto, ofegante e esvairada.

Sua mãe, vendo-a precipitar-se para a porta entreaberta, apenas teve tempo de gritar-lhe:

— Elvira, onde ides?

— Morrer com êle! ... exclamou a menina sumindo-se pelo corredor.

Instantes depois uma branca sombra atravessou veloz pelas trevas da noite, passou entre as espadas nuas, e foi cair nos braços de Cristóvão. O môço reconheceu a sua Elvira querida e julgou-se feliz de poder apertá-la ao seio ainda uma vez antes de morrer.

As armas abaixaram-se diante da donzela, que se voltara para os agressores dizendo-lhes:

— Matai-me primeiro a mim!

Batista que capitaneava os acostados, não sabia como desatar êste nó, quando para desencargo seu, D. Luísa apareceu no pátio!

— Fugi! Eu vo-lo suplico! disse ràpidamente Elvira ao ouvido de Cristóvão.

E como êle hesitasse:

— Salvai-vos por mim, e para mim!

— E vós, Elvira?

— SOOU LOGO O ESTRUPIDO DOS PÉS QUE BATIAM COMO SE A LUTA ANDASSE TRAVADA ENTRE ADVERSÁRIOS; APÓS O TINIR DAS ARMAS QUE ESGRIMIAM.

— Não temais. bárbara, mas é mãe.

Súbito, uma voz possante cortou o silêncio do êrmo, e elevou-se cheia e sonora, modulando ao longe uma chacota popular da época:

"Santo Antônio de Argoim Sentou praça de soldado; Tem capa de carmesim, Ganha de sôldo um cruzado, Santo Antônio de Argoim".

Cristóvão escutava com alegre sobressalto êsse descante a horas mortas, quando depois de breve pausa a voz atacou a segunda copla.

"Cachopa de Matoim, Dá-me praça em teu cuidado, Por capa a fralda cetim, De sôldo um riso lavado, Cachopa de Matoim".

O leitor curioso de conhecer a crônica de Santo Antônio de Argoim, a quem deu El-rei em prêmio de seus bons serviços praça de soldado raso na Fortaleza da Barra e o sôldo correspondente, pode ler as memórias do tempo; basta-lhe saber para melhor inteligência desta história, que Santo Antônio de Argoim era então o santo mais milagroso da Bahia, como tal celebrado nas cantigas do popular; e bem assim que as cachopinhas da ribeira de Matoim traziam de canto chorado os seus adoradores. Cristóvão tinha, antes que terminasse a segunda copla, levado as mãos à bôca; e soltara pela expulsão do ar comprimido um dêsses assobios longos e agudíssimos, como se ouvem nas assuadas da plebe. Havia porém uma modulação especial no aviso do cavalheiro; depois do sibilo vivo e prolongado que subiu ao último tom da gama, sentiu-se como um trêmulo de aspiração, e por fim o pizzicato de três notas sôltas e destacadas.

Era visivelmente um sinal que mandava Cristóvão a alguém através da distância que os separava; mal expirou o eco entre os murmúrios da noite, um assobio inteiramente semelhante respondeu longe; daí a um instante, mais perto e rápido, talvez pedindo a direção do sítio donde partira o aviso.

— Tranquilizai-vos, Elvira minha. Estou salvo! disse o môço depois de ter dado a réplica ao misterioso diálogo.

Era tempo, porque D. Luísa chegando travara do braço da filha e procurava arredá-la do lugar da luta. Elvira quis resistir ainda; mas um gesto cheio de confiança de seu amante e um nôvo sinal muito próximo que anunciava o pronto socorro, a persuadiram. Seguiu lentamente a mãe até o meio do pátio; aí foi necessário que a aia a tomasse ao colo para fazê-la entrar à fôrça.

Retirando-se, a viúva voltou-se para Batista, e atirou-lhe estas palavras em tom breve e ríspido.

— Aí o tendes!

O -caseiro, visìvelmente preocupado com o singular diálogo de Cristóvão, sondava as trevas em tôrno, julgando ver surgir a cada momento dentre a ramagem alguma quadrilha de alguazis ou gente armada.

Obedecendo porém ao pensamento, mais que às palavras da dona, fez um sinal aos acostados, e avançaram em linha contra o cavalheiro já preparado para recebê-los.

O combate continuou.

Cristóvão já ferido defendia-se com a espada na mão direita, e na esquerda um forte bastão que improvisara de um galho sêco. Mas o que o salvava ainda, era a ligeireza do salto, que não permitia aos agressores cercá-lo e feri-lo pelas costas.

Contudo a posição do cavalheiro empiorava a cada instante. Recuando aproximara-se do largo e fundo valado que cercava o pátio da casa; a estreiteza do espaço já não lhe permitia as livres e rápidas evoluções com que resistira à grande superioridade do inimigo.

Nisto assomou da outra banda uma figura de homem sêca e pernalta, que avançara com passo tardo e desgarrado. Nesse andar preguiçoso vencia o sujeito mais distância que o melhor caminheiro a todo o estirão; mas também quando êle abria o largo compasso das pernas, e assentava e chanca espalmada num sôco de couro cru, parecia que se escarranchava no chão para surgir de nôvo e de nôvo mergulhar na passada desmedida. A estatura descia então mais de palmo; os braços abanados e já longos de si rastejavam quase; e o enorme tamanco deixava no chão um sulco profundo.

Era uma ridícula figura!

Trazia, atirado para as costas e prêso ao pescoço por um rosário de côco, um grande chanfalho de fôlha larga e fornida, semelhante aos que ainda hoje usam alguns sertanejos, e servem ao mesmo tempo de faca, de espada, de cavador e foice a quem anda habitualmente pelos matos virgens. Um completo varapau com pontas de ferro, atravessado por baixo dos braços ao través do lombo, completava o equipamento guerreiro do grotesco personagem.

Chegando à beira do valado aprumou o talhe e mostrou um instante a descomunal elevação da estatura; mas logo vergando como um arco sôbre o fôsso, o olhar felino prescrutou as sombras e viu o que passava do lado oposto.

Cristóvão também o vira e reconhecera, pois o chamou pelo nome.

— João Fogaça!...

— Tente com êles, Cristovinho: três botes ainda, enquanto engambito êste vale de mil demônios!

— Avia, amigo, se não tarde chegarás! respondeu o cavalheiro.

— Seria a primeira vez, que tal me acontecesse rapaz! Ai, que neste jeito, não me deixas nenhum dos malandro, para que eu tenha o gôsto de tosar-lhe a pele.

Cristóvão com efeito acabava de prostar um dos adversários; mas ainda restavam quatro contra êle ferido e debilitado com a perda de sangue; quatro assassinos excitados pela resistência heróica, pela ambição do salário, e o receio de nôvo e fresco inimigo que se aproximava.

— Espera, corja de biltres; eu já te dou a amostra do pano. Vais ver de que massa é feito João Fogaça, o capitão-de-mato.

E fincando os pés na borda, colheu as curvas elásticas, para saltar de um pulo temerário tôda a largura do fôsso; mas um obstáculo imprevisto sobreveio.

Duas mãos robustas pesaram-lhe sôbre os ombros, quando êle já desenvolvia o salto:

— Alto lá, camarada! proferiu voz estranha.

O capitão-de-mato, sentindo falhar-lhe o primeiro impulso pela brusca intervenção, teve apenas o tempo de saltar para trás, e pôr-se em defesa contra a agressão inesperada. Achou-se então cercado por seis homens que chegavam sôbre seus passos.

Um dêles, que parecia ter sôbre os outros certa proeminência de chefe, fôra quem retivera o capitão-de-mato no momento em que êste ia saltar o fôsso.

— Peai-me já êste senderio manhoso, vós outros, disse êle para os companheiros.

E adiantou-se para o valo:

— Que é isso lá? gritou para a outra banda.

— É um homem que assassinam covardemente! disse Cristóvão.

— Olé, Anselmo! exclamou Batista. Foi Deus que vos trouxe por essas bandas para dar-nos uma demão cá neste negócio.

— O negócio é vosso, mano; o meu ainda não sei qual seja, respondeu Anselmo.

— Também já está a concluir, acudiu o caseiro; basta que tenhais filado, um credo só, êsse escarniçado capitão-de-mato! ...

— Há de se ver isso! ...

— O Anselmo voltou-se para conhecer a causa do rumor que ia entre os seus e João Fogaça; sentindo as costas guardadas, continuou a conversa:

— Antes de correr a dado olha-se a parada, amigo Batista. Ainda não i como fala êsse cavalheiro, que vende a vida mais caro do que desejais. Vêde!... quase estroncou-vos o braço!... Se êle tem a bôlsa tão pesada, quanto o bote que vos atirou, estou apostando que não lhe levareis a melhor.

— São vossas dez moedas! exclamou Cristóvão animado de súbita esperança.

— As falas são boas, retrucou Anselmo. O que falta saber é se obras correspondem.

O salteador armou o arcabuz:

— Eh lá, amigo Batista! Arreda, se não quereis que vos faça um fricassé dos miolos. Paz, enquanto me entendo cá com o fidalgo.

— Mas, Anselmo, esta é uma ação má que praticais, e de que vos heis de arrepender cedo ou tarde!

— Tendes mais de dez moedas para picar o páreo?

— Quando as tivesse, não seríeis vós que lhe havíeis de pôr o gadanho, burlão!

— Pois não me obrigueis a fazer em vez de má, uma boa ação, mandando-vos direitinho para as caldeiras do compadre Botelho. Arreda, vos digo eu!

Batista, diante da bôca do arcabuz voltada para êle, cedeu bem contra a vontade, e recuou com os seus companheiros a uma pequena distância.

— Mais! Mais! ... Sois madraço, mano, mas não me embacais! Bom, meu fidalgo, contai as dez moedas, atirai cá a bôlsa, e dou-vos carta de seguro até a porta. Até se quereis, podemos preparar para vosso divertimento um sarapatel dêsses quatro borregos que aí estão tanto há para matar um homem. Quanto ao Maneco, eu lhe apararei as orelhas para doutra feita ouvir melhor!

Cristóvão desgraçadamente não tinha bôlsa consigo; a que êle trouxera, vinha cheia das prendas que dera a Elvira. Pressentindo porém que o desconhecido não lhe prestaria o prometido auxílio sem palpar as moedas, o cavalheiro assentou de ganhar tempo, fingindo procurar um objeto que êle sabia ausente.

— Muito custam a desatar os cordões de vossa bôlsa, meu fidalgo, disse Anselmo já desconfiado da demora. Tão leve a trazeis, que não sentis onde vos pesa.

O môço tinha ao menos conseguido descansar algum tempo; fingiu pois que de nôvo procurava, e aproximando-se do fôsso, respondeu a meia voz:

— Sem dúvida caiu-me a bôlsa na luta; mas com isso nada perdeis. Hoje mesmo vos contarei não dez, senão vinte moedas. Palavra de cavalheiro!

— Ai! meu fidalgote de sólio! Cuidei que tínheis outro metal de voz! O vosso não tine, nem mesmo a prata velha!

— Chega-te mais perto que eu te farei tinir no costado outro metal de melhor cunho! retrucou o môco sentido revoltarem-se os brios.

— Estais assim com essa pressa de esticar a canela? Pois faça-se a vossa vontade. Vou tirar-vos êsse gôsto, manos!

E de feito apontava o arcabuz para Cristóvão. Enquanto isto passava à beira do fôsso, outro incidente tivera lugar ali perto.

Os cinco desconhecidos obedecendo à ordem do chefe, tinham corrido sus a João Fogaça para segurá-lo; mas o capitão-de-mato sempre impassível inteiriçou a perna esquerda, e levantando a direita horizontalmente, girou sôbre si mesmo com velocidade incrível. Por onde passou-o dúplice corrupio do varapau e do enorme tamanco ferrado, se encontrou braço, estroncou, se bateu em cabeça, rachou.

— Ainda faltam seis para a minha conta! disse o capitão-de-mato contando os adversários colocados em respeitosa distância e bem maltratados do primeiro ataque.

João Fogaça ruminava nos meios de socorrer Cristóvão, quando as coisas tomaram melhor aspecto com o oferecimento das dez moedas. Sempre alerta acompanhou os incidentes da cena; se os seus adversários faziam o menor movimento para atacá-lo, o compasso da perna abria-se como para mostrar o raio de círculo que não podiam transpor; e tanto bastava para que êles recuassem logo.

Mal Cristóvão declarou ter perdido a bôlsa, o capitão-de-mato pressentindo o desfecho, tomou a sua posição de ataque; mas desta vez o corrupio avançando rechaçou os cinco bandidos para os lados, e aproximando-se do fôsso no momento em que Anselmo levara o arcabus à face.

De um revés do pé, o capitão-de-mato, atirou com o salteador no fundo do valado. Já os outros porém estavam com êle, e o impediam pela necessidade da defesa, de tentar o salto difícil senão impossível do largo fôsso.

Cristóvão estava prestes a sucumbir sob as espadas que o ameaçavam de nôvo, depois da curta trégua. Cansado da heróica defesa, perdida já tôda a esperança, atirara-se com raiva e desespêro sôbre os agressores. Mais um caiu sob o fio de sua espada; porém restavam três, e por cúmulo de infelicidade acabava de receber na curva um golpe, que o forçara a ajoelhar' Nessa situação extrema, o que o sustinha ainda, não era já o instinto da conservação, mas sêde de vingança somente. Queria antes de morrer matar mais um, todos se pudesse, de seus vis assassinos.

Que fazia entretanto Elvira?

Morria e revivia para tornar a morrer de mil mortes, que lhe dava a cruel angústia. Com o ouvido à escuta, absorvida tôda em sua aflição, ajoelhada aos pés do crucifixo, queria orar e não podia. A alma ia-se de Deus ao triste amante.

CAPÍTULO XXI - COMO SE ACHOU O CAPITÃO-DE-MATO TÃO A PONTO DE SOCORRER SEU COLAÇO

Em vida do pai de Cristóvão, morava nas terras de seu engenho, Garcia, um roceiro pobre, casado em segundas núpcias.

Sua primeira mulher, que servira de ama a Cristóvão, deixara um filho de sete anos, feio menino e desengraçado sim, mas de excelente índole. A madrasta foi má para o enteado, como sempre sucede, e escorraçou a pobre criança.

O menino fugia de casa para evitar os maus tratos, e escondia-se na próxima capoeira. Aí passava o dia entretido em ver as formigas carregando a areia do buraco, em armar arapuca às rôlas e sabiás, ou trepar nas árvores para dar caça aos ninhos A princípio ainda recolhia à casa nas horas de refeição; depois só para cear e dormir. Os frutos silvestres lhe sabiam melhor do que a broa, que o pranto amargava.

Quando voltava do mato, já lusco-fusco, era raro que não trouxesse, escondidos no seio da camisa, algum ninho de ave, uma fruta, ou bonitos passarinhos que dividia entre o seu colaço e uma menina do lugar, filha do vizinho.

As vêzes e bem freqüentes, que a madrasta o castigava bàrbaramente sem arrancar-lhe um gemido dos lábios cerrados ou uma lágrima dos olhos secos, era no seio de sua camarada de infância, que a vítima desafogava o coração. Mariquinhas chorava também; pranto copioso vertia dos olhos de ambos. Então o menino arrependia-se da mágoa que causara à sua amiga, e inventava algum folguedo para alegrá-la.

De lastimando-se que estavam, logo começavam de rir e folgar. Abençoadas lágrimas da infância, dose linfa que mana o coração, enquanto puro e virgem, como límpidos orvalhos da manhã da vida Não conhecessem os olhos que as vertem, aquêle outro pranto amargurado, que sangra mais tarde da alma ulcerada!

Veio a adolescência.

João habituado já à solidão e afeito com os acidentes do campo, se arriscara até a mata virgem, e breve soube-lhe dos mais recônditos mistérios. Ninguém melhor que êle seguia a pista do animal, ninguém melhor imitava o silvo da cobra, o assobio da anta, o canto de todos os pássaros. Muitas vêzes atraíra o iludido animal, que lhe acudia como ao terno companheiro.

A gente do lugar chamava-o caiporinha, de uma palavra tupi que significa — habitante da floresta; e com efeito o apelido quadrava perfeitamente, porque vindo a falecer-lhe o pai, êle abandonara de maneira a casa paterna, e aí não pôs mais os pés, desde o dia em que saiu órfão. Arranjou então uma miserável palhoça à beira da mata; e ainda essa parecia luxo; sua verdadeira moradia continuou a ser a floresta, onde cada árvore lhe dava abrigo durante a noite.

Por êsse tempo, Cristóvão, cinco anos mais môço do que o seu colaço, já se afoitava a travessuras maiores de sua idade, e freqüentes vêzes acompanhava o caiporinha nas excursões pelo mato.

Quando sucedia separarem-se no escuro da floresta, o menino sentia-se tomado de um estranho pavor; para animá-lo e indicar-lhe o seu ponto, tinha o João um modo de assobiar mui particular, e de tal fôrça que atravessava os rumores da mata sem confundir-se nêles.

O costume fêz que êste assobio se tornasse com o tempo um sinal de aviso em todos os incidentes de sua vida comum. Queria João comunicar a Cristóvão alguma caçada de jacus, a que pretendia ir à bôca da noite? Assobiava de longe; e o seu colaço fazia uma escapula de casa para vir falar-lhe. Carecia Cristóvão do companheiro alguma vez para irem-se de camarada ao banho ou ao passeio? Não tinha mais do que pôr-se ao vento da palhoça e soltar o assobio: João com pouco ali estava rente.

Fôra igual aviso que dera Cristóvão quando, no transe em que se achou, ouviu a cantiga predileta do capitão-de-mato; o mesmo foi reconhecer-lhe a voz que lembrar-se dos folguedos de sua infância tão presentes à memória. Depois daqueles tempos felizes e descuidosos muitos e muitos acontecimentos haviam passado que são de saber. Cristóvão chegara a mancebo e cavalheiro; João alcançara uma patente de capitão-de-mato para o que tinha muita propensão.

Naquela época em que a floresta confrontava com a cidade e quase lhe invadia os quintais, oferecendo ao crime como ao vício couto seguro e asilo contra a vindita da lei, o capitão-de-mato foi ofício de importância. Era quem melhor policiava o estado, e ia aos desertos sertões trazer o réu à justiça, o escravo ao senhor, e perseguir as hordas selvagens quando infestavam a vizinhança dos povoados.

João Fogaça porém não seria capitão-de-mato se não fòra sua má estrêla.

A menina, que lhe dera os primeiros amôres, estava já môça, guapa e formosa. Era conhecida pela Mariquinhas dos Cachos. Viera-lhe o nome das lindas tranças pretas aneladas que brincavam sôbre as espáduas torneadas. Quando ela vestia aos domingos, para ir à missa da capela, sua vasquinha de belbute azul com saiote de sêda, não havia em tôda aquela ribeira quem não suspirasse pela gentil cachopa. João a amava desde a primeira infância. Se com os anos vieram a timidez, o recato, a esquivança, por outra parte o sentimento criara raízes mais profundas, como as túbaras, que medram no seio da terra, embora tenham a rama crestada do sol.

Assim os dois já não brincavam com a antiga efusão; mas em compensação viviam mais um de outro.

A melhor porção da vida de João era da môça. Sua lembrança amiga o acompanhava nas correrias através das matas. Quanto colhia de gracioso e delicado, flor, ave, ou fruto, era para ela; quanto via de bom e lindo, misturava-se logo em seu espírito com a imagem dela. Mariquinhas de seu lado seguia com o pensamento o jovem caçador, estremecendo à idéia dos perigos que porventura corresse. Ao cair da noite o esperava ansiosa entre as moitas do quintal, junto à cêrca, onde costumava falar-lhe tôdas as tardes. O coração soçobrava em alegria e susto ao mesmo tempo, quando ouvia longe o descante que anunciava próxima a chegada do amigo.

Amavam-se, mas nem sabiam dizê-lo um ao outro; nem conhecê-lo. Entrecriam e duvidavam de sua mútua afeição, e esperavam ambos a confissão que nenhum ousava fazer, e talvez ambos temiam em sua impaciência. Até que o dia chegou da explicação; antes não viera!

Uma bela manhã, por meio do almôço, o pai de Mariquinhas, virou de supetão a cara para a mulher e lhe disse à queima-roupa, em tom que não admitia réplica:

— O José Tendeiro casa com a Maricas. É preciso ver modos de arranjar-lhe o enxoval. Coisa que ande em pouco!

O primeiro movimento da môça foi de espanto; logo após quando ficou só, a angústia encheu-lhe os seios d'alma e transbordou nas lágrimas e soluços. Regalou-se de chorar; e bom foi porque afinal de contas achou-se mais serena. Uma coisa, como a fresca sombra da árvore nas ardentes soalheiras do sertão, foi-se derramando por sua alma crestada e aflita. Horas passadas, a mãe a viu alegre e prazenteira, cantando umas cantigas mui do coração, acordadas com o ponto ligeiro da agulha. Enquanto isso, dizia a menina lá entre si:

— Quando eu contar a João! ... Estou para ver que êle ainda me esconda o muito bem que me quer! ... O pai que faça lá sua conta, eu lhe tirarei a prova. Esta noite mesmo, Deus sabe onde me irei eu.

Tanto que foi por tarde, Mariquinhas largou da costura, fêz às pressas uma trouxa de roupa domingueira, e disfarçando para que a mãe não visse, foi escondê-la junto à cêrca onde costumava falar com João. Depois, às trindades, acabada que foi a reza, tomou a bênção à sua mãe, e saiu de casa, onde ela pensava que não voltaria mais senão noiva recebida de seu querido João.

O rapaz chegou com escuro.

Vinha com o passo lento e o coração a saltar-lhe, porque também êle tinha o quer que fôsse. Naquela mesma manhã lhe ocorrera um engenho expediente para arrancar de Mariquinhas a confissão por que tanto ansiava. O alcaide, a pedido de Cristóvão, e pelas boas partes que lhe conhecia, o propusera a capitão-de-mato. Nunca a João passara pela idéia aceitar o ofício e apartar-se do seu torrão onde via quando êle mais queria neste mundo. Mas êsse mesmo receio de tão cruel apartamento lhe serviu de inspiração. Pensou que fingindo a próxima partida e para tão longes e arriscadas paragens, a menina não se podia ter que não mostrasse o que trazia no sentindo a respeito dêle. Se fôsse amizade somente, êle partiria, e sabe Deus se para não tornar; porém um certo bate-bate do coração estava lhe dizendo que não era amizade, mas amor do melhor quilate, o sentimento de Mariquinhas.

Indo ao encontro da môça dizia êle com os seus alamares:

— Chego; digo-lhe adeus, como quem se parte para tão longe, donde sabe Deus se tornará.

Aqui sorria-se do susto de Mariquinhas:

— Ela se debulha tôda em chôro e salta-me ao pescoço... Então entre dois engulhos sai-lhe afinal de dentro o feitiço de que se morre por mim, como eu me morro por ela. Arrenega-se, quer por tudo quanto há ir comigo por montes e vales. No fim das contas ficamos aqui bem sossegados de nossa vida e amarradinhos. .

Do mais longe que avistou o amigo, Mariquinhas acenou-lhe que apressasse, e êle já corria mal divisara o vulto da rapariga entre as sombras e fôlhas do arvoredo.

— Chega, João, saberás a nova que te guardei! disse a môça com o coração nos lábios.

— Vai dizendo, Mariquinhas! Também eu trago-te uma por que não esperas, respondeu o rapaz mui prazenteiro.

— Pois ouve lá! O pai quer-me para mulher do José Tendeiro! ... Sabes? o remendão!

Dizendo isto o riso argentino desfolhava rosas nos frescos lábios da rapariga.

João enfiou.

— Então coseram-te a língua? Nem dizes que te parece do meu futuro! ...

— Eu, Mariquinhas!... balbuciou João. Eu... que queres que diga, senão que o José Tendeiro há de ser bom marido. .. arranjado e bem visto da gente...

— Achas isso, João? perguntou a môça descorando.

— Acho, sim, Mariquinhas. Só me pesa não estar aqui para as bodas, que vou-me ao sertão. Vinha mesmo para te dizer adeus. Saio pela alvorada.

— Pois era essa a nova que me trazias?

— Que outra podia ser? Querem-me para capitão-de-mato. Não te parece um bom mister para mim que não tenho outro, e a falar verdade para nenhum presto?

— É muito bom, João; e mais tu que tanto gostas de viver no mato. Bem escolheste.

— Como tu, Mariquinhas.

A torvação dos espíritos, mais do que a escuridade da noite, os cegava a ambos, de modo que não se apercebiam do que passava no outro, tão ocupados estavam de si. E entretanto a voz de João enrouquecera; a fala de Mariquinhas tremia com os soluços. Depois de breve pausa a môça tornou:

— Então é esta madrugada, João?

— Se Deus não mandar o contrário. E tu, quando te casas?

— Breve, breve, mas não tanto como esperei

— Adeus. Fica-te na paz do Senhor e felicidade que eu sempre te roguei, Mariquinhas.

— Adeus, João. Os anjos te acompanhem, e Nosso Senhor te leve e traga a salvamento.

João abalara bruscamente às últimas palavras; e Mariquinhas caiu de joelhos-por trás da moita onde escondera a pequena trouxa. Nenhum viu o pranto que lavava o rosto do outro; nenhum ouviu os soluços que rompiam do seio opresso do infeliz amigo.

O elo que unia aquelas duas existências se partira. No dia seguinte, por madrugada, João Fogaça partia para a cidade a receber a patente de capitão-de-mato, e nessa mesma semana fêz-se na volta do sertão. Um mês depois a môça era noiva recebida do José Tendeiro e trocava por êste o seu gracioso apelido de Mariquinha dos Cachos.

Seis anos eram decorridos.

