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Rachel de Queiroz foi a primeira mulher da Academia Brasileira de Letras, 80 anos depois da fundação

Emblema verde da Academia Brasileira de Letras com a inscrição Ad Immortalitatem sobre foto antiga de Rachel de Queiroz sorrindo ao lado de pessoas fantasiadas, em 1954.
Emblema da Academia Brasileira de Letras e Rachel de Queiroz em 1954, 23 anos antes de se tornar a primeira mulher eleita para a instituição. Fotos: Reprodução/ABL e Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (domínio público)

A Academia Brasileira de Letras (ABL) foi fundada em 1897, mas só elegeu a primeira mulher 80 anos depois. Em 4 de agosto de 1977, a escritora cearense Rachel de Queiroz foi eleita para a cadeira 5 da instituição e, em 4 de novembro do mesmo ano, tomou posse, recebida pelo acadêmico Adonias Filho, segundo a biografia publicada pela ABL.

Até então, as mulheres estavam formalmente impedidas de entrar na Academia. O estatuto falava em “brasileiros”, e a palavra foi interpretada durante décadas como “homens brasileiros”. Antes de Rachel, uma escritora chegou a ser cogitada para a fundação da ABL e outra tentou se candidatar; as duas foram barradas.

Quando foi eleita, Rachel de Queiroz tinha 66 anos e uma carreira consolidada como romancista, cronista e tradutora. Sua entrada abriu caminho para outras escritoras e mudou, aos poucos, a cara da instituição criada por Machado de Assis e seus contemporâneos.

Júlia Lopes de Almeida, a fundadora que ficou de fora

A história de exclusão começa na própria criação da ABL. Em 1897, o nome de Júlia Lopes de Almeida, uma das escritoras mais lidas do país na época, foi cogitado para a lista de fundadores. A resistência à presença de mulheres prevaleceu, e quem entrou para a Academia foi o marido dela, o poeta português naturalizado brasileiro Filinto de Almeida.

O episódio ficou conhecido nos bastidores literários. Segundo texto publicado na Revista Brasileira, da própria ABL, o escritor Humberto de Campos chegou a definir Filinto como “um acadêmico consorte”. O próprio Filinto reconheceu a injustiça: “Não era eu quem devia estar na Academia, era ela”.

A primeira mulher a apresentar oficialmente uma candidatura à ABL foi a escritora piauiense Amélia de Freitas Beviláqua, em 1930. Ela era casada com o jurista Clóvis Beviláqua, autor do Código Civil de 1916 e membro fundador da Academia.

A inscrição foi rejeitada. Os acadêmicos decidiram que a palavra “brasileiros”, usada no artigo 2º do estatuto para definir quem podia ser membro, se referia apenas a homens, conforme registra a Revista Brasileira. A interpretação manteve as mulheres fora da instituição por mais quatro décadas.

A mudança no regimento em 1976

A primeira proposta para permitir a entrada de mulheres foi apresentada pelo acadêmico Osvaldo Orico em 1951 e repetida por ele em 1970, sem sucesso. Só em 14 de outubro de 1976 a ABL aprovou, quase por unanimidade, a retirada da expressão “do sexo masculino” do regimento interno.

A eleição de Rachel de Queiroz veio menos de um ano depois. Ela ocupou a vaga aberta com a morte do jurista e escritor Cândido Motta Filho, antigo ocupante da cadeira 5.

Rachel de Queiroz sentada numa poltrona com um diploma enrolado no colo, ao lado de acadêmicos de fardão, durante sua posse na Academia Brasileira de Letras.
Rachel de Queiroz na cerimônia de posse na Academia Brasileira de Letras, em 1977. Foto: Arquivo Nacional, Fundo Agência Nacional (domínio público)

Quem foi Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza em 17 de novembro de 1910. Estreou em livro no fim de 1930, aos 20 anos, com O Quinze, romance sobre a grande seca que atingiu o Ceará em 1915. O livro trata da luta dos sertanejos contra a miséria e a estiagem e recebeu o prêmio da Fundação Graça Aranha. É considerado uma das obras fundadoras do romance regionalista de 1930, ao lado de livros de Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado.

O romance acompanha duas linhas paralelas. Numa delas está Conceição, jovem professora que vive em Fortaleza, lê muito, questiona o casamento como destino obrigatório e trabalha como voluntária no campo onde o governo concentrava os retirantes que chegavam à capital. Na outra está a família do vaqueiro Chico Bento, que perde o trabalho com a seca e atravessa o sertão a pé em direção a Fortaleza, enfrentando fome e mortes pelo caminho. Entre as duas tramas está Vicente, primo de Conceição, criador de gado que tenta salvar o rebanho.

A própria autora conhecia de perto o tema: sua família viveu a seca de 1915 e chegou a deixar o Ceará por um período. A protagonista independente, num romance escrito por uma jovem de 20 anos, chamou a atenção da crítica e ajudou a tornar Rachel conhecida em todo o país.

Depois vieram romances como João Miguel (1932), Caminho de Pedras (1937) e As Três Marias (1939), além das peças Lampião (1953) e A Beata Maria do Egito (1958). Rachel também foi uma das cronistas mais produtivas do país: publicou mais de 2 mil crônicas em jornais e revistas como Diário de Notícias, O Cruzeiro e O Estado de S. Paulo.

Em 1993, tornou-se a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa. Morreu no Rio de Janeiro em 4 de novembro de 2003, exatamente 26 anos depois de sua posse na Academia.

As mulheres que vieram depois

A segunda mulher eleita para a ABL foi a paulistana Dinah Silveira de Queiroz, em 1980. Depois vieram, entre outras, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Zélia Gattai e Ana Maria Machado. Nélida Piñon foi também a primeira mulher a presidir a Academia, em 1996 e 1997, ano do centenário da instituição. Ana Maria Machado repetiu o feito entre 2012 e 2013.

Mesmo com essas eleições, as mulheres continuam em minoria entre os 40 membros efetivos da ABL. A entrada de Rachel de Queiroz, em 1977, não acabou com a desigualdade, mas derrubou a regra que, por 80 anos, impediu escritoras de ocupar uma cadeira na Academia.

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