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Curiosidades

Por que há tantos gatos nas capas de livros e na história da literatura

Gatos nas capas de livros: a onda de romances japoneses e a longa história dos felinos na literatura, de Soseki e Eliot a Hemingway e Guimarães Rosa.

Ilustração de O Mestre e Margarida mostra Koroviev, o gato Behemoth e Woland sentados lado a lado.
Koroviev, o gato Behemoth e Woland, personagens de O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov, em ilustração criada por Andrey Nabokov para o romance em 2006. Ilustração: Andrey Nabokov.

Quem passa por uma livraria hoje encontra gatos por todo lado: dormindo na capa de romances japoneses, guiando personagens por bibliotecas e até narrando histórias. A impressão tem base. Segundo o site americano Book Riot, os últimos anos registraram um aumento no número de gatos nas capas de romances para adultos, e não só em livros infantis ou quadrinhos, onde os bichos sempre foram comuns.

Parte do fenômeno, segundo a publicação, vem do crescimento da ficção japonesa e coreana traduzida, em que gatos aparecem com frequência como personagens. Mas a relação entre gatos e literatura é bem mais antiga. Ela passa por um clássico japonês de 1905, por um poema de T. S. Eliot que virou um dos musicais mais longos da Broadway e pela casa de Ernest Hemingway, onde vivem até hoje dezenas de gatos de seis dedos.

O gato que narra: de Soseki aos romances de conforto

Muito antes da onda atual, o escritor japonês Natsume Soseki deu voz a um gato em Eu sou um gato, romance que começou a sair em capítulos em 1905 na revista literária Hototogisu. O narrador é um gato sem nome que vive na casa de um professor rabugento e observa, com sarcasmo, os intelectuais do Japão da era Meiji. Foi a estreia de Soseki, hoje um dos autores mais importantes do país, e o livro tem edição brasileira pela Estação Liberdade.

Capa de I Am a Cat ao lado de um retrato do escritor japonês Natsume Soseki.
Natsume Soseki publicou Eu sou um gato em capítulos a partir de 1905, dando voz a um felino que observa com ironia a sociedade japonesa da era Meiji. Montagem/Literatura Online.

Mais de um século depois, a fórmula reaparece nos chamados romances de conforto, histórias leves e emotivas que se tornaram febre entre leitores de várias idades. Em Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa, publicado no Brasil pela Alfaguara em 2017, o gato Nana atravessa o Japão na van prateada do dono, Satoru, sem saber o motivo da viagem. A narração se alterna entre o homem e o gato. O sucesso rendeu uma continuação, O gato do adeus, lançada aqui em novembro de 2025, com sete histórias no mesmo universo, também traduzidas por Rita Kohl.

Capa de Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa, com a silhueta de um gato diante do Monte Fuji.
Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa, acompanha o gato Nana e seu dono, Satoru, numa viagem pelo Japão. Divulgação/Alfaguara.

Outro exemplo é O gato que amava livros, de Sosuke Natsukawa, lançado pela Planeta em 2022. Nele, um gato malhado falante pede ajuda a Rintaro, neto do dono de um sebo, para resgatar livros. A sequência, O gato que salvou a biblioteca, chegou em 2025 e acompanha uma leitora de 13 anos que desconfia do sumiço de livros da biblioteca local.

Os gatos de T. S. Eliot que viraram musical

Em 1939, o poeta T. S. Eliot, que ganharia o Nobel de Literatura em 1948, publicou Old Possum’s Book of Practical Cats, uma coletânea de poemas bem-humorados sobre a psicologia e a vida social dos gatos. Os textos tinham sido escritos na década de 1930 para os afilhados do autor, que assinava as cartas como “Old Possum”.

T. S. Eliot ao lado da capa de Old Possum's Book of Practical Cats, livro de poemas que inspirou o musical Cats.
T. S. Eliot publicou Old Possum’s Book of Practical Cats em 1939; décadas depois, os poemas sobre gatos serviram de base para o musical Cats, de Andrew Lloyd Webber. Montagem/Literatura Online.

O compositor Andrew Lloyd Webber gostava dos poemas desde a infância e, em 1977, começou a transformá-los em música. O resultado foi Cats, que estreou em Londres em 1981 e na Broadway em 1982. O musical também usou personagens de rascunhos inéditos de Eliot, entre eles Grizabella, a gata decadente que canta “Memory”. Cats foi o espetáculo de maior temporada da história da Broadway até ser superado por outro musical de Lloyd Webber, O Fantasma da Ópera.

A casa de Hemingway e seus gatos de seis dedos

O escritor americano Ernest Hemingway é lembrado pelas caçadas, pelas guerras e pelas pescarias, mas a casa onde ele morou em Key West, na Flórida, ficou famosa por causa dos gatos. Segundo o museu Ernest Hemingway Home and Museum, vivem lá hoje quase 60 gatos polidáctilos, ou seja, com dedos a mais nas patas.

Gato tigrado de seis dedos ao lado de uma máquina de escrever na antiga casa de Ernest Hemingway em Key West.
Um dos gatos polidáctilos que vivem na Ernest Hemingway Home and Museum, em Key West, onde são mantidos quase 60 animais ligados à tradição dos gatos de seis dedos do escritor. Reprodução/Ernest Hemingway Home and Museum.

De acordo com o museu, Hemingway ganhou de um capitão de navio um gato branco de seis dedos chamado Snow White, e parte dos gatos que vivem no local descende dele. Cerca de metade dos animais tem dedos extras, mas todos carregam o gene. O museu mantém uma tradição do escritor: “Hemingway dava a todos os seus gatos nomes de pessoas famosas, e nós seguimos essa mesma tradição até hoje” (em tradução livre).

Gatos na literatura em português

No Brasil, um dos escritores mais ligados aos gatos foi Guimarães Rosa, autor de Grande sertão: veredas. A biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, que guarda o acervo do escritor, reúne livros sobre gatos que pertenceram a ele, em várias línguas, com anotações nas margens e dedicatórias. Parte desse material foi exposta numa ação de divulgação descrita em artigo da revista do instituto, publicado em 2024.

Os gatos também estão em clássicos que muitos leitores conhecem desde a escola, como o sorridente Gato de Cheshire, que aparece e desaparece em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1865), e o animal que assombra o narrador do conto “O gato preto”, de Edgar Allan Poe (1843). Ao longo do tempo, o bicho já foi guia, ameaça, narrador irônico e companhia, o que ajuda a explicar por que continua a ocupar tanto espaço nas capas e nas histórias.

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