A amizade dos dois companheiros de infância, longe de enlanguescer com o tempo, robustecera ao contrário com os vaivéns da fortuna. no que mostrava sua boa têmpera. Quando João tivera uma grande enfermidade que o levara às portas da morte, Mariquinhas, a mais honesta mulher que se sabia, pediu licença a seu marido, que lha deu, e foi velar vinte dias com vinte noites à cabeceira do enfêrmo. Também quando os selvagens assaltavam uma vez a engenhoca do José Tendeiro, aonde êle então se achava, mal chegou a notícia à cidade, houve um homem e êsse foi João Fogaça que cometeu a temeridade de ir, êle só arrancar das mãos dos canibais o marido de Mariquinhas. Coberto de feridas embora, trouxe-o são e salvo à mulher, sem lembrar-se de que por êle a perdera, e para sempre.

Como que a vida do José Tendeiro só tinha um fim neste mundo, qual o de pôr a prova a sublime abnegação do capitão-de-mato, realizado que fôsse, extinguiu-se de repente. Mariquinhas ficara viúva. Havia isso muito mais de ano; no entanto a situação relativa dos dois amigos e companheiros de infância, pouca ou nenhuma alteração sofreu com aquêle acontecimento.

Quando João Fogaça voltava das suas carreiras, ainda coberto de pó e lama, a primeira porta a que batia, era a de Mariquinhas, a primeira pessoa a que dirigia a palavra, era à viúva do Tendeiro. A môça preparava-lhe a refeição inquiria de sua saúde, espanava-lhe o fato. Só depois de cumprida a devoção dessa visita, o capitão-de-mato ia dar conta de suas obrigações.

Realmente essa amizade já era uma parte de sua rude e simples religião. Êle, o homem das brenhas, costumado a orar ao Senhor no templo aberto da criação, tinha para si que nunca melhor cumpria seus deveres de cristão do que amparando a viúva.

Enquanto se demorava na cidade, todos os dias que Deus dava, o serão ia passá-lo em casa de Mariquinhas. Chegados à janela do oitão, ou sentados ao pé de mesa onde ela à luz da candeia ficava, conversavam como dois amigos velhos do seu bom tempo que passara, até a hora em que a frugal ceia fumegando sôbre o alvo mantém, os convidava à refeição. Havia porém um ponto em que nenhum se animava a tocar: página do coração que cerrara para não mais abrir. Era a tarde que decidira de seu mútuo destino. Amavam-se ainda?

Era de pensar que não; pelo menos nenhum dêles acreditava possível já agora, o que não fôra outrora na flor dos anos seus. Viviam na doce confiança de uma terna e pura amizade. Se alguma suave esperança, das que brotaram na primavera do coração, ainda reverdecia às vêzes na monotonia do presente, breve se finava no silêncio de suas almas já êrmas de amor.

Naquela noite de ano-bom, fadada para tantos acontecimentos desta história, a primeira luminária a luzir entre os coqueiros e João Fogaça que galgava a ladeira de Nazaré para entrar na cidade, depois de uma ausência de dois meses gastou em correria pelo sertão. O capitão-de-mato deixou o seu bando arranchado no recôncavo, e demandando a cidade, tomou o caminho tão trilhado da casa da viúva do José Tendeiro, que morava para as bandas de Santa Luzia.

Mariquinhas esperava-o. Partindo, João lhe dissera: — Guardai-me as janeiras, Mariquinhas!

E ela cumpriu com o prometido. Apesar da festa, deixou-se ficar em casa à espera do amigo. João achou já posta a mesa da ceia com os dois talheres. No que lhe era destinado estava um pequeno saquitel de sêda escarlate cobrindo uma relíquia; a que o vulgo dava o nome de bentinho e atribuia a virtude de salvar de todo o perigo quem o trazia com fé e devoção. O relicário da môça era preso a um cordão de ouro e continha um pedaço do santo lenho da Cruz, envôlto em cabelos seus.

Mas a natureza dêsse invólucro não se via, nem se havia de saber. Era segrêdo dela para Deus. Não valiam aquêles fios como prenda ou mimo a João, senão como satisfação que se dava a si própria, fazendo que uma porção, mínima embora de sua pessoa, acompanhasse o amigo nas longas ausências pelos ásperos sertões.

A noite passara como as outras, se não fôra que o capitão-de-mato se deixou ficar além da hora costumada. Ao toque de recolher ainda estavam à mesa da ceia: o viandante trouxera bom apetite do último estirão de caminho que forçara para alcançar a cidade; e portanto a refeição prolongou-se. Avisando afinal que era tarde, saiu para seu rancho, levando ao pescoço o relicário.

A prenda de Mariquinhas a roçar-lhe o peito, o contato de uma coisa que saíra tão tocada das mãos, lhe despertara não sei que doces estremecimentos d'alma. Sentiu-se como afrontado de suspiros alegres e tristes, de saudades travadas de esperanças; e sem pensar, os lábios entreabriram-se e o seio desafogou no descante predileto. Bem anos havia que o não entoava senão lá no seio profundo das florestas virgens, onde não chegava o rumor de gente. No povoado temia acordar os ecos dormidos de um pássaro morto.

Dez braças não andara, quando ao terminar a primeira copla, alguma coisa o ressabiou. Apesar de preocupado, os sentidos estavam alertas. A vida do deserto, o costume de bater o mato dia e noite, faz dêsses homens assim. Há nêles como uma espécie de sonoridade íntima; o menor rumor, o mais leve estríduo, repercute dentro, estejam embora com a atenção voltada a outra parte. Isso nêles é já independente da vontade: o sentido vibra, como vibra a outra ponta do fio de arame levemente percurso na oposta extremidade.

O que ressoou ao ouvido de João Fogaça que assim o ressabiou, foi surda percussão na terra, que se ouvia ali próximo; coisa por certo imperceptível para outro que não o capitão-de-mato, mas clara e distinta para ouças tão finas e exercidas como as suas. O som lhe vinha do mais basto de um arvoredo que ficava à direita, cobrindo o flanco de um edifício. Era a mesma casa para onde se dirigia com tamanho mistério o nosso bom doutor Vaz Caminha.

Sondando a ramagem com o varapau ferrado e o olhar, nada descobriu de suspeito o capitão-de-mato; o rumor de todo cessara. Não julgando necessário à segurança de sua pessoa maior investigação, pôs-se de nôvo a caminho atacando a segunda copla. Foi então que lhe chegou o primeiro aviso de Cristóvão.

Viera êle repassado na mente todo êsse feliz tempo de sua descuidosa infância. Aquêle assobio especial, sinal de folgares e caçadas, era como um eco vivo dessas recordações, ali espertado de repente no êrmo silêncio da noite.

Estacou, e levado de um impulso mais forte e rápido que o seu querer, respondeu ao aviso. Que o assobio vinha de Cristóvão, seu colaço, tinha êle plena certeza; ninguém mais o daria com aquela perfeição. O difícil era conhecer-lhe a tenção. Seria brinco apenas, ou algum caso sério e urgente? A instância com que repetia o aviso, e uma certa sofreguidão no sôpro, talvez por sair de um seio opresso, indicaram ao sagaz forasteiro que seu colaço estava em mau passo e havia dêle mister.

— Deve de ser além do mosteiro! ... disse orientando-se.

Voltou sôbre os passos e onde acabava o muro da casa que ia ladeando, cortou rumo direito na direção que lhe dera o sinal.

"Quem anda aos porcos tudo lhe ronca", diz o anexim. Ora a Anselmo e seus companheiros que ali estavam escondidos no arvoredo, cavando uma mina lá para os seus planos concertados com mestre Brás e o negro Lucas, não escaparam os feitos do capitão-de-mato. Êles o descobriram quando sondava a ramagem, escabreado com a pancada surda do cavador, ouviram-no que trocava um sinal com alguém ao longe, e não fizeram reparo donde primeiro partira; enfim o viram sumir-se varando direito pelo matagal fora, como quem tinha pressa de chegar, ou afôgo de escapar.

Afigurou-se o Anselmo que tal assobio podia bem ser a senha de quem os estivesse espreitando; e como Joaninha aí não estava para o despejar de tôda a prudência, resolveu tirar as coisas a limpo. Deu fala aos cinco, e todos um após outro, se foram na pista do capitão-de-mato, agachados pelo capim.

Eis como chegara João Fogaça à borda do valado, e infelizmente para Cristóvão, seguido da vil quadrilha do Anselmo, que mais complicara a já de si tão difícil posição do môço cavalheiro.

As coisas estavam ainda no ponto em que as deixamos. O Anselmo caído no fôsso, mas esforçando com unhas e dentes para galgar a borda; Cristóvão sôbre um joelho, mas resistindo sempre, e amedrontando ainda os três cobardes assassinos, que não ousavam afrontá-lo de perto e esperavam ensejo de feri-lo de revés e a traição; João Fogaça impedido pelos companheiros de Anselmo de saltar o valo e levar socorro ao seu colaço.

— Vocês me conhecem, corja de biltres? disse o capitão-de-mato para os cinco bandidos. Pois eu vou saltar êste valado já; se quando achegar-me da beira e olhar para trás, ainda vos enxergar aqui, prometo-vos, palavra de João Fogaça, que de cinco que sois vos porei em dez!

E o capitão-de-mato deu-lhe as costas e caminhou com imperturbável serenidade para a borda do fôsso. Os aventureiros se dispunham a dar de pernas, com mêdo de ameaça, quando a voz de Anselmo, que decididamente tinha sôbre êles grande ascendente, restituiu-lhes coragem.

— Não façais tal! gritara o cigano do fundo do valo. Picai-o à faca, e o mais depressa é o melhor, para me safardes daqui.

Os cinco avançaram: Então João Fogaça foi tomado de uma raiva tremenda. O ímpeto só com que travou do largo chanfalho, fêz tiritar o coração aos aventureiros; o seu primeiro passo deu-lhes asas; de modo que arremetendo contra êles, já não achou homem para o bote que levava feito. Todos haviam desaparecido.

Volver de ums corrida, desenvolver o pulo e saltar o fôsso, foi para o capitão-de-mato negócio de um jacto. Mas em mofina hora o fêz; porque a êsse tempo já o Anselmo conseguira segurar-se à borda fronteira. Quando pois João Fogaça bateu com as pesadas chancas na beira mesmo do terreiro, sentiu que o mariola lhe travava das mãos ambas o tornozelo esquerdo. Felizmente conseguiu agarrar-se a um ramo de árvore, mas foi preciso para isso largar a farrusca.

Assim suspenso por um pé à borda do valo, resistindo no outro aos esforços repetidos do Anselmo que trabalhava por derrubá-lo, sentindo estalar o ramo que vergava com seu pêso, João Fogaça via com desespêro Cristóvão a morrer ali a seus olhos, quase ao alcance do braço, sem poder valer-lhe. Debalde abaiava-se para alcançar o espadão; era vão intento.

Nisto reboou no silêncio da noite o estrupido cadente de rápido galope.

A voz do capitão-de-mato, aquela voz possante e sonora, ecoou quase uníssona, lançando duas vêzes a pequeno intervalo o grito de socorro:

— Aqui! ... De Deus e de El-rei! ...

Quando o som da voz se dissipou no ar, tudo voltara ao silêncio; já não se ouvia o galope de cavalo. Mas a ansiedade foi curta. O som das patas do animal repercutiu de nôvo e mais próximo; logo depois uma voz:

— Quem vai lá?

— Cristão e português, prestes a morrer às mãos de seis assassinos! respondeu João.

— Estácio! ... balbuciou Cristóvão sucumbindo afinal. Era de feito Estácio Correia.

Deixando Vaz Caminha, corria um galope desesperado sôbre Nazaré. Por cima de barrancas e corcovos, através balsas e matagais, lá se ia o cavaleiro com seu pajem de garupa. Essa corrida louca e esvairada como que lhe acalentava o sofrimento. Gil seguro à cintura do môço, fechava os olhos para não ver; êle tremia, é certo, mas uma idéia o consolava. Pensava que se o cavalo arrebentasse nalgum estrepe, ficariam bem magoados sem dúvida, mas o amo não iria fazer-se traspassar pelo alferes.

Quando reboou o primeiro grito, Estácio não ouviu, tão alheio estava de tudo que não era a sua dor íntima e funda. Gil porém o advertiu:

— Não ouvides, senhor cavalheiro? Bradam socorro. Estácio era generoso e caritativo; êsse reclamo extremo que invocava auxílio não só em nome de El-rei, como em nome de Deus, ecoou em seu nobre coração. Mas é fôrça confessar; colhendo as rédeas para governar o cavalo na direção do clamor, o seu pensamento e sua palavra não eram de compaixão.

— Talvez matem-me êles mais breve do que esperava eu.

E precipitou a corrida para a cêrca de D. Luísa, onde chegou justamente a tempo de ouvir de envôlto com seu nome, o último gemido da vítima.

— Cristóvão! ... gritou reconhecendo na voz moribunda a fala do amigo.

Quando a exclamação terminara, já as patas do cavalo, que juntara com o golpe rijo dos acicates, batiam o terreiro e já Estácio saltava da sela e corria ao amigo. Achou-o, corpo inanimado, nos braços do capitão-de-mato:

— Cristóvão, amigo, fala-me, dizia êle sentindo correrem as lágrimas que supunha estanques.

— Ainda vive! ... acudiu João. Já, senhor! Eia, sem perda de tempo, a ver se o salvamos.

— Que pretendeis?

— Levá-lo aonde seja possível pensar-lhe as feridas. Morais acêrca daqui?

— Oh! que não! Junto da Ribeira...

— Mais próximo acharemos gasalhado e socorro para êle. .. Deixai que o carregue! Não é peso para mim.

João Fogaça tomou Cristóvão nos braços, como se fôra um filho pequeno, e partiu com o precioso fardo. Seguiram atrás Estácio e Gil mudos e cabisbaixos acompanhando o corpo do valente cavalheiro.

No terreno, sòmente ficaram os feridos que lograram a vida escapa, graças a ter o capitão-de-mato, o cuidado todo empregado na salvação de seu colaço. Os assassinos, êstes se tinham evadido por detrás da casa perseguidos pelo valente pajem. O Anselmo também foi cuidando em pôr-se a bom recato, logo que pressentiu que a chegada de Estácio ia afinal decidir o pleito.

Fôra poucos instantes depois dêsse desfecho, que D. Luísa de Paiva despachara o seu caseiro Manuel Batista com recado ao Reverendo P. Figueira. De como desempenhou-se êle dessa incumbência já se viu anteriormente; e ainda mais agora que o jesuíta seguido sempre deu seu penitente acólito, entra já a cancela do terreiro.

A viúva esperava com ânsia o seu capelão. Apenas o avistou de longe correu a recebê-lo no patamar. Encerraram-se ambos no gabinete, e tiveram aí larga conferência; do que nela acordaram não se soube; mas logo que foi terminada, o Manuel Batista partiu apressado para a cidade em busca de um mecânico, oficial de serralheiro.

CAPÍTULO XXII - QUE HÁ MALES QUE VÊM PARA BEM

Deixando o terreiro de D. Luísa, o capitão-de-mato acompanhado de Estácio e Gil, dirigiu-se rápido à casa da Mariquinhas dos Cachos, por ser êsse o mais próximo albergue a que podia conduzir o corpo de Cristóvão a fim de acudir-lhe com os primeiros socorros.

A môça já estava recolhida desde muito; mas entendendo daquele bater apressado e tão fora de horas, que era caso de apêrto, e conhecendo a voz de João Fogaça que a chamava, consertou de afogadilho as roupas de dormir, e embuçada na sua mantilha correu a abrir.

Em poucas palavras lhe comunicou João o que o trazia de surprêsa; e ela, vendo-lhe nos braços o corpo desfalecido do cavalheiro, ficou tão enleada que não sabia o que fizesse.

Seu primeiro impulso foi levar o capitão-de-mato à alcova; mas lembrou-se que sua cama estava desfeita e ainda quente de seu calor; e a lembrança de que João a pudesse ver assim, queimou-lhe as faces de pejo.

— Move-te daí; e dá-me uma cama, ou uma enxêrga ao menos, para deitar êste mísero, que está a despedir-se da vida se não lhe acudimos já. Estas palavras do capitão-de-mato fizeram a môça esquecer-se de si para só pensar na salvação de Cristóvão. Correu à alcova, e ajudou João a deitar em sua cama o corpo inanimado do cavalheiro.

Na cidade do Salvador e sua redondeza não havia então físico ou algebrista que chegasse ao capitão-de-mato na arte de pensar feridas, consertar ossos e conhecer os simples; nem mesmo o mestre Cabral, de todos os mata-sanos da Bahia o mais afamado.

Aprendera dos selvagens entre quem passava uma boa parte de sua nômade existência.

Lavando os golpes e sondando-os, conheceu êle que, profundos e em grande número, não tinham embora ofendido algum órgão vital; a perda de sangue sim, fôra muita e debilitara em excesso o enfêrmo. Pôsto o aparelho, o cavalheiro recuperou os sentidos, mas para cair em nova e freqüente síncope, que trazia a todos assustados.

— IDES AMOFINAR-VOS COMIGO, SR. CAVALHEIRO, MAS PACIÊNCIA. JUREI A MINHA ALMA QUE NÃO VOS DEIXARIA UM INSTANTE Só.

João Fogaça resolvido a não arredar pé um instante da alcova enquanto não visse o seu colaço livre de todo o perigo, chamou Gil para mandá-lo a sua casa buscar um cordial que êle mesmo compusera de bálsamo de embaíba.

O pajem, depois de ouvir o recado do capitão-de-mato, tomou Estácio de parte para dizer-lhe:

— Ides amofinar-vos comigo, sr. cavalheiro, mas paciência. Jurei à minha alma que não vos deixaria um instante só.

— E por quê motivo não me queres tu deixar, Gil?

— Se nada posso por vós, dai-me ao menos que seja convosco até o último instante.

— Vai em paz. Eu te prometo que na hora derradeira te terei junto a mim, pois lembra-te o que de ti espero que lhe digas a ela.

Gil, consolado com esta promessa, partiu a correr; e antes de uma hora estava de volta.

O resto da noite correu entre os frouxos lumes da esperança, que logo se apagavam, para lampejarem de nôvo. Foi sòmente lá para a madrugada que os efeitos do curativo dissiparam os sintomas assustadores. Voltou o calor à epiderme gelada, a luz aos olhos baços; e o espírito animou outra vez aquêle corpo hirto. Cristóvão quis falar; mas as fôrças não lhe chegaram senão para sorrir aos amigos que roceavam o leito. Depois dêsse esfôrço, caiu em profundo letargo.

Até então pessoa alguma se ocupara de outra coisa que não fôssem desvelos e sustos pela sorte do enfêrmo. Com os olhos pregados no belo semblante pálido de Cristóvão, espiavam todos, reclinados sôbre a cama, os vislumbres daquela existência que semelhante ao clarão da lâmpada bruxoleava prestes a extinguir-se de todo.

Mal o sorriso despontou nos lábios descorados do cavalheiro, derramou-se por todos os semblantes como se fôsse contagioso. Ouviu-se então o respirar profundo daqueles peitos por tanto tempo opressos; e a alegria de todos se difundiu em um mesmo grito:

— Está salvo!

João Fogaça então voltou-se para Estácio Correia:

— Não vos conhecia de pessoa; e não sei mesmo se vos conhecia de nome, ainda que o ouvisse proferir por vêzes. Comecei porém a conhecer-vos pelo coração, que é de ouro fino. Se algum dia precisardes de um braço pesado, um pé ligeiro, e uma cabeça dura, é esta figura desengonçada que aqui vêdes, João Fogaça, capitão-de-mato, para vos servir e respeitar.

Estácio apertou a mão ao sertanista.

— Eu já vos conhecia pela conversação de Cristóvão, e tanto que vos adivinhei logo que nos encontramos. Sei pois quanto vale o que tão graciosamente me ofereceis, e do que é capaz vosso esfôrço e diligência para as maiores emprêsas; mas acima de tudo agradeço-vos a salvação dêste irmão; ainda que não o fizeste senão por êle, é como se o fizésseis a mim mesmo.

— Mas não, pois fôstes quem o salvou e não só a êle, senão também a mim de um banho no fôsso. Quando chegastes tão a ponto, estava eu, cai não cai. Figurai-vos um homem com um cão filado ao calcanhar!... Mas eu lhe farei as contas e boas, ao tal Anselmo e aos outros. Bastou vossa presença para que se moscassem!... E nem espada trazíeis!...

Continuaram a praticar os dois, que se tinham passado à varanda para não perturbar o sono do enfêrmo. João Fogaça contou o que vira desde o momento da sua chegada. Estácio adivinhou o resto pelo que já sabia dos amôres do amigo.

Pela madrugada Mariquinhas veio ter com êles:

— Espertou agora mesmo, disse a môça; deixei-o mais calmo da dor, mas não do ânimo.

Os dois amigos voltaram à recâmara, onde encontraram o ferido já outro, embora ainda bastante abatido. Assim que os viu, Cristóvão tomou-lhes das mãos, para os chamar a si:

— Que isto não se assoalhe, amigos. Se me quereis, dai-me esta prova. Seu recato é bem mais precioso, do que esta vida salva por vós.

Resolveram que se guardasse segrêdo impenetrável. Estácio respondia pelo pajem; os facínoras, êsses de seu lado teriam cuidado de não se denunciarem. A mãe de Cristóvão morava no engenho a quatro léguas; portanto podia ficar na ignorância dos ferimentos, se durante a cura houvesse cuidado de mandar regularmente notícias. Afonso, o escudeiro de Ávila, que apenas avisado por Gil acudira à pressa, foi incumbido da execução dêsse plano.

— Ainda vos tenho que pedir, disse o ferido.

— Falai, porém o menos possível a fim de não enfraquecer-vos ainda mais.

— Para meu sossêgo, careço de saber dela... Como a tratou sua mãe, depois que a arrebatou de mim... Sobretudo não me enganai!

— Estou que por aí nada há que temer.

— Ah! que muito! Tenho um pressentimento...

— Pois vou-me dêste passo cumprir o vosso desejo e não esperarei muito, que não torne com boas novas, disse Estácio. Mas ficai certo que se forem más, não as esconderei; pois bem sei eu o que custam depois os desenganos.

A última frase, Estácio a soltara sem querer e com uma voz abafada que só do amigo foi entendida. Este viu-lhe no rosto o luto d'alma, e ainda que nada sabia, suspeitou uma grande mágoa:

— Não, Estácio, replicou Ávila. Guardo-vos para coisa mais difícil; esta diligência, dou-a ao meu colaço, como pessoa menos conhecida.

— Pronto, Cristovinho! De que se trata?

— Esperai, que me sinto fatigado.

— Bem que vos recomendei!

— Quereis que lhe explique? perguntou Estácio. Cristóvão fêz sinal afirmativo.

— Trata-se de ir à casa de D. Luísa. Sabeis? A mesma desta noite...

— Sei; sei; lá contava ir eu hoje logo que amanhecesse à busca do meu varapau, e para tirar certa devassa do caso...

— João, por quem sois, não façais espalhafato!

— Convém todo o disfarce a prudência para o bom êxito da emprêsa, acudiu Estácio. Ides lá unicamente saber o que houve com D. Elvira da parte da mãe.

— Mas bem entendido, observou Cristóvão, que não fareis ruído, nem algazarra.

— Está direito! Mas pergunto-vos eu, se pilhar de jeito algum dos cães desta noite, posso torcer-lhe o gasnete.

— Não! Não! exclamou Cristóvão.

— Devagarinho, sem rumor?

— Por Deus, João! Se ides com tais tenções melhor é deixar-vos ficar. Estácio me fará esta esmola!

— Bem; bem; não se matará nem uma pulga, pois que sois tão avaro do sangue alheio, quando pródigo do vosso.

— Não é do sangue que êlhe é avaro, mas do crédito e virtude dela. Porventura nunca vos bateu o coração por alguma mulher, sr. João Fogaça? perguntou Estácio.

Os olhos do capitão-de-mato brilharam como uma chama que rompe do borralho, e apagaram-se logo sob a expressão de um riso desconsolado.

— Não sei! Se isso foi, há tanto tempo já, que não me lembra.

Mariquinhas voltou-se para abafar um suspiro, que ninguém ouviu.

— Pois volvei a êsse tempo, tornou Estácio; e suponde que por uma indiscrição vossa, iam dizer amanhã que essa a quem adorais faltou ao recato de donzela e aos ditames da honra! ... Pensai que desgôsto não seria o vosso.

— Basta; não careceis de me dizer mais nada. Ficai tranqüilo, Cristovinho!

O capitão-de-mato advertiu Mariquinhas do que lhe cumpria fazer, e foi-se, tendo antes o cuidado de examinar o aparelho da ferida.

Ficando só com o amigo, a primeira palavra de Ávila foi:

— Que vos aconteceu, Estácio? Dizei-mo, amigo.

— Falemos antes do que me quereis incumbir, Cristóvão.

— A incumbência é nenhuma, foi mero pretexto para não vos distrair de vossos cuidados com os meus, pois vejo que os tendes bem negros e pesados.

— Engano vosso.

— Que val negardes?... Não estou vendo eu que se a mim cortaram as carnes a ferro, a vós lancearam o coração quem sabe de que dor. E todavia eu vos acreditava tão feliz.

— Também eu!... É sempre assim; primeiro o mel, depois o fel, para que mais amargo saiba.

— E agora, ainda o negareis?

— Quereis saber? Suspeito que os amôres de D. Fernando são bem acolhidos.

— Donde e por que o suspeitais?

— Não poderei dizer-vos; tenho essa desconfiança.

— Ah! já vejo que não passam de sombras más vossas tristezas. Desterrai êsse mau pensar; Inesita vos ama; não o viu ontem na cavalhada quem não quis ver.

Estácio pôde a muito esfôrço disfarçar a sua dor e ocultar a certeza de sua desventura, para não magoar o amigo. Calou-se pois dando mostras de consolado.

