O escritor americano John Green, autor de A Culpa É das Estrelas, contou quais livros marcaram sua vida de leitor e de escritor em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada nesta sexta-feira (16) na seção “Books that made me” (“Os livros que me formaram”). A lista vai das séries juvenis Sweet Valley High e O Clube das Babás, que ele leu nos anos 1980, a Toni Morrison, Kurt Vonnegut, J.D. Salinger, Jane Austen e Robert Penn Warren.
A entrevista sai duas semanas depois de Um Final de Cinema, o novo romance de Green, chegar ao Brasil. Abaixo, o que ele diz sobre cada livro.
Da infância à adolescência
Green diz ter aprendido a ler com histórias “chatas”, mas que as primeiras lembranças empolgantes de leitura vêm das séries The Baby-Sitters Club e Sweet Valley High. “Nos dias de leitura extremamente divididos por gênero dos anos 1980, eu sabia que aqueles livros eram para meninas, mas os devorei”, contou (em tradução livre).
Sweet Valley High, assinada por Francine Pascal e escrita em grande parte por uma equipe de escritores contratados, saiu entre 1983 e 2003 e acompanha as gêmeas Elizabeth e Jessica Wakefield na escola. The Baby-Sitters Club, de Ann M. Martin, foi lançada em 1986 e é conhecida no Brasil pela série da Netflix O Clube das Babás (2020 e 2021).
O livro favorito da infância, segundo Green, foi The Island, de Gary Paulsen, sobre um garoto que descobre uma ilha isolada e passa a frequentá-la para conhecer a natureza. Ele conta que, além das séries juvenis, gostava de histórias de sobrevivência e perseverança.
O livro que o mudou na adolescência veio aos 16 anos, quando leu Toni Morrison pela primeira vez: O Olho Mais Azul, Sula e Song of Solomon, um atrás do outro. Até então, a literatura lhe parecia distante, “talvez até um pouco morta”. “Eu sempre soube que os livros podiam me transportar, mas Morrison me mostrou que eles também podiam me transformar”, afirmou. Morrison ganhou o Nobel de Literatura em 1993, e os dois primeiros títulos saem no Brasil pela Companhia das Letras.
Kurt Vonnegut aparece como o escritor que mudou a cabeça de Green e que teve papel desproporcional na formação de seus valores quando jovem. “Seu humanismo fundamental, a crença de que os seres humanos talvez ainda não sejam boas notícias, mas ainda possam vir a ser, me inspirou naquela época e me inspira até hoje”, disse. Green não cita um título específico. O livro mais conhecido de Vonnegut, Matadouro-Cinco (1969), sobre o bombardeio de Dresden na Segunda Guerra, tem edição brasileira da Intrínseca, com tradução de Daniel Pellizzari, a mesma editora de Green no país.
O livro que o fez querer escrever foi The Mysteries of Pittsburgh (1988), estreia do americano Michael Chabon. Green diz que nunca tinha lido um romance com protagonistas queer (LGBTQIA+) e com uma visão tão viva da juventude da época, e que a leitura o fez querer contar histórias parecidas.
Os livros da vida adulta
Com O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, a relação mudou com o tempo. No ensino médio, Green achava o narrador Holden Caulfield irritante e chorão, um garoto rico de Nova York que precisava perceber a sorte que tinha. Ao reler o livro anos depois, conta que ficou arrasado: a tristeza do romance e a vulnerabilidade de Holden só ficaram claras para ele na vida adulta. A tradução mais recente no Brasil é de Caetano W. Galindo, pela Todavia (2019).
Jane Austen chegou tarde. Green diz que só leu Orgulho e Preconceito (1813) quando já era adulto e que gostaria de ter conhecido a protagonista Lizzy Bennet mais cedo. Mesmo assim, conta que ama o livro e volta a ele com frequência.
O livro de conforto é Todos os Homens do Rei (1946), de Robert Penn Warren, que Green chama de “romance brilhante” sobre a política dos Estados Unidos e o Sul do país, mas acima de tudo sobre a passagem inexorável do tempo. É a ele que recorre quando precisa lembrar por que ama ler. O romance acompanha a ascensão do governador populista Willie Stark, inspirado no político da Louisiana Huey Long, e ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção em 1947. No Brasil, saiu pela Record em 2007, com tradução de Monica Reis.
Green também falou de leituras recentes. Acabou de reler Heart the Lover, de Lily King, e diz que relê bastante porque um grande livro é diferente a cada volta: o texto não mudou, mas ele sim. No momento, lê How to Build a Universe, livro de astrofísica de Katie Mack, porque busca leituras que o ajudem a “afastar o zoom” e lembrar que sua vida não é a única. Na outra ponta, diz não sentir vontade de voltar à obra de Ayn Rand, cujos enredos, para ele, só reforçam ideias equivocadas sobre como as pessoas se organizam e cooperam.
John Green no Brasil
Nascido em 1977 em Indiana, nos Estados Unidos, Green estreou em 2005 com Quem É Você, Alasca? e virou fenômeno mundial com A Culpa É das Estrelas (2012), sobre dois adolescentes com câncer que se apaixonam num grupo de apoio. O livro virou filme em 2014, e Cidades de Papel chegou aos cinemas em 2015. Ele também é conhecido pelo canal de YouTube Vlogbrothers, que mantém com o irmão, Hank, e pelas aulas em vídeo do Crash Course. No Brasil, seus livros saem pela Intrínseca.
O lançamento mais recente, Um Final de Cinema (Hollywood, Ending, no original), chegou às livrarias brasileiras em 1º de outubro, pela Intrínseca, com tradução de Alda Lima, em versão impressa e e-book. É o primeiro romance de Green em nove anos, depois de Tartarugas até Lá Embaixo (2017), e o primeiro voltado ao público adulto. A história acompanha os jovens atores Kai Laramie e Juniper Castillo, escalados para uma cinebiografia sobre o último ano de vida de Andy Warhol. Quando o filme vira fenômeno, os dois ganham fama, um romance e os problemas da exposição pública.
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