Aluísio Azevedo escreveu O Cortiço, um dos romances mais lidos da literatura brasileira, e depois simplesmente parou. Em 1895, com quase quarenta anos, ele passou num concurso para cônsul, entrou na carreira diplomática e não publicou mais nenhum romance até morrer, em 1913.
O motivo era prático. Segundo a biografia publicada pela Fundação Joaquim Nabuco, Aluísio não conseguia sobreviver só como escritor. O autor que levou o Naturalismo ao Brasil trocou a literatura por um salário fixo e passou quase duas décadas representando o país no exterior.
Um escritor que tentou viver da escrita
Aluísio Azevedo nasceu em São Luís, no Maranhão, em 14 de abril de 1857. Em 1876, mudou-se para o Rio de Janeiro para ficar perto do irmão mais velho, o dramaturgo e jornalista Artur Azevedo.
No Rio, o primeiro ofício de Aluísio não foi a literatura, e sim o desenho. Ele trabalhou como caricaturista em jornais e revistas ilustradas da época, como O Fígaro, O Mequetrefe e Zig-Zag. As charges pagavam as contas enquanto ele começava a escrever.
Depois de uma temporada de volta a São Luís, ele retornou ao Rio em setembro de 1881, decidido a ganhar a vida como escritor. Dedicou-se ao jornalismo e passou a publicar romances em folhetins, capítulos que saíam aos poucos nos jornais.
O escândalo de O Mulato e o sucesso de O Cortiço
A fama veio com O Mulato, publicado em 1881, ainda em São Luís. O livro escandalizou a sociedade maranhense pela linguagem crua e por tratar do preconceito racial. Ao mesmo tempo, deu ao autor projeção nacional. A obra é considerada o marco inicial do Naturalismo no país, como explica nosso texto sobre a importância de O Mulato.
O Naturalismo é a corrente que trata o ser humano como produto do meio, da herança biológica e do momento histórico. Aluísio aplicou essa ideia em Casa de Pensão (1884), O Homem (1887) e, principalmente, em O Cortiço (1890).
Em O Cortiço, uma habitação coletiva do Rio de Janeiro vira quase um personagem. O romance mostra a ambição do português João Romão e a vida dos moradores pobres que se amontoam no lugar. O enredo completo está no resumo e análise de O Cortiço.
Por que Aluísio Azevedo virou cônsul
Mesmo com livros de sucesso, a conta não fechava. O folhetim exigia entregas regulares, e o escritor precisava produzir sem parar para manter alguma renda. Livros vendiam pouco, e as tiragens eram pequenas.
Esse era o cenário geral da época. No Brasil do fim do século 19, poucos escritores conseguiam se sustentar com a venda de livros. A maioria dependia de empregos públicos, do jornalismo ou de outras profissões.
Aluísio insistiu por mais de uma década na vida de escritor profissional. Em 1895, prestou concurso para cônsul e foi aprovado. A carreira diplomática garantiu o salário estável que a literatura nunca tinha oferecido. Para quem vivia de encomendas e prazos de jornal, era uma mudança completa de vida.
A partir daí, ele deixou de se dedicar à produção literária. Dois anos depois, em 1897, ainda participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, presidida por Machado de Assis. Aluísio ocupou a cadeira número 4, mas já estava longe da rotina de romancista.
Da Espanha ao Japão: a vida de diplomata
Como cônsul, Aluísio morou em vários países. Os registros biográficos citam postos em Vigo, na Espanha, no Japão, na Itália, no Paraguai e na Argentina, entre outros. Ele representava o Brasil em questões comerciais e dava assistência a brasileiros no exterior.
A passagem pelo Japão marcou o escritor. Ele deixou inédito um texto com impressões sobre o país, que não chegou a publicar em vida.
Na Argentina, Aluísio passou a viver com a argentina Pastora Luquez e adotou os dois filhos dela, Pastor e Zulema.
Morte em Buenos Aires e retorno a São Luís
Aluísio Azevedo morreu em Buenos Aires em 21 de janeiro de 1913, aos 55 anos. Estava longe do país havia anos e não publicava ficção desde a década de 1890.
Seis anos depois, em 1919, os restos mortais foram levados para São Luís, sua cidade natal. O escritor que tinha escandalizado a sociedade maranhense com O Mulato voltou para casa como um dos nomes mais importantes da literatura brasileira.
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