Sobreveio com pouco nôvo sono ao enfêrmo. Estácio contemplou um instante o amigo adormecido, e afastando carinhosamente os anéis de cabelos, beijou-o na fronte.

Gil alerta ouviu os passos dos cavalheiros, e dispôs-se logo a acompanhá-lo. Partiram ambos sem despedirem-se da Mariquinhas dos Cachos.

— Vamos a Nazaré, sr. Estácio? perguntou o pajem. O mancebo respondeu com um gesto afirmativo.

— E o vosso cavalo?

— Não é preciso.

Rompia então a alvorada. As lindas colinas que formavam naquele tempo a cintura da cidade, debuxavam-se no horizonte aos toques da luz matutina. Dos campos e dos bosques se elevava êsse jubileu sublime, que anuncia em nossa terra o nascer do sol.

Estácio, submergido em sua consciência, não se apercebia dêsses esplendores da natureza tropical. O projeto sìnistro que êle formara na véspera ao sair do sarau, e do qual o distraíra a aflição de ver Cristóvão mal-ferido, de nôvo se tinha apoderado de seu espírito.

Mas, neste momento, aplacado o primeiro ímpeto da paixão, o mancebo tinha a calma necessária para refletir. O recente perigo de Cristóvão lembrou-lhe que tinha um amigo, um irmão, a quem sua vida ainda podia servir outra vez, como servira aquela noite. Depois pensou no desgôsto que sua morte causaria ao bom Vaz Caminha, a quem pagaria com a ingratidão o amor e benefícios que êle recebera. Finalmente recordou-se do empenho sagrado que na véspera contraíra com a memória venerada de seu pai, injustamente condenado.

E foi assim que o desastre acontecido a Cristóvão de Ávila trouxe êsse bem de salvar a vidá de Estácio Correia, impedindo-o de correr ao desafio com o alferes, para traspassar-se na sua espada.

Contudo ainda o mancebo estêve em risco de tornar à sua idéia, quando ouviu ao longe um alegre descante, resto das folias da noite. Êste eco das festas, que para êle haviam sido tão desventurados, veio avivar-lhe tôdas as recordações que apenas começavam a adormecer.

Entretanto João Fogaça tratava de desempenhar-se da incumbência que recebera.

A advertência de Estácio e o pedido de Cristóvão o tornaram prudente e o demoveram da idéia em que estava de ir ao terreiro de D. Luísa buscar seu varapau e com êle por desfastio escovar o pêlo de algum dos mariolas da casa, se o apanhasse desgarrado. Adiando para mais tarde êste gôsto, fêz-se na volta de Nazaré.

Daquelas bandas ficava o pouso onde costumava arranchar sua companhia composta de cem índios, e onde a deixara na véspera sob as ordens do Antão Gonçalo, seu cabo, quando entrou na cidade para acudir ao emprazamento da ceia em casa de Mariquinhas.

Fogaça não era homem de palavras, nem de reflexões; sua fôrça estava na ação. Essa era pronta, decidida e inspirada pelas circunstâncias do momento; então um instinto maravilhoso guiava-lhe o pensamento e o braço. Se fôsse general, só ganharia batalhas à Marengo.

Sem inquietar-se dos meios de que ia servir-se para chegar ao resultado, curou unicamente de armar-se dos instrumentos necessários à emprêsa. Era isso o que o levava ao rancho.

Entre os selvagens de sua companhia, havia três que formavam seu esttadomaior, porque sempre e em qualquer emprêsa que cometesse, os trazia a seu lado.

Um dêles via de dia ou de noite um inseto voar em distância onde qualquer outro de vista regular não descobriria um pássaro. João Fogaça o chamava pura e simplesmente Olho, e com razão, porque era o único órgão inteligente que se distinguia nessa natureza bruta.

O segundo selvagem ouvia na distância de dez passos o roer da largata na fôlha da imbaúba, e distinguia no vasto rumor da mata virgem a qualidade e a distância de todos os sons que formavam o surdo concêrto das selvas. Pela mesma razão que o outro, êsse foi apelidado Ouvido.

O terceiro porém era ainda mais admirável; bastava-lhe pôr o nariz ao vento e aspirar uma baforada de ar, para conhecer que pessoas ou coisas estavam naquele momento dentro do largo círculo de seu olfato, ou por aí tinham passado nos dias anteriores. Se lhe dessem a cheirar um molho da relva pisada por animal, êle diria incontinenti a espécie, se bruto, e qual a família; se homem, qual a raça, européia, africana ou brasileira; e precisaria o tempo em que por aquêle lugar passara. Ésse acudia ao nome de Farro.

Coletivamente João Fogaça os chamava seus três sentidos de sobressalente.

Chegado ao rancho o capitão-de-mato, entendeu-se prèviamente com seu capataz, sujeito que formava com êle, perfeito contraste; tanto tinha um de avolumado, quanto o outro de exíguo. Aquêle era a pachorra caracterizada; êste tinha azougue na medula.

— Careço de estar êstes tempos' na cidade, Antão; deixo-vos pois a gente bem recomendada.

— Este que aqui está, João Fogaça, já agüentou o arranco de uma maruja insubordinada!... Se vísseis como a tenteei à fôrça de calabrote! Nem piava!

— Bem sei com quem lido; e por isso não vos dou mais; jurisdição, do que a do amarrar o que mal proceder; o mais fica por minha conta.

— Torno a dizer-vos, Fogaça, poupais muito o pêlo a êsses malditos caboclos!

— Pudera não; se é êsse pêlo que me cobre a pele...

— Por isso mesmo; é bom trazê-lo escovado.

— Sôbre isto basta. Vamos agora a esta combinação necessária. É bem possível que eu tenha necessidade de comunicar-me convosco de um momento para outro; de caminho irei postando a distância os escutas para que no caso de necessidade o aviso vos chegue sem tardança. Ésse aviso será além dos mais que já sabeis: ou que preciso de vós em pessoa, ou que preciso de um, dois, até cem caboclos. No primeiro caso ouvireis gritar a saracura.

E o capitão-de-mato imitou o grito da ave; depois deu ao grito uma modulação imperceptível para distingui-lo do primeiro, e significar conforme a sua repetição o número de homens. Finalmente o canto cheio do pássaro equivaleria a dez!

— Portanto, concluiu o capitão-de-mato, se ouvirdes a saracura cantar assim dez vêzes, correi todos em meu socorro.

— Estamos cientes! disse Antão.

João Fogaça voltou à cidade com os seus três sentidos -de sobressalente e mais alguns índios, que foi deixando pelo caminho, na distância de muitas braças um do outro.

Chegando de fronte da casa de D. Luísa, parou fazendo um sinal aos três índios para que se aproximassem; as três cabeças inclinaram logo, cada uma de seu modo a fim de aproximar-se do senhor a parte mais nobre e inteligente; a de Olho, direita, encarando em frente; a de Ouvido, pendida para escutar; a de Faro, empinada ao vento.

— Estão vendo aquela casa?... Quero saber tudo que se passar dentro dela e ao redor!... Ora, pois, à noite cá voltarei! ...

As três figuras de quadrúmanos afastaram-se, tomando cada uma forma diversa; uma grimpou ao cimo da árvore mais alterosa do circuito; as duas outras, pondo-se a barlavento da habitação, uma embolou-se entre as moitas como um tatu, a outra escorregou de galho em galho como uma preguiça. '

CAPÍTULO XXIII - CAVALARIAS ALTAS DO DOUTOR VAZ CAMINHA

A o separar-se de Estácio na rua de Santa Luzia, o licenciado seguiu para a casa da dama desconhecida, guiado pelo negro Lucas.

Passada a porta de São Bento, havia à beira do caminho uma casa que tinha de um e outro lado grande quintal, coberto de basto arvoredo. As ramas das goiabeiras, tinham invadido as duas extremidades do alpendre, de modo que não se via senão duas janelas de rótulas no centro.

A porta principal da casa, que ficava a um dos lados, parecia condenada desde muito, pois estava oculta pela ramada e coberta de limo. A feito, muitos anos havia que não se tinha aberto para pessoa alguma; o serviço da casa fazia-se pela entrada interior, que do quintal comunicava com a rua por uma cancela.

Como essa cancela ficava muito distante do oitão, e abri-se no meio de uma cêrca bastante extensa, não era fácil conhecer se dava entrada para a casa misteriosa, que parecia abandonada, ou para alguma outra que houvesse dentro do quintal.

Lucas, deixando o doutor no alpendre, abriu a cancela e dirigiu-se à casa por um caminho tortuoso e estreito, que passava entre o arvoredo copado e as toiças de bananeiras.

O doutor Vaz Caminha, desde que saíra da taberna do Brás Judengo, vinha parafusando, já no mistério dêste chamado, já na conversa que surpreendera na adega entre o negro e o taberneiro. Ainda que o primeiro ponto devia ocupar muito mais seu espírito, como aquêle que diretamente o interessava, êle não podia arredar o pensamento do plano concertado para o roubo do tesouro enterrado; e cogitava se não estaria involuntàriamente envolvido nessa trama.

Agora, parado ali no alpendre da casa, aonde provàvelmente jazia o tesouro, aquelas preocupações voltavam, e com maior intensidade; pelo que o doutor examinava o edifício e seus arredores com uma atenção minuciosa. Pareceu-lhe distinguir uns vultos que se esgueiravam pela cancela, logo depois da passagem de Lucas; e erguendo-se na pontinha dos pés, tentou ver através da cêrca a direção que tomavam.

Neste momento porém a chave rangeu na porta grande da entrada, e volveu à direita e à esquerda, mas debalde; a ferrugem tornara perra a fechadura. Depois de grande esfôrço a porta abriu-se afinal e correu sôbre os gonzos gemendo; algumas víboras escaparam-se das fendas carunchosas, e a luz interior coou mortiça através da folhagem.

Vaz Caminha penetrou na casa; e a Brásia, que lhe abrira a porta, o conduziu a uma sala outrora ricamente adereçada, mas já então usada pelo tempo e desbotada do antigo luzimento.

Uma dama erguera-se do coxim a que estava recostada para vir ao meio da sala receber, o doutor. O traje era de viúva; a beleza deslumbrante. Quem lhe via a mimosa e gentil feição, a julgava na primeira flor da juventude; mas reparando, descobria-se uma névoa ou sombra, como nas imagens de santas, a embotar o viço da formosura.

Naquele tempo havia destas flôres de claustro, floridas sem brisa, nem sol mas esta, não a desmaiara o gélido crepúsculo das naves, senão talvez a crestara o sôpro ardente do mundo.

Este constante volver d'alma para dentro de si mesma, quem já o exprimiu? Quem sabe o que há aí, no âmago, que assim confrange a vida? Será um santo êxtase de amor e fé, e também pode ser o acre prurido de úlcera profunda.

A dama, depois que saudou o advogado, indicou-lhe uma cadeira de espaldar que estava fronteira; junto ao coxim havia sôbre o velador da índia uma bôlsa cheia de ouro, posta em salva de prata.

— Desculpai-me o desarranjo que vos causei, meu senhor, e a mesquinhez da paga. Outra de mais valia vos guardarei eternamente em meu coração pela generosidade que houvestes com uma dama desconhecida.

Ao proferir destas palavras com a voz trêmula e leve acento castelhano, a dona tomara a salva do velador e a pouco e pouco, resvalando pelo coxim, estava de joelhos sôbre a almofada no momento de oferecer ao advogado a espórtula dos bons ofícios que dêle esperava.

Nunca remuneração de um serviço foi mais generosa, nem com mais delicadeza oferecida. O doutor confuso ergueu a dama e deitou a salva em cima da banquinha.

— Não fiz mais do que o meu dever, senhora minha, e dou-me por bem pago com prestar-vos tão pequeno serviço.

— Sois rico e muito de saber, sr. licenciado, mas se não me enganaram, reduzido nos bens da fortuna, que o acaso acumulou em minhas mãos. Demais tendes com quem repartir, enquanto que eu estou só no mundo.

— Que tenho eu, senão uma pobre irmã, que de bem pouco precisa para encher os últimos dias?

— E um afilhado e discípulo a quem estimais como filho.

— Estácio?... Ah! êsse é como outro eu!

— Tanto o prezais!. .. Pois recebei para êle o que para vós recusais. Tocando uma parte mínima de sua bastança por tôda a vossa opulência de saber, é esta vossa serva quem ainda vos fica restando.

— Basta, senhora minha; vejo que vossa generosidade é das que não se deixam vencer de recusa, antes dobram e avultam com ela. Recebo a tão fidalga retribuição; mas como letrado sòmente. Se outra foi vossa idéia chamando-me, dizei-o logo, para que me retire.

— Ah! não... podeis ficar sem receìo.

O advogado não hesitou mais e beijou a mão da dama; esta prosseguira:

— Haveis de escusar, senhor doutor, a hora e estranheza dêste emprazamento, tão fora dos vossos hábitos; mas além de que tinha razão de segrêdo, como vos adverti no meu recado, acresce que sou espiada. Sabeis logo por quem, e qual o motivo. Assim não achei melhor ensejo para falar-vos do que esta noite de folguedos, em que todos andam distraídos com a festa.

— Vejo que se vosso caso é grave, senhora, vossa discrição está na medida d'ele. Podeis expô-lo.

A dama recolheu em si e parecia agora no momento de abrir os reflôlhos de sua alma, prêsa de um enleio que lhe tolhia a palavra. Era o pudor de uma angústia, ainda não deflorada pela curiosidade ou mesmo pela compaixão de estranhos, mas até então recatada nas profundezas d'alma.

— Quando vos aprouver, senhora, estou pronto para ouvir-vos, disse o velho animando-a.

A dama começou trêmula:

— O para que vos roguei, sr. licenciado, é em verdade mais do que uma consulta, pois é uma confissão. O que espero de vós, não é só conselho, senão também amparo e proteção ao meu desvaliamento. Isto bem sei que não se paga com ouro, mas suplico eu como esmola.

— Proteção dar-vo-la-ei, senhora, não minha; mas a da lei e justiças de El-rei. Quanto ao mais podeis falar; meu ministério é um sacerdócio também.

— Não esperava menos de vossa bondade.

— Contudo de uma coisa devo prevenir-vos. Se com a vossa revelação tendes em vista antes um confôrto para o espírito, do que um remédio a agravos dos homens, melhor vos serviria um ministro da religião, do que um ministro da lei. Tão sêca e áspera é a palavra dêste, como a daquele suave, branda e insinuante.

— Nunca! ... Dêles nada quero! exclamou a dama com um gesto de horror, que surpreendeu o velho advogado.

— Teríeis a desgraça de não ser cristã, senhora? perguntou o velho com um tom compassivo.

— Mas ouvide esta desventurada, senhor meu, que tudo entendereis. Cristã nasci e... sou ainda.

Passado um instante, em que a dama recobrou-se da comoção que sofrera, dirigiu-se de nôvo ao advogado.

— Talvez tenha chegado à vossa notícia o nome de meu pai, D. Ramon Salas?

— Castelhano?

— De Andaluzia. Faz nove anos que nos passamos ao Brasil. Logo depois de nossa chegada, meu pai fêz uma entrada no sertão, donde trouxe avultado cabedal em pedrarias de diamantes, que ocultou em lugar seguro. Para mim o destinava êle, que para si não queria mais felicidade do que a de sua filha! ... Pobre pai! Finou-se sem ver o têrmo de minhas desditas!... Eu que tanto esperava dessa riqueza, não sei agora como use dela! E às vêzes já me cansa defendê-la contra a cobiça alheia.

— Alguém é sabedor dela, pois a cobiça?

— Foi público e notório o lucro que meu pai tirou de suas explorações no sertão. Parece que também esta nova chegou ao Colégio dos Padres, pois o reitor não tem cessado de instar comigo para fazer esmolas ao seu instituto dos cabedais que herdei. Deixai que vos diga; sinto por tudo quanto veste o hábito negro da Companhia um ódio entranhado; mas êle também é jesuíta!...

— Ele?... interrogou o doutor.

A môça calou-se de nôvo absorvida em suas máguas. O velho contemplava-a, perscrutando-lhe o pensamento na expressão da fisionomia. De repente ergueu a fronte, surpreso. Inclinando o ouvido à escuta, percebeu um surdo rumor que saía do chão e parecia vir do lado a que dava êle as costas.

Voltando-se, percorreu de um olhar rápido essa face interior da sala. Rasgavam a parede três portas; uma pela qual entrara, à direita; outra, à esquerda, velada por um reposteiro; a do cehtro mais larga, em ogiva, rematando em uma cruz de madeira embutida no cimento.

Circulando o aposento observou mais o doutor que a parede, onde encostava o camarim, o lado da cancela, por onde vira pouco antes esgueirarem-se os vultos suspeitos.

Este rápido exame da topografia do edifício confirmou o advogado nas suspeitas que o tinham assaltado em caminho. A conversa que pela manhã ouvira na adega do Brás Judengo; a circunstância de ser Lucas escravo da dama; os avultados cabedais que Ramon havia trazido do sertão em diamantes, e que ocultara em lugar seguro, como pouco antes referira a filha; tudo se combinava agora.

— Não há duvidar... pensou Vaz Caminha. Aí está o oratório no centro; o camarim da senhora, aqui, no oitão... O Brás foi expedito; não quis perder tempo. Aquêles vultos, que lobriguei na cêrca ao chegar, são os acólitos do Judengo, encarregados é que estão cavando.

O advogado teve um impulso de revelar imediatamente à dona o perigo em que estava o seu tesouro; mas lembrando-se que não era possível abrir em uma só noite a mina precisa para chegar ao oratório, conteve-se para não assustar a dama; e propôs-se a ruminar mais tarde o caso, na esperança de descobrir algum meio de burlar os ladrões sem dar rebate de seu projeto.

A voz da môça interrompeu-lhe a cogitação:

— É tempo de contar-vos a minha história, e dizer-vos que infortúnio é o meu, tão cruel como talvez nenhuma outra mulher o tenha sofrido; pois ver morrer o espôso, não é decerto tão duro golpe como aquêle que a sorte mofina me reservou, de ver-me viúva, não o sendo, e proibida de amar aquêle que me pertence, porque Deus, que mo deu, o tomou para si.

Vaz Caminha recolheu-se atento, e esperou que a dama lhe explicasse o enigma daquelas palavras.

CAPÍTULO XXIV - QUANDO AS UVAS SÃO MAIS SABOROSAS QUE OS BEIJOS

Palos é uma pequena cidade da Espanha, sôbre o Atlântico, na embocadura do Tinto.

Se nascestes nas plagas da América, esta magna parens dos rios gigantes, das montanhas titânicas e das florestas seculares; se a aurora da vida foi para ali iluminada pelas esplêndidas magnificências do sol tropical; vem, irmão, ajoelha nesta plaga estrangeira!

Foi aqui o berço primeiro da civilização para a tua pátria americana.

Dêste pequeno pôrto, aos 3 de agôsto de 1492, se partiu Cristóvão Colombo, rumo do desconhecido. Levava três navios apenas; mas levava-o a êle seu gênio. Errou setenta dias, devassando a imensidade dos mares, lutando contra o poder dos elementos conspirados e a maldade dos homens descrentes.

Deus o tinha sagrado ao martírio da glória. Aos 12 de outubro de 1492 dava Colombo um mundo ao mundo. Mais de três séculos depois, na mesma data de 12 de outubro de 1822, devia outro herói D. Pedro I, dar um império à América.

Essas duas datas memoráveis se olham na história do Nôvo Mundo, como acaso se contemplariam de longe as estátuas colossais dos dois heróis, eretas sôbre gigantesco pedestal, a norte e sul do vasto continente americano.

Vês, tu, além, sôbre o painel eriçado da pequena cidade, aquelas ruínas monumentais, que veste a recente fábrica, qual sudário a cobrir um esqueleto carcomido pelos vermes?

o antigo convento da Rapita, aonde retirou-se Cristóvão Colombo, miserável na opulência do seu gênio, rebotalho da incredulidade, tragando escárnio e fel. Aí amparado pela fortaleza d'alma e pela fé robusta em sua idéia, esperava.

Esperava, sim, que houvesse rei de alguma nesga estéril de terra européia para se dignar de aceitar o mundo que êle andava oferecendo em vão!

Oito anos esperou.

Já o tinham repelido Gênova, sua pátria, e Portugal, a moderna Fenícia. Espanha o acolhera friamente, e mais por espírito de rivalidade. Tarde, e só quando viu o leopardo inglês estirar sôbre as futuras Índias ocidentais as garras que depois fisgaram as orientais, resolveu ela aceitar de má vontade a mais suntuosa conquista, que povo algum já realizou.

Depois do convento dilatam-se as veigas e os vales amenos que aformoseiam essa parte da Espanha.

Vamos pelas margens pitorescas do Tinto, que desce dos cimos de Sierra Morena regando os frondosos vinhedos. De espaço a espaço entre as cortinas das parreiras assomam os alvos casais e as granjearias: a vida ali é calma e serena como a correnteza do rio, onde se espelha o céu azul da formosa Andaluzia.

Em um dos casalinhos que bordavam a margem esquerda, vivia em 1595 um pobre vinhateiro. Ramon era descendente de uma família de escudeiros nobres; mas preferira a vida independente e tranquila do campo; tinha pouca família, mulher e filha, nenhuma ambição. A geira de terra, que herdara, bastava à modesta subsistência; e nos bons anos lá entravam para o modesto mealheiro alguns reais destinados ao dote de D. Dulce.

Era Dulce uma formosa menina de quinze anos, pura flor andaluza: olhos grandes, de negro aveludado, olhos de gazela; o lábio vermelho como os bagos doces das romãs de Granada; na tez a rósea pubescência dos pêssegos de Almeira; o porte de sultana, e a trança opulenta como a crina virgem do corcel árabe.

O relancear de uns lindos olhos que vos raptam os espíritos e os enleiam num contínuo viver e desviver; os tentadores olhos furtados, como lhes chamou Camões, feiticeiro requêbro que os castelhanos dizem melhor com uma só e breve palavra, ojear; êsse condão, ninguém o teve jamais, como ela o tinha. Na sua pálpebra rosada, como na fímbria do oriente, fazia-se o dia e a noite; havia ali para a alma de quem a adorava, auroras resplandecentes e suaves crepúsculos.

Se Djezir, o mavioso poeta árabe, a vira sorrir, acreditara que as mais finas pérolas de Ofir rolavam entre cascatas de rubis de Golconda; ou que tôdas as rosas odoríferas de Gulistan se desfolhavam em cascatas dos lábios da huri mais mimosa do profeta.

Como as princesas encantadas das Mil e Uma Noites, Dulcita esperava o seu príncipe andante. Êle veio a propósito, disfarçado em môço de almocreve. O incógnito por certo pudera ser mais gentil.

Isso foi por uma bela tarde dos últimos dias de abril, tépida e perfumada, como são as tardes da primavera sob o céu de Andaluzia, nos vales ensombrados de laranjeiras em flor. A brisa suspirava a mêdo, o rio lambia as margens, como lambe o cordeiro os brancos velos da ovelha adormecida. Um rouxinol preludiava a canção maviosa no espêsso e florido rosal. Longe tinia o som argentino de uma campainha, que tangia o passo tardo das mulas de carga trilhando caminho da cidade.

Dulcita, retirada a um canto do pomar, à beira do rio, dava os últimos pontos a uma linda mantilha que destinara à função da maia. Enquanto as agulhas ligeiras passavam e repassavam cerrando as estreitas malhas do torçal, estavam já a revoar-lhe no pensamento as danças e os alegres folgares, e os lindos descantes da próxima festa. Já se via admirada e perseguida pelos rapazes que disputavam a ventura de bailar com ela a primeira cachucha. E de nenhum se agradava, senão que a todos rejeitava.

Nisto aparecia um lindo maio, formoso como um anjo e nobre como um infanção, tão bem composto das feições gentis, e tão alinhado das luzidas galas, que era um gôsto vê-lo. Chegando lhe deitara os olhos, cativos já; e veio para ela, e veio bailando, e atirou-lhe o desafio. Dulcita estremecia e corava, de pejo também, porém mais de prazer. O pé mimoso e sutil já lhe titilava no chapim broslado e os dedos insofridos estalavam as castanholas.

Ai dor! ... De tão elevada que a tinham os ledos pensamentos, se esquecera de si, e começou não de pensamento, senão de verdade, a estalar nos dedos as sonhadas castanholas. Eis que as agulhas resvalando pelo regaço, saltaram do terrado e foram cair no rio. Com elas se afundaram também as ingênuas alegrias de tão meigas cismas. Dulcita enfiou de aflição.

Como poria ela agora remate ao seu lindo véu? E sem o seu lindo véu, tão malfadado, como ousaria ela, mofina e desconsolada, aparecer na festa entre as outras maias tão aprimoradas no traje?

EMBEBIDA EM SEUS ENLEVOS, A SONHAR DA FESTA, Não VIRA DULCITA APROXIMAR-SE DA BEIRA DO RIO, POR ENTRE O ARVOREDO BASTO, UM RAPAZITO...

Vão-se-lhe os olhos magoados pela correnteza das águas e com êles as lágrimas a desfiar pelas faces como orvalho da noite rorejando as pálidas boninas que o sol desbotou.

Quem vos dera, sonhado mancebo e gentil príncipe, serdes ali presente para enxugar o dorido pranto e remir com todo o vosso puro sangue castelhano uma só daquelas raras pérolas do Ceilão!

Embebida em seus enlevos, a sonhar da festa, não vira Dulcita aproximar-se da beira do rio, por entre o arvoredo basto, um rapazito que tocava três mulas de carga. Havia aí um bebedouro. Enquanto matavam a sêde e resfolgavam os animais fatigados da caminhada, o môço recoveiro lavara o rosto e as mãos cobértas de pó, e se recostara no tronco derreado de um velho salgueiro. Para amenizar o descanso, sacara do alforge um alfarrábio sovado e roído nas pontas, e prosseguiu na leitura já começada. Era a obra, que assim lhe prendia a atenção, um volume truncado dos muitos que deixou Lope de Vega sob o título de Autos sacramentales.

