Em novembro de 1868, Castro Alves saiu para caçar nos arredores de São Paulo e voltou com um tiro no próprio pé. O ferimento, causado por um acidente com a espingarda, nunca cicatrizou direito e acabou levando à amputação do pé esquerdo, em 1869, sem anestesia. O poeta tinha 22 anos.
O episódio marcou os últimos anos do autor de “O Navio Negreiro”. Ferido, doente dos pulmões e separado da atriz Eugênia Câmara, o grande amor de sua vida, ele deixou São Paulo, passou pela cirurgia no Rio de Janeiro e voltou para a Bahia, onde morreu em 1871, aos 24 anos.
Quem era Castro Alves em 1868

Quando sofreu o acidente, Castro Alves já era um poeta famoso, embora ainda não tivesse publicado nenhum livro. Nascido na Bahia, estudou em Salvador no colégio do educador Abílio César Borges, onde foi colega de Rui Barbosa (aquele mesmo!), e em 1864 se matriculou na Faculdade de Direito do Recife. Em 1868 transferiu-se para a Faculdade de Direito de São Paulo, de novo na mesma turma de Rui Barbosa.
A fama vinha sobretudo da declamação. Na época, a poesia era lida em voz alta para plateias, e Castro Alves tinha talento para isso: os poemas abolicionistas, cheios de imagens grandiosas e apelos à liberdade, eram feitos para serem ditos em público. É o estilo que a crítica chamaria de condoreiro, em referência ao condor, ave que voa alto, símbolo da poesia social e eloquente do fim do romantismo.
Ao mesmo tempo, a saúde já preocupava. Desde os 17 anos o poeta tinha crises de hemoptise (tosse com sangue), sinal da tuberculose que acabaria por matá-lo.
O tiro na caçada
Segundo o relato do biógrafo Afrânio Peixoto, reproduzido em biografias posteriores, o acidente aconteceu no início de novembro daquele ano, durante um dia passado no arrabalde do Brás, nos arredores da cidade.
À tarde, o poeta pegou a espingarda e saiu para o campo. Ao saltar uma vala, a arma, apontada para baixo, disparou, e a carga de chumbo atingiu o pé esquerdo. Ferido, ele conseguiu chegar à casa de um médico da região, onde recebeu os primeiros cuidados.
O momento não podia ser pior. Semanas antes, em outubro, Castro Alves tinha rompido em definitivo, depois de uma briga, com Eugênia Câmara, atriz portuguesa dez anos mais velha com quem se envolvera em 1866, ainda nos tempos do Recife. A separação, segundo os biógrafos, deixou o poeta profundamente abatido.
A amputação sem anestesia
O ferimento infeccionou e passou a ameaçar o poeta com gangrena, como registra a biografia de Castro Alves publicada pela Academia Brasileira de Letras. Sem melhora em São Paulo, ele seguiu em 1869 para o Rio de Janeiro, onde os cirurgiões Andrade Pertence e Mateus de Andrade, professores da Faculdade de Medicina, amputaram o pé.
A operação foi feita sem anestesia. Na época, o clorofórmio, usado como anestésico desde o fim da década de 1840, era o principal recurso para evitar a dor nas cirurgias, mas o estado dos pulmões de Castro Alves, abalados pela tuberculose, impedia o uso. Segundo os relatos, ele tinha apenas um lenço para morder durante a cirurgia. Os biógrafos também registram que, antes do corte, o poeta pediu ao médico que fosse em frente e brincou que ficaria com menos matéria do que o resto da humanidade.
Ainda no Rio, em novembro de 1869, escreveu o poema “Adeus“, dirigido a Eugênia Câmara. A atriz respondeu com versos próprios, que seriam publicados mais tarde. No dia 25 daquele mês, por insistência da família, o poeta embarcou de volta para a Bahia, onde passaria o pouco tempo de vida que lhe restava.
O único livro publicado em vida
Os últimos dois anos foram de produção intensa, mesmo com a saúde frágil. Em Salvador, o poeta continuou a declamar em público e viveu ainda uma última paixão, pela cantora italiana Agnese Trinci Murri. Em novembro de 1870, Castro Alves lançou Espumas Flutuantes, o único livro que publicou em vida, reunindo poemas líricos e amorosos. A obra foi bem recebida pelo público.
A poesia abolicionista que o tornou conhecido como “o poeta dos escravos” ficou, em grande parte, fora desse volume. “O Navio Negreiro” e outros poemas contra a escravidão foram reunidos depois da morte do autor, no livro Os Escravos, publicado em 1883.
Castro Alves morreu de tuberculose em 6 de julho de 1871, em Salvador, aos 24 anos. Nascido em 14 de março de 1847, em Muritiba, na Bahia, é hoje patrono da cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras. A obra que deixou fez dele um dos nomes centrais do romantismo brasileiro.
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