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Kerouac datilografou On the Road num rolo de 36 metros, e o final foi roído por um cachorro

A história do rolo de On the Road: escrito em três semanas em 1951, roído por um cachorro e vendido por US$ 12,1 milhões em 2026.

Montagem com Jack Kerouac ao lado de uma arte de On the Road, romance escrito originalmente em um rolo contínuo de papel.
Jack Kerouac escreveu a primeira versão de On the Road em 1951, datilografando o texto em um rolo contínuo de papel com cerca de 36 metros. Montagem/Literatura Online, com imagem via Wikimedia Commons.

Jack Kerouac escreveu a primeira versão de On the Road em cerca de três semanas, em abril de 1951, datilografando sem parar num rolo de papel com cerca de 36 metros. Para não perder tempo trocando folhas na máquina de escrever, ele colou tiras de papel fino umas nas outras e criou uma faixa contínua, sem parágrafos e sem capítulos. O final desse rolo não existe mais: segundo uma anotação a lápis do próprio Kerouac, foi roído por um cachorro.

Esse objeto, que completou 75 anos em 2026, virou uma das relíquias mais famosas da literatura do século 20. Em março deste ano, foi arrematado num leilão da Christie’s, em Nova York, por US$ 12,135 milhões, o maior valor já pago por um manuscrito literário em leilão. O comprador foi o cantor country americano Zach Bryan, fã declarado do escritor.

Três semanas de café e máquina de escrever

Kerouac trabalhou no rolo num apartamento em Nova York e terminou o texto em 22 de abril de 1951, segundo o Harry Ransom Center, centro de pesquisa da Universidade do Texas que exibiu o manuscrito em 2008. Movido principalmente a café, ele datilografou durante cerca de 20 dias seguidos.

O resultado é uma faixa de papel semitranslúcido com cerca de 23 centímetros de largura, coberta de texto em espaço simples, num único bloco. Há palavras riscadas com xis, correções a lápis e anotações nas margens. Em vários trechos, Kerouac trocou os nomes verdadeiros dele e dos amigos pelos nomes fictícios que apareceriam no livro.

Rolo original datilografado de On the Road, de Jack Kerouac, exposto dentro de uma vitrine de vidro.
O manuscrito original de On the Road, datilografado por Jack Kerouac em 1951 num rolo contínuo de papel, durante uma exposição. Wikimedia Commons.

A história é a das viagens de carona e de carro pelos Estados Unidos no fim dos anos 1940. Sal Paradise, o narrador, é o próprio Kerouac. Dean Moriarty, o amigo inquieto e carismático que conduz a narrativa, foi inspirado em Neal Cassady, companheiro de estrada do escritor.

O poeta Allen Ginsberg acompanhou a escrita de perto. Em 7 de maio de 1951, poucas semanas depois de o rolo ficar pronto, ele escreveu a Cassady contando a façanha: “A escrita é como orvalho, tudo acontece como realmente aconteceu, com a mesma sensação juvenil da primavera: o herói é você, você é o herói”. E completou: “Jack, porém, precisa de um final” (em tradução livre). A carta faz parte do acervo do Harry Ransom Center.

O cachorro que comeu o final

A frase de Ginsberg acabou soando profética. A ponta final do rolo foi mastigada pelo cocker spaniel de Lucien Carr, amigo de Kerouac. O escritor registrou o estrago com uma nota a lápis no próprio papel: “DOG ATE (Potchky, a dog)”, algo como “o cachorro comeu (Potchky, um cachorro)”.

Ninguém sabe exatamente quanto texto se perdeu. Segundo o Harry Ransom Center, não há como saber quantos centímetros ou metros o rolo tinha antes da mordida. A carta de Ginsberg indica, de todo modo, que o final do romance ainda estava por ser escrito.

Seis anos até o livro

O rolo de 1951 não foi o livro que chegou às livrarias. Kerouac revisou o texto durante anos, dividiu-o em parágrafos e capítulos e substituiu nomes reais por fictícios. On the Road só foi publicado em 1957, pela editora americana Viking. As primeiras críticas foram divididas, mas o romance se tornou o símbolo da Geração Beat, o grupo de escritores formado por Kerouac, Ginsberg, William S. Burroughs e outros, que influenciou a contracultura das décadas seguintes.

A versão original só foi publicada em 2007, nos 50 anos do livro, como On the Road: The Original Scroll. Ela traz os nomes verdadeiros dos personagens, nenhuma quebra de parágrafo e um texto mais cru do que o de 1957. No Brasil, a L&PM publica as duas versões: On the Road: Pé na Estrada, com tradução de Eduardo Bueno, e On the Road: O Manuscrito Original.

De leilão em leilão

Depois da morte de Kerouac, em 1969, o rolo passou para a viúva, Stella Sampas, e depois para o irmão dela, Tony Sampas. Em 2001, a família levou o manuscrito a leilão na Christie’s. A venda foi criticada por Carolyn Cassady, ex-mulher de Neal Cassady, que chamou de “blasfêmia” a possibilidade de o rolo desaparecer numa coleção particular, lembrando que Kerouac “amava bibliotecas públicas”.

O comprador foi Jim Irsay, dono do time de futebol americano Indianapolis Colts, que pagou US$ 2,43 milhões, recorde para um manuscrito literário na época. Irsay mandou o rolo em turnê: entre 2007 e 2009, ele passou pela Biblioteca Pública de Nova York, pelo Harry Ransom Center e pelo Barber Institute of Fine Arts, no Reino Unido. Em 2012, foi exposto em Paris, no lançamento do filme Na Estrada, adaptação do livro dirigida pelo brasileiro Walter Salles.

Irsay morreu em 2025, e sua coleção foi a leilão na Christie’s em março de 2026. A estimativa para o rolo era de US$ 2,5 milhões a US$ 4 milhões, mas os lances passaram dos US$ 12 milhões. Zach Bryan, que já tinha uma música inspirada num verso de On the Road, “Burn Burn Burn”, também comprou o rolo datilografado de Os Vagabundos Iluminados (1958) e três cartas de Kerouac.

Um destino em Lowell

O cantor pretende expor o manuscrito em Lowell, cidade natal de Kerouac, no estado americano de Massachusetts. Em 2025, ele comprou por US$ 3,4 milhões a antiga igreja de Saint Jean Baptiste, onde o escritor foi coroinha e onde foi celebrada sua missa de corpo presente, em 1969. O plano, feito em parceria com o espólio do escritor, é transformar o prédio num centro dedicado a Kerouac.

“É uma virada de jogo”, disse ao Boston Globe Jim Sampas, executor literário do espólio. “Que este manuscrito, que talvez seja o mais valioso do mundo, vá ficar no centro é uma virada de jogo” (em tradução livre). Se o plano der certo, o rolo de 1951 volta a ser visto pelo público na cidade onde a história de Kerouac começou.

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