Lia o rapazito quando os estalinhos que dava a menina, imaginando repinicar as castanholas, o fizeram erguer os olhos para o pomar. Julgou ver ali uma das virgens dos painéis de Navarrete, el mudo, o mais gracioso dos pintores daquêle tempo. Estêve contemplando-a até o momento em que as agulhas caíram.

O recoveiro ergueu-se devagarinho; tinha na fisionomia a astúcia do gato.

— O que dará a nina a quem lhe achar suas agulhas? Dulce soltou um pequeno grito de espanto vendo o rapazito; quis fugir, mas logo acudiu-lhe uma idéia risonha.

— É ustêd que as tem?

— Não as tenho, não, porém as terei querendo Deus.

— Verdade, verdade? exclamou a menina não cabendo em si de contente.

— Tão verdade, que a estou vendo daqui. Mire!

De feito, o môço, da posição em que estava, via brilhar sôbre a branca areia no raso d'água cristalina, iluminada pelas réstias do sol, as duas agulhas de aço; bastou-lhe mergulhar a mão para que as apanhasse. Feito o que, agitou-as no ar, como um troféu.

— Traga! Traga! exclamava a menina desfeita em risos. — Que me dará a menina?

— Tudo e mais se o tivera eu; pero não tenho nada. — Tem, tem!

A menina ficou suspensa, entre contente e pesarosa, com os olhos fitos no rapaz. Só então reparou ela na formosura do alvo semblante, que realçavam as vestes de lã côr de pinhão. Tinha o môço o corpo esbelto, e em tôda sua pessoa a arrogância castelhana, que perfumavam ares de muita graça e gentileza.

Dulcita lembrou-se do seu maio e sorriu:

— Se você me dá minhas agulhas, para acabar minha mantilha, para compor meu traje, para me ir à festa da maia, para dançar a cachucha... Que lhe darei eu?

— Sim, que me dará você?

— Darei... Darei que seja meu cavalheiro!

E dizendo isto, sorriu ainda. Ela sabia, a vaidosa, apesar da ingênua inocência, que essa palavra abriu o céu ao feliz mortal que a recebesse. Como não ficou quando viu que o rapazito, em vez de cair de joelhos a seus pés e render-lhe mil vidas, abanava a cabeça com mostras de indiferente!

— Serei seu; cavalheiro, sim. Pero não basta! disse o môço.

Dulcita inclinou a fronte melancólica, murmurando:

— Que mais posso eu dar?

— Veja a menina, respondeu o rapazito.

Nôvo raio de luz, desta vez aceso em rubor, cintilou no rosto da andaluzita:

— Ah! sei já! Darei... Darei...

— O quê?

— Também quero; mas é pouco.

— Deus Santo! Não acaba hoje de querer?

— São duas agulhas! Serve à chiquita uma só?

— Não! As duas! Quero as duas!

— Então?

Dulcita bateu o pé com impaciência. Teve ímpetos de recolher-se. Mas o seu véu por acabar? E a função da maia tão sonhada?

O sangue espanhol borbulhou naquele coração de quinze anos.

Avançou a cabeça com certa petulância, pousando a ponta do dedo sôbre uma das rosas que abrira em cada face. Nos lábios, que frisava o despeito, espontava um beijo; no olhar havia um ponto de interrogação vivo e instante.

— O muchacho sorriu à graciosa pantomina.

— Sim! respondeu êle.

— Está contente enfim? balbuciou a menina.

— Ainda não.

— Ai! que você é mui mau!

— Eis o pago que me dá por ter achado o que estava perdido! acudiu o rapaz.

— Diga pois duma vez: o que quer?

— Digo mesmo!

— Diga sem mêdo!

— Jura a menina que não me recusará?

Dulce estremeceu, prêsa de vago terror; estremeceu, como a sensitiva, sem ver do quê; mas era andaluza; pôs os olhos no céu e o pensamento em Deus:

— Juro! disse a voz breve e decidida.

— Mui bem! A chiquita terá suas agulhas, se por cima la cachucha...

— Estou ouvindo!

— E por cima dos quatro. ..

— Quatro, senhor meu! Dois, não mais! ...

— Um em cada mão, um em cada face...

— Mas não! Mas não! ...

— Bem contados, dois e mais dois fazem quatro!

— Não darei senão um! Foi o prometido.

— Pois fique-se a menina com êle, e eu me vou com as minhas agulhas.

— Já que você o quer, sejam quatro embora! E só isto?

— Por cima disto há de dar a menina...

— Que coisa? diga logo!

— Esse cacho de uvas... que ali está. .. o maior!

A menina saltou como um passarinho; num fechar d'olhos cortou com a tesoura de costura o cacho de uvas, alegre de se ver quite por tal preço. Pobrezinha! Ainda tremia do susto que passara! ...

— Aqui o tem!

O rapazito estendeu a mão.

— Mão para lá, mão para cá. Minhas agulhas?...

— Uma só; a outra quando vier o resto.

— Pois tome-o já!

Não se fêz rogar o muchacho; saltando no pomar, pregou dois beijos em cada mão e três em cada face da menina. Depois sentado no chão debulhou o cacho de uvas, enquanto Dulcita ainda vermelha como uma cereja, recuperava o tempo perdido traçando as malhas do véu.

De vez em quando a menina distraía-se a olhar o rosto de querubim do pequeno recoveiro, e nesses momentos suspirava. Quanto o rapaz, erguia também os olhos, mas para comparar o cacho de uvas que devorava, com os outros que pendiam das parreiras.

— Como se chama você, cavalheiro? perguntou a menina.

— Vilarzito.

— Tem um nome mui gracioso.

— Se lhe gosta, tome-o a menina para si.

— Ave-Maria! Para mim?

— Não faltam nomes. Deus os dá de graça aos pobres como aos ricos.

— Porém... Não vê? O nome de meu paizito, só (r) posso trocar eu pelo de meu maridito!

— Não seja esta a dúvida! Serei eu seu maridito.

— Mil graças, cavalheiro! Meu marido, quem êle for, há de me suspirar um ano, me querer dois, e esperar três que lhe queira eu! Serve-lhe isto?

— Serve mui bem; pois casar, senhora minha, com perdão de você, o mais tarde é sempre melhor! E antes disso tenho eu muito que fazer por êste mundo!

— Pois vá-se por êle fora; aqui me quedarei eu. Não faltam cavalheiros em Andaluza!

— E chiquitas formosas!... Em Castilha nascem elas como flôres pelos caminhos.

— Ah! você é castelhano?

— Da velha Castilha. Sou de Burgos, a valente, sim, senhora! Sou da pátria de Cid, el Campeador.

"Que cingiu a velha espada De Mudarra, o castelhano, E foi-se a vingar a afronta Do infame conde Lozano!"

O rapazito se tinha erguido; cantarolando a antiga trova popular de Castilha, alçava o talhe esbelto e meneava a cabeça com tão nobre galhardia, que a menina pôs-se ingênuamente a admirá-lo.

Talvez murmurasse ela em sua alma, como Dona Chimena, aquela doce palavra do romance, mio Cid!

No entanto Vilarzito chegara à cêrca do pomar e chamava, com um sinal particular aos recoveiros, as mulas que já se iam afastando a reitoçar a verde relva da margem do rio.

— Você é almocreve, D. Vilarzito? perguntou a menina.

— Sou poeta ambulante, como meu mestre D. Miguel Cervantes de Saavedra! respondeu o rapaz com certa arrogância picaresca.

— Pois que você vai a pé tocando suas mulas em vez de cavalgá-las, cuidei!...

— Isto é para correr mundo. Fiz-me moço de um arrieiro, no bribonazo; porém não o sirvo eu; antes me serve ele a mim, pois me paga mui mal, é verdade. Quanto a ir a pé, me agrada mais, Dom Rui de Vivar, meu compatriota, andava com seus pés; todo o bom castelhano deve fazer assim. Isto é que é nobre! A sela se fez para as mulheres, pois que são fraquinhas.

Houve uma pausa no interessante diálogo. Dulce suspirava traçando as malhas do véu; Vilarzito olhava a menina à sorelsa, e seus olhos iam dela ao parreiral. Por fim o rapazito coçou a cabeça e pareceu refletir:

— Não se esqueça a chiquita que me deve uma cachucha!

— Tenho palavra, eu, D. Vilarzito; ainda que não devera ter; pois já tomou mais do que o devido!

— O passado, passado! Você me deve uma cachucha, eis o certo.

— Sem dúvida; e a pagarei.

— Quando?

— Porém!... Na festa da maia!

— Está longe ainda.

— Faltam só seis dias.

— Em seis dias fêz Deus o mundo.

— Que pretende você com isto?

— Ninguém sabe o que pode suceder até lá! O melhor, quer a menina que lho diga?

— Fale, D. Vilarzito.

— Pois que a menina me deve uma cachucha, podemos cambiá-la já por mais dois só...

— Mais dois!... Exclamara a menina com as faces a arder em rubor.

— Senhora, sim; não é muito!

— Com os dez que já tomou você, fazem uma dúzia! Para o primeiro dia!...

— Porém não! Lembre-se a menina que não me deu mais que um, e não foi o maior.

— Ai! São cachos de uvas os dois?

— Então! Cuidava que eram beijos! Depois, não digo que não!

— E por uvas perde você de ser meu cavalheiro! disse a menina com enfado. Não é galante, D. Vilarzito.

— Não há homem galante em jejum, ainda quando êle seja um castelhano. Quisera ver no meu lugar um que tivesse almoçado um Padre-nosso, jantado cruzes na bôca.

— Como! Está você ainda em jejum?

Sem esperar respostas, a menina saltou ligeira como a gazela dos campos nativos e desapareceu entre as cortinas de parreiras. Voltou logo trazendo sob o avental uma naca de queijo e pão.

— Aqui tem, D. Vilarzito; jante, que me dá nisso prazer.

— Não tenho fome já! respondeu o rapazito com soberba e desdém. Guarde a menina sua esmola para os perros que a peçam.

As lágrimas saltaram dos olhos da menina:

— Não se anoje comigo! Deus que nos dá a todos o pão nosso de cada dia! Receba você dêle, não de mim. Apenas serei eu sua servente!

Assim falando Dulcita se aproximara do môço; tinha ela mil carícias no olhar, e ainda maiores meiguices no gesto; a voz suspirava como um canto de sereia:

— Já não está anojado? Diga que não! Diga-o para sossêgo meu!

— Não o estou, não, pois que a menina não soube o mal que fêz!

— Mui bem! Seja galante assim! Agora jante!

— Não o poderei, ainda que queira. As uvas comi-as eu, porque as ganhei com meu trabalho, não as mendiguei!

— É certo: porém, tão grande foi o serviço, que isto por mim não o paga ainda.

— Para não magoar a menina, guardarei para depois!

— Isso mesmo!

— E agora vou-me que é tarde!

— Já? Tão cedito!

— A noite aí chega: e eu ainda não cheguei a cidade.

— Quando verão agora êstes meus olhos a seu senhor?

— Que lhe dera a menina para vê-lo?

— Quanto êle quisera!

— Os que faltam para completar a dúzia?

Dulcita fêz um leve sinal com a cabeça, e cerrou corando as longas pálpebras: o rapazito pousou não dois, mas uma cascata de beijos em cada face.

— San Tiago de Compostela! exclamou perto uma voz trêmula.

Era uma velha que chegara a tempo de ver o que passava debaixo do parreiral.

— É sua mãezita? perguntou Vilarzito à menina em voz baia.

— É a servente! murmurou ela envergonhada. O rapaz voltou-se com ar imperioso.

— Vem cá, velha, acompanha a casa minha espôsa.

— É possível? exclamou a aia.

— Adeus, querida! Até amanhã.

— E vai-se sem perguntar meu nome?

— Basta que o saiba o padre na Igreja. Para mim será a doçura de minha alma.

— Sim; pois me chamo Dulcita, quero sê-la para quem agora sòmente sou.

Vilarzito beijou de nôvo as faces de sua amante às barbas mesmas da velha, e calcando o sombreiro na cabeça, partiu-se, altivo como um rei.

CAPÍTULO XXV - COMO AS ASAS COMEÇAM DE CRESCER A MARIPOSA

Era um gôsto ver o menino aguador que em 1589 os passeadores de Burgos encontravam tôdas as tardes diante do Palácio Velasco; tão gentil se mostrava êle de sua pessoa, e tão prendado de sua graça infantil.

Chamava-se Vilarzito; tinha 12 anos; herdara o nome e o ofício do pai, que o deixara só no mundo. A mãe, essa nem lograra, mísera e mesquinha, beijar o filho que fôra todos os seus estremos. Era mulher de muita religião e especial devota do grande Santo Inácio de Loiola. Sempre que ia à igreja, ficava horas e horas em doce arroubo dos sentidos diante de um grande quadro a óleo, onde tinham representado a imagem em pé, do Santo, ao vulto natural. Quando Deus lhe destinou marido, ela não cessava de rogar ao céu um favor:

— Meu divino Santo Inácio, se de todo não vos desprezais desta serva indigna, e que por vossa intercessão Nosso Senhor Jesus Cristo me abençoe em o fruto das minhas entranhas, fazei que êsse filho seja a cópia vossa humild'e, assim na compostura das feições, como na vida e obras.

Se exalçara o céu esta prece fervorosa, quem o podia saber? Em tão verdes anos era natural que se conjeturasse coisa certa sôbre o menino. Inteligência e ambição foram sim precoces nêle; tinha a nobreza do parecer; e eatreou na vida, como soldado de Pampelume, pelas armas.

Seu primeiro sonho fôra o herói popular da sua pátria, o Cid campeador, tão celebrado nas lendas castelhanas: cantando as trovas do romanceiro, o menino sentiu borbulhar o sangue nas veias, e entumescer-lhe o seio de uma nobre emulação. Com os primeiros reais que apurou, mercando copos de água nevada, o aguadorzito comprou uma espada. Era essa de tamanho desmedido para um homem que fôsse, quando mais para um menino; e tão comida ja d: óxido, que o armeiro a tinha entre os ferros-velhos.

— Bem pode ser a espada de Mudarra, a velha espada ferrugenta! disse o menino consigo, e acariciou os punhos.

Nesse dia a calçada do palácio Velasco não o viu, e as damas de Burgos notaram a falta do esperto e vivo rapazito que as divertia com seus repentes chistosos, e sabia oferecer um copo de água nevada com tão fino donaire para admirar em um menino de rua.

Vilarzito tivera mais que fazer. Escondido em um pardieiro, o futuro êmulo do Cid esgrima a ferralhada a valer contra as velhas paredes. O entusiasmo lhe duplicava as fôrças; a ferrugenta espada coruscava no ar, ferindo fogo no cimento empedernido. Enfim o ardor guerreiro sucumbiu à fadiga; o rapazito caiu extenuado sobre a relva e dormiu ao sol, como os camaleões.

Dormindo sonhou torneios e batalhas. Na seguinte manhã tornou à ocupação habitual; mas bem se via pelo nenhum cuidado que dava ao seu mister de aguador, que outro cuidado o tinha. As damas passavam e êle dantes tão pressuroso em servi-las, quase nem as olhava agora.

Decorreram dias. Era sobretarde: Vilarzito cismava melancólico na calçada. Achegou-se um homem de guerra, munido de grandes bigodes.

— É servido você, cavalheiro, de um copo de água? Mais fresca não a há em Sierra Nevada! gritou o menino, com seu gesto mais amável, correndo para o soldado.

Este tinha sêde e aceitou. Os espanhóis passavam então na Europa por grandes bebedores de água, pelo que incorreram no desprêzo dos alemães.

Vilarzito examinava o cavalheiro enquanto êle bebia. Achou-lhe o porte desempenado, o talhe longo ainda que franzino, a barba espêssa, e o arreganho marcial; porém mais que tudo o impressionara um gilvaz que debruava o rosto moreno desde o ângulo direito da frontg até o meio da face esquerda.

— Como se chama você, cavalheiro? perguntou afinal o menino.

— Pois não conheces o famoso capitão D. Anibal Aquiles de la Fuerte Espada, para as damas o gracioso Acutilado, e para os homens o terrivel Acutilador?... Sou eu, o próprio que tens a honra de refrescar! ... Oh! que é lá isso?... Não tremas, chiquito! És um pirralho, e mesmo que fôras um homem, tão pouco! D. Aníbal só acutila os fortes! Aos fracos protege!

Vilarzito não tremia; ficara enlevado:

— Com que é você o grande Acutilador?

— O maior e mais ilustre de tôdas as Espanhas, o que vale dizer do mundo inteiro. Não admira que conheças a minha fama, pois ela enche o universo.

— Já estêve você na guerra, cavalheiro?

— Caramba! Se estive eu na guerra?. .. Pois nasci nela! Minha mãe me gerou na batalha de São Quintino ante dois canonazos!

Vilarzito, satisfeito com esta resposta, perfilou-se:

— Muito bem, cavalheiro! Você me serve.

— Que vens a dizer? Eu te sirvo... Sangue de Cristo! Estás varrido, pirralho?

— Escute sempre, homem! Ando eu à procura de um cavalheiro; pois não há pajem sem seu cavalheiro, e eu me quero pajem. Você é valente; digo-lhe eu que me serve!

D. Anibal soltou uma gargalhada homérica.

— Caramba!... Sempre hei ouvido, que são os pajens os que servem; aos amos!

— Alguma vez vai o mundo às avêssas, cavalheiro!

— É picante o caso! Quanto ganharei eu por ser teu cavalheiro, pois que sou em quem te servirei?

— Ganhará você a fortuna de me ter por seu pajem, e por cima o gôsto de me trazer bem vestido e acontiado! ...

— Não queres também uma bôlsa recheada de duros, bargante?

— Dinheiro! ... Não é isso que me come, mas a fama! O cavalheiro soltou segunda gargalhada:

— Veja só, uma formiga de catarro!

— Capitão D. Aníbal Aquiles de La Fuerte Espada!... exclamou o menino com modos de gente. Mire você... Se me afronta, me dará satisfação de desagravo! ...

Sangue de Cristo! Eis um pícaro que me agrada! És meu pajem. Eu te sirvo...

— Tu me serves, atalhou o menino. Nós nos servimos!

— Também sabes as gramaticais?

— Quanta basta para escrever às damas.

— As mil maravilhas!

Uma semana depois Vilarzito, em figura de pajem, se partia de Burgos, cavalgando após o capitão D. Aníbal um sendeiro choutão, em cujas ancas chocalhava a velha espada ferrugenta.

O primeiro dia de viagem acabou sem novidade; o segundo foi pelo mesmo teor. O esperto pajem à cata de aventuras entristeceu; às vêzes conversando com os seus alamares (naquele tempo não se usavam botões), murmurava entre dentes.

— Isto não me quadra.

Veio o terceiro dia: deixaram a pousada ao romper d'alva. Trotando, o pajezito empenava o talhe delgado, e afagava o punho destemido da catana com a mão pequerrucha. Tinha o pescoço têso, o nariz ao vento; farejava uma aventura.

A meia légua da pousada cruzaram com os viajantes dois cavaleiros. Saudaram cortêsmente ao passar. D. Aníbal respondeu à saudação; o pajem ao contrário calcou o sombreiro sôbre os olhos com um modo soberbo, desdenhoso, olhando de través.

Ou não viram, ou não deram a isso importância os dois cavaleiros, e seguiram seu caminho. Vilarzito embacou com a história; mas logo tomou uma resolução.

— Espere você um tantinho, cavalheiro, enquanto eu torno.

— Onde vais tu, pajem?

O pajem já não ouvia a pergunta, porque dando de rédea ao sendeiro e ficando-lhe as esporas, fôra-se no encalço dos dois cavaleiros.

— Cavalheiros! Cavalheiros!... Queiram parar.

— Que nos queres tu?

— Saibam que meu amo, o mui nobre senhor D. Aníbal Aquiles de la Fuerte Espada, por fama o Acutilador, que ali espera firme como o rochedo, me manda a suas mercês, para dizer-lhes que são uns pícaros...

— Caramba! Engole a palavra pajem!

— Engolir, eu! Pois não! `'ou repeti-las três, cem milvêzes.

Aqui passando da voz ao grito, o menino clamou a pleno pulmão:

— Uns pícaros!... Uns grandes pícaros!... Uns grandíssimos picarões!...

Os cavalheiros não puderam deixar de rir.

— E por que, perguntou um dêles, nos maltrata êsse cavalheiro, teu amo!

— Porque você não o saudou...

— Não o saudei! Mal fiz em catar-lhe cortesia, a um vilão ruim qual êle é.

— Não o saudou como devia, apeando-se quando êle passava.

— Caramba! É êle o Santíssimo Sacramento? O perro! Apear-me eu quando êle passava!...

— É um bravo! Pois isto e pelo mais pede êle desafronta da injúria que sofreu!

— Desafronta, quero eu!

— E eu primeiro!

Os dois cavalheiros picaram para D. Aníbal, desembainhando as espadas. Vilarzito os seguiu, gritando:

— Ei-los, cavalheiro. Vamos ensinar-lhes as regras da cortesia.

Os desconhecidos não deram tempo a explicações; o que primeiro chegou arremeteu contra D. Aníbal que mal teve tempo de defender-se. O segundo fôra mero espectador, se Vilarzito estacando defronte dêle com a farrusca em punho, e não obrigasse a pôr-se de guarda.

— Queda-te, menino, se não queres que te corte cerce as orelhas!

— Antes que tal gana te venha, te arrancarei os dentes, perro! Defendete! dizia o menino esgrimindo.

O cavalheiro foi obrigado a defender-se com efeito para não ser ferido; em dois botes conseguiu desarmar o fedelho, que caiu ferido no braço. Seu companheiro acabava de estender o bravo Acutilador que jazia desmaiado, com um segundo gilvaz na face direita.

Os desconhecidos foram seu caminho.

Vilarzito, desprezando as dores com o estoicismo admirável das crianças travêssas e pertinazes, pôs o braço de tipóia; e assim mesmo, conseguiu pensar as feridas de D. Aníbal que voltara do desmaio.

— Vê o que fizeste, diabrete?...

— Vai tudo às maravilhas, cavalheiro, respondeu o menino. Você subiu um ponto na estima das damas; de acutilado passou a acutiladíssimo! Quanto a mim já tenho nome de guerra. Sou Vilarzito, o maneta.

E o pajem mostrou com orgulho o braço na tipóia.

Fôra preciso o talento de Cervantes para contar as adenturas do pajem andante e seu cavalheiro. Da amostra e feliz estréia que aí fica tirem o mais. Basta saber que Vilarzito se acompanhou cêrca de três anos de D. Aníbal, fraco espírito que o astucioso menino dirigia a seu bel-prazer. Estiveram untos na batalha de Groningen em 1596, onde Maurício de Nassau bateu os espanhóis. Vilarzito fêz proezas e concluiu esta célebre jornada salvando o cavalheiro, que por prêmio de tão assinalado serviço o elevou de pajem a escudeiro.

Assim marchavam as coisas quando acertaram amo e escudeiro, de passar por Sevilha. O antigo aguadorzito não tinha visto ainda a maravilha da Andaluzia, com seu alcáçar mourisco, sua majestosa catedral, e suas calles magníficas.

Na tarde em que êles entraram, um grande ajuntamento de povo impedia o trânsito. Pararam como os outros passantes, para ver o que tanto excitava a atenção popular. Era uma botteya ou oficina de pintor: havia sôbre o cavalete uma grande tela recentemente acabada; defronte, apoiado na penumbra da porta um mancebo, trajado negro, mostrava-se em uma atitude modesta.

Francisco Pacheco, o criador da escola sevilhana e predecessor de Velasquez, Murilo e Zurbarán, terminara seu grande quadro de São Miguel. A multidão admirava com entusiasmo; os olhares iam da obra ao artista; e as saudações ruidosas que partiam de todos os pontos formavam um só grito:

— Divino!

Vilarzito admirou também, não o quadro mas aquela admiração fervente de que era objeto o pintor. Nesse momento o menino sentiu fervilhar-lhe o sangue, mais ardente ainda do que o sentira outrora em Burgos, cantando o romanceiro do Cid.

— A glória!... murmurou êle. Em vão a hei buscado! ... Está aqui!

Numa circunstância análoga Rafael Sanzio disse Anch'io son pittore! Era o grito da inspiração, a voz do gênio revelando uma vocação. No menino castelhano falou a vontade sòmente; seu grito era o da ambição precoce, intensa no querer, mas vaga ainda no objeto.

— Também serei pintor!

Significava isto: Também serei admirado assim, e por conseguinte famoso; também verei uma cidade grande, talvez uma nação, o mundo inteiro, agitar-se ao redor de mim, tendo na bôca um só nome, o meu.

A custo conseguiu D. Aníbal que Vilarzito se apartasse daquela rua, para ir à próxima venda, onde contava pousar. O menino dormiu mal; se dormiu, teve sonhos brilhantes. Ao romper d'alva já êle estava de pé à beira do leito do cavalheiro, esperando que abrisse os olhos.

— Cavalheiro, venho apresentar-lhe minhas despedidas.

— Han!... Que dizes tu, escudeiro?... respondeu D. Aníbal bocejando ainda.

— Como! Queres deixar-me?

— Já o deixei, cavalheiro!

— Porém... estás sonhando! Ainda não acordaste bem.

— Acordei ontem, cavalheiro! E não dormi até agora! Pedidos, promessas e ameaças, foi tudo baldado. Vilarzito partiu-se por uma vez da companhia do cavalheiro; tinha seu plano combinado! Dirigiu-se à oficina de Pacheco.

— Deus o salve, mestre!

— E lhe dê sua bênção, filho! respondeu o pintor.

— Não tem você, mestre, necessidade de um aprendiz?

— Aprendizes não faltam, porém resta saber se são capazes de aprender.

