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Revista Literatura Online

Gonçalves Dias deixou, na voz de um pai tamoio, um conselho para quem chora diante da vida: “Viver é lutar”

Frase do dia: "Viver é lutar", da Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias.

Retrato antigo do poeta Gonçalves Dias por volta de 1855: um homem jovem de cabelo escuro ondulado e barba cheia, olhando de frente para a câmera. Ampliar a imagem de destaque
Gonçalves Dias (1823-1864), poeta de “Canção do Exílio”, em retrato de cerca de 1855 (Reprodução/Wikimedia Commons)

“Viver é lutar” é um verso da “Canção do Tamoio”, poema que Gonçalves Dias publicou em 1851 no livro Últimos Cantos. Quem fala é um pai indígena, um guerreiro tamoio, diante do filho recém-nascido que chora. O conselho que ele dá ao bebê é também um conselho para qualquer leitor que se assusta com o tamanho da vida: o choro não resolve, e a vida pede enfrentamento, não fuga.

O verso abre e fecha o poema, e é essa repetição que faz dele uma espécie de lema. Gonçalves Dias, o mesmo autor de “Canção do Exílio”, morreu num naufrágio em 3 de novembro de 1864, data que completa 162 anos na próxima semana.

A primeira estrofe da “Canção do Tamoio”, na grafia atualizada, diz:

“Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.”

Onde a frase aparece

A “Canção do Tamoio” ocupa as páginas 39 a 43 da primeira edição de Últimos Cantos, impressa no Rio de Janeiro pela Typographia de F. de Paula Brito, em 1851. Logo abaixo do título, o poeta escreveu a palavra “Natalícia”, que indica um canto de nascimento. O poema inteiro é a fala do pai ao filho que acabou de nascer.

Os tamoios eram um povo tupi que vivia no litoral entre o Rio de Janeiro e São Paulo e que, no século 16, se aliou aos franceses contra os portugueses. Gonçalves Dias usa esse povo para construir a imagem de um herói valente e digno, como fazia o Indianismo, vertente do Romantismo brasileiro que transformou o indígena em símbolo da nação.

Ao longo de dez estrofes, o pai ensina ao filho o código do guerreiro: não temer a morte, temer apenas a fuga, ser lembrado pelos seus quando morrer. Os versos são curtos, de cinco sílabas poéticas, e têm ritmo de canção, como se fossem feitos para serem repetidos em voz alta. A última estrofe volta à ideia do começo: “As armas ensaia, / Penetra na vida: / Pesada ou querida, / Viver é lutar.”

O que o verso quer dizer

“Viver é lutar” não diz que a vida é sofrimento. Diz que a vida é movimento contra alguma coisa, e que essa disputa é a própria condição de estar vivo. O pai não promete ao filho uma existência fácil. Ele avisa que a luta vem de qualquer jeito e que o choro diante dela não muda o resultado.

No poema, a coragem tem um peso social. O guerreiro forte é ouvido pelos velhos “nos graves conselhos” e lembrado depois da morte. O fraco, que foge, perde esse lugar. É uma ética de povo guerreiro, idealizada pelo olhar romântico, e convém lembrar que a voz é de um personagem, não um depoimento do poeta sobre a própria vida.

A estrofe final acrescenta uma nuance que costuma passar despercebida: “Pesada ou querida”. A vida pode ser um fardo ou um bem, e nos dois casos é preciso lutar. O verso não separa os dias bons dos ruins. Os dois pedem a mesma disposição.

O que a frase diz a quem lê hoje

Pouca gente vai empunhar um arco, mas quase todo mundo conhece a vontade de chorar diante de uma conta que não fecha, de um diagnóstico, de uma demissão, de uma mudança de cidade. O conselho do pai tamoio não proíbe o medo. Ele pede que o medo não decida sozinho. Na lógica do poema, o problema nunca é sentir a dificuldade; é fugir dela.

Há algo de consolo nessa dureza. Se viver é lutar, a luta não é sinal de que algo deu errado na vida: é a própria vida acontecendo. E o “pesada ou querida” lembra que até as fases boas pedem esforço, para cuidar do que se ama e do que se conquistou. É o que o guerreiro de Gonçalves Dias ensina ao filho no primeiro dia de vida.

Gonçalves Dias e a “Canção do Tamoio”

Lido fora do poema, “Viver é lutar” parece frase de incentivo. Lido no contexto, ganha outra força: é a fala de um pai que, ao ouvir o filho chorar ao nascer, decide prepará-lo em vez de apenas protegê-lo.

Gonçalves Dias nasceu em 10 de agosto de 1823, perto de Caxias, no Maranhão, e é um dos principais nomes da primeira geração romântica. Voltava da Europa, doente, quando o navio Ville de Boulogne naufragou na costa maranhense; todos se salvaram, menos o poeta, esquecido no leito. A “Canção do Tamoio” pode ser lida na íntegra no Wikisource, na edição de 1851.

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