A economista Helena Taliberti, mãe de Camila e Luiz Taliberti, mortos no rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), em 2019, apresenta em Minas Gerais o livro Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes, relato autobiográfico sobre o luto e a luta por memória das vítimas. São dois encontros: sábado (17), às 11h, no Fórum das Letras, em Ouro Preto, e terça (20), às 19h, na Livraria Quixote, em Belo Horizonte.
Em Ouro Preto, Helena participa da mesa O que permanece, no Anexo do Museu da Inconfidência (Rua Antônio Pereira, 33, Centro), ao lado de Fabíola Moulin, diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho, com mediação da jornalista Daniela Arbex, segundo a programação oficial do Fórum das Letras. A 21ª edição do festival da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) vai até 22 de outubro, em Ouro Preto e Mariana, e homenageia Guimarães Rosa. Em Belo Horizonte, o lançamento integra o Encontros Singulares, apresentado pela jornalista Paola Carvalho, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi).
O livro saiu em julho pela editora Ofício das Palavras e já teve lançamentos na Flip, em Paraty, em 25 de julho, e em São Paulo, em agosto. A ficha da editora informa 210 páginas e preço de R$ 80. A obra é vendida no site da Ofício das Palavras e em livrarias físicas.
Sobre o livro
O título vem de um provérbio que a autora viu na parede de um café, seis meses depois da tragédia: “Tentaram nos enterrar, não sabiam que éramos sementes”. No livro, a frase foi passada para o presente porque, segundo a apresentação da editora, a tentativa de apagar a memória do que aconteceu não ficou no passado. Em entrevista ao Metrópoles, em agosto, Helena resumiu o motivo da luta que o livro registra: “A impunidade é a porta para acontecer outra vez”.
O relato trata de perda, maternidade, amor e reconstrução. Um trecho divulgado pelo jornal O Tempo dá o tom do texto: “Na perda há uma dor ácida que vem com a ruptura, com o vazio, com a falta de sentido, com os fragmentos em que a vida se torna, com o acordar todos os dias e redescobrir a perda”, escreve a autora. O volume tem três prefácios: da jornalista Cristina Serra, autora de Tragédia em Mariana; de Daniela Arbex, autora de Arrastados, livro-reportagem sobre o rompimento em Brumadinho; e da psicóloga Maria Helena Pereira Franco, que acompanha Helena no processo de luto. O posfácio é de Vagner Diniz, marido da autora.
Camila Taliberti era advogada e morava em São Paulo. O irmão, Luiz, era arquiteto e vivia havia quatro anos na Austrália. Ele estava de férias no Brasil com a companheira, Fernanda Damian, que estava grávida, e convidou a irmã, o pai e a madrasta para a viagem a Minas. O grupo estava hospedado na pousada Nova Estância, destruída pela lama. Helena perdeu os dois filhos, a nora, o pai de Camila e Luiz e a mulher dele, além do neto que Fernanda esperava. “Eu não convivo mais com eles, mas convivo com eles em mim”, disse ao Metrópoles, em reportagem publicada no último domingo (11).
A barragem da mina Córrego do Feijão rompeu em 25 de janeiro de 2019 e deixou 272 mortos. Familiares e amigos de Camila e Luiz criaram o Instituto Camila e Luiz Taliberti, lançado em julho daquele ano na Câmara Municipal de São Paulo e presidido por Helena. A entidade usa cultura e educação para manter a memória das vítimas e discutir os impactos da mineração. Entre os projetos estão a exposição Paisagens Mineradas, que entre 2023 e 2025 passou por Belém, São Paulo, Belo Horizonte e Ouro Preto, a Mostra Cinema, Mineração e Meio Ambiente e o Ato pela Memória, realizado todo 25 de janeiro na Avenida Paulista.
Na Justiça, o caso está na fase de instrução, a etapa de depoimentos e produção de provas. As audiências começaram em fevereiro de 2026 na Justiça Federal em Belo Horizonte, com a Vale, a certificadora alemã TÜV SÜD e ex-executivos ligados às duas empresas entre os réus, que respondem por crimes ambientais e pelos 272 homicídios. O calendário prevê 76 sessões até maio de 2027; ao fim delas, a Justiça decide se os acusados vão a júri popular.
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