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Kafka pediu que seus manuscritos fossem queimados, e Max Brod salvou O Processo ao desobedecer

Primeira página manuscrita da Carta ao Pai, de Franz Kafka, em alemão, ao lado de seu último retrato fotográfico, de terno e gravata, olhando para a câmera.
Primeira página da Carta ao Pai, escrita por Kafka em 1919, e o último retrato conhecido do escritor, de 1923. Imagens: Wikimedia Commons (domínio público)

Franz Kafka morreu em 1924 pedindo que quase tudo o que escreveu fosse destruído. A ordem estava num bilhete endereçado ao amigo Max Brod: diários, manuscritos, cartas e desenhos deveriam ser queimados sem serem lidos. Brod desobedeceu. Graças a essa recusa, o mundo conheceu O Processo, O Castelo e Amerika, romances que Kafka nunca publicou em vida e que hoje estão entre os mais importantes do século 20.

A história não terminou ali. Os papéis que Brod salvou atravessaram a fuga do nazismo, passaram décadas guardados num apartamento em Tel Aviv e em cofres na Suíça e viraram objeto de uma disputa judicial que só terminou em 2016, na Suprema Corte de Israel.

O pedido de Kafka

Kafka morreu em 3 de junho de 1924, aos 40 anos, num sanatório perto de Viena, vítima de tuberculose. Até então tinha publicado pouco: alguns livros curtos de contos e novelas, entre eles A Metamorfose, de 1915. A maior parte de sua obra estava em cadernos e folhas soltas.

Entre os papéis do escritor, Brod encontrou as instruções. “Tudo o que deixo em matéria de cadernos, manuscritos, cartas, meus e de outros, esboços e assim por diante, deve ser queimado sem ser lido, até a última página”, escreveu Kafka (em tradução livre do trecho citado pela revista The Nation).

Brod era amigo de Kafka desde os tempos de estudante em Praga e já era um escritor conhecido. Também era o maior defensor do talento do amigo. Antes de qualquer romance de Kafka chegar às livrarias, ele já o comparava a Goethe e Tolstói.

Por que Max Brod desobedeceu

Max Brod, à direita, sorrindo e segurando um livro aberto, ao lado de dois diretores de teatro sentados a uma mesa, em foto em preto e branco de 1942.
Max Brod (à direita) com os diretores Baruch Chemerinsky e Zvi Friedland no Teatro Habima, em Tel Aviv, em 1942. Foto: Zoltan Kluger/Government Press Office (CC BY-SA 3.0)

Brod justificou a decisão com um argumento simples: tinha avisado Kafka, anos antes, que nunca cumpriria aquela ordem. Se o amigo quisesse mesmo ver os textos destruídos, escreveu Brod, deveria ter escolhido outro executor.

Ele também lembrou que boa parte do que Kafka publicou em vida só saiu porque foi convencido, ou quase forçado. “Arranquei de Kafka quase tudo o que ele publicou, por persuasão ou por astúcia”, contou Brod (em tradução livre).

O resultado veio rápido. Brod editou e publicou O Processo em 1925, O Castelo em 1926 e Amerika em 1927. Os três romances estavam inacabados, e foi Brod quem organizou a ordem dos capítulos e preparou os textos para impressão.

A fuga com uma mala de manuscritos

Em março de 1939, quando as tropas nazistas ocuparam Praga, Brod, que era judeu, fugiu da cidade. Levava uma mala com papéis de Kafka: anotações, diários e desenhos, muitos deles inéditos. Instalou-se em Tel Aviv, no então Mandato Britânico da Palestina, e continuou trabalhando na divulgação da obra do amigo.

A fuga salvou textos que dificilmente sobreviveriam à guerra. As três irmãs de Kafka morreram em campos de concentração nazistas.

Nem tudo, porém, ficou com Brod. Uma parte importante dos manuscritos literários foi depositada em 1961 na Biblioteca Bodleiana, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde está até hoje.

A secretária, o manuscrito de O Processo e a briga na Justiça

Max Brod morreu em 1968 e deixou o arquivo para sua secretária, Esther Hoffe. Ela guardou os papéis por quatro décadas, parte em seu apartamento em Tel Aviv, parte em cofres de bancos em Zurique.

Em 1988, Hoffe vendeu o manuscrito original de O Processo num leilão da Sotheby’s, em Londres, por cerca de US$ 2 milhões. O comprador foi o Arquivo de Literatura Alemã de Marbach, na Alemanha.

Depois da morte de Esther, em 2007, suas filhas reivindicaram o restante do arquivo e pretendiam vendê-lo à instituição alemã. A Biblioteca Nacional de Israel contestou, argumentando que Brod queria que os papéis ficassem num acervo público. O caso se arrastou por quase dez anos e terminou em 2016, quando a Suprema Corte de Israel decidiu a favor da biblioteca.

“O absurdo desses processos é que foram travados por um espólio cujo conteúdo ninguém conhecia”, resumiu o escritor Benjamin Balint, autor de um livro sobre o caso, ao PBS NewsHour (em tradução livre).

O que havia nos cofres

Desenho de Franz Kafka em nanquim: uma figura pequena sobre outra figura curvada, diante de um homem alto e esguio de silhueta negra que segura um objeto.
Desenho de Kafka do arquivo de Max Brod, hoje na Biblioteca Nacional de Israel. Imagem: Biblioteca Nacional de Israel/Arquivo Max Brod (domínio público)

Os documentos guardados em Zurique chegaram à Biblioteca Nacional de Israel em 2019, depois de uma decisão da Justiça suíça. Após dois anos de restauração, a biblioteca disponibilizou parte do acervo na internet em 2021.

Entre os itens, segundo a Rádio Praga, estão um diário pessoal, um caderno de exercícios de hebraico, um caderno de rabiscos e desenhos, três versões de rascunho do conto “Preparativos de casamento no campo” e centenas de cartas. Os desenhos mostram um lado pouco conhecido do escritor. “Sabemos que Kafka fazia pequenos desenhos só para relaxar. Pelo visto, ele nunca achou que aquilo fosse grande arte”, disse o arquivista Stefan Litt à emissora (em tradução livre).

Os cadernos de hebraico também surpreenderam. Kafka estudava a língua nos últimos anos de vida e, segundo Litt, era um aluno avançado.

Kafka no Brasil

No Brasil, a obra de Kafka ganhou traduções feitas diretamente do alemão por Modesto Carone, publicadas pela Companhia das Letras. Entre elas estão A Metamorfose, que o próprio Kafka publicou, e O Processo e O Castelo, que só chegaram às livrarias porque um amigo decidiu não acender o fogo.

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