“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta” é o verso que abre “Eu sou trezentos”, primeiro poema de Remate de Males, livro que Mário de Andrade publicou em 1930. Quem fala é o eu lírico, a voz do poema, que se descreve como muitas pessoas ao mesmo tempo: alguém que sente tudo, vai a todos os lugares e não cabe numa identidade só.
O poema não trata essa divisão como um defeito a corrigir. A resposta vem quando o refrão se repete e ganha um complemento: “Mas um dia afinal eu toparei comigo…”. Para Mário, ser muitos é a condição de quem vive intensamente, e o encontro consigo mesmo é algo que chega com o tempo, sem pressa. É isso que o verso ensina a quem se sente dividido entre papéis.
O poema completo, com a grafia própria de Mário (que escrevia “si” e “milhores”), diz:
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
Onde o verso aparece
Remate de Males saiu dois anos depois de Macunaíma (1928), o romance do “herói sem nenhum caráter”, e reúne poemas escritos por Mário no fim dos anos 1920. “Eu sou trezentos” abre o livro e funciona como um retrato do poeta: nas duas primeiras estrofes, ele se espalha pelo mundo; na última, olha para dentro.
A primeira estrofe é uma enumeração de lugares e sensações. Os Pireneus, cordilheira entre a França e a Espanha, aparecem ao lado das caiçaras, palavra que pode designar os moradores do litoral de Cananéia, em São Paulo, ou as cercas de galhos em volta das roças, e do Piauí, onde o poeta iria “buscar outro” deus se um morresse. Num estudo publicado pela revista Linguasagem, da UFSCar, o pesquisador Lucas Piter Alves Costa observa que essas referências criam uma “sensação de onipresença”, de quem se move de um lugar ao outro ignorando a distância.
A segunda estrofe leva essa multiplicidade para o corpo e para o afeto. Os suspiros do poeta “são violinos alheios”, e ele descobre “seus próprios beijos” nas esquinas, nos táxis e nos quartos (as “camarinhas”). A última estrofe muda de tom: o refrão volta, mas agora seguido de uma promessa e de um pedido de paciência.
O que o verso quer dizer
A multiplicidade é uma marca de toda a obra de Mário de Andrade, e “Eu sou trezentos” é o exemplo mais lembrado. “Ao assinalar a multiplicidade na criação poética de Mário de Andrade logo se pensa no verso ‘Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta’, abrindo Remate de males, em 1930″, escreve a pesquisadora Angela Teodoro Grillo em artigo na revista Estudos Avançados, da USP. Segundo ela, a origem dessa ideia está em Pauliceia Desvairada (1922), livro marco da primeira fase do modernismo, em que o poeta escolhe o traje do arlequim, feito de retalhos, como metáfora do próprio sujeito lírico.
O ponto central do poema está nos três últimos versos. Numa leitura possível, “Tenhamos paciência, andorinhas curtas” é um pedido feito às próprias ânsias, que voam baixo e para todo lado, e “Só o esquecimento é que condensa” sugere que a unidade não vem de juntar à força todos os pedaços, e sim de deixar que o tempo filtre o que importa. Só então “minha alma servirá de abrigo”: o eu disperso vira casa.
O que o verso diz a quem lê hoje
Pouca gente diria hoje que é trezentas pessoas, mas muita gente se reconhece na sensação. A mesma pessoa é filha, profissional, amiga, estudante, alguém que cuida dos outros e alguém que precisa de cuidado, e às vezes parece que nenhuma dessas versões é a verdadeira. A tendência é cobrar de si uma coerência imediata, como se fosse preciso decidir logo quem se é.
O poema de Mário propõe outra relação com essa experiência. Ele não pede ao leitor que escolha uma das trezentas versões nem que abra mão das outras. Aceita a mistura como sinal de quem vive com intensidade e aposta que o encontro consigo mesmo acontece “um dia afinal”, no tempo próprio de cada um. É a mesma generosidade que o poeta teve com um país inteiro em Macunaíma, ao criar um herói feito de muitas regiões, línguas e contradições.
Por que o verso continua citado
“Eu sou trezentos” virou uma espécie de definição do próprio Mário, que foi poeta, romancista, crítico, musicólogo, pesquisador do folclore e gestor cultural. A ideia atravessou a obra dele até o fim: em “A meditação sobre o Tietê”, poema concluído em fevereiro de 1945, às vésperas da morte do autor, aparece o verso “Meu baile é tão vário que possui mil sambas insonhados!”, que Angela Grillo lê como um eco da mesma multiplicidade.
Mário de Andrade morreu em 1945, e sua obra está em domínio público no Brasil desde 2016. Remate de Males está reunido nas edições da poesia completa do autor.
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