“Ora (direis) ouvir estrelas!” é o verso que abre o soneto XIII de Via Láctea, série de sonetos de amor que Olavo Bilac (1865-1918) publicou no livro Poesias, em 1888. A exclamação não é do poeta. O eu lírico (a voz que fala no poema) coloca na boca de um interlocutor imaginário, tratado por “vós”, a zombaria de quem acha um absurdo conversar com estrelas. O parêntese “(direis)” marca essa troca de vozes: é como se o poeta antecipasse a crítica que vai ouvir.
O soneto inteiro funciona como um diálogo. O cético ataca duas vezes, o poeta responde duas vezes, e a última resposta, guardada para os versos finais, desfaz a acusação de loucura: só quem ama consegue ouvir as estrelas.
Nos dois primeiros versos do soneto XIII de Via Láctea, a fala do interlocutor aparece completa, entre aspas:
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!”
Onde o verso aparece em Via Láctea
Poesias foi o livro de estreia de Bilac. Ele tinha 23 anos e ainda estudava medicina no Rio de Janeiro quando o volume saiu, com sucesso imediato, como lembra o crítico Ivan Teixeira no ensaio “Artifício, a ascensão e a queda de Olavo Bilac”, publicado na Revista USP em 2002. Segundo Teixeira, o livro, originalmente composto por Panóplias, Via Láctea e Sarças de Fogo, consolidou o Parnasianismo no Brasil. O volume ganhou novas partes na edição definitiva de 1902, e em 1913 Bilac era considerado o maior poeta brasileiro vivo.
Via Láctea reúne 35 sonetos numerados, sem título, dirigidos a uma mulher amada. As estrelas aparecem desde o início: no soneto I, o poeta vê a amada subir “Entre as estrelas trêmulas” por “Uma infinita e cintilante escada”. No soneto XII, imediatamente anterior, ele sonha que corre ao encontro dela e uma estrela lhe diz: “Como és feliz! como és feliz, amigo, / Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!”. O soneto XIII inverte a cena: agora é o poeta quem escuta as estrelas, e alguém de fora ri dele. O seguinte, o XIV, já muda de assunto e fala “Desse outro amor que nos perverte e engana”.
Este é o soneto XIII completo, no texto da edição de Poesias:
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
O que o soneto diz sobre amor e loucura
A primeira resposta do poeta não discute: descreve. Ele conta que acorda, abre as janelas “pálido de espanto”, conversa com as estrelas a noite inteira e, quando o sol nasce, ainda as procura “pelo céu deserto”. O interlocutor insiste, agora chamando-o de “Tresloucado amigo”, e quer saber que sentido tem essa conversa. A segunda resposta é o conselho final, “Amai para entendê-las!”, que transforma a suposta loucura em privilégio de quem ama.
Para a pesquisadora Kátia Rose Pinho, em artigo na revista Terceira Margem, da UFRJ (2011), o interlocutor “pode ser tomado como a voz do senso comum, que o escarnece por ‘ouvir estrelas'”. Sobre o fecho, ela escreve: “É preciso estar afeiçoado, perpassado de afeto para entender o que quer que seja”.
A forma é rigorosa. Paulo da Silva Lima, em estudo publicado na revista Travessias, da Unioeste, descreve o poema como soneto petrarquiano (dois quartetos e dois tercetos), todo em decassílabos, versos de dez sílabas poéticas, com rimas no esquema ABAB, BABA, CDC e EDE. O desvario que o poema defende está, portanto, contado em versos medidos. Ivan Teixeira ajuda a entender esse contraste: no ensaio da Revista USP, ele descreve Bilac como “um poeta de aguda consciência retórica, o que lhe permitiu programar efeitos, em vez de expressar sentimentos”, desde que parecesse o contrário.
Outro detalhe do livro ajuda a ler o soneto XIII: no último poema da série, o XXXV, o poeta volta a responder a quem zomba dele, agora sem disfarce: “Pouco me pesa que mofeis sorrindo / Destes versos puríssimos e santos”.
Por que o verso continua citado
O soneto também circula com o título “Ouvir estrelas”, que não existe no livro: em Via Láctea, o poema é apenas o número XIII. A fama rendeu paródia. O poeta Bastos Tigre escreveu outro “Ouvir estrelas”, no mesmo molde, sobre as estrelas do cinema de Hollywood. Em vez de “Amai para entendê-las!”, o conselho final de Tigre é “Amigo, aprende inglês para entendê-las”, segundo o estudo de Lima, que compara os dois sonetos verso a verso.
O prestígio de Bilac também fez dele alvo dos modernistas. Teixeira lembra que José Veríssimo considerou alguns de seus sonetos o ponto mais alto da beleza nessa forma no Brasil e que, anos depois, Mário de Andrade, no “Prefácio Interessantíssimo” de Pauliceia Desvairada, opôs versos próprios aos de Bilac, apresentados como “melodia” ultrapassada. Para o crítico, a poesia bilaquiana hoje “oscila entre o apreço de leitores que ainda não incorporaram a renovação modernista e a recusa de intelectuais que ainda não se libertaram do padrão modernista”.
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