— Sinto eu que sou! Senti ontem vendo a sua obra, e admirando-a, mestre.

Vilarzito ficou na oficina como aprendiz. Cedo revelou seu talento; mas era êsse únicamente para um gênero ainda não cultivádo, a caricatura. Incapa de uma obra séria, o menino estragava qualquer esbôço que lhe davam a encher. O mestre arrenegava-se, e o aprendiz vingava-se caricaturando-o a carvão pelos muros da cidade. O mesmo fazia com todos os que lhe caíam no desagrado, fôssem de qualquer categoria.

Um belo dia, em que êle escapulira da oficina em virtude de um forte repelão, desabafava conforme o costume a sua zanga pelas paredes. Nisso parou junto um cavalheiro de 50 anos, na aparência homem de guerra, e bem maltratado dela:

— Que fazes tu aí, muchacho?

— Não tem olhos você, cavalheiro, para ver? Estou pintando; é bem claro!

— Bem vejo que estás borrando essa parede; porém te pergunto eu que pretendes tu que sejam estas figuras de animais com rosto de gente!

O menino encarou com o cavalheiro:

— Este gato é meu mestre, o grande Pacheco, quando lhe chegam a mostarda ao nariz; crescem-lhe as unhas, e bufa como se ficara espritado. Este ratinho que zomba do gato e lhe rói os bigodes, aqui o tem você em pessoa diante de si.

— És tu maroto?

— D. Maroto, senhor cavalheiro, entre gente limpa assim se usa.

O cavalheiro riu de boa vontade. O menino prosseguiu, fitando-lhe as feições com um olhar, em que a atenção perspicaz era disfarçada sob uns ares de escarninha malícia.

— Mas ainda falta a meu quadro uma terceira figura, mui imteressante.

— Qual ela é?

— Espere um pouquito.

. Em dois traços de carvão o menino desenhou no muro uma figura de jumento com um rosto que bem podia ser o do cavalheiro ali presente

— Vê. É um asno com cara de perguntador! — Disse o menino dando um salto para trás. Mas o cavalheiro lessto e ágil apesar dos cinqüenta, já o tinha filado pela orelha!

— Caramba! Vou te levar até o mestre, grande pícaro, para que êle mire as tuas obras.

— Vejo bem que fiz mal em pintá-lo de asno, pois é um leão! disse o menino forcejando por escapulir.

— Tenho uma só mão, pequeno, mas desta nem o diabo te pode tirar. Sossega!

O Cavalheiro seguiu com o menino para a oficina. Bem se conhecia pela expressão de sua fisionomia aberta, que em vez de irritá-lo, a travessura de Vilarzito o divertia

— Viva, mestre!... — Disse o cavalheiro entrando. D. Miguel Cervantes de Saavedra tem a honra de saudar o primeiro pintor de Sevilha, D Francisco Pachecco.

O mestre inclinou-se:

— A honra é para D. Francisco Pacheco, pois recebe em sua casa o valoroso capitão de Lepanto, e o mais glorioso poeta e escritor de todas as Espanhas.

— Aqui vos trago, mestre, o vosso aprendiz, que achei representando-vos em figura de gato e a mim de jumento.

— Não sei já o que faça, D. Miguel Cervantes, a menos de lhe cortar pé e mão, não há poder com ele.

— Quereis vós um conselho, ainda que não pedido?

— Embora, será melhor agradecido.

— Deixai-o dar passo a seu gênio. Há-de sair daí alguma coisa. Vossa arte, mestre, assim como tem os seus vergílios e orácios, por que não terá seus plautos e marciais?...

O imortal autor de D. Quixote, em que já ele trabalhava nessa época, tomou-se de simpatia por Vilarzito. O pequeno caricaturista a carvão também de sua parte começoua admirar o grande caricaturista a pena, que ia dar ao mundo a sua sátira — epopéia. O fel de ironia que vazava desse grande espírito, embebeu-se n'alma infantil e foi a pouco e pouco corroendo as suas doces ilusões. O menino descreu das glórias que sonhara; e acabou por imaginar que não havia maior do que aluí-las a tôdas pelo sarcasmo e escárnio.

Lá num certo dia, acordou com esta idéia:

— Vou-me a Salamanca! ... Serei poeta satírico!

E de feito partiu-se e foi ter a Salamanca. Cursou as aulas de humanidades, como jogara espada e manejara oa pincéis: com ardor febril, vontade firme, e superior engenho. Fêz versos; encheu as paredes de sonetos e glosas escritas a carvão, como as caricaturas de Sevilha. Seria poeta sem dúvida, poeta como Lopes de Vega, Cervantes, Quevedo, se por infelicidade não sobreviesse nôvo acidente para dar outro curso os ímpetos dessa impaciente ambição.

Começava de cursar a aula de cosmografia; a descoberta do nôvo mundo, recente de um século apenas, dava aos provectos tema vasto para eruditas e compendiosas dissertações. Vilarzito tinha ouvido falar da América, como terra de ouro, e de Cristóvão Colombo, como um pilôto feliz.

Quando sua jovem inteligência, exercitando-se nas controvérsias de história e cosmografia, começou de entrever a parte que tivera o gênio naquela potentosa descoberta, seu entusiasmo pelas grandes coisas, que o espírito satírico amortecera, mas não extinguira, acendeu de nôvo, e talvez mais intenso. Se antes fôra chama fugace, parecia agora ardente labareda de um incêndio. Deparou-lhe o destino uma vida de Cristóvão Colombo, escrita pelo filho Fernando. O môço escolar devorou o livro; quando o terminou, tinha na cabeça um vulcão de idéias; corriam lavas do cérebro em ebulição; dos olhos incendiados saltavam chispas de fogo. Estêve assim nessa febre d'alma um dia inteiro; saiu dela para exclamar com o tom de um inspirado:

— Por quê não descobrirei eu também um mundo? Deve de haver um terceiro, ainda desconhecido, por essa imensidade dos mares!...

E tinha razão. sse terceiro mundo existia; já êle começara então de surgir do infinito, filho do oceano de quem derivou o nome. Mas a glória de o descobrir, a providência não a reservara para o humilde aguador de Burgos, agora estudante em Salamanca. Não obstante uma semana inteira andou aquêle pensamento a tumultuar-lhe no cérebro. Ao cabo, parece que tomou uma resolução:

— Colombo se partiu de Palos. Vou-me eu também a Palos. A la ventura! .

Vilarzito tinha dois meios de viajar; ou se oferecia por pajem a algum cavalheiro, ou tratava com os almocreve para lhes tocar as mulas de carga. Desta vez foi o último expediente o que mais pronto lhe apareceu; de recova em recova, topou afinal com uma que fazia o serviço entre Sevilha e Palos. Sua tenção era embarcar aí como grumete do primeiro navio que o recebesse, e atirar-se à vida do mar. Um dia, não muito longe, havia de subir a sargento-mor e ter a seu mando uma nau ou mesmo uma galé. Então se lançaria pela amplidão do oceano, e iria buscar o seu mundo, ainda que o ocultasse uma dobra do infinito.

Terminava êle sua viagem, quando a sorte o levou à margem do Tinto, na tarde de 25 de abril de 1597.

Ia descobrir um mundo; encontrou no caminho uma mulher.

Quantas coisas grandes da terra, quantas glórias e cometimentos ilustres, não nascem dos orvalhos que esparge um sorriso de amor? Mas também quantas ambições ardentes e nobres estímulos têm seu eclipse na luz de uns lindos olhos?

CAPÍTULO XXVI — COMO O P. CURA APRENDE UM CASO, QUE LHE NÃO ENSINARA SEU LEITOR DE TEOLOGIA

É o sol de maio que lá brilha pelas devesas floridas do Tinto.

Sob a cúpula diáfana de um céu de primavera, tudo é luz, graça e harmonia. Os esplendores da tarde douram as veigas e adiamantam as águas. Flôres, sorrisos do prado, e sorrisos, flôres dos lábios, desabrocham por tôda a parte, e engastam-se onde quer que aparece um rosal perfumado ou um rosto mimoso. Vão envôlta nas asas da brisa, trinos das aves, rumores do campo, e os ledos descantes de rústico trovador.

Além, à sombra do florido laranjal, folgam os camponeses a festa de maia. As raparigas, conduzidas pelos seus bailarinos, correm à eira preparada para a dança. Ao som do bandolim estalam e crepitam as castanholas; o pé andaluz, que tem do colibri as asas e as sutilezas, voa sôbre a relva; a vasquilha de sêda rodopia na veloz piruêta, como a plumagem iriada da ave graciosa.

Dulce baila com seu querido Vilarzito. A ver o donoso par, os velhos admiram tal graça e formosura: os môços invejam o suave consórcio da beleza e juventude, que o amor celebrava na união dos namorados bailarinos.

Trazia Dulcita, bem onde abria o peito do justilho de veludo prêto debruado de ouro, uma rosa do campo, que ali estava como enfiada das que o prazer abria nas faces da donzela; e por isso se escondia entre os alvos lírios de seio mais mimoso, que amor já palpitou. Girando ràpidamente em volta da menina, o gentil muchacho no meio das graciosas florestas, tentava debalde arrebatar num passo gracioso a rosa do seio de Dulce. E como não o conseguisse, ia suplicante ajoelhar aos pés da menina.

Então Dulce olhava-o meiga e compassiva; sorria-lhe depois com certo disfarce e saltando sôbre a pontinha do pé garboso, reclinando e quase suspensa sôbre a cabeça do seu gentil cavalheiro ajoelhado, pairava um instante, como a borboleta sôbre as flôres. O branco seio arqueando roçava quase pelos lábios do môço a rosa prestes a escapar.

Mas ao menor gesto de Vilarzito, a menina furtava o corpo numa rápida piruêta; e lá se ia ela no seu vôo de sílfide, entre mil requebros e negaças, trançar novas e mais graciosas figuras, até que Vilarzito vinha outra vez ajoelhar a seus pés; e a pantomina recomeçava.

Uma vez, acaso ou propósito, a rosa desprendeu-se do seio da bailarina, e caiu sôbre a relva; Dulce correu a apanhá-la; porém no momento em que dobrando o talhe flexível, ia colhêr a flor, Vilarzito se interpunha; e em vez da rosa, a menina via o rosto brejeiro de seu dançarino.

Nisto um rapaz que estava entre os espectadores apanhou a flor, e guardou-a no peito do jaleco. Chamava-se êle Velez e tinha não sei que remoto parentesco com Dulcita.

Vilarzito erguera-se pronto, e caminhou direito ao impertinente.

— Dê-me você esta flor que não lhe pertence, disse o muchacho com sua natural arrogância.

— Sabe você quem sou eu para ma pedir? replicou Velez.

Vilarzito mediu-o de alto e baixo, e avançando mais, respondeu-lhe mesmo na face:

— Não é preciso saber, pois estou vendo que és um cão e te provarei agora mesmo.

— Ai! meu cutelo! exclamou o Velez dando um salto e desembainhando a adaga. Ele te fará engolir a palavra, birbante!

— Com esta te farei eu vomitar a peçonha, víbora! retrucou Vilarzito sacando também a sua navalha.

Ambos afastaram-se a passos largos do lugar da festa. Dulce quisera reter Vilarzito; mas êste a repelira com uma palavra:

— Quer a menina amar um castelhano ou um perro? A festa continuou, como se nada houvera acontecido de maior. O acidente passara despercebido para a multidão; de resto era coisa tão comum um desafio nesses tempos, que por tal a gente não se abalava.

Para Dulce porém a festa estava acabada. As suas rosas de maio, como os seus risos de menina, desbotaram súbito. O vácuo que lhe deixaram n'alma os doces enlevos e as inefáveis alegrias, encheram logos as ânsias, as lágrimas e os tristes pressentimentos. Ela não pôde mais dançar

sôbre aquela relva; pareceu-lhe que dançaria sôbre o túmulo de seu querido amigo.

Prêsa de viva inquietação, errava pelos campos sem tino, na esperança de encontrar Vilarzito; voltava à maia julgando ali achá-lo já; partia de nôvo e tornava, até que vindo a noite, foi-se a mísera ao seu humilde casalinho da margem do Tinto. -

Recolhendo à camarinha, deu a môça com os olhos numa imagem de Nossa Senhora das Candeias, que então se venerava na sua Igreja de Sevilha. Dulcita ajoelhou aos pés da Virgem e fêz um voto pela vida de seu amante em perigo. Estêve ali grave e recolhida na súplica fervorosa um tempo esquecido.

Quando ergueu-se, era noite fechada; as estrêlas brilhavam no céu; e pela gelosia aberta entrava a aragem fresca derramando agrestes perfumes.

Êsses frouxos raios de estrêlas coados pelo azul do céu, de envôlta com os aromas dos vinhedos e laranjais, traziam uns ressaibos de amor e tais delícias à alma, que Dulcita, apesar de sua mágoa, sentiu-se atraída pelas carícias daquela noite de maio.

Saiu fora, para que a noite com seus perfumes e mistérios a envolvesse tôda e escondesse no materno regaço. Ela tremia e palpitava, já prêsa do susto, já travada de esperança.

De repente Vilarzito ergueu-se diante de seus olhos.

— Ah! Querido! ...

Dulcita exalou tôda a sua alma nessa breve exclamação, e quedou-se extática diante do môço que a olhava sorrindo. Foi quando Vilarzito passando-lhe o braço pela cintura e chamando-a a si, prendeu no peito do justilho a malfadada rosa do baile, que a donzela cobrou os espíritos para devolvê-los logo no divino sorriso que voou dos lábios.

Apoiada ao ombro de Vilarzito, e erguendo-se nas pontas dos pés, a ingênua menina cobriu de beijos ardentes o rosto do amigo. Afinal um dêsses beijos foi colhido pela bôca do môço. Dulcita estremeceu, suspensa ao lábio do amante, e cerrou as pálpebras suspirando.

As duas crianças não sabiam do amor senão o que haviam aprendido nas xácaras e seguidilhas. Amar era para êles uma festa da mocidade, como brincar fôra uma festa da infância. Os beijos que se davam mútuamente não passavam de inocente travessura. No momento porém em que os seus lábios se uniram, um tremor súbito abalou-os interiormente, e uma chama intensa coou pelas veias. No meio dêsse deslumbramento, o santo pudor da inocência espontou no coração como um espinho.

Afastaram-se envergonhados. Dulcita ocultou o rosto na espádua com o gracioso movimento da rôla que esconde a cabeça sob a asa para dormir; porém antes, a menina agastada atirara ao rapaz com certa petulância própria das crianças uma palavra dura:

— Mau! exclamou ela, acentuando a voz com o gesto da cabeça.

Vilarzito fêz-lhe uma careta; voltou-lhe as costas; e começou a puxar os laços que enfeitavam o seu faceiro traje de maio.

Nunca viram como dois ratinhos, que estranho rumor afugentara, voltam ao lugar onde brincavam? Eles deitam a cabeça fora da toca, espreitam, recolhem rápidos para surdir logo, arriscam um passo, hesitam, voltam, dão uma pequena corrida, cobram ânimo e encontram-se afinal. Assim tornaram uma à outra as duas crianças arrufadas. Mas já não se beijaram.

Vilarzito contou à menina o seu duelo com Velez. No meio da luta falseara o pé do adversário, que fôra de rôjo à terra; o recoveiro atirou-se a êle, calcou-lhe o joelho aos peitos, e com o punhal erguido, obrigou-o a remir a vida restituindo a flor. O rapaz referiu isto com sua costumada fanfarrice, acrescentando que fôra uma felicidade para o Velez cair, pois com certeza o matava, se continuasse a resistir.

Acabada a narrativa a menina ergueu-se com uma petulância andaluza:

— Para que nenhum se julgue mais com direito sôbre mim, quero desde hoje pertencer-lhe, D. Vilarzito.

— Que pretende você, Dulcita?

— Espere!

Ela correu direito à varanda onde estavam reunidos seu pai, sua mãe e a servente. Entrou dançando, piruetou na sala com uma graça inimitável, e foi cobrir de carícias o rosto crestado do bom campônio.

— Pai, eu tenho quinze anos!

— Hás de fazê-lo pelo Natal, filha, respondeu o campônio.

— Não importa, acudiu a menina, eu tenho quinze anos: preciso de um marido.

— Meu bento Jesus! exclamou a mãe. A menina perdeu o juízo!...

— Perdeu a mãe o seu quando casou com o pai? retrucou vivamente a chiquita.

— Bem respondido! disse o campônio abraçando a filha com ternura.

— Você mesmo é que a tem pôsto a perder! resmungou a velha.

— Então, continuou Ramon com bondade, queres um maridinho, Dulce?

— Quero, sim, pai, do meu coração!

— Não te parece que é cedo ainda?

— Cedo! ... Nunca é cedo para casar, pai; tarde, sim, costuma ser muitas vêzes.

— Pois havemos de procurar um bom marido, um rapaz honrado e trabalhador...

— Não é preciso, acudiu Dulce. Eu tenho já.

— Um marido?

— Sim! Um maridinho, e mui gentil! Quer ver, pai? Antes de receber a resposta saiu aos pulinhos. A mãe voltara-se precipitadamente para a criada:

— Ouves, servente?

— Ouço bem.

— Está espritada, Senhor Deus!

Dulce voltou trazendo Vilarzito pela mão.

— Venha, venha. D. Vilarzito! Aqui está o pai. O rapaz cortejou.

— Então, disse o granjeiro, você pretende a nina em casamento?

— Não, Senhor!

— Como! ... balbuciou Dulcita sentindo desfalecer-lhe o coração.

— Não pretendo coisa alguma, continuou o rapaz imperturbável. A nina quer muito casar comigo e eu para não desgostá-la, consinto!

— É isso mesmo! exclamou a menina batendo as mãos de contente.

— Então o môço faz à minha filha um favor casando com ela?

— Porém sim; um grande favor.

— Um favor só!... acudiu Dulce. É a minha felicidade que êle fará.

— Quem é você, D. Vilarzito? perguntou o campônio.

— Sou D. Vilarzito.

— Pergunto que profissão tem.

— Nenhuma: isto é, tôdas as que eu quiser. Comecei por ser aguador, para servir às damas. Fui pajem, escudeiro, pintor, estudante e poeta, não por necessidade, mas por gôsto. Ultimamente dei a um certo almocreve a honra de viajar em sua companhia; porque um homem deve conhecer o mundo.

— Mas afinal o que é hoje o môço?

— Hoje sou aquêle, atenda bem, que está para ser, ouça, o mais famoso e rico homem de tôdas as Espanhas.

O caseiro solou uma gargalhada; as velhas benzeram-se; Dulcita teve um apêrto de coração. Só o rapaz ficou impassível.

— Então você será o primeiro depois do rei! ... disse Ramon chasqueando.

— Suba! retrucou o rapaz encolhendo os ombros.

— Será o próprio rei, pelo que vejo?

— Mais então fôra possív'el supor no rapaz a arrogância picaresca, que se designou depois com o nome de espanholada. Não era raro naquele tempo ver a fanfarrice castelhana comparar um mendigo ao rei; mas pô-lo acima do rei, passava à loucura.

— Mais que o rei! repetiu o granjeiro, pensando que o môço perdera a cabeça.

— Sem dúvida, replicou êste; pois que o rei é só das Espanhas; e eu o serei de um mundo inteiro.

— Do mundo da lua?

— Do terceiro mundo, que me vou a descobrir, como Cristóvão Colombo descobriu a América.

As duas velhas assombradas de bôca aberta, cobraram a fala afinal:

— É o Tinhoso, padrona! murmurou a servente fazendo cruzes no ar.

— Não te dizia eu que a nina estava espritada? Abrenúncio! ... ' i O granjeiro disse para Dulce:

— Teu galante, filha está varrido do juízo.

— Mas o coração é bom, pai!

— Não basta.

E voltou-se para o rapaz:

— Pois D. Vilarzito, vá você descobrir o seu mundo, e quando lhe apontar a barba no queixo e os reais na bôlsa, volte. ;

— Homens desta massa, redargüiu o muchacho, não voltam nunca, avançam sempre. Saúdo a você e as demais companhia.

D. Vilarzito saiu como entrara, senhor de si, calmo e soberbo.

Dulcita seguiu-o com os olhos rasos de lágrimas; quando o rapaz transpôs o limiar, o seio estalou com os soluços que borbotavam. O pai a consolou com a promessa de melhor noivo; a mãe ralhou, aspergindo-a com os borrifos de seu ramo bento de alecrim.

Com pouco a menina, disfarçando, recolheu ao interior do albergue. Mas apenas sentiu-se fora das vistas maternas, pareceu criar asas. Correu ao quarto, atirou uma mantilha aos ombros, e esgueirou-se pelo caminho que conduzia à cidade. A voz de Vilarzito, que caminhava cantarolando a sua trova do Cid, deu-lhe vôos aos pèzinhos andaluzes. Em um fechar d'olhos estava com êle.

— V enha, meu querido.

— Aonde?

— À casa do senhor cura! respondeu a menina tomando-lhe o braço e arrastando-o.

— Para que, duçura minha?

— Para nos casar, maridito.

— Já?

— Neste momento!

— Não é cedo?

— Queria Deus que não seja tarde.

Chegaram ofegantes da corrida à porta do velho cura. Dulcita entrou afoitamente, não já pelo braço do rapaz, e sim puxando-o pela aba do jaleco.

— Senhor Cura, valha-me V. Reverendíssima! exclamou a menina caindo de joelhos aos pés do sacerdote.

— Que lhe há sucedido, filha?

— Uma desgraça, a maior desgraça! ... Só Deus no céu, e o senhor cura que é seu ministro na terra, me podem valer! Ai, de mim! Mísera que sou!

As lágrimas rebentavam e a voz soluçava chorando. também.

— Mas fale, filha. Para tudo há remédio no céu, que a misericórdia do Senhor é infinita.

— Este cavalheiro, que aqui está presente... Não o vê, senhor cura, como está envergonhado?... Êste monstro, que cavalheiro não é quem falta à fé jurada!... Oh! Não!... E êle há faltado, como um mouro que fôra! ...

O sacerdote começava a compreender.

— Êste monstro, senhor cura, me desgraçou! exclama enfim a menina escondendo o rosto na mantilha. Se não acho proteção nesta casa de Deus, vou daqui lançar ao rio!... Como terei ânimo de me apr'esentar a meu pai, neste estado!

Seguiu-se uma severa admoestação do sacerdote; e um quarto de hora depois os dois meninos saíam casados da sacristia. A porta, Dulcita lembrou-se de alguma coisa, e voltou só, para falar com o cura.

— Senhor Cura, esqueci-me de perguntar a V. Reverência uma coisa!

— Dirá filha.

— Eu fiz um voto à Nossa Senhora das Candeias... Um voto de quando me casasse com aquêle que é meu marido, não o reconhecer como meu senhor, antes que êle fôsse levar à Virgem uma vela de promessa! Mas eu não pensava que o casamento viesse tão cedo, como veio! ... Queria saber... O voto vale?

— Decerto, filha, e ainda mais agora, porque é uma penitência que lhe dou.

— Penitência por quê, senhor cura? É algum pecado casar?

— Não, mas é um pecado feio deixar a donzela que lhe roube seu noivo, o que só a espôsa pode dar a seu marido!

— Porém, com perdão de V. Reverendíssima, êle não me tomou mais que o meu coração!

— Como, filha! Não disse você que êle a desgraçou!

— Pois sim, me desgraçou, porque me roubara o meu amor, e ia-se partir sem me dar sua mão e seu nome! Há maior desgraça no mundo, P. Cura, para quem só vive de amar?

O sacerdote azoou; a rapariga desapareceu como uma sombra.

Caminhavam pelas margens do Tinto, de mãos dadas, os dois noivos. Dulcita desfeita em risos e meiguices, Vilarzito sério e pensativo.

O rapaz, cujo gênio aventuroso aceitara sem calcular êste casamento, como uma das muitas fases de sua vária existência, com a mesma facilidade com que passara de um sonho a outro, e de pajem se fizera pintor ou poeta; o rapaz cogitava consigo nos embaraços que lhe podia acarretar essa paixão da menina. Quanto aos deveres conjugais e à gravidade do estado, pouco cuidado lhe davam: eram nós, que êle cortaria, quando não os pudesse desatar.

— O futuro é de Deus, o passado dos mortos. O presente é a vida.

Com essa reflexão filosófica pôs êle têrmo às suas cogitações. Envolveu a sua bela noiva em um olhar amoroso, e perguntou-lhe:

— Onde vamos nós, Dulcita?

— Para onde havemos de ir, se estamos no céu, bem meu; não queres que aí fiquemos? disse a menina sorrindo. -

— Pois fiquemos, respondeu o môço. Estas laranjeiras em flor são tão perfumadas, que bem podem ser o céu de nosso amor!

Cingindo com o braço a cintura da donzela, afastou os pâmpanos que fechavam um bosque sombrio. Dulcita desprendeu-se ligeira e fugiu. Voltou depois, não já desfeita em carícias, mas revestida de uma meiga seriedade.

Ela contou ao môço o voto que havia feito a Nossa Senhora das Candeias. Vilarzito insistiu, mas seu orgulho não lhe deixou que suplicasse.

— Não me queiras mal, Vilarzito! Por mim não é, mas pela felicidade do nosso amor! Tu és já meu senhor; e eu, que mais sou do que bem teu? Mais vai esperar alguns dias, até que a Virgem abençoe para sempre a nossa felicidade e a torne em uma virtude, do que fazer em pecado, porque seremos punidos, e eu duas vêzes, na tua e minha pessoa! Mas responde! ... Se te enfadas comigo, mal de mim, que me perderei por ti, perdendo-te! ...

— Adeus! disse Vilarzito.

— Onde vai? perguntou a menina espavorida.

— A Sevilha! Não é lá que devo cumprir a promessa?

— Sim... Mas queres partir já?

— Quanto mais cedo partir, mais cedo voltarei!

— É verdade! ... murmurou a menina curvando a fronte já carregada de mágoas.

