Em 1869, José de Alencar já era o romancista mais famoso do Brasil, autor de O Guarani e Iracema, e ministro da Justiça do Império. Faltava realizar o maior sonho político: uma cadeira vitalícia no Senado. Ele disputou a eleição pelo Ceará e foi o candidato mais votado, com 1.185 votos. Mesmo assim, não virou senador. Quem o barrou foi D. Pedro II.
A recusa do imperador, em 1870, encerrou a carreira política do escritor e transformou uma antiga rivalidade literária numa inimizade que durou até a morte de Alencar, sete anos depois. A história mistura vaidade, regras não escritas da monarquia e um poema épico que o imperador adorava e o jovem Alencar destruiu.
Do romance à política
Alencar nunca foi só romancista. Formado em direito, entrou para a política em 1861, quando se elegeu deputado pelo Ceará pelo Partido Conservador, e voltou a ser eleito outras vezes. Em 1868, quando o visconde de Itaboraí formou um gabinete conservador, foi nomeado ministro da Justiça, um dos postos mais altos do governo.
Para um político do Império, o passo seguinte natural era o Senado. Os senadores não enfrentavam novas eleições, tinham prestígio e influência sobre os rumos do país, e muitos deles chegavam a presidir gabinetes.
Como funcionava a escolha de senadores no Império
No Brasil imperial, o eleitor não escolhia o senador diretamente. Para cada vaga, a eleição formava uma lista com três nomes, e o imperador escolhia um deles. O cargo era vitalício e estava entre os mais prestigiados do país. Em 1869 surgiram duas vagas pelo Ceará, e a lista final tinha seis nomes. Alencar, com 40 anos, a idade mínima exigida, ficou em primeiro lugar.
A vaga tinha também um peso familiar. O pai do escritor, o padre José Martiniano de Alencar, tinha sido senador pelo Ceará de 1832 até morrer, em 1860.
Ser o mais votado, porém, não garantia nada. D. Pedro II deixou o nome de Alencar de fora e escolheu outros nomes da lista.
Por que D. Pedro II não escolheu Alencar

A explicação mais repetida é a de que o imperador teria achado o escritor jovem demais. Em suas Reminiscências, o Visconde de Taunay registrou que D. Pedro II teria dito a Alencar, ao saber da candidatura: “não me apresentava agora; o sr. é muito moço…”. A frase virou anedota, mas o historiador Luiz Viana Filho, ao examinar documentos da época, classificou essa versão como “a mais corrente, e também a mais inverossímil”.
Segundo Viana Filho, no artigo “D. Pedro II e Alencar”, publicado no Anuário do Museu Imperial em 1975, o motivo real era uma regra que o imperador defendia: ministros em exercício não deveriam se candidatar ao Senado. O imperador já tinha manifestado essa opinião ao gabinete, e Alencar sabia disso quando decidiu concorrer.
Alencar via a questão de outro modo. Para ele, a Coroa não tinha o direito de se opor à candidatura de alguém escolhido pelos eleitores. Depois das eleições, deixou o ministério, e o rompimento com o imperador se tornou definitivo.
A briga começou numa polêmica literária
O desentendimento tinha raízes mais antigas. Em 1856, Gonçalves de Magalhães publicou A Confederação dos Tamoios, poema épico sobre a resistência indígena no século 16. D. Pedro II gostava tanto da obra que, segundo Viana Filho, mandou imprimir uma edição por conta própria para distribuir entre amigos e letrados.
Alencar, então com 27 anos e ainda pouco conhecido, publicou no Diário do Rio de Janeiro uma série de cartas assinadas com o pseudônimo “Ig”, criticando duramente o poema. A polêmica ganhou os jornais, e o próprio imperador entrou no debate, também sob pseudônimo, para defender o poeta, sem conseguir virar o jogo.
No ano seguinte, Alencar lançou O Guarani, e mais tarde Iracema (1865), mostrando na prática como achava que a literatura deveria tratar o tema indígena.
Cartas ao imperador e vingança em romance
Mesmo antes da disputa pelo Senado, Alencar já se dirigia diretamente ao monarca. Em 1865, começou a publicar as Cartas de Erasmo, textos políticos endereçados a D. Pedro II, com críticas ao modo como o imperador exercia o poder. A primeira série, Ao Imperador, saía às quintas-feiras, em novembro daquele ano, segundo estudo da pesquisadora Cristina Ferreira publicado na revista Escritas do Tempo. As cartas tratavam de temas como a escravidão, assunto em que Alencar defendia uma posição conservadora: o fim da escravidão como um processo natural e gradual.
Depois de 1870, as críticas viraram ataques. Alencar chegou a fundar o jornal O Protesto, com farpas contra o imperador, e levou a briga também para a ficção. Em A Guerra dos Mascates (1873), romance sobre um conflito do século 18 em Pernambuco, Viana Filho identifica no governador Sebastião de Castro Caldas uma caricatura de D. Pedro II: um governante que manobra tudo por trás dos panos, sem nunca se mostrar.
O fim da carreira política
Afastado do poder, Alencar se dedicou mais à literatura nos últimos anos, enquanto a saúde piorava. Em 1877, viajou à Europa em busca de tratamento, passando por Lisboa, Londres e Paris, sem resultado. Morreu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1877, aos 48 anos, de tuberculose.
O escritor que o imperador não quis no Senado acabou mais lembrado que a maioria dos senadores do Império. Seus romances, como Senhora e Lucíola, seguem presentes nas listas de leitura de escolas e vestibulares.
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