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Machado de Assis criticou O Primo Basílio sob pseudônimo, e Eça de Queirós respondeu com uma carta elegante

Montagem com retratos antigos de Machado de Assis, de barba e pincenê, e Eça de Queirós, de bigode, sobre fundo de manuscrito, ilustrando a polêmica sobre O Primo Basílio
Machado de Assis e Eça de Queirós, que nunca se conheceram pessoalmente, protagonizaram em 1878 a polêmica sobre O Primo Basílio

Em abril de 1878, o romance mais comentado do Rio de Janeiro era O Primo Basílio, do português Eça de Queirós. Foi nesse momento que um crítico assinando “Eleazar” publicou no jornal O Cruzeiro uma das resenhas mais duras já escritas sobre o livro. Por trás do pseudônimo estava Machado de Assis.

O episódio virou uma das polêmicas mais famosas da literatura em língua portuguesa. Machado acusou Eça de imitar Émile Zola, chamou a protagonista de marionete e previu que o Realismo morreria cedo se seguisse aquele caminho. Eça respondeu meses depois com uma carta cordial, que nunca recebeu resposta.

O romance que dividiu o Rio de Janeiro

O Primo Basílio saiu em Portugal em fevereiro de 1878, com tiragem de 3 mil exemplares, e chegou rapidamente ao Brasil. A primeira notícia sobre o livro na imprensa brasileira foi publicada em 25 de março, na Gazeta de Notícias, num texto do escritor português Ramalho Ortigão, segundo estudo do professor Paulo Franchetti publicado na revista Convergência Lusíada.

O romance conta a história de Luísa, mulher de classe média de Lisboa que, durante uma viagem do marido, Jorge, tem um caso com o primo Basílio. A empregada Juliana descobre cartas comprometedoras e passa a chantagear a patroa. O livro tratava do adultério sem rodeios, com cenas consideradas escandalosas para a época, e foi lido como um manifesto do Realismo, movimento que propunha observar a sociedade sem idealização.

Machado, então com 38 anos, era um escritor conhecido. Já tinha publicado romances como Ressurreição, A Mão e a Luva e Helena, e o próprio O Cruzeiro tinha publicado em capítulos, naquele mesmo ano, seu romance Iaiá Garcia.

O que Machado escreveu sobre O Primo Basílio

O artigo de Eleazar saiu em 16 de abril de 1878. Nele, Machado define Eça como “fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do Assommoir“, referência a Zola, o romancista francês que liderava o Naturalismo. Ele vai além e afirma que o romance anterior de Eça, O Crime do Padre Amaro, era uma imitação de La Faute de l’abbé Mouret, de Zola.

A crítica mais conhecida é sobre Luísa. Para Machado, a protagonista não tinha vontade própria nem conflito moral. “Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral”, escreveu.

Machado também atacou a construção do enredo, que, segundo ele, dependia de um acaso: o roubo das cartas por Juliana. Sem esse acidente, não haveria drama. “Tirai o extravio das cartas, a casa de Jorge passa a ser uma nesga do Paraíso”, argumentou. O crítico condenou ainda o que via como excesso de cenas sensuais e advertiu que, se o Realismo seguisse por ali, seria “estrangulado no berço” na língua portuguesa.

O texto termina com um conselho aos jovens escritores brasileiros, que Machado temia ver seduzidos pela nova escola: “Voltemos os olhos para a realidade, mas excluamos o Realismo, assim não sacrificaremos a verdade estética.”

Uma polêmica com vários lados

O artigo provocou reação imediata. Defensores do Realismo responderam na imprensa, entre eles o jornalista Henrique Chaves, que acusou Machado de defender uma visão romântica ultrapassada. Em 30 de abril, Machado voltou ao assunto num segundo artigo, ainda como Eleazar, em que rebateu os críticos e reforçou as objeções morais ao livro.

Segundo Franchetti, a discussão se espalhou e ajudou a acender, a partir de maio daquele ano, a chamada Guerra do Parnaso, uma série de ataques em versos entre defensores do Romantismo e da nova poesia realista.

A carta de Eça de Queirós

Eça de Queirós vivia então em Newcastle, na Inglaterra, onde trabalhava como cônsul de Portugal. Em 29 de junho de 1878, escreveu a Machado. Em vez de se defender com dureza, agradeceu a atenção dada ao livro e disse esperar conversar com o brasileiro, através do oceano, “sobre estas elevadas questões de Arte”.

A carta tem um detalhe curioso: Eça a datou por engano de 1870, e não de 1878. O texto foi descrito como “um modelo de elegância e urbanidade” em artigo sobre a correspondência de Machado publicado pela Academia Brasileira de Letras. Machado nunca respondeu.

Eça guardou a resposta mais firme para outra ocasião. Na nota que escreveu para a nova edição de O Crime do Padre Amaro, em 1880, rejeitou a acusação de plágio de Zola, lembrou que seu livro tinha sido escrito antes do romance francês e atribuiu a comparação à “obtusidade córnea” de certos críticos, sem citar nomes.

A virada de Machado

A ironia da história veio pouco depois. Em 1880, apenas dois anos após condenar o Realismo de Eça, Machado começou a publicar em capítulos Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance que saiu em livro em 1881 e marca o início de sua fase realista.

O Realismo de Machado, porém, seguia outro caminho. Em vez das descrições detalhadas de corpos, ambientes e instintos, típicas do Naturalismo de Zola, ele apostou na análise psicológica, na ironia e em narradores pouco confiáveis. Relida hoje, a crítica a O Primo Basílio ajuda a entender esse projeto, já que o próprio Eleazar dizia aceitar a observação da realidade e recusar apenas a escola realista.

A morte de Eça

Machado e Eça nunca se conheceram pessoalmente. Quando o escritor português morreu em Paris, em 16 de agosto de 1900, Machado escreveu ao jornalista Henrique Chaves uma carta datada de 23 de agosto. Nela, lamentou a perda e disse que Eça ainda tinha muito a oferecer à literatura.

Mais de um século depois, O Primo Basílio continua entre os romances mais lidos da língua portuguesa, assim como os livros de Machado. A resenha de Eleazar pode ser lida hoje no volume Crítica, que reúne textos de Machado sobre literatura.

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