Vilarzito apertou-a ao seio, e teve-a algum tempo ali, enquanto seus olhos se engolfavam no horizonte. Que via êle ao longe, nessa névoa do espírito, que se chama pressentimento? Via a ambição, que batia asas d'ouro, presfes a desferir o vôo; e sua alma, prêsa da vertigem, que se lançava a par, devassando mundos ignotos. Via o fantasma de sua imaginação que lhe gritava, avante, avante, e o atraía sempre, não lhe deixando sequer volver um olhar aquém.

Nesse momento o aleijão daquele coração, pressentindo que pela última vez palpitava sôbre êle o coração amante da mísera virgem, teve um apêrto, que espremeu nos olhos uma lágrima, talvez a última que umedeceu essas pálpebras, e nos lábios um escasso sorriso de ternura:

— Não te penes, amor meu, que me tira a coragem de ir-me. É preciso, tu disseste, e eu parto-me com bem pesar de meu coração; fique-te êle, para que mais ligeiro torne a ti êste corpo.

Dulcita sorriu entre as lágrimas:

— Vai, querido, vai. Tu levas a graça de minha alma; eu te guardarei, senhor meu, a flor desta nobre beleza minha.

Seu lábio embebeu-se no lábio do espôso; e ficou ali suspenso como um fruto que o bico lascivo do pássaro colheu na haste. Depois que libou o mel, o pássaro bate as asas, e o fruto pende murcho e eivado. Assim desfaleceu Dulcita, quando seu noivo precipitando a partida, arrancou-se ao beijo, e partiu. Êle levava-lhe o âmago de sua alma, o doce mel de sua felicidade, seu amor, sua vida.

Voltaria êle a restituir-lhe quanto levava?

Vilarzito não voltou o rosto, com receio de ceder à emoção; foi por diante trilhando as margens do rio, cantarolando qualquer seguidilha. A menina, seguindo-o de longe para ouvir algum tempo ainda a voz amiga, sentia minguar-lhe a vida à proporção que essa voz desfalecia com a distância. Afinal caiu extenuada à beira do caminho.

Era noite alta quando recolheu à casa, onde achou a aflição que causara o súbito desaparecimento. As velhas se lamentavam rezando; o pai mal entrara das caminhadas que dera em procura da filha querida.

Dulce contou com singeleza o sucedido, sem esconder a mínima circunstância. Que tinha a esconder ela na candura do seu amor? O pai depois de muito ralhar, feliz de ver a filha restituída à sua ternura, perdoou; a mãe benzeu-se, como costumava nas ocasiões solenes; e a família voltou à habitual tranqüilidade.

Mas em Dulce uma revolução profunda se consumara. Uma hora só por cima dos seus quinze anos acabava de fazer da menina travêssa uma dona séria e prudente. Ela preparava-se já com certo orgulho para as inefáv'eis ternuras do amor conjugal e para o grave papel de espôsa.

Essa primeira noite não dormiu, passou-a tôda rezando à sua imagem de Nossa Senhora das Candeias, e conversando com a sombra de Vilarzito sôbre sua felicidade. Às vêzes receava que essa felicidade tamanha não pudesse caber naquela alcova tão acanhada, pois só com a lembrança dela sentia-se sufocar. Outras vêzes corria os olhos pelos seus trastes singelos, e se alguma coisa não lhe parecia bem, saltava do leito e ia arranjá-la, para que não desagradasse aos olhos de Vilarzito.

Oito dias decorreram, nos quais Dulce, como a calhandra nos primeiros eflúvios da primavera, forrava de macia relva o caro ninho. À tarde do último dia ela sentou-se no terraço, com os olhos no horizonte, e esperou. Quando à meia-noite ergueu-se para recolher, seu lábio murmurou:

— Êle não me quer tanto, como eu a êle... Senão teria chegado!

Talvez que um obstáculo imprevisto demorasse o môço, apesar do seu desejo, não só um, porém mais dias: não havia motivo ainda para se afligir. Tamanha devia ser a sua felicidade, que Deus, para que ela a não matasse, a preparava por uma maior prova.

Esperou. Deus sabe quantas lágrimas lhe custou; lágrimas que lhe empanaram o brilho dos lindos olhos, e desbotaram-lhe as faces.

Uma noite enfim Dulce sentiu um grande abalo; pareceu-lhe que o coração rompera dentro. Era a morte da esperança. A donzela ergueu-se lívida, para cair fulminada pela dor; o resto da noite foi um horrível sofrimento.

Pela manhã a menina vestiu-se de luto e foi ter com o granjeiro.

— Pai, meu espôso é morto a esta hora. Vou-me a Sevilha, para morrer junto dêle.

Havia nessas palavras um abismo de dor, no fundo do qual, como nas gorjas da montanha, rolavam surdas torrentes; havia também a obstinação heróica das grandes paixões.

Ramon amava sua filha, com amor cego. Fêz-lhe a vontade, abandonou o seu casal, e partiu. A cidade maravilha, a suntuosa Sevilha, só teve luto e dores para a inconsolável espôsa.

Entretanto um raio de esperánça luziu na treva que sepultava a mísera e mesquinha, noiva apenas, e já viúva. Desde o dia da chegada, as horas de alívio que tinha, eram as que passava carpindo e orando na catedral, diante do altar onde se venerava a imagem de Nossa Senhora das Candeias. Um dia o velho sacristão, travado de piedade por aquela dor tamanha em tão poucos e tão belos anos, falou à infeliz, granjeando consolá-la. Dulce contou-lhe por alto a sua desdita.

— Mas! . . , acudiu o donato. Tempos há, e não muitos, que um rapaz aqui veio cumprir promessa igual! Seria talvez o vosso!

— Bendito sejais, meu Deus! disse a môça mal podendo ainda falar. Bendito e louvado em vossa infinita misericórdia, que assim mandais um raio de graça, a quem se julgava para sempre dela desamparada.

Com êste dizer, que saía bem no fundo d'alma, prostrou-se de nôvo aos pés do altar; santo fervor brotava-lhe do seio opresso. Arrastaram-na depois esperanças fagueiras e impacientes afagos aos joelhos do velho, que ela abraçou:

— Repeti! Oh! repeti, santo homem, que o vistes, que vivo é, aquêle que meus olhos não pensavam mais ver neste mundo das desventuras minhas! Dizei-me, bom donato, piedoso senhor, dizei-me onde se foi êle? Que má hora o levou? Onde o tem, longe da espôsa, o mau fado meu?

Estas e outras falas de tão angustiado coração ficaram sem resposta. O velho nada mais sabia do que disse: nem a certa data, nem sinais do môço devoto, lhe ficaram na cansada reminiscência.

Dulce entrou mais triste, se é possível, do que saíra. O pai que de sua parte não se poupava à fadiga em cata de novas boas ou más do desaparecido, desenganado já, não tinha mais esperança, que lhe fôsse confôrto da dor.

A filha contou-lhe o que era passado. Correu êle ao sacristão, cuidando comprar com ouro, o que não tinham granjeado lágrimas e penas. Debalde foi; debalde vagou o resto do dia pela cidade, inquirindo, de quem encontrava, indícios de Vilarzito.

— Digo-te eu por seguro, filha, em que isto mais te aflija, quando não devera! Digo-te eu que o bandido mui de vontade sua te abandonou.

— Não, pai; morto é!

E prosseguia depois de silencioso pranto:

— Morto é! Tenho aqui dentro uma voz que mo está dizendo, e mais, que sua alma ainda não deixou êste mundo.

— Abusões que entraram!

— Não é abusão, pai! Se o céu ouvir os rogos meus, e deparar-me o lugar, onde jazem as cinzas de quem tanto amei, que nesta vida não acabarei de amá-lo! ... Por seguro, pai, que estes olhos que a terra tem de comer, o verão uma vez ainda. Êle me aparecerá talvez para levar-me! Ah! Prouve a Deus!

Dois meses passados nesse contínuo desviver de tristura e angústias, volveram pai e filha ao pobre casalinho, já tão brincado e loução, êrmo agora e viúvo de sua mal gorada alegria, e dos risos donosos, que o enchiam dantes quando a sua bela senhoria o encantava.

O desamparo de sua casa, os gastos de jornada e locandas, junto ao desânimo que o entrara com a desgraça, desarranjaram a vida do infeliz granjeiro. O já de si escasso mealheiro, esvaziou de todo; minguaram as posses, foi-se a abastança; a miséria faminta e esfarrapada veio sentar à porta espreitando a sua hora de entrar.

Esse arreganho da miséria, de que ela fôra a causa inocente, tirou Dulce do egoísmo de sua dor e deixou-lhe ver o sofrimento dos seus. Foi sublime então de coragem e abnegação, como o fôra de amor! O trabalho de suas mãos, e mais que êle a fôrça de sua alma salvaram a família da fome da pobreza. No afã de uma lida sem cessar encontrava curtos repousos para sua pena rebelde ao esquecimento; na satisfação de sacrificar-se pelo seus, libava seu coração o consôlo único, dos que o mundo pode dar às grandes dores.

Para mais apurar a fortaleza desta alma, mandou-lhe Deus nova provança; a mãe de Dulce finara-se, consumida pelos desgostos. O vácuo deixado n'alma por um ente querido, nada o enche, é certo; mas também sabem os que o sentiram, que êsse vácuo permite que outra alma amiga se achegue mais, e toque e penetre o âmago da nossa.

Esses tristes corações de pai e filha conchegaram-se ainda mais; felizes êles formariam uma família; desgraçados eram mais do que isso: eram lousas os túmulos vivos de uma só e eterna saudade.

CAPÍTULO XXVII - EM QUE O HÁBITO FAZ O MONGE

Que era feito de Vilarzito?

Morto era, ou andava ainda à cata de aventuras por êste mundo grande?

Deixando sua noiva nas margens do Tinto, o rapazito caminhou a Sevilha. Como foi êle, não o sei eu; foi, e de caminho aquela ambição grande e ardente que lhe fervia no seio, ia farejando no ar alguma aventura.

Como não lhe deparasse o acaso, chegou afinal à grande cidade; tendo mercado a vela de cêra, andou a cumprir o voto de Dulcita na catedral. Era dia de grande festividade religiosa; o bispo devia oficiar em pontificial.

Enquanto o rapaz ajoelhado esperava que ardesse a vela no altar, aos pés de Nossa Senhora das Candeias, o povo fôra invadindo o vasto recinto da igreja, e a cerimônia começara.

Era a primeira vez que o galopim das estradas se achava em face da majestade divina, revestida da pompa e esplendor do catolicismo. O espetáculo grandioso impressionou aquela imaginação vivaz. Ela ficou absorta no meio da harmonia grave do órgão concertando com as litanias sagradas, dos luminosos vapores do incenso que nublavam as imagens divinas e o venerando busto dos levitas cristãos, dando à cena aparência de visão.

De repente fêz-se um grande silêncio: a fronte calva do pregador assomou no púlpito; a voz possante ainda, embora trêmula, encheu o vasto âmbito do templo. Sôbre a multidão curva e respeitosa, a palavra inspirada do apóstolo de Cristo caiu como a chuva de fogo do monte Sinai.

Êsse homem só, êsse velho débil, qual possante lutador, tinha a seus pés submissa e humilde a turba gigante, o leão-povo. A um gesto seu, o monstro estremecia; a frase impetuosa de sua eloqüência inspirada flagelava com látego os flancos da fera, que nem gemia. Ele olhava, e as frontes orgulhosas dos grandes da terra se abatiam. Ele troava, e as lágrimas rolavam em silêncio pelas faces dos soberbos.

Uma hora durante, êle teve assim o dragão esmagado no pé sob a virga de sua eloqüência, como o tivera o arcanjo sob as patas do corcel; uma hora durante, o gládio de sua palavra retalhou o coração do réptil domado.

Enfim o sorriso iluminou o semblante severo e tôrvo; o fogo celeste dardejou ainda nos olhos fundos, não já chispas ardentes, senão ondas de luz branda e serena; daqueles lábios crispados, onde vibrara a maldição, mana em jôrro o mel da graça, qual manara no deserto para o fugitivo povo do Senhor.

Seu hálito inspira nova e melhor vida ao gigante; ei-lo que de esmagado se ergue mais vigoroso, e vai coleando pelas ruas e praças da vasta cidade.

Quando Vilarzito voltou a si do arroubo em que ficara, a igreja estava deserta; volveu um olhar para a vela de promessa que ardia ainda, e apagou-a de um sôpro.

— Quero ser pregador! Hei de sê-lo! murmurou. Dois frades atravessaram pela nave; era um de exigua figura, minguada pela velhice, que já lhe acurvava a cabeça; a humildade evangélica estava em tôda sua pessoa. Vilarzito não reconheceu nem podia, naquela insignificante figura, o sublime pregador; os alumbramentos d'alma operavam nesse corpo mesquinho e encarquilhado uma transfiguração pasmosa e incrível. Era êste o célebre pregador Fr. J. Corela, da ordem dos Capuchinhos; florescera na côrte de Filipe II, e agora nos últimos dias da vida que devia extinguir-se com o século em 1599, os lumes que desferia a sua eloqüência, eram raios ainda.

O outro frade tinha a mais bela estampa de homem que ser podia. Velho também, mas de velhice robusta, o seu mverno era como primavera dos climas boreais. As cãs realçavam as côres do sangue vigoroso e sadio; trazia o talhe ereto; era nobre o gesto e o passo majestoso.

— Este é! disse consigo Vilarzito admirando-o. Nunca me lembrara eu como era sua fisionomia, que me cegavam aquêles olhos em brasas! lias agora sim, estou vendo o ao próprio. Parece um rei. E mais que rei é!

Estas reflexões fazia o rapazito seguindo a alguma distância os dois frades. Ao quebrar da primeira esquina o pregador separou-se, e seu bem apessoado companheiro continuou só. De caminho recebia êle a saudação resp'eitosa dos passantes, que lhe cantavam cortesia, como à dignidade que era na religião.

Chegado à calçada de um suntuoso palácio, o religioso deixando a larga portaria, procurou na próxima viela uma portinha escusa, que naturalmente dava enfrada reservada aos íntimos. Pondo o pé na soleira encontrou-se frente a frente com um cavalheiro que vinha de dentro, e saía, apressado sem dúvida de negócio urgente.

O religioso não demoveu o passo, antes firmou-o no batente com a solidez de seu porte majestoso; o cavalheiro, ou porque o não reconhecesse, ou porque não quisesse mesmo dar-lhe senhas do respeito, que nessa época se guardava aos ministros da religião, não recuou também. Assim ficaram medindo-se no limiar da estreita porta.

Por fim o môço, impaciente, estendeu a mão para abrir passagem:

— Fazei-me a mercê de arredar-vos, Reverendo. Vou-me apressado!

O religioso ficou imóvel; com um gesto lento e soberbo desviou a mão do môço que lhe roçara o ombro:

— Mais respeito, mancebo! Não mancheis com vossas mãos profanas êste santo hábito!

— Sabeis a quem falais, Padre?... Sou fidalgo da casa de El-rei, e vou em seu real serviço! Deixai-me passar!

O frade sorriu:

— São vossos títulos êsses? Pois se vós sois fidalgo do rei, eu sou ministro daquele que tem em sua mão os reis da terra. A majestade que servis, já a tive eu de joelhos a êstes pés. Bem vêdes que a preferência me compete.

E arredando o cavalheiro, o frade passou altivo e sobranceiro.

Vilarzito não perdeu uma palavra do curto diálogo; sua imaginação já excitada mais se exaltou. Desde êsse momento seu destino estava prêso àquele frade que representava para êle a maior glória do mundo.

O rapaz sentou-se na calçada fronteira; e esperando que seu herói saísse do palácio, rilhava nos dentes uma naca de pão de rala de frês dias.

O religioso era o P. Gusmão da Cunha, Procurador do Colégio de Lisboa. Vinha de Madrid aonde fôra solicitar perante a côrte sôbre negócios da casa. Vilarzito avançou afoito e manifestou-lhe seus ardentes desejos de ser pregador. Tão decidida vocação não era para desprezar num século em que a Companhia de Jesus, com os olhos largos no futuro, colhia entre os povos a fina flor da mocidade para cultivá-la em suas vastas estudarias. Aspirava ela ser como o sol da inteligência naquela aurora da civilização moderna.

No seguinte dia tomaram caminho de Lisboa o frade e seu nôvo fâmulo, aspirante ao noviciado. Na viagem notou o rapaz que o religioso lia, mais que o breviário, um volume in-4.o°, o qual trazia no rosto êste título latino: De liberi arbitrü cum gratia domini concordia. Ludovico Molina. OLSIPONF-MDLXXVIIT.

Ignorava Vilarito o rumor que então fazia na orbe católico essa obra e sua doutrina, conhecido por molinismo, do nome do seu autor; porém bastava a preferência que dava o P. Procurador ao livro, para levá-lo a formar a mais alta idéia dos méritos da obra. Aquêle nome de Molina ficou-lhe na lembrança como de um dos famosos luzeiros da igreja e seus futuros modelos.

O rapaz tivera depois que deixara Sevilha, uma hora de desencantamento: e foi quando soube dos fâmulos que o sublime pregador da catedral não era o P. Cunha, e sim o velho capuchinho. Estêve muito tempo repartido entre a glória que abandonara, e essa que seguira, talvez falsa luz.

Nestas cogitações achou-se a sós com o religioso, uma tarde que tinham chegada à pousada:

— Releve V. Reverendíssima que eu lhe ponha uma questão.

— Quantas queira, filho. Perguntar é próprio dos que desejam aprender.

— Diga-me então, P. Mestre, qual é a maior glória dêste mundo?

— É prática do justo em que se resume a lei de Deus.

— Essa é a glória celeste; pergunto eu, das glórias do mundo, qual avulta mais?

Como o religioso embatucasse, o rapaz prosseguiu:

— Qual preferia o P. Mesfre, a do Cid por exemplo, o Aquiles castelhano, a de Lopes de Vega, o maior poeta das Espanhas, a de Carlos V, imperador e rei, a do grande Pacheco, primeiro pintor do mundo, e oufras muitas?...

— Prefiro aquela que vem do Senhor, filho, e nêle se fortifica.

— Qual ela é?

— A do Geral da Companhia. -

— Onde está êle, P. Mesfre?

— Em Roma, que é a cabeça do orbe católico.

— Que faz êle?

— Move o mundo.

— É mais que El-rei?

— É mais que o Papa, filho. Nêle se inspiram os eleitores do sagrado colégio, quando escolhe o sucessor de São Pedro.

— E quem o escolhe a êle?

— A Companhia.

Desde então Vilarzito não hesitou mais; seu destino estava traçado pela Providência. Entrou em noviciado, com o nome de Gusmão, que lhe deu o Procurador, no sacramento da crisma. Sabe-se que necessidade tinha êle dessa mudança; era preciso que Vilarzito, o marido de Dulce, morresse no século, aos umbrais do claustro. O apelido, tirou-o êle do famoso escritor, como bom presságio de sua nova carreira.

Segundo o uso dos conventos, cada noviço era adjunto especialmente a um dos religiosos mais autorizados que lhe servisse de guia e exemplo vivo; assim desempenhava o môço ao mesmo tempo funções de discípulo e fâmulo. Vilarzito continuara sob a imediata inspeção do P. Procurador; sucedeu que um dia arrumando a cela do mestre, fêz o rapazito uma descoberta. O P. Cunha tinha a seu cargo os negócios do Brasil. Entre vários maços arrumados uns sôbre outros na prateleira, leu o menino quando os virava para espanar, o seguinte rótulo sôbre a encosta de papelão, em letras maiúsculas: Negócios das Minas de Prata.

Ouvira Vilarzito ainda muito criança falar dessas famosas minas de prata, cuja fábula enchera as Espanhas. Tomado pois de curiosidade, e aproveitando a ausência do P. Mestre que saíra para longe, desdeu os nós ao cadarço vermelho, e encontrou sob a capa de papelão uma série de cartas escritas da Bahia pelo nosso conhecido 'Rev. P. Manuel Soares, cronista daquela província e autor de certa memória. '

A primeira carta trazia a data de 15 de novembro de 1595 e rezava assim:

"Pax Christi. Aproveito portador seguro para dar conta a V. Reverendíssima das minhas diligências, sôbre o objeto que de Roma me foi incumbido.

"Logo que a esta cheguei, tive por primeiro cuidado, informar-me da mulher e filho de Robério Dias. Vivem pobremente para as bandas da Ribeira, em companhia e a expensas de uma velha tia, cuja é a casa.

"D. Clara é uma santa mulher, que tudo faria pelo serviço da religião; mas infelizmente não sabe mais do que divulgou a voz pública; afirma que seu falecido espôso possuía o roteiro das minas e com êle se partiu para Espanha, onde, ou em caminho, lho roubaram. Quanto ao filho, o menino Estácio, que o pai deixou no bêrço, anda nos cinco anos de idade; se não falharem os prognósticos, deve ser môço para se aproveitar.

"Sôbre a recomendação que trouxe, creio não haverá dificuldade, em chegando o tempo, de ganhá-lo para a ordem, metendo-o noviço neste colégio. O P. Inácio do Louriçal que é o confessor e cura da casa, já a tal respeito teve suas entradas com o doutor Vaz Caminha, padrinho do menino, e grande amigo que foi de Robério.

"Êsse doutor Vaz Caminha é pessoa doutíssima, de suma prudência e conselho. Tendo-o por nós, não há recear o bom sucesso da emprêsa. A mãe não tem outro voto senão o do advogado, o menino o quer por cima de tudo. O único obstáculo virá da parte do Alcaide-mor Alvaro de Carvalho que é ainda afim da dona. Êste é homem iroso, obstinado, antepondo a tudo sua militança, e tendo em nenhuma conta qualquer profissão que não seja a das armas; pode bem ser a queria seguida pelo môço, mas o advogado lhe porá as medidas e nos avisaremos.

"Nada mais por ora, senão a pedir a V. Reverendíssima que me tenha em sua graça quando orar a Deus por seus filhos, e me deite sua bênção.

"P. Manuel Soares"

Seguiam-se outras cartas sôbre o mesmo assunto; tôdas devorou-as o rapazito com ardente curiosidade. Êle tinha a memória de César, Cromwel e Napoleão; o que uma vez penetrava em seu espírito, aí ficava gravado como relêvo no mármore.

Durou dois anos o noviciado de Vilarzito; ao cabo dêles professou no primeiro voto. Cursou como escolar tôdas as aulas da estudaria em tal aproveitamento, que admirou aos mais sabedores dos mestres que liam na casa de Lisboa. Aprovado cum laude em tôdas as matérias, passou a coadjutor, tendo já ganho a fama de primeiro humanista do pátio, com que de dia em dia mais se avantajava em tão verdes anos.

Rastejava êle pelos vinte e cinco se incluirmos o acréscimo de quatro, que fizera por sua conta entrando para o noviciado. Sua astúcia pressentira desde logo quanto a velhice era para o comum dos homens certo abono de saber, prudência e siso; por isso foi tratando de adiantar-se em anos no livro dos assentamentos. Mais tarde, quando cursou as aulas de anatomia e química, a ciência lhe revelou segredos, que hábil e cautamente explorados, serviram para desbotar o viço da juventude.

Como não pudesse antes de oito anos ser admitido a professar no quarto voto, para o qual exigia o Instituto de Santo Inácio a idade de trinta e três, em memória de Jesus Cristo, e do fundador da Companhia, impetrou a graça de fazer durante êsse tempo residência numa província do ultramar.

O P. Gusmão sabia que nas casas dessas províncias remotas, onde o número dos professos não era crescido, lhe seriam cometidos por carência de homem mais apto os negócios de ponderação, que no seu colégio de Madrid não se confiavam de um simples coadjutor.

De mais, êle pretendia granjear todos os títulos, para no momento dado pô-los ao serviço de sua ambição. Aos louros escolásticos da casuísta e sabedor, convinha engrinaldar as palmas apostólicas. Precisava para isso de teatro vasto, onde provasse a fôrça de sua palavra já exercitada no púlpito.

Foi-lhe designada a província do Brasil, e nela a casa do Rio de Janeiro.

Partiu em 1600, camïnho de Palos, a tomar navio que o transportasse. Perlongou depois de quatro anos as pitorescas margens do Tinto, onde se representara um ato do drama de sua vida. Não foi sem emoção que seus olhos procuraram o alvo sacalinho, tão mudado do que era outrora. Estava êle já a êsse tempo abandonado de seus antigos senhores, e possuído de entranhos.

Chegando à cidade o P. Gusmão apeou na primeira igreja que ficava em caminho e entrou para fazer oração. Era manhã, depois da missa conventual; reinava no recinto o dúbio crepúsculo que é próprio dos templos góticos, e tanto convida ao santo recolho. Apenas duas largas réstias de luz, coadas pelas orgivas, cortavam o pavimento. Quando o jesuíta fazia oração, uma das raras devotas que ainda estavam na igreja, dando com os olhos nêle, caiu de bruços sôbre a pedra. As outras não fizeram reparo, atribuindo o acidente a fervor de penitência, muito usual e então; terminada a devoção foram-se à obrigação.

A penitente enfim, ergueu a custo a fronte magoada da pedra; desvairou os olhos pela igreja; tornou a ver o frade e lembrou-se! Estêve a contemplá-lo até que êle voltou-se para sair. Aí, como tomada de uma fôrça superior, a mulher ergueu-se e foi direita ao jesuíta; as pupilas desferiram raios entre a renda prêta da mantilha que a vendava:

— FUI DULCE, HOJE ME CHAMAM MARINA DE PENA, PORQUE ASSIM ME FIZESTe! — DISSE A MOÇA NO RANCOR DA SUA PAIXãO. Padre, fazei-me a esmola de ouvir de confissão a uma pobre pecadora! exclamou ela rojando-se aos pés do religioso e segurando-o pelo hábito.

O jesuíta voltou-se; no lugar onde estava, a réstia de luz batia em cheio sôbre a sua cabeça, esclarecendo-a como um resplendor.

O som dessa voz penetrou o coração da môça, ao mesmo tempo que seus olhos erguendo-se cravaram no rosto do sacerdote. Ela soltou um grito de pavor:

— Meu marido! ...

— Quem sois, mulher? interrogou o jesuíta recuando de espanto.

A devota ergueu-se de um ímpeto, atirando a mantilha para os ombros e descobrindo o formoso semblante. Os olhares de ambos cruzaram-se como dois dardos:

— Fui Dulce, hoje me chamam Marina de Pena, porque assim me fizestes! disse a môça no rancor da sua paixão. Tão mudada me têm os pesares, que não me reconheceis!

Mas já o P. Molina havia recobrado a sua impassibilidade:

— Como pudera reconhecer-vos, quem nunca vos conheceu?

— Conheço-vos eu e vos requeiro, que meu marido sois!... Os olhos que as lágrimas cegam poderão enganar-se; não êste coração onde as vossas falas estão vivas como na noite em que me jurastes...

— Calai-vos, mulher! Vosso marido morreu! Êste que vêdes, humilde servo do Senhor, não é já dêste mundo!

— Mentis! Deus que vos deu ao meu amor, não podia roubar-vos à sua criatura! Se o fizesse, não seria Deus...

— Não blasfemeis!

— Não! Oh! não seria! E eu lhe disputaria o que era meu e muito meu pelo sacramento e afeto que êle mesmo abençoou.

— Senhor exclamou o P. Molina cruzando as mãos para o altar. Perdoai a esta mísera pecadora, a quem as más paixões mundanas escureceram os lumes da razão.

O religioso quis afastar-se, mas Dulce arrastando-se de joelhos, travou-se do hábito.

— Oh! por piedade, não me desampareis outra vez nesta solidão de minha alma, em que tenho vivido. Não quereis já ser meu; pertenceis ao Senhor? Pois eu virei adorar o Senhor a vossos pés. Me ensinareis a amá-lo, já que não me é dado mais amar-vos, a vós! ...

— Cessai de desarrazoar, mulher, e largai-me do hábito!

— Não, não vos deixarei! Repelis-me?... Nem sequer uma palavra de compaixão?... Pois eu serei de agora em diante a sombra vossa! Por tôda a parte vos seguirei como alma penada ou remorso vivo! Quando passardes, vos apontarei: "Êsse que ali vêdes, é meu marido, o qual mentiu a Deus e aos homens..."

Durante estas palavras, o P. Molina debalde esforçava por tirar o hábito das mãos crispadas da môça; mas ela se deixava ir de rashos sôbre as lajes que lhe magoavam os joelhos. A dor por fim tornou-se tão aguda, que a mísera, não podendo resistir, caiu desmaiada.

O frade desapareceu.

Logo após chegou Ramon em busca de Dulce. Muitos anos havia que êle tinha deixado para sempre o lindo casálinho. A miséria em parte forçara o campônio a vendê-lo, e em parte também as tristes e agras reminiscências de que estava tão cheio. Vieram então pai e filha habitar na cidade de Palos o quarto de um velho casarão, onde aposentava gente da terra e também colonos e forasteiros que embarcavam para as Américas ou de lá tornavam.

Muitas vêzes, tentado dos contos fabulosos que faziam os aventureiros e marujos, pensara Ramon em passar-se à colônia à busca de riquezas, com que supunha poder comprar para sua filha uma felicidade, em troca da outra, para sempre e sem remissão perdida.

Dulce porém, quando êle comunicara seu intento, recusou obstinadamente:

— Não, pai; nesta terra, onde êle repousa, quero eu também repousar. Teremos êste mesmo frio leito, já que o céu negou-se a abençoar o outro para o nosso amor. De que me valem a mim riquezas? Vende acaso a terra o que roubou e já consumiu em pó?

A patroa da locanda era uma velha a quem a beleza de Dulcita ganhara logo os afetos e que não se cansava de admirá-la e enchê-la de mil desvelo e carinhos.

— Sabe a menina que tem um formoso nome e tão bem acertado, que mais não pudera ser! disse a velha logo no primeiro dia. Dona Dulce! ... É como se lhe chamassem pelo seu lindo rosto de alcorça, e por êsse riso que parece mesmo um torrão de açúcar.

— Enganou-vos quem vos disse de assim chamar-me.

— Mas se ouvi mesmo a vosso pai!

A môça pôs nela uns olhos fundos de dor, porém rasos de pranto:

— Não sou Dulce, mulher, inda que o já fui já, senão amara, e bem amara de pena. Mais bem pôsto que nenhum me foi êste nome por minha desventura, pois sou dela crismada.

Ou porque a velha não compreendesse o trocadilho que a môça fizera com o seu nome, e ao qual conservamos os têrmos castelhanos; ou o que é mais natural, por comprazer com a sua habitual tristura; o fato é que lhe respondeu por êste teor:

— Bem, seja a menina D. Marina de Pena, e não Dulcita, pois assim quer ser chamada; mas fique com o que lhe digo, que dentro do meu coração será sempre doce

De feito a velha daí em diante só a tratou por esse nôvo nome, cuja singularidade não escapara à finura e perspicácia do P. Reitor da Bahia. Ouvindo-se chamar daquele modo, Dulce sorria; não há admirar; os grandes pesares também têm seu júbilo, qual o de sentirem-se vivos e ardentes; nem há nada que mais se toque nêste mundo do que seja o riso e o pranto, a alegria e a dor.

CAPÍTULO XXVIII - EM QUE MESTRE BRÁS REVELA SEU TALENTO DIPLOMÁTICO

Sete anos estêve o P. Molina residindo nos colégios de São Sebastião e São Yicente; ao cabo dêles recolheu à sua província de Portugal, onde se ia preparar para receber o quarto e último grau da ordem.

Embarcara no galeão Rosário, navio de licença, que partiu do Rio de Janeiro por fins de 1607, em demanda do pôrto de Lisboa. Tendo feito escala por Pernambuco, bordejava na altura de Assunção, às baforadas de uma fresca brisa que salteava a cada instante de um a outro ponto do quadrante.

Era noite escura e alta.

O frade, que estivera praticando no tombadilho com o comandante do galeão, agora absorto em cogitações largas, sentara-se em um rôlo de calebre contra a amurada. Correu o tempo; entrara há pedaço o quarto da madôrra. Ninguém mais, à exceção do jesuíta, havia àquela hora adiantada sôbre o convés de pôpa.

Entre o coaxar das ondas batendo os flancos do navio e os estalos da armação, ouvia-se por momentos, trazido pela brisa, um murmúrio de vozes abafadas, que vinha de estibordo. Na posição do P. Molina, a sotavento, as palavras embora proferidas em tom soturno, deveriam chegar bem perceptíveis; não as escutava êle porém, tão alheio estava de si naquele instante.

Uma exclamação mais viva perturbou porventura as cogitações do religioso, que aplicou o ouvido e conhecendo donde partia o murmúrio das vozes, aproximou-se manso e manso, tomado de alguma curiosidade, porém mais do desejo de qualquer preocupação que o arrancasse ao turbilhão de seus íntimos pensamentos.

Junto do mastro grande, no espaço deixado entre uns caixões servindo de galinheiros e gaiolas de animais, estavam sentados quatro sujeitos, apostando quem esvaziaria mais depressa uma grande escudela cogulada de chanfana e uma meia dúzia de botelhas, que surdiam dentre os macames de corda na ocasião precisa, e lá sumiam-se de nôvo depois de larga libação. Era essa uma medida de prudência para o caso de surprêsa.

O acaso, o mais engenhoso dos fabricadores de dramas, juntara ali, na tôlda de um navio perdido na imensidade do oceano, êsses quatro indivíduos, que nunca anteriormente se tinham visto, e talvez não se reunissem mais nunca neste mundo, finda a jornada que os associara.

Um dêles era o gajeiro, mestre Antão Gonçalo. que preferia fazer o seu quarto em boa companhia a vigiar só e desconsolado. Outro tinha ares de mariola de praça, e não passava dos seus vinte anos. O terceiro, grisalho já, mas bem fornido de bigodes e pêra, retratava mui ao vivo um tipo daqueles tempos, que ainda hoje existe mas profundamente modificado pelo espirito do século, o tipo de soldado aventureiro e mercenário, ao serviço de tôdas as emprêsas boas e más, conforme a paga; de menos as armas e de mais a trapaça, é o moderno cavalheiro de indústria. Finalmente completava o quadrado uma figura suina, que tinha todos os visos de mercador das colônias; era êle quem pagava o pato, e talvez por isso o que menos falava e menos consumia. Mastigava o seu dinheiro, isto é, a sua carne; de resto parecia bastante enjoado.

O bródio fôra ajustado entre o marujo e o soldado. O colono deixara-se depenar, pensando granjear assim os bons ofícios do marujo a bordo, a proteção do soldado em terra, e a confiança do mariola.

O aventureiro vinha de São Sebastião; o mercador e o mariola, ambos da Bahia, tinham embarcado em Olinda, por não haver no pôrto de Salvador navio de licença a partir, em ser tempo da frota.

Rolava a prática sôbre o tema de ocasião, os trabalhos que esperavam a quem passava ao Brasil para tentar fortuna, os malogros de muito e os avultados lucros de alguns. Cada qual contava como lhe fôra a sorte, e todos tinham dela as queixas mais acerbas.

— É tal qual vos digo, Antão gajeiro! repetiu o espadachim. Aforrado como me vêdes podia estar hoje nadando em ouro! Assim não fôra eu malaventurado!

— Escapastes de fisgar o arpéu nalguma boa prêsa, capitão? perguntou o marujo.

— Não faltam elas naquela terra excomungada! ... observou o rapaz.

— Não faltam, não muchacho! O diabo é não haver justiças que guardem as costas de um homem!... tornou o soldado. Quando a gente é atacado pela frente e lealmente, o juiz é a espada; morre-se em boa guerra! Pero, isso de estar um cristão à mercê de gentio e outros que tais degradados, a tremelicar sem saber de que, vendo a hora que uma seta o manda desta para melhor! ...

— É assim mesmo!

— Isso não é terra em que se viva! Melhores juízes lhe ponha El-rei, se quiser que lá medre a boa gente de espada para o seu real serviço!

O aventureio empinou a botelha e afogou o suspiro com uma formidável golpada.

— Deixai em paz êsses urubus, D. Aníbal, disse o gajeiro, e dizei-nos como o caso foi. A gente cá do mar gosta de saber histórias...

— - Qual caso?

— De como vos desarvorou a nau antes de entrar a bom pôrto. Nãò dissestes que a fortuna pregou-vos um lôgro? _

— E grande. Ninguém me tira de que estive com a mão mesmo em cima daquelas maravilhosas minas de prata... Sabeis?

— Hum!... fêz o rapaz a moda de exclamação.

O traficante que tinha pendido à direita com o balanço do navio, dera um estremeção.

— Orça! acudiu o marujo rindo.

— Sangre de Crista! tornou o cavalheiro. Ainda me ferve o meu lembrando! ...

Fôra essa exclamação castelhana, que despertara o P. Molina. Quando êle, sem que o pressentissem, veio sentar-se por detrás de uma das caixas de pinho, o soldado já havia começado a narrativa.

— Foi um certo Fernão Aires, de São Sebastião, quem me pôs na pista... Mas primeiro devo referir... Certo dia apareceu morto na ladeira do Castelo um sujeito cozido a facadas, e a mulher pouco lhe faltava para isto com as três que alapardara. Muita gente foi ver o acontecido e até eu acertei de passar... A mulher só fazia engrolar uma ladainha com êste dizer: "O papel!.... o papel!..." Que ali havia rasca, suspeitei eu logo.

— É mesmo!... disse o gajeiro. Aí andava mouro na costa.

— Me parece que sim!... acudiu o rapaz. Ainda eu não estava em São Sebastião quando isso foi, mas ouvi rosnar como coisa fresca.

— Pois a semana não estava acabada, quando veio valer-se de mim o tal dito cujo de Fernão Aires para fazer uma entrada no sertão. Estava êle de luto pelo finado, que era seu parente, ao que me disse. Cá para mim é negócio líquido que o amigo foi quem aviou o outro. Apesar de beato...

— São os piores!

— De pedaço a pedaço estava-me êle a rezar numa cruz grande de pau-santo que trazia ao rosário!... Um dia, já oito eram idos depois que nos partíramos de São Sebastião, o cujo desenbuchou. A coisa era esta. Íamos à descoberta de umas minas de prata de que só êle sabia o rumo, por lho ter ensinado um índio manso. Era preciso que os companheiros não dessem pela coisa, e como carecia de um sócio, me escolhera a mim. Havíamos de deixar os outros em certa paragem, tirar o que se pudesse de metal, e escondê-lo longe do lugar, para depois fingir que o achávamos à toa.

— Fino era êle, como azougue; pero a D. Aníbal, o diabo, seu mestre dêle, não embaçaria. Aquela ladainha de mulher andava-me parafusando na cachola!... Sangre de Cristo! disse cá comigo! Não há dúvida! O papel... Tem-no o birbante, e nêle está o segrêdo. Pois o tomarei eu à ponta da espada!

O traficante fêz um gesto de susto e murmurou baixinho:

— Tomar por fôrça! ...

O aventureiro olhou fito o mercador, que embuchou o resto da frase; era uma simples alusão à Ord. do liv. 5o, tít. 61, que punia o roubo.

— Alguns pícaros, continuou D. Aníbal, seriam capazes de chamar roubo a isso! ... Não sabem os parvos, o que seja o direito de conquista. Os reis conquistam lá seus reinos, nós cavalheiros conquistamos os duros e os reales. Cá para mim, tudo que fôr necessário à vida, mulheres, pecúnia, boa pitança, tudo é despôjo de guerra!

O mercador encolheu-se; os dois outros companheiros deram sua aprovação tácita à teoria conquistadora do cavalheiro.

— Decidido pois estava a oferecer combate leal ao amigo, quando chegamos a um pouso, onde devíamos falhar um dia para repousar. Maldita lembrança foi essa! Voltando à noite de uma caçada, retardados pela borrasca, que havíamos de achar?...

— Um bando de selvagens! disse o colono.

— Pior foi a desgraça. Um raio partira o picaro do Fernão!...

— Um raio!...

— Desconfiei da história e vou-me a êle! Já estava morto. Nas algibeiras, nada. Pero, a tal cruz estava atirada ao chão em pedaços!... Sangre de Cristo! Era ôco o pau. O papel ali estava escondido.

— Ah!... fêz o gajeiro! Era essa a devoção do marreco.

— Mas o papel que sumiço levou? perguntou o rapaz.

— Tinha-o levado um frade que confessara o tal.

— E o frade?

— O frade... Só se o não encontrar neste mundo, ou mesmo no outro, Ele mo pagará. O pícaro! Roubar-me o que tinha de ser meu, e com que sem-cerimônia!...

— Pois deixai que vos diga, replicou o rapaz, que mais perdi eu, senhor capitão.

— Calai-vos daí, rapaz mais do que as maravilhosas minas de prata?

— Qual!... Se era possível, Anselmo? Vêde bem!

— E se vos eu disse que estive no caminho da cidade encantada, onde as ruas são calçadas de prata e as casas de ouro?

— Ah! então! ...

— Como! Se ainda ninguém a achou?

— Menos aquêle que deu a notícia dela. — Esse, morto é.

— Morto será, que isso nada faz ao caso, se deixou a rota escrita, para lá ir quem a tiver, tornou o Anselmo.

— E êsse escrito onde pára?

— Sei-o eu?...

— Fazeis segrêdo disso?...

— Tanto não faço que vou-me a Madrid queixar-me a El-rei de quem à fôrça me privou do que muito meu era! Um letrado e bom letrado da Bahia, o licenciado Vaz Caminha... Heis de conhecê-lo, mestre Brás?

— Se o não conhecera eu!.... Pois é freguesia minha! bocejou o mercador entre dois engulhos.

— Pois deu-me boa fiança de meu direito.

— Também eu pesco o meu tantinho da rabulice, acudiu o mercador. Se quereis, posso dizer-vos como me parece da vossa justiça.

— Os bons avisos nunca sobram, e com o vosso me fareis mercê. Conheceis um D. Diogo de Mariz, fidalgo, que é provedor-mor da fazenda de São Sebastião?

— Não me é estranho êsse nome, mas que o conheça não digo.

— Conheço-o eu mui bem! disse D. Aníbal.

— E eu que até já fui portador de uma carga, que êle mandava à mulher do tal descobridor das vossas minas, senhor capitão, disse o marujo!

— A mulher de Robério Dias? perguntou o mercador. Uma D. Clara?...

— Por aí assim! ...

— Essa dama já é falecida! observou Anselmo.

— Pelo menos estava para ir a pique, quando lhe fui levar a carta, que o comandante mandava. Recebeu-a um grumetezinho dêste tope...

— Havia de ser o filho, o estudante, observou o mercador.

— Que se chama Estácio, cuido eu, concluiu o gajeiro.

— P'ois êsse D. Diogo de Mariz é o próprio da minha querela. Com êle fui há coisas de três anos, acostado à banda que levou para socorrer seu pai. O homem tinha sido atacado pelo gentio Aimoré, lá para as bandas do Paquequer, e o filho veio de rota batida em busca de gente. Chegado era eu a São Sebastião, para me passar a São Vicente. Falava-se tanto no ouro dos paulistas, que fama me tentou.

— 'sse ouro dos paulistas é como o da vossa cidade, muchacho, ponderou o capitão.

— Não duvidareis, quando ouvirdes tudo. Enquanto esperava aproveitei o ensejo de ganhar boa paga e lá fomos. Trabalho perdido. O gentio arrasara tudo. Só encontramos as pedras da casa e gente queimada! A, ficamos uns tantos dias para enterrar aquela carvoagem de ossos.

— Então o gentio pôs fogo ao redor da casa tôda, que não puderam fugir?

— Assim parece.

— E os selvagens já tinham abalado?

— Nem notícias dêles. Andando a pesquisar no mato que ficava pela redondeza, chegamos a uma clareira, onde sem dúvida tinham dado combate. Estavam ali duas filas de ossadas, que os urubus tinham limpado, e uns trapos de roupa. Espetando com a ponta da espada levantei uma coisa, à feição de cobra. Mas não era. Vêdes esta cinta?

Dizendo isto o rapaz desatou uma cinta que trazia, tecida com finas malhas de aço, formando interiormente duas bôlsas. Os outros a examinaram.

— Pois era isso; com a diferença de estar recheada...

— De boas coroas?

— Hupa!... Tinha dentro umas fôlhas de pergaminho a modo de um livro de rol. Pus-me a olhar aquelas letras vermelhas graúdas, como boi para palácio, quando sinto uma voz dizer atrás de mim: Roteiro. Era D. Diogo; tomou-me o rôlo, estêve lá resmungando, e achou por guardá-lo no peito do jaleco.

— Que tal o mano! E era fidalgo!

— Não tínheis a vossa espada ao lado! disse o aventureiro.

O rapaz levantou os ombros:

— Um homem contra cinqüenta! ... — Ainda que foram cem!

— Mas exigistes dêle que vos restituísse?

— Sabeis com que me tornou? Que aquilo era um tesouro e devia ser restituído ao seu próprio dono.

— Bom modo de ficar-se com êle.

— E ficou-se; ainda que já em São Sebastião teimando eu que me volasse o meu achado, disse-me que já avisara o dono para o vir receber. Mas isso não passava de uma história. '

— Quem era o tal dono, não lho perguntastes?

— Fêz-m'e orelha mouca!

— E deixou-vos tocando leques com brandura!

— Sempre deu-me uns dez marcos de prata, como espórtula!

— Vej'am que tal era a ganância.

— Mas então êsse papel cuidais vós que fôsse o roteiro?... disse o soldado.

— Da cidade encantada. Não podia ser outro. — Também estou nisso! afirmou o gajeiro.

— Talvez não passasse de algum diário de descobertas! replicou D. Aníbal.

— Há muitos anos que isso foi?

— Três, se tanto. Seria pela Assunção.

— Dormistes no caso. Bem pode acontecer que já seja tarde.

— Que queríeis que fizesse? Faltava o melhor. Tornei à Bahia, e só agora ajuntamos, eu e a mãe, alguns reais para a jornada.

— Contando que o cujo não tenha já evaporado a coisa.

— Que vos parece do caso agora, senhor Brás? Não pensais que a justiça esteja tôda de meu lado?

O mercador teve segundo estremecimento, de quem era arrancado ao valente cochilo:

— Heim!... Dizeis? ...

O rapaz repetiu a pergunta.

— Êle não deixa de ser intrincado, continuou o mercador bocejando. Achastes uma botija de dinheiro...

— Estais sonhando?... Um papel, vos disse eu!

— Um papel, sim.

— Mestre Brás parece que está com o porão muito carregado; o leme não governa.

— Nada! É êste balanço...

— Carga ao mar!

— Uhah! ... uhah! ...

O mercador estirou-se. Os outros foram tratando de recolher. Com pouco a sinêta de bordo anunciou que entrava o quarto de prima.

O P. Molina ainda ficou no tombadilho. O vento rondava e o navio singrando rumo direito, corria agora ligeira bolina sôbre o mar sereno. Como êsse barco, o espírito de religioso enleado em cogitações, corria agora impelido pela ambição sôbre um oceano de idéias. A lembrança apagada das cartas que lera na cela do P. Cunha avivara-se em sua mente.

No dia seguinte o jesuíta prolongando até a proa seu passeio habitual, engendrou um encontro casual com Anselmo. Trocadas as primeiras palavras, o rapaz o acompanhou até as amuras, onde tiveram longa prática. Carecia o sacerdote de um môço de serviço, e a propósito de informações sôbre o procedimento fêz-lhe uma infinidade de perguntas relativas, não só a êle, como a outras pessoas da cidade do Salvador.

Entrou enfim o galeão Rosário a barra de Lisboa. Poucas horas depois de lançar o ferro no ancoradouro, o aventureiro D. Aníbal e o mariola Anselmo foram presos por familiares do Santo Ofício em virtude de denúncias depostas na caixa secreta. O P. Molina interveio em favor do criado; mas tudo quanto obteve foi que êle voltasse imediatamente, em um navio que estava a levantar a âncora com destino à Bahia. A Santa Inquisição ainda tolerava os cristãos-novos nas colônias, terra para degredos; na metrópole por forma alguma.

Não ficou muito contrariado por isso o frade e consolou o rapaz, dando-lhe de conselho que não boquejasse mais sôbre certo caso acontecido com

D. Diogo de Mariz, pois era homem poderoso, e contava amigos por tôda a parte. Partiu-se pois o Anselmo, inteiramente desabusado das cidades encantadas e dando graças à Providência que o livrara da Inquisição. Já Belém sumia-se pela pôpa do navio, quando D. Aníbal sofria perante os inquisidores do Santo Ofício o primeiro interrogatório.

Entretanto achava-se o P. Molina recolhido à sua casa de Lisboa, depois de oito anos de ausência. Ainda ali vivia o P. Mestre Cunha, que recebeu de braços abertos seu antigo discípulo e fâmulo; o gordo jesuíta estava muito acabado do reumatismo gotoso; e já não viçava na sua robusta pessoa aquela florescente velhice, que tanto admirara Vilarzito em Sevilha. O recém-chegado não quis receber a hospitalidade de outro que não seu primeiro mestre, o qual de sua parte muito estimou tê-lo por companheiro de cela.

No primeiro momento favorável, Molina passou busca ao armário, onde outrora descobrira o maço relativo as minas de prata. Ainda ali estava êle, muito aumentado com a continuação da correspondência, porém atirado ao canto e desprezado, senão esquecido, a julgar pela espêssa crosta de poeira que o cobria. Não nos é possível copiar a íntegra das cartas do P. Manuel Soares, apesar do muito bem lançado delas, pois ocupariam largo espaço. Basta dar aqui a suma da correspondência.

Quando o filho de Robério Dias chegou aos doze anos de idade, se aventou sèriamente em família a questão de fazê-lo entrar para a Companhia de Jesus. Como contava o P. Manuel Soares, houve firme resistência da parte de Álvaro de Carvalho, apoiado na repugnância do menino pela carreira a que o designavam. Vaz Caminha não se deixou mover pelos argumentos do soldado; mas as preces do afilhado enterneceram seu coração. Assegurou-lhe que ninguém, senão êle mesmo, Estácio, decidira de sua sorte; esperariam pelos vinte anos, idade em que poderia conhecer a sua vocação, e decidír-se por um estado.

Com esta certeza entrou Estácio a cursar as aulas do Colégio como simples escolar. Os jesuítas tinham' então a seu cargo a instrução primária, especialmente nas colônias, onde eram raros os mestres particulares; em remuneração de tal serviço, bem como da obra da catequese, recebiam êles do Real Erário uma côngrua de quatro mil cruzados.

Não agradou ao P. Manuel Soares o desfecho do negócio, e pois de combinação com o provincial tratou de solver a dificuldade inesperada. Recorreu à astúcia, tantas vêzes empregada pela Companhia, com bom êxito. Sob pretexto de tomarem a Estácio têrmo de matrícula nas aulas, lhe deram a assinar um auto de noviciado, que Álvaro de Carvalho em boa fé subscreveu.

Seguiam-se outras cartas relativas à memória das minas de prata em que o

P. Manuel Soares trabalhava com fervor; em cada missiva dava êle uma resenha de seus esforços e pesquisas no desempenho da importante tarefa que lhe fôra cometida; em uma das últimas da coleção anunciava o infatigável cronista a importante descoberta que fizera de uma testemunha, cujo depoimento punha feliz remante à sua obra.

Sem dúvida não partilhavam os padres de Lisboa a fé que mostrava o Rev. Manuel Soares em suas laboriosas investigações, pois nada resolveram apesar das repetidas instâncias, e afinal deixaram sem respostas as suas cartas. Não desanimara contudo o denodado cronista, e de vez em quando dava cópia de si, reiterando ao provincial de Lisboa suas rogativas para que se tirasse o fruto dos esforços de tantos anos.

Como acabava Molina a interessante leitura, caiu a noite. Tratou o jesuíta de acender a candeia na lâmpada do corredor; conservava êle ainda na mão a carta em que o P. Manuel Soares falava da testemunha de vista que acompanhara o pai de Robério Dias na descoberta das minas de prata. Sem dúvida por inadvertência e distração, machucou-a e acendeu; quando deu por isso, estava o papel reduzido a cinza.

Nessa mesma noite, depois da reza, impetrou o P. Molina do provincial permissão para seguir sem demora a Roma, na pia intenção de beijar o anel de Sua Santidade e a mitra do vigário geral da Ordem. Não desejava professar no 4o voto, sem ter essa pia romagem.

Estava nessa ocasião agasalhado, ou melhor, homiziado no Colégio de Lisboa, um fidalgo de nome D. Lopo de Velasco, comendador de Santo Ivo, a quem perseguiam as justiças de El-rei por certo duelo muito extravagante. Amigo dos padres, e dêles protegido, asilara-se o fidalgo na casa da Companhia; não pôde esta apesar de todo seu valimento obter o perdão completo do delito, porque o adversário morto pertencia a uma família poderosa; mas alcançou a comutação da pena em alguns anos de degrêdo.

A vice-rainha mandou ir ao Paço o comendador e ali fêz-lhe sentir que seria muito conveniente uma viagem ao Brasil; observando-lhe o fidalgo que não possuía terras nas colônias, retorquiu a princesa, que devia comprar:

— Quando Sua Majestade D. Filipe III tanto se ocupa com suas possessões do ultramar, não é muito que o ajudem seus fidalgos a povoar aquêles domínios.

Em vésperas de partir, D. Lopo de Velasco aproveitou a recente chegada do

P. Molina para colher informações seguras a respeito da terra. O fidalgo era grande caçador, e não se emendava; apesar de ter sido essa paixão a causa de achar-se em lance tão difícil, queria fixar sua residência na capitania mais abundante de caça.

Bem se vê que o fidalgo não conhecia o Brasil, onde e especialmente naquele tempo, as matas regorgitavam de tôda a espécie de montaria e os ares coalhavam-se de volataria. O P. Molina porém não hesitou em lhe aconselhar a cidade de São Sebastião, onde êle acharia reunidas boa gente e boa caça.

D. Lopo acedëu.

— Então aproveito o ensejo para escrever por algum criado de Vossa Mercê duas linhas a uma pessoa que me encarregou de certo negócio.

— Pois escreva, padre mestre. Com muito gôsto me farei eu mesmo portador de suas letras, respondeu o fidalgo. No momento de partir entregou de feito o jesuíta a D. Lopo de Velasco uma carta assim sobrescritada: — Para S. Mercê o Sr. D. Diogo de Mariz, Provedor-mor da alfândega de São Sebastião.

O jesuíta, senhor agora de todo o segrêdo do roteiro das minas de prata, e convencido de que o manuscrito ainda se achava no poder de D. Diogo de Mariz, só tinha um receio; era que Estácio, ou alguém em seu nome, se apresentasse a reclamá-lo antes que êle, P. Molina, tornasse a São Sebastião.

Para prevenir êsse caso, escreveu o jesuíta a D. Diogo o seguinte:

"Muito nobre senhor meu.

"Fui encarregado pela pessoa que V. mercê bem sabe, de receber o objeto de grande preço que se acha em seu poder. Motivos ponderosos me têm impedido de cumprir êsse procuratório, de modo que só lá para o ano vindouro aí poderei estar.

"Como porém se perdesse a carta de aviso que V. mercê escreveu, e é possível com ela se apresente algum aventureiro burlão a reclamar o que lhe não pertence; por isso julgo prudente que esteja de prevenção, para não fazer a entrega senão a êste que se assina,

de V. mercê

o mais obediente servo P. Gusmão de Molina "Lisboa, aos 27 de outubro de 1607".

Quando volta o jesuíta de acompanhar à Ribeira D. Lopo de Velasco, lobrigou de longe o matreiro do mestre Brás, seu companheiro de travessia, que se muscava mui sorrateiramente de um belo palácio onde residia D. Francisco de Sousa.

Que fôra ali fazer o mercador das colônias? Solicitar o poderoso fidalgo para patrono de algum requerimento? Dar conta de alguma incumbência das colônias?

Dias passados chouteava eclesiàsticamente o P. Gusmão em mula de aluguel, caminho de Espanha. Na recova a que se juntara para fazer a jornada, ia também o Brás. Tratou logo o jesuíta de entabular conversação com o mercador; mas era impossível com semelhante criatura a menor prática.

Não tinha agora o taberneiro o enjôo como a bordo do Rosário, mas em troca o terrível chouto da mula o amassava na sela como lêvedo de pão. Saltando com os solavancos da andadura e jogando de uma a outra banda, ia o judengo encolhido todo e agarrado ao gancho do selim. A ladainha de lamentações, que servia de acompanhamento ao trote da bêsta, era apenas interrompida pelos gritos de espanto, que soltava o taberneiro cuidando cair. Chegado ao pouso aquela massa inerte de carne e osso sôbre a enxêrga como uma pedra.

Em Sevilha perderam-se de vista os dois companheiros de viagem.

Quarenta dias depois entrava o P. Gusmão a cidade eterna, e alojava-se na casa da Companhia. Houve entre o humilde frade e o prepósito geral, Cláudio Aquaviva, longa e secreta conferência. Ao cabo de três horas descia Molina as marmóreas escadas do grande consistório, escondendo na manga do hábito um pergaminho. Era a sua nomeação de visitador da Província do Brasil; trazia essa nomeação a data em branco, porque só depois de jurar o frade o quarto e último voto da ordem, podia ela ter efeito. A qualidade de professo e por conseguinte o assento em capítulo era, segundo o Instituto, condição essencial para a prelazia.

O tempo que isso passava em Roma, no mesmo dia e hora, a centenas de léguas, em outra capital européia, na cidade de Amsterdam, mestre Brás batia à porta da casa onde habitava o cidadão Usselinch, e entregava uma carta coletiva de que era portador, dirigida pelos judeus da cidade do Salvador ao ilustre chefe do partido da guerra e um dos fundadores da Companhia das Índias Ocidentais.

A missiva hebraica foi o fomento da famosa guerra que durou vinte e tantos anos. Os judeus ameaçados pelo Santo Ofício, chamavam os holandeses, como outrora seus antepassados em Babilônia haviam chamado em suas preces Ciro, o conquistador, para libertá-los da escravidão. Os holandeses vieram, como o herói meda, não suscitados por Deus, mas açulados pela cobiça, poucos anos depois, em 1621.

CAPÍTULO XXIX

NOVAS PROEZAS DA ADVOCACIA ANDANTE DO DOUTOR VAZ CAMINHA

tempo de tornar à cidade do Salvador, onde o nosso bom velho amigo, o doutor Vaz Caminha, refocila ainda no modesto catre, bem que alto já vai o sol.

De instante a instante a engelhadinha da Euquéria vem pé ante pé escutar à porta da camarinha. Ouvindo o calmo resfôlgo da respiração sutil, torna de manso para não perturbar o sono de passarinho do bom do amo seu.

Quem soubesse do tarde que recolhera o advogado e do resfriado que vinha com a orvalhada da noite, não estranharia uma tal inversão nos seus hábitos madrugadores. Desde que estava no Brasil, não passara o letrado de Arraiolos outra noite de tribulações como essa tão aziaga que lhe trouxera de janeiras o ano da graça de 1609.

Se bem nos lembramos, ficou o doutor Vaz Caminha na casa misteriosa, preparando-se para ouvir a história da dama desconhecida.

O que narrou a dama, já o sabems nós, porque não era outra, senão D. Dulce, a gentil maia das frescas margens do Tinto. Contou dêsse idílio da juventude, tão breve esvanecido, a parte que lhe tocou. Sua beleza animava-se e como que de nôvo luzia com êsse primeiro raiar da aurora da vida, que chamamos mocidade. Depois foi-se apagando o esplendor; fugiu primeiro o sorriso, a côr em seguida; até que a tristeza profunda desdobrando como crepe da fronte pendida, enlutou-a.

Chegara ao momento em que seu marido, trajando vestes de religioso, a deixara desmaiada nas lajes da igreja em Palos.

— Tôda essa tarde vaguei nas ruas como uma desavisada, indagando, correndo após todo o religioso que via passar longe... Três dias não descansei. .. Por portaria e locandas, andei a inquirir... Teria êle conservado seu antigo nome?... Como saber?... Enfim levou-me o acaso a uma pousada junto à praia... Estivera ali um frade que se passara ao Brasil na véspera... o dia em que chegara à cidade, os sinais que me deram... tudo convenceu-me que fôra êle! Não sabiam ali porém, nem o religioso dissera, como se chamava!

Dulce parou de sufocada.

— De que religião eram as vestes do vosso marido, quando o vistes na igreja? perguntou Caminha.

— Trazia o hábito negro da Companhia.

— Prossegui, se não estais fatigada. Vossa história interessa-me no mais alto ponto.

— Achando-me outra vez só com o meu desespêro, não sei qual pressentimento me disse que eu ia ter uma luta a sustentar contra algum poder da terra, para defender o direito santo do meu amor. "Ser-me-ão precisos cabedais e avultados", disse eu. Meu pai já tinha pensado em se passar às colônias, e não o fizera a rôgo meu. Agora duas razões me chamavam a esta terra e, nenhuma me prendia já à que fôra do nascimento, e também da desventura. Partimo-nos no primeiro navio e chegamos a esta cidade em fins de 1600.

— Há oito anos...

— Oito anos de martírio, e que martírio! Não imaginais! Tinham dilacerado esta alma, e eu amava ainda, mais que nunca, o seu algoz! ... Mas sentia que me ia entrando um ódio... Não vos horrorize esta blasfêmia... um ódio profundo e entranhado por essa religião que me roubara o único bem...

— Senhora! Moderai-vos por quem sois!

— Perdão! ... Por bom vos tenho e compassivo! apiedai-vos de uma infeliz, que não sabe já o que diz.

A dama tornou depois de uma pausa:

— Sabeis já da minha vida tanto ou mais que eu, pois coisas há que não são para uma pobre mulher ignorante, que só aprendeu do mundo a sofrer e... amar. Quero-lhe a êle com as ânsias de um coração curtido de dores! ... Como o desespêro de doze compridos anos de uma esperança sempre viva em coração morto! ... Tôda essa riqueza, que é imensa, só a ambicionei para recuperá-lo... Espalharei ouro... Disputá-lo-ei ao mundo, a Deus, se preciso fôr! É meu espôso!

Iluminava a fronte da bela senhora um reflexo vivo das paixões sublimes. Mas passou. Foi trêmula e receosa que ela dirigiu de nôvo a palavra ao advogado pensativo:

— Dizei-me pois, sr. doutor, se as leis dos homens me dão o direito de arrancar meu espôso e meu único bem aos votos que mo roubaram!... Porque senão, se justiça não há no céu que cansei de implorar, e na terra onde só tenho penado... Pois bem, eu me farei justiça por minhas mãos...

— - Qual é o vosso intento, senhora?

— Meu intento... meu intento... Sei-o eu?... Reaver o que perdi... Sim; ainda que para isso seja preciso armar os maus contra os bons... profanar a casa do Senhor... Que importa!... Contanto que me restituam meu espôso... Irei de convento em convento, de portaria em portaria mendigar novas dêle... Hei de encontrá-lo, e então...

— Basta, Dona Dulce! Bem vos dizia eu que vossa generosa contribuição era demasiada para o ofício do humilde letrado... Esqueci avisar-vos que fôra nenhuma para o seu dever. Aqui vo-la deixo!

Vaz Caminha ergueu-se, deitando a bôlsa sôbre a banca:

— Em que vos ofendi eu? exclamou a dama travando-lhe das mãos.

— - Vim ao vosso chamado para aconselhar-vos, não para vos dirigir no caminho do mal. Meu ministério, senhora, é da justiça e não das paixões, da lei e não da vingança!

A dama respondeu com uma nobreza repassada de profunda mágoa:

— Nunca sofrestes dores, como as que tenho aqui neste coração transido, senhor doutor; senão seríeis indulgente para êstes desvarios, que me pungem mais a mim que a vós mesmo. Já vos não detenho; destes-me a última prova dos homens. Se dos nìmiamente bons, como sois, recebo tão duras palavras, que esperar dos outros?...

— Senhora, mercê! Fui descortês, confesso minha culpa; não veio ela d'alma, senão da profissão que não me costumou a fazer salas. Vou satisfazer-vos do que de mim exigis.

— As leis dos homens nada podem no vosso caso; mas podem tudo as leis divinas. Em Roma, aos pés de Sua Santidade, está o remédio à vossa desdita; porque lá está aquêle a quem Deus disse: Quodcumque alligaveris super terram...

O advogado citava o texto, mas calou-se, advertindo que falava a uma dama. Emendou a mão:

— A quem Deus disse: "Quanto ligardes na terra, será ligado no céu; e quanto na terra solverdes, soluto estará no céu".

Dulce ergueu as mãos súplices, exaltando ao céu sua alma roubada num olhar de infinita gratidão. Depois êsse mesmo olhar desceu a embeber-se no rosto pálido e mirrado do velho.

— Obrigada, senho doutor! Salvastes-me de um grande pecado, dando remédio à minha dor!...

— Já não haveis mister de mim, Dona Dulce? perguntou o advogado.

— Hoje não: basta a esperança que me deixais. Outro dia próximo, terei necessidade de praticar convosco mais compridamente. '

— Enviai-me aviso. Agora é tarde, dai que me recolha. O doutor levantou-se para despedir-se:

— Antes que me retire, uma palavra.

O velho tomou galantemente a mão da dama, e conduzindo-a até o meio da sala, abaixou a voz para dizer-lhe:

— Pedistes-me um conselho, senhora; quero eu dar-vos um que não me pedistes.

— Mas por isso o agradecerei.

— Guardai melhor vosso ouro, e fiai menos de escravos. A terra esconde bem, é verdade, porém não há chave nem ferrôlho que a feche, pelo que abre-se em qualquer parte.

— Dêste lado estou segura. O segrêdo só eu o sei.

— Cuidais isso? E se vos eu disser que o tesouro está enterrado ali, no oratório...

— Quem vo-lo revelou?... perguntou Dulce espavorida.

— E que a esta hora estão abrindo uma mina por baixo da vossa recâmara pela qual se há de escoar o vosso ouro!

— Deus meu! Como sabeis tudo isto? Quem pode ter maquinado uma maldade igual, a não ser a gente maldita, que veio ao mundo para meu mal!...

— Não paguem inocentes por pecadores. Aplicai o sentido; não ouvis um bater surdo que vem do chão?

— Sim, agora ouço! Vem dali!

— Pois são êles que cavam.

— Êles quem?

— Disse-vos quanto é preciso para que vos acauteleis. O mais, crede-me, não aproveitaria ao vosso cabedal, e menos ao vosso sossêgo.

Nesse momento ouviram uma serenada de alguém que parava junto à cêrca; o rumor cessou; momentos depois farfalharam as fôlhas do arvoredo.

Vaz Caminha abrindo na janela uma estreita fresta, mostrou à dama seis indivíduos que surdiam a um e um do oitão da casa e sumiam-se nas trevas.

— Bem longe me supunha eu de mais êsse cuidado, para o qual confesso que já não me sobram espíritos, tanto os tenho, e tão inteiramente empregados, em mais alto pensamento. Se me não valeis ainda desta vez com o vosso conselho, não sei o que vai ser de mim.

— Não é caso de esmorecer, ainda que demanda grande tino, muita prudência, e mais que tudo, segrêdo inviolável. Tendes pessoa de quem fieis tanto como de vós mesma.

— Ninguém tinha ontem, tal era meu desamparo, mais que um escravo fiel, o mesmo que vos guiou. Agora vos tenho a vós.

Vaz Caminha conservara-se impassível quando Dulce referiu-se ao negro, e correspondeu com uma reverência à prova de confiança da senhora.

— Enquanto ao escravo, digo-vos eu, senhora, com os meus sessenta e seis anos, que o bom tem a fidelidade do cão: descobre o dono fareando-lhe o rasto e o denuncia ladrando para festejá-lo. Enquanto a êste vosso servo reverente vos peço vênia para observar que se é nenhuma a confiança que se conta por dias e meses, o que será a que mal data de horas?

— Qual pessoa posso eu ter mais minha fiança, do que aquela a quem se abriu esta alma cercada ao mundo inteiro? Não fôsseis vós quem sois, senhor Vaz Caminha, tão reputado de saber quanto de virtude, que êsse título só de meu confessor ao mesmo tempo que letrado, vos faria senhor da minha fé.

— Uma coisa são infortúnios e contrariedades da vida; outra cabedais e riquezas. Se da primeira me encarregarei para vos aconselhar e dirigir; para a segunda, sinto que não sofrem as fôrças tamanho pêso de responsabilidade.

— Cumpra-se então o último transe da minha desventura! Perdida com êsse ouro e apagada a derradeira luz de esperança que ainda lampejava na escuridão de minha vida, acabará esta mísera uma vez de morrer!

— Mas por quê desanimais, senhora?

— E mo perguntais? O único meio que me restava para alcançar o fim de uma vida inteira de martírio, pôsto em dúvida e risco! E vós mesmo, que me roubais êsse confôrto, não me dais remédio para o mal; ao contrário, a confiança que tinha no escravo, a dissipais; a que pus em vossa pessoa, recusais! Se essa era vossa tenção, para que avisar-me do mal... Melhor era deixar-me viver na minha antiga segurança, roubada fôsse embora, do que matar-me assim lentamente neste repetido sobressalto e contínuo terror! Usastes comigo, senhor doutor, sem querer, de crueldade igual a que sofrem os condenados; prolongam-lhe com a vida a tortura. Não vos ulpo, nem culpa há, senão desdita de quem em má hora nasceu para si e os seus.

O doutor ouvia com ar de bondade as palavras pungentes da môça; e tanto acabou ela de falar, começou com um têrmo brando e meigo, pondo nela os olhos enternecidos.

— Razão alguma tendes, e fácil me fôra provar, que por cumprir meu dever de cristão e homem discreto, não me obriguei a mais para convosco, nem a mais me obriga a lei como letrado, que me chamastes, e letrado vim. Mas que importa que não tenhais razão alguma, se tôda vos quero eu dar? ganharam-me vossos infortúnios; rendido me vêdes. Uma coisa porém vos peço. Ides fiar de um estranho o segredo do grosso cabedal, capaz de excitar a cobiça, a quem não a tem; não deveis ceder o primeiro movimento, para que não venha depressa o arrependimento; pensai até amanhã; o caso não urge tanto, que o não permita.

— Se já sois senhor dêste segrêdo, que arrisco em adiantar o que já sabeis?

— Sei parte dêle; é certo; sei que vosso ouro foi enterrado no oratório; que êsse oratório ali está ao lado de vossa câmara. Mas o lugar do pavimento, a profundidade, isso ignoro, e quisera ignorar sempre. E quem voz diz que eu, que vim dar-vos aviso; não estou aqui fazendo as minhas partes, e vou colhêr as maduras, pelas verdes que lancei? Quem voz diz que aquêles que vistes não sejam meus sócios; ou que tendo aventado parte do seu projeto, eu trate de arrancar por vossas mãos o ouro das garras dêles, para a minha bôlsa?

Havia na fisionomia do velho advogado tal jeito de astúcia e manha, ao proferir destas frases, que Dulce não pôde deixar de estremecer, mas sua alma serenou logo.

— Diz-me o meu coração, que de vossa pessoa só confôrto e alegria me há de vir. Ao toque das almas nobres como as vossas, o ouro é metal de vil quilate.

— Enfim, pensareis, senhora, e do resultado me dareis conta quando nos virmos, amanhã, sôbre noite. Já sei o caminho; virei só, e portanto mais acompanhado do segrêdo e recato que é preciso.

— Mas êles? Me deixais assim em seu poder?

— Nada tendes que recear por enquanto; não vos deis por apercebida, nem mesmo quando estiverdes só. Dizem que as paredes têm ouvidos; tem olhos também. É preciso que êles continuem a cavar a mina, pensando que o ouro está no mesmo lugar; nesse tempo transportarei a outra parte, de maior segrêdo, o vosso tesouro.

— Não fôra melhor fazê-lo prender logo de uma vez? Se a justiça de El-rei não serve para proteger uma mulher, para que serve ela então?

— A justiça de El-rei serve para punir os que infringem a lei; mas por isso cada um não está desobrigado de velar no seu interêsse. O segrêdo do vosso ouro está descoberto; quem e quantos o conhecem a esta hora, não há saber. Falais em prender os malfeitores; basta que um escape, ou mesmo comunique com outros da prisão, para transmitir o projeto e pôr-vos em contínuo desassossêgo. Melhor é desnorteá-los. Ou pensem que mudastes o lugar, ou que outros mais felizes lograram o tesouro, podereis ficar tranquila; e então será tempo de fazer a prisão.

— E não se podia prender antes e mudar o lugar? Daria no mesmo, e me tiraria mais depressa do meu desassossêgo.

— Parece-vos, mas não é o mesmo. Agora, seguros do seu segrêdo, êles tem a atenção tôda empregada na mina; já contam com o ouro; e só tratam de esconder-se. Presos alguns porém, os que ficassem, se poriam à espreita; e quem sabe se não penetrariam outra vez o segrêdo, como penetraram da primeira.

— Sob a guarda do Senhor vos deixo eu. Dulce bateu as palmas, Iucas apareceu.

— Acompanha à casa o senhor doutor: e olha que nada lhe aconteça, à sua caseira entregarás essa bôlsa.

Vaz Caminha partiu.

Deixemos que vá ruminando pelo caminho adiante as suas cogitações, para explicar uma coisa que era para notar: o ter êle ocultado de D. Dulce o modo por que chegara ao conhecimento da trama contra ela urdida, e sobretudo calado o nome do negro Lucas, em quem aliás a dona depositava muita confiança.

O doutor tivera para isso boas razões. Êle sabia o que são mulheres, e não conhecia. D. Dulce; sem lhe fazer injúria, receou dela o comprometesse revelando o como surprendera a conversa de Lucas com o Brás na adega da taberna. e exitando contra êle a vingança de qualquer dos dois. Ora, a prudência era a prenda mais cultivada do licenciado. Quanto ao negro, foi por compaixão para a dama, que assentou de calar-se. Imaginou qual suplício não seria dessa pobre senhora, ali naquela casa, vendo-se entregue a um escravo capaz de tudo para evitar o castigo severo de sua falta.

Preferiu advertir indiretamente a dama como o fêz, a denunciar positivamente a traição. Demais êle conhecia a fôrça que tem no ânimo um sentimento ali enraizado: se o abalam fortemente, cega talvez, mas reage com fôrça dobrada. Acusar o negro que Dulce tinha em conta de fiel, fôra plantar no seu espírito a dúvida sôbre a verdade da trama, e provocar talvez uma desconfiança contra êle, Vaz Caminha, que a queria salvar.

O doutor chegou enfim a casa, resfriado do sereno. Euquéria estava no seu quinto ou sexto rosário, sem contar os fragmentos do têrço, da magnífica e da ladainha, e as repetidas invocações que ela ia entremeando. i'a sua imaginação exaltada pelo mêdo das abantesmas*(267) já supunha, o querido amo morto e bem morto. Quando bateram, e ela ouviu a voz do advogado, supôs que era a sua alma que a vinha buscar para o outro mundo.

Afinal Vaz Caminha falou-lhe de um modo que nada tinha de sobrenatural muito humano ao contrário:

— Apressai, Euquéria, que já não posso comigo de cansaço! _

Recolhido ao leito, onde o aqueceu o copo da sossega, o velho refocilou afinal o fatigado corpo. Eram 7 horas da manhã, quando espertou de todo repousado e na melhor disposição de espírito.

Só mais tarde chegou Estácio.

FIM DO TOMO I

Leve com você

Baixe As Minas de Prata — Tomo 1 grátis

Edição digital da Literatura Online, com capa, sumário e o texto revisado. Sem cadastro.

Baixar PDF 762 KB Baixar EPUB 379 KB

PDF para ler no computador ou imprimir · EPUB para celular, Kobo, Apple Books e Kindle (pelo Enviar para Kindle).

Publicidade
Leitura e contexto

Sobre a obra

Filho de Robério Dias, que morreu sem revelar o caminho das lendárias minas de prata, Estácio quer recuperar o roteiro e limpar o nome do pai para merecer o amor de Inês. Com a ajuda do amigo Cristóvão e do licenciado Vaz Caminha, enfrenta as intrigas do jesuíta Molina na Salvador do início do século XVII.

Contexto literário

Romance histórico de José de Alencar, publicado na edição completa em 1865 e 1866, retoma a lenda das minas de prata de Robério Dias. Este é o primeiro dos tomos em que o texto foi dividido no acervo.

Temas centrais

  • ambição
  • honra
  • amor
  • Bahia colonial
  • jesuítas
  • aventura
Transparência editorial

Sobre esta edição

Preparação digital
Edição preparada para leitura digital, com capítulos, parágrafos e diálogos estruturados para o leitor do site.
Estado editorial
Edição digital em revisão contínua.
Origem do texto
Obra em domínio público, com texto preparado e revisado pela Literatura Online.

A obra pode conservar grafia, pontuação e vocabulário históricos. Ajustes posteriores se limitam a correções de transcrição e formatação.

Publicidade
Na Revista

Leituras sobre As Minas de Prata — Tomo 1

Procurar análises e notícias na Revista
Continue explorando

Outras obras de José de Alencar

Ver todo o acervo
